273. 273. A primeira multiplicação dos pães.
7 de setembro de 1945.
273.1O lugar é sempre aquele. Com a diferença de não estar agora o sol vindo do oriente, filtrando entre os bosques que costeiam o Jordão, neste lugar selvagem, que fica junto à desembocadura das águas do lago no leito do rio, mas vem igualmente oblíquo, do poente, enquanto brilha com uma glória vermelha e espalhando os seus últimos raios. E, por baixo dessa densa folhagem, a luz já está bem atenuada, dando a impressão de já estarmos vendo as cores mortiças da tarde. Os passarinhos, inebriados ainda pelo sol, ao qual estiveram expostos durante o dia inteiro, quando foram atrás do alimento abundante que colheram pelas campinas próximas, dão uma festa, com seus trinados e cantos, pousados nas pontas das árvores. E a tarde vai descendo, ao terminarem essas pompas finais do dia.
Os apóstolos fazem que Jesus note isso, pois Ele gosta de ensinar, aproveitando os assuntos que lhe são apresentados.
– Mestre, a tarde já chegando. Este é um lugar deserto, está longe das casas e dos povoados, e é um lugar sombreado e úmido. Daqui a pouco, já não poderemos nem enxergar mais, nem caminhar. A lua hoje sai tarde. Manda que o povo vá a Tariqueia, às povoações que ficam às margens do rio Jordão, para comprarem alimento e procurarem alojamento.
– Não é preciso que eles vão. Dai-lhes vós de comer. Elas podem dormir aqui, como dormiram, quando ficaram Me esperando.
– Só nos restam cinco pães e dois peixes, Mestre, como já sabes.
– Trazei-os aqui.
– André vai procurar o menino. Está ele guardando a bolsa. Há pouco estava com o filho do escriba e dois outros, atento a fazer coroas de flores, brincando de rei.
273.2André vai solícito. Também João e Filipe põem-se a procurar Marziam por entre uma multidão, que está sempre mudando de lugar. Encontram-no todos quase ao mesmo tempo. Ele vai levando uma bolsa de mantimentos a tiracolo, tendo um grande ramo de clematite a rodear-lhe a cabeça, e uma cinta de clematite, da qual está pendente, como se fosse uma espada, um pedaço de vara encaroçada. O punho da espada é o caroço maior de todos e a lâmina é o resto de própria vara. Com Marziam estão outros sete, igualmente ataviados, formando um acompanhamento ao filho do escriba, um rapazinho muito magro, com olhos muito sérios como os de quem já sofreu tanto, que, por isso, está mais enfeitado do que os outros, para fazer o papel de rei.
– Vem Marziam. O Mestre está te chamando!
Marziam deixa os seus amigos boquiabertos, e lá se vai, apressado, mesmo sem ter tirado as suas… insígnias feitas com flores. Mas o seguem também os outros, e logo Jesus se vê rodeado por uma pequena coroa de meninos engrinaldados com flores. Ele os acaricia, enquanto Filipe vai tirando da bolsa um pacote com pão e estão embrulhados dois grandes peixes: dois quilos de peixe, pouco mais. Insuficientes também para os dezessete — ou melhor, para os dezoito, com Manaém — da comitiva de Jesus. 273.3Levam esses alimentos ao Mestre.
– Está bem. Agora, trazei-me cestos. Dezessete, que é vosso número. Marziam distribuirá o pão às crianças…
Jesus olha fixamente para o escriba, que se conserva sempre perto dele, e lhe pergunta:
– Queres tu também dar alimento aos famintos?
– Eu gostaria. Mas eu também não tenho nada.
– Pois distribui do meu, Eu o cedo.
– Mas… vais matar a fome de cinco mil homens, sem falar das mulheres e crianças, só com aqueles dois peixes e aqueles cinco pães?
– Sem dúvida. Não sejas incrédulo. Quem crer verá realizar-se o milagre.
– Oh! Nesse caso, também eu quero distribuir o alimento.
– Faze com que te deem também uma cesta.
Os apóstolos estão de volta, com cestos e cestinhos largos e rasos, e outros fundos e estreitos. Também o escriba volta com o seu cesto. É um pouco pequeno. Compreende-se, por um lado, a sua fé e, por outro, a sua incredulidade, que o fizeram escolher aquele, como se fosse o maior de todos.
– Está bem. Ponde todos aqui na frente. E fazei que o povo se sente em ordem, por fileiras regulares, tanto quanto for possível.
