70. 70. No Getsêmani com João de Zebedeu.Uma comparação entre o Predileto e Judas de Keriot.


4 de janeiro de 1945.

70.1 Vejo Jesus que se dirige à baixa casinha branca, que fica no meio do olival. Um jovenzinho o saúda. Parece ser ele do lugar porque tem nas mãos as ferramentas de podar e de sachar.

– Deus esteja Contigo, Rabi. O teu discípulo João veio e agora partiu novamente para ir ao teu encontro.

– Faz muito tempo?

– Não. Ele apenas passou aquele caminho. Nós pensávamos que Tu virias do lado de Betânia…

Jesus, rápido, toma o caminho, contorna o outeiro, vê João que desce quase correndo em direção à cidade e o chama.

O discípulo se vira e, com o rosto iluminado pela alegria, grita:

– Oh! Meu Mestre! –e volta correndo.

Jesus lhe abre os braços e os dois se abraçam afetuosamente.

– Eu ia procurar-te… Pensávamos que tinhas estado em Betânia, como havias dito.

– Sim. Eu queria fazer assim. Devo começar a evangelizar também os arredores de Jerusalém. Mas depois me entretive na cidade… para instruir um novo discípulo.

– Tudo o que fazes é bem feito, Mestre. E é bem sucedido. Estás vendo? Agora mesmo, de repente nos encontramos.

Os dois caminham, tendo Jesus um braço sobre as costas de João que, sendo mais baixo do que Ele, o olha de baixo para cima, contente com aquela intimidade. E assim eles voltam para a casinha.

– Há muito tempo que vieste?

– Não, Mestre. Eu parti de Doco, ao amanhecer, junto com Simão, ao qual eu disse aquilo que Tu desejavas. Depois, paramos juntos nos campos de Betânia, repartimos o alimento, e falamos de Ti aos camponeses que lá encontramos. Quando o sol já estava menos quente nos separamos. Simão foi à casa de um amigo, o qual quer falar de Ti. É o dono de quase toda a Betânia. Simão o conhece de antes, desde quando eram vivos os pais de um e do outro. Mas amanhã Simão virá para cá. Disse-me para falar-te que é feliz em servir-te. Simão é muito capaz. Eu gostaria de ser como ele. Mas sou um moço ignorante.

– Não, João. Tu também fazes muito bem.

– Estás mesmo contente com o teu pobre João?

– Muito contente, meu João. Muito.

– Oh! Meu Mestre!

João se inclina, num impulso, para pegar a mão de Jesus e a beija e a passa pelo rosto como uma carícia.

70.2 Chegaram à casinha. Entram na cozinha baixa e fumacenta. O dono o saúda:

– A paz esteja Contigo.

Jesus responde:

– Paz a esta casa, a ti e a quem vive contigo. Tenho Comigo um discípulo.

– Teremos pão e óleo para ele também.

– Eu trouxe peixe seco que Tiago e Pedro me deram. E, passando por Nazaré, tua mãe me deu pão e mel para Ti. Caminhei sem parar, mas agora o pão já deve estar duro.

– Não tem importância, João. Ele terá sempre o sabor das mãos da minha mãe.

João vai tirando os seus tesouros do alforje que ele tinha posto em um canto. E vejo preparar o peixe seco de uma maneira estranha. Eles o molham por poucos instantes, em água quente, depois o untam e assam sobre as chamas.

Jesus abençoa a comida e, com o discípulo, assenta-se à mesa. Estão ali também o dono da casa, que ouço ser chamado Jonas, e seu filho. A mãe vai e vem, levando o peixe, azeitonas pretas, verduras cozidas e temperadas com óleo. Jesus também põe na mesa o mel. E o oferece à mãe, estendendo-o com o pão.

– É da minha colméia –diz–. Minha mãe é quem cuida das abelhas. Come dele. É bom. És tão boa para Comigo, Maria, que mereces este e mais outro–, diz Ele depois, ao ver que a mulher não queria privá-lo do doce mel.

O jantar chega logo ao fim entre breves conversações em que todos participam. Assim que termina, depois de ter agradecido pelo alimento, Jesus diz a João:

– Vem. Vamos sair um pouco até o olival. A noite está morna e clara. Será agradável estar um pouco lá fora.

O dono da casa diz:

– Mestre, eu te saúdo. Estou cansado e meu filho também está cansado. Nós vamos dormir. Eu deixo a porta encostada e a candeia sobre a mesa. Já sabes como fazer.

– Vai então, Jonas, e apaga a candeia. Há um luar tão claro, que nós enxergaremos até sem levar luz.

– Mas o teu discípulo, onde é que vai dormir?

