621. 621. Aparição a Lázaro.


3 de abril de 1945.621.1O sol de uma manhã serena de abril invade de luminosidade os pequenos bosques de rosas e jasmins do jardim de Lázaro. E as sebes de buxo e de loureiros, um tufo de uma alta palmeira que balança levemente como ondas, ao final de uma alameda. Loureiros ramosos próximos a um aquário parecem ter sido lavados por uma mão misteriosa, pelo tanto que a abundante orvalhada noturna limpou e molhou as folhas, que agora parecem estar cobertas por um esmalte novo, de tão brilhantes e limpas.Mas a casa está silenciosa como se estivesse cheia de mortos. As janelas estão abertas, mas nenhuma voz, nenhum rumor vem dos quartos, que estão na penumbra, pois todos os toldos estão descidos.Do lado de dentro, para lá do vestíbulo, para o qual se abrem muitas portas que agora estão todas abertas — e é estranho ver que as salas estão sem nenhum aparato que costumam ser usados para os banquetes mais ou menos numerosos — há um amplo pátio pavimentado e rodeado por um pórtico e com muitas cadeiras. Sobre estas cadeiras e até sentados no chão, por cima de esteiras ou até sobre o mármore do piso, lá estão numerosos discípulos. E entre eles eu vejo os apóstolos Mateus, André, Bartolomeu, os irmãos Tiago e Judas de Alfeu, Tiago de Zebedeu e os discípulos pastores com Manaém, além de outros que eu não conheço. Eu não estou vendo Zelotes, nem Lázaro, nem Maximino.Enfim, este último entra com uns servos e distribui a todos pão com diversos alimentos, isto é, azeitonas ou queijos, ou mel, e também leite fresco para quem quiser. Mas ninguém está com vontade de comer, por mais que Maximino os convide a fazê-lo. O abatimento de todos é profundo. Os olhos ficaram encovados nestes poucos dias, tendo-se tornado cor de terra pela vermelhidão causada pelo choro. De modo especial os apóstolos e aqueles que fugiram desde as primeiras horas mostram um aspecto cabisbaixo, enquanto os pastores e Manaém estão menos acabrunhados e até menos envergonhados, e Maximino está somente virilmente consternado.621.2Zelote entra quase correndo e pergunta:– Lázaro está aqui?– Não. Ele está em seu quarto. Que queres?– No fim do caminho, perto da Fonte do Sol, está Filipe. Ele chegou da planície de Jericó. Está acabado. E não quer vir para cá porque… como todos, ele se sente pecador. Mas Lázaro o persuadirá!Bartolomeu se levanta e diz:– Eu também vou…E vão até Lázaro que, ao ser chamado, sai com um rosto desfeito de um quarto meio escuro, onde certamente ele tem chorado e rezado.Saem todos, e antes atravessam o jardim, depois passam pelo vilarejo na parte em que se vai indo rumo aos declives do Monte das Oliveiras, até chegarem ao lugar onde ele termina, no fim do planalto sobre o qual está construído, e prosseguem somente pelo caminho que vai pela montanha, descendo e subindo pelos degraus naturais, pelos montes que vão abaixando até a planície a leste e que depois sobem para a cidade de Jerusalém, a oeste.Neste ponto há uma fonte ao lado de uma bacia grande, onde com certeza os rebanhos e os homens matam a sede. A esta hora, o lugar está solitário e fresco, pois é densa a sombra das árvores frondosas que estão ao redor da bacia natural cheia de uma água pura, que sempre se renova, descendo de algum manancial da montanha, e que extravasa, conservando sempre o solo úmido.621.3Filipe está sentado na beirada mais alta da fonte, de cabeça baixa, despenteado, empoeirado, com as sandálias arrebentadas que pendem dos pés esfolados.Lázaro o chama, com pena:– Filipe, vem cá! Amemo-nos por amor Dele. Estejamos unidos em seu Nome. E fazer isso também é amor!