E, enquanto isso acontece, Jesus ergue os pães com os peixes, tudo junto, faz o oferecimento deles, reza e abençoa. O escriba não deixa de acompanhá-lo com o olhar, nem por um instante. Depois, Jesus parte os cinco pães em dezoito pedaços, parte os dois peixes em dezoito pedaços, e coloca o pedaço de peixe, um pedacinho bem pequeno, um em cada cesto, reduz a bocados os dezoito pedaços de pão: cada pedaço em muitos bocados. Muitos, é um modo de dizer: uns vinte, quando muito. Cada pedaço partido, um em cada cesto, com o peixe.
– Agora, pegai tudo isso e distribuí à saciedade. Ide. 273.4Vai, Marziam, vai dá-lo aos teus companheiros.
– Puxa! Como está pesado! –diz Marziam, levantando o seu cesto e indo depressa aos seus pequenos amigos, mas vai caminhando como quem, de fato, leva um peso.
Os apóstolos, os discípulos, Manaém e o escriba ficam olhando perplexos como ele vai indo… Depois, pegam os seus cestos e, sacudindo a cabeça, dizem uns aos outros:
– O menino está brincando. Eles não estão mais pesados do que antes!
E o escriba olha, quer ver os cestos também por dentro, e neles enfia a mão para apalpar o fundo, porque a claridade já está pouca naquele canto onde está Jesus, ao passo que, mais ao longe, na clareira da mata, ainda está bem claro.
Contudo, mesmo depois de terem verificado isso, vão indo para o lado do povo, e começam a distribuição. E dão, dão, dão. E, de vez em quando, se viram, assombrados, para Jesus, que vai ficando cada vez mais longe, e que, de braços cruzados, e encostado a uma árvore, está sorrindo amorosamente do assombro deles.
A distribuição é longa e farta… O único que não demonstra assombro é Marziam, que se ri, feliz por poder saciar com pão e peixe a tantas crianças pobres. E ele é o primeiro a voltar para Jesus, dizendo:
– Eu dei muitos, mas muitos mesmo, porque eu sei o que é a fome… –e levanta aquele seu rostinho, não mais magro, como me lembro que antes era, mas que está pálido e arregalando os olhos…
Jesus, então, o acaricia, e o sorriso volta, todo luminoso, àquele rostinho juvenil que, confiante, se apoia em Jesus, seu Mestre e Protetor. Pouco a pouco, vão voltando os apóstolos e os discípulos, todos emudecidos pelo assombro. O último é o escriba, que nada diz. Mas faz um ato, que é mais que um discurso. Ajoelha-se e beija a orla da veste de Jesus.
– Pegai a vossa parte, e dai-me também um pouco. Vamos comer o alimento de Deus.
E eles comem de fato pão e peixe, cada qual conforme sua necessidade…
273.5Entretanto, o povo troca suas impressões. Até os que estão ao redor de Jesus criam coragem para falar, observando como Marziam, ao acabar de comer o seu peixe, vai brincar com os outros meninos.
– Mestre –pergunta o escriba–, por que o menino percebeu logo o peso, e nós não? Eu também apalpei o fundo do cesto. Sempre estavam lá aqueles poucos bocados de pão e aquele único de peixe. Eu comecei a sentir o peso, quando fui me dirigindo para o povo. Mas, se eu tivesse pesado o tanto que eu distribuí, teria sido necessária uma grande quantidade de pessoas só para transportá-lo, e já não em cestos, mas em carroças cheias, e bem cheias de alimento. No princípio, eu ia economizando… mas depois passei a dar cada vez mais e, para não ser injusto, tornei aos primeiros, dando-lhes outra vez, pois a eles eu tinha dado pouco. E, enfim, foi suficiente para todos.
– Eu também percebi que o cesto ficou pesado quando eu ia começar, e logo passei a distribuir maior quantidade, pois compreendi que tinhas feito um milagre –diz João.
– Pois eu parei, e sentei-me para despejar aquele peso, e olhar… E o que vi foi pão e mais pão. Então, pus-me a andar –diz Manaém.
– Eu também os contei, porque não queria ficar com menos. Eram cinquenta pãezinhos. Então, eu disse: “Vou dá-los a cinquenta pessoas, e depois voltarei para trás.” E os contei. Mas, quando cheguei aos cinquenta, o peso era o mesmo de antes. Então, olhei para dentro do cesto. Eram ainda muitos. Andei para a frente, e distribuí centenas. Eles não diminuíam nunca –diz Bartolomeu.