– Comigo. Em minha esteira há lugar também para ele. Não é verdade, João?

João, à idéia de dormir ao lado de Jesus, fica extasiado.

70.3 Saem para o olival. Mas antes, João pegou qualquer coisa no saco que está no canto. Caminham um pouco e chegam a um ponto de onde se vê toda Jerusalém.

– Sentemo-nos aqui, e vamos conversar –diz Jesus.

Mas João prefere ir sentar-se aos pés de Jesus, sobre a erva cortada; está com o braço pousado sobre os joelhos do Mestre, com a cabeça apoiada sobre o braço, olhando de vez em quando para o seu Jesus. Parece um menino perto da pessoa para ele mais querida.

– É bonito também aqui, Mestre. Olha como a cidade parece grande de noite. Maior do que de dia.

– É porque a luz da lua fez desaparecer os contornos. Vê, parece que os limites se alargam nesta luminosidade prateada. Olha a cúpula do Templo lá em cima. Não parece estar suspensa no ar?

– Parece que os anjos a estão transportando sobre suas asas de prata.

Jesus suspira.

– Por que suspiras, Mestre?

– Porque os anjos abandonaram o Templo. Seu aspecto de pureza e santidade está limitado às paredes. Aqueles que deviam dar-lhe a alma — porque cada lugar tem sua alma, ou seja, o espírito para o qual ele foi erguido, e o Templo tem, deveria ter, alma de oração e santidade — são os primeiros a tirar-lhe. Não se pode dar o que não se tem, João. E, se muitos são os sacerdotes e os levitas que lá vivem, deles não há nem um décimo que seja apto para dar vida ao Lugar Santo. Morte é o que dão. Comunicam a ele a morte que está no seu espírito, morto ao que é santo. Eles têm as fórmulas. Mas não têm a vida delas. São cadáveres que estão quentes só pela putrefação que os está inchando.

– Eles te fizeram mal, Mestre?

João está com muita pena.

– Não. Ao contrário, me deixaram falar, quando pedi para fazê-lo.

– Tu o pediste? Por que?

– Porque não quero ser Eu aquele que inicia a guerra. A guerra virá assim mesmo. Porque a alguns Eu farei um tolo medo humano, e para outros, eu serei uma censura. Mas isto deve estar no livro deles. Não no meu.

70.4 Fazem um pouco de silêncio e depois João volta a falar:

– Mestre, eu conheço Ana e Caifás. Por necessidades de negócios, minha família manteve um relacionamento com eles e quando estive na Judéia por causa de João, eu ia também ao Templo, e eles eram bons aos filhos­ de Zebedeu. Meu pai sempre se lembra deles com o melhor peixe­. Virou até um costume, sabes? Quando se quer tê-los como amigos­, continuar a tê-los, é preciso fazer assim…

– Eu sei.

Jesus está sério.

– Pois bem. Se achas bom, eu falarei de Ti ao Sumo Sacerdote. E depois… se quiseres, eu conheço um que está tratando de negócios com meu pai. É um rico comerciante de peixe. Ele tem uma casa bonita e grande, perto do Hípico, porque são pessoas ricas, mas são também muito boas. Para Ti ficaria mais cômodo e Te cansarias menos. Para se vir aqui deve-se passar também por aquele subúrbio de Ofel tão mal cuidado e sempre cheio de burros e de rapazes briguentos.

– Não, João. Eu te agradeço. Mas estou bem aqui. Estás vendo quanta paz? Eu disse isto também ao outro discípulo que me fazia a mesma proposta. Ele dizia: “Para seres melhor considerado.”

– Eu o dizia para que Tu não te cansasses muito.

– Eu não me canso. Caminharei muito e não me cansarei nunca. Sabes o que é que me cansa? O desamor. Oh! aquele, que peso! É como se Eu tivesse um peso no coração.

– Eu te amo, Jesus.

– Sim. E tu me alivias. Eu te quero muito bem, João, e te quererei sempre, porque tu não me trairás nunca.

– Trair-te? Oh!

– Contudo, haverá muitos que me trairão… 70.5João, escuta. Eu te disse que parei aqui para instruir um novo discípulo. É um jovem judeu instruído e conhecido.

– Então, terás com ele muito menos trabalho do que conosco, Mestre. Estou contente por teres alguém mais capaz do que nós.

– Pensas tu que me dará menos trabalho?

– Ora, se é menos ignorante do que nós, Te compreenderá melhor e Te servirá melhor, especialmente se Te amar melhor.