– Oh! Lázaro! Lázaro! Eu fugi… e ontem, para lá de Jericó, fiquei sabendo que Ele morreu!… Eu… eu… eu não posso perdoar-me por ter fugido…– Todos nós fugimos. Exceto João, que ficou fiel a Ele, e Simão, que nos reuniu por ordem dele depois que fugimos de forma tão vil. E depois… de entre nós, os apóstolos, ninguém mais foi fiel –diz Bartolomeu.– E podes perdoar-te disso?– Não. Mas eu penso em fazer uma reparação como posso procurando não cair em um abatimento estéril. Nós devemos nos unir todos. Vamos unir-nos a João. Procuremos saber como foram suas últimas horas. Pois João o acompanhou sempre –respondeu a Filipe o seu companheiro Bartolomeu.– E não deixar morrer a sua Doutrina. É necessário pregá-la ao mundo. Pelo menos, conservá-la viva, visto que nós, vagarosos e tardios demais, não soubemos providenciar a tempo para salvá-lo dos seus inimigos –diz Zelotes.– Vós não podíeis salvá-lo. Nada o podia salvar. Assim Ele me disse. Eu o direi mais uma vez –diz com firmeza Lázaro.– Então, tu sabias, Lázaro? –pergunta Filipe.– Eu sabia. Mas minha tortura foi justamente a de ter ficado sabendo de Sua sorte, desde a tarde do sábado, em todos os particulares; e de como nós teríamos agido…– Não. Tu, não. Tu só tens sempre obedecido e sofrido. Nós é que agimos como uns vilões. Tu e Simão vos sacrificastes na obediência – prorrompe Bartolomeu.– Sim. Na obediência. Oh! Como é pesado opor resistência ao amor por obediência ao Amado! 621.4Vem, Filipe. Quase todos os discípulos estão na minha casa. Vem tu também.– Eu me envergonho de aparecer ao mundo, aos companheiros…– Todos nós somos iguais! –diz Bartolomeu.– Sim. Mas eu tenho um coração que não se perdoa.– Isso é orgulho, Filipe. Vem. Ele me disse na tarde de sábado: “Eles não se perdoarão. Dize-lhes tu que Eu os perdoo, porque Eu sei que não são eles que agem livremente, mas é Satanás que os extravia.” Vem.Filipe chora mais alto, mas acaba cedendo. E, curvado, como se tivesse envelhecido em poucos dias, vai ao lado de Lázaro até ao pátio, onde todos o estão esperando. E o olhar que ele lança aos companheiros, e o que os companheiros lhe dão, são a confissão mais clara do abatimento total deles todos.621.5Lázaro nota isso e fala:– Uma nova ovelha do rebanho de Cristo, amedrontada pela vinda dos lobos e que fugiu depois da captura do Pastor, foi recolhida pelo amigo Dele. A essa ovelha dispersa, que já experimentou o amargor de estar sozinha, sem ter nem o conforto de chorar o mesmo erro com os irmãos, eu repito o seu testamento de amor.Ele me disse, eu juro na presença dos coros celestes, juntamente com muitas outras coisas que a nossa fraqueza humana atual não pode suportar, porque realmente elas produzem uma desolação que há dias me vem dilacerando o coração — e se eu não soubesse que minha vida está a serviço do Senhor, ainda que ela seja tão pobre e imperfeita como é, eu me abandonaria à ferida dessa dor de amigo e de discípulo que perdeu tudo ao perdê-Lo — Ele me disse: “Os miasmas de Jerusalém corrompida farão que fiquem loucos até os meus discípulos. E eles fugirão para a tua casa.” De fato, vós estais vendo como todos viestes. Todos, eu poderia dizer. Porque, menos Simão Pedro e Iscariotes, todos vós viestes para a minha casa e para o meu coração de amigo. Ele disse: “Tu os reunirás. E encorajarás as minhas ovelhas dispersas. E tu lhes dirás que Eu as perdoo. Confio a ti o meu perdão para elas. Não se darão paz por terem fugido. Dize-lhes