– Eu confesso que não acreditava, e tomei nas mãos os pedaços de pão e aquela migalha de peixe, e olhava para eles, dizendo: “mas, para que servem? Jesus quis fazer uma brincadeira!, e ficava olhando para eles. Olhava, estando escondido atrás de uma árvore, esperando, e não esperando ver se eles aumentavam. Mas continuavam sempre os mesmos. Eu já estava para voltar, quando Mateus passou, dizendo: “Já viste como são bonitos?” “O quê?”, disse eu. “Ora, os pães e os peixes!” “Não estás doido? Eu estou vendo sempre pedaços de pães.” “Vai distribuí-los com fé, e verás.” Joguei dentro do cesto aqueles poucos pedaços, e continuei, apesar da relutância… Depois… Perdoa-me, Jesus, porque sou um pecador –diz Tomé.
– Não. Tu és um espírito deste mundo. As tuas são razões mundanas.
– Eu também, então, Senhor. Tanto que eu pensava em dar uma moeda junto ao pão, pensando: “Eles irão comer em outro lugar” –diz Iscariotes–. Eu estava esperando, ao fazer assim, estar Te ajudando a ter uma melhor figura. Que é que serei eu, então? Serei como Tomé, e ainda mais?
– Muito mais que Tomé. Tu és mundo.
– Contudo, eu fiquei pensando fazer uma esmola para ser Céu! O dinheiro era meu mesmo…
– Esmola feita a ti mesmo, ao teu orgulho. E não esmola a Deus. Este último não tem necessidade dela, e a esmola feita a teu orgulho é culpa, e não mérito.
Judas inclina a cabeça e se cala.
– Eu, por minha vez, pensava que aquele bocado de peixe, que aquele bocado de pão, Tu terias devido reparti-lo mais, até que eles fossem suficientes. Mas eu não duvidava se teriam sido suficientes, nem por seu número, nem para alimentar o povo. Uma gota d’água, dada por Ti, pode ser mais nutriente do que um banquete –diz Simão Zelotes.
– E vós, que pensáveis? –pergunta Pedro aos primos de Jesus.
– Nós recordávamos de Caná… e não tínhamos dúvidas… –diz com seriedade Judas.
– E tu, Tiago, meu irmão, pensavas só nisso?
– Não, Eu pensava que fosse um sacramento, como Tu me disseste1… É isso mesmo, ou estou errado?
Jesus sorri:
– É, e não é. A verdade do poder alimentício que há em uma gota d’água, como falou Simão, está unido o teu pensamento, por uma figura longínqua. Mas ainda não é um sacramento.
273.6O escriba ainda está com uma crosta de pão entre os dedos.
– Que vais fazer com ela?
– Vai… ser uma lembrança.
– Eu também guardei uma. E vou colocá-la no pescoço de Marziam, dentro de uma pequenina bolsa –diz Pedro.
– Eu a levarei à nossa mãe –diz João.
– E nós? Nós comemos tudo… –dizem, mortificados, os outros.
– Levantai-vos. Sacudi novamente os cestos, recolhei as sobras, separai os mais pobres do meio do povo, e trazei aqui, junto com os cestos. Depois, ide todos vós, meus discípulos, às barcas, e dirigi-vos ao alto mar, indo para a planície de Genezaré. Eu vou despedir o povo, depois de ter beneficiado aos mais pobres, e depois vos alcançarei.
Os apóstolos obedecem… e voltam com doze cestos cheios com as sobras, e acompanhados por uns trinta mendigos ou pessoas muito necessitadas.
– Está bem. Agora, ide.
Os apóstolos e os discípulos de João saúdam Manaém, e lá se vão, com um pouco de relutância, por terem que deixar Jesus. Mas obedecem. Manaém espera para deixar Jesus quando a multidão, já com as últimas luzes do dia, ou vai se encaminhando para as vilas, ou procura algum lugar onde dormir, por entre tábuas altas e secas. Depois ele se despede. Antes dele, já lá se foi o escriba, um dos primeiros, porque, junto com seu filhinho, se pôs a caminho, logo atrás dos apóstolos.
273.7Já Tendo partido muitos, e outros caído no sono, Jesus se ergue, abençoa os adormecidos e, em passos lentos, se dirige para o lago, ao lado da pequena península de Tariqueia, elevada alguns metros acima do lago, como se fosse parte de uma colina penetrando nele. E, tendo chegado às bases dela, sem entrar na cidade, mas rodeando-a, sobe para um pequeno monte, e vai colocar-se sobre uma saliência, em oração, diante do azul do mar e da alvura da noite serena e lunar.
273.8Diz Jesus:
– Aqui colocareis a visão de 4 de março de 1944: Jesus que caminha sobre as águas.
1 disseste, em 259.3/6.
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