que não caiam no pecado maior, que é perder a esperança do meu perdão.”Assim ele disse. E eu, a vós dei o perdão Dele. E eu fiquei envergonhado por dar-vos em Nome Dele esta coisa tão santa, tão Dele, que é o Perdão, isto é, o Amor perfeito, porque ama perfeitamente quem perdoa ao culpado. Este ministério foi para mim um conforto ao praticar a áspera obediência… Porque lá eu teria querido estar, como Maria e Marta, as minhas doces irmãs. E se Ele foi crucificado lá no Gólgota pelos homens, eu aqui, vo-lo juro, estou crucificado pela obediência, o que é um dilacerante martírio. Mas se servir para dar-lhe um conforto ao Espírito, se servir para proteger os seus discípulos até o momento em que Ele os reunirá para aperfeiçoá-los na fé, então eu imolarei uma vez mais o meu desejo de ir ao menos venerar os restos mortais Dele, antes que termine o terceiro dia.621.6Eu sei que vós duvidais. Não duvidem. Eu desconheço as suas palavras do banquete pascal, a não ser aquelas que vós me dissestes. Mas quanto mais penso nelas, quanto mais elevo um a um esses diamantes das suas verdades, mais eu sinto que elas têm uma referência segura com o amanhã imediato. Ele não pode ter dito: “Eu vou para o Pai e retornarei” se realmente não fosse voltar. Não pode ter dito: “Quando me virdes de novo, estareis plenos de alegria” se fosse desaparecer para sempre. Ele sempre disse: “Eu ressuscitarei.” Vós me dissestes que Ele disse: “Sobre as sementes em vós lançadas está para descer um orvalho que as fará germinar, e depois virá o Paráclito que as fará se tornarem árvores gigantescas.” Não foi assim que Ele disse? Oh! Não permitam que isso aconteça somente para o último dos seus discípulos, para o pobre Lázaro que esteve com Ele raramente! Quando Ele voltar, fazei que Ele encontre as suas sementes germinadas sob o orvalho do seu Sangue.Em mim há um grande acender de luz, um grande irromper de forças, desde a hora tremenda na qual Ele subiu sobre a Cruz. Tudo se ilumina, tudo nasce e lança o seu caule. Não acho uma palavra adequada em seus pobres significados humanos. Mas todas as palavras ouvidas da boca dele, ou a nós transmitidas por outros, eis que agora elas tomam vida e realmente esta minha charneca árida se transforma num fértil canteiro, onde cada flor tem o Nome dele e onde todo suco extrai vida de seu Coração bendito.Eu creio, ó Cristo! Mas para que eles creiam em Ti e em toda a tua promessa, em teu perdão e em tudo aquilo que Tu és, eis que eu te ofereço a minha vida. Consome-a, mas faze que a tua doutrina não morra! Despedaça o pobre Lázaro. Mas reúne os membros dispersos do núcleo apostólico. Tudo o que Tu quiseres, mas, em troca, que esteja viva e eterna a tua Palavra. E para ela, agora e sempre, possam convergir aqueles que por Ti poderão ter a vida eterna.621.7Lázaro está realmente inspirado. O amor o transporta bem alto. E o seu arrebatamento é tão forte que eleva também os companheiros. Uns o chamam da direita, outros da esquerda, como se fosse um confessor, um médico, um padre. O pátio da rica casa de Lázaro, não sei por que, me faz pensar na morada dos patrícios cristãos no tempo das perseguições e de uma fé heroica…Ele está inclinado sobre Judas de Alfeu, que não consegue encontrar uma razão para acalmar o seu pesar por ter deixado seu Mestre e primo, quando alguma coisa o faz levantar-se de repente. Lázaro olha ao redor e depois diz claramente:– Estou indo, Senhor!É a sua palavra de pronta adesão, como sempre. E ele sai correndo, como se fosse atrás de alguém que o chamou e que vai à sua frente.Todos olham uns para os outros espantados. E se interrogam.– Que foi que ele viu?– Ora, não é nada!– Não ouviste, tu, uma voz?– Eu, não.– Nem eu.– E então? Será que Lázaro está doente de novo?– Talvez… Ele sofreu mais do que nós, e agora deu tanta força a nós, que somos uns vilões. Talvez ele esteja delirando.– De fato, ele está com o rosto muito abatido.– E os seus olhos, quando ele estava falando, ardiam.– Será que Jesus o chamou ao Céu?– De fato, Lázaro lhe ofereceu a vida, há pouco… Como se fosse uma flor, Ele a aceitou no mesmo instante… Oh! Infelizes de nós! E que faremos agora?Os comentários são todos disparatados e dolorosos.621.8Lázaro atravessa o vestíbulo, sai para o jardim, sempre correndo, sorrindo, murmurando, e sua alma está toda em sua voz:– Estou indo, Senhor.Ele se aproxima de uma moita de buxos, que forma um recanto verde, nós diríamos um quiosque verde, e cai de joelhos, com o rosto por terra, gritando:– Oh! Meu Senhor!Porque Jesus, em sua beleza de Ressuscitado, está no limiar desse recanto verde, e lhe sorri… e diz:– Tudo está consumado, Lázaro. Eu vim para dizer-te “obrigado,” meu amigo fiel. Eu vim para dizer-te que digas aos irmãos que vão logo para a casa da Ceia. Tu — um outro sacrifício por amor a Mim — tu ficas por enquanto aqui… Eu sei que sofres com isso. Mas sei que és generoso. Maria, tua irmã, já está consolada, porque Eu a vi e ela me viu.– Não sofres mais, Senhor. E isso compensa todos os sacrifícios. Tenho sofrido… ao saber de tuas dores… e por não estar lá…– Oh! Tu estavas lá! O teu espírito estava aos pés de minha cruz e também na escuridão do meu sepulcro. Tu me chamaste de volta mais depressa das profundezas onde Eu estava, como todos aqueles que me amaram totalmente. Agora Eu te disse: “Vem, Lázaro!”, como no dia da tua ressurreição. Mas tu há muitas horas que me vens dizendo: “Vem.” E Eu vim. E te chamei. A fim de trazer-te para perto de mim, tirando-te da profundeza da tua dor. Vai. A paz e a bênção estejam contigo, Lázaro! Cresce no Meu amor. Eu voltarei ainda.621.9Lázaro ficou sempre de joelhos, sem ousar fazer gesto nenhum. A majestade do Senhor, mesmo se temperada de amor, é tão grande que paralisa o modo habitual de Lázaro.Mas Jesus, antes de desaparecer em um redemoinho da luz que o absorve, dá um passo e toca de leve com a mão naquela fronte fiel.E então Lázaro desperta daquele seu feliz encanto e se levanta, para ir correndo precipitadamente aos seus companheiros, com uma luminosidade de alegria nos olhos e uma luminosidade na fronte tocada pelo Cristo, gritando:– Ele ressuscitou, meus irmãos. E me chamou. Eu fui a Ele. E o vi. E Ele me falou. E me disse que vos falasse que fôsseis imediatamente à casa da Ceia. Ide! Ide! Eu fico, porque Ele assim quer. Mas minha alegria está completa…E Lázaro chora em sua alegria, enquanto estimula aos apóstolos a irem, como primeiros, para onde Ele os manda ir.– Ide! Ide! Ele vos quer! Ele vos ama! Não tenhais medo Dele… Oh! Ele, mais do que nunca, é o Senhor, a Bondade, o Amor!Também os discípulos se levantam… Betânia fica vazia. E lá fica Lázaro com seu grande coração consolado… 1

1 Aparição… Em relação a essas outras aparições, que não constam nos Evangelhos, exceto aquela aos discípulos de Emaús e aos apóstolos, MV anota nunca cópia datilografada, após ter colocado a referência a João 20,30-31: Os Padres e Doutores da Igreja, entre os quais S. Agostinho, dizem que elas foram numerosas. Acrescentamos uma referência a 1 Coríntios 15,6.