– Aí está. Disseste bem. Mas o amor não depende da instrução e nem da formação. Um virgem ama com toda a força do seu primeiro amor. Isso também se dá com a virgindade do pensamento. E o amado penetra e se imprime mais em um coração e em um pensamento virgem do que em um no qual já estiveram outros amores. Mas, se Deus quiser… Escuta, João. Eu te peço que sejas amigo dele. O meu coração treme, ao colocar-te, cordeiro insonso, junto a alguém já experimentado na vida. Mas também se acalma, porque sabe que tu serás cordeiro, mas também águia e se o experimentado quiser fazer-te tocar o chão, sempre lamacento, o chão do bom sentido humano, tu, com um bater de asas, saberás livrar-te e querer só o azul e o sol. Por isto te peço que… — conservando-te como és — sejas amigo do novo discípulo, que não vai ser muito amado por Simão Pedro e também pelos outros, para lhe transfundires o teu coração…

– Oh! Mestre! Mas já não bastas Tu?

– Eu sou o Mestre ao qual não se dirá tudo. Tu és o condiscípulo, um pouco mais jovem, com o qual é mais fácil abrir-se. Eu não estou dizendo que me venhas repetir tudo o que ele te disser. Abomino os espias e os traidores. Mas o que te peço é que o evangelizes com a tua fé e tua caridade, com a tua pureza, João. É uma terra corrompida por águas mortas. Há de ser seca com o sol do amor, purificada com a honestidade de pensamentos, desejos e obras e cultivada com a fé. E tu podes fazer isso.

– Se achas que eu posso… oh! sim. Se Tu dizes que eu posso fazer isso, isso farei. Por amor a Ti…

– Obrigado, João.

70.6 – Mestre, falaste de Simão Pedro. E voltou-me à lembrança o que eu devia dizer-te primeiro, mas que a alegria de ouvir-te tinha afastado do meu pensamento. Quando voltamos a Cafarnaum, depois do Pentecostes, encontramos logo a importância de costume daquele desconhecido. O menino a tinha entregue à minha mãe. Eu a dei a Pedro e ele me devolveu dizendo que a usasse um pouco para a volta e a parada em Doco e que o restante o levasse a Ti, pois podias estar precisando… porque Pedro também pensava que aqui não tens comodidade… mas Tu dizes que tens… Eu não tirei senão duas moedas para dois pobrezinhos que encontrei perto de Efraim. Quanto ao mais, vim passando com o que minha mãe me havia dado e com o que me deram algumas pessoas boas, às quais eu preguei o teu Nome. Aqui está a bolsa.

– Amanhã a distribuiremos aos pobres. Assim, também Judas irá aprendendo os nossos costumes.

– O teu primo veio? Como fez para chegar aqui tão rápido? Ele estava em Nazaré e não me disse que partiria…

– Não. Judas é o novo discípulo. Ele é de Keriot. Mas tu o viste pela Páscoa, aqui, naquela tarde da cura de Simão. Ele estava com Tomé.

– Ah! É aquele?

João fica um pouco admirado…

– É ele. E Tomé, que está fazendo?

– Ele obedeceu as tuas ordens deixando Simão Cananeu e, indo pela estrada do mar, foi ao encontro de Filipe e Bartolomeu.

– Sim, Eu quero que vos ameis sem preferências, ajudando-vos reciprocamente, suportando-vos um ao outro. Ninguém é perfeito, João. Nem os jovens, nem os velhos. Mas, se tiverdes boa vontade, chegareis à perfeição, e o que faltar, Eu colocarei em vós. Vós sois como os filhos de uma santa família. Dentro dela há muitos caráteres diferentes. Um é forte, outro é calmo, outro é corajoso, outro é tímido, um é impulsivo, outro é muito cauteloso. Se todos fossem iguais, seríeis uma força em um caráter e deficiências em todos os outros. Enquanto que, como estais, formais uma união perfeita, porque vos completais mutuamente. O amor vos une, vos deve unir, o amor por causa de Deus.

– E por Ti, Jesus.

– Primeiro por causa de Deus, e depois por amor ao seu Cristo.

– Eu… que é que eu sou na nossa família?

– És a paz amorosa do Cristo de Deus. 70.7Estás cansado, João? Queres voltar? Eu fico aqui para rezar.

– Eu também fico para rezar Contigo. Deixa-me ficar para rezar Contigo.

– Então fica.

Jesus diz os salmos e João o acompanha. Mas a voz dele vai sumindo, e o apóstolo acaba adormecendo com a cabeça sobre o colo de Jesus, que sorri e estende o seu manto sobre as costas do adormecido e depois continua a rezar, mentalmente.

A visão termina assim.

70.8 Depois Jesus diz:

– Ainda um paralelo entre o meu João e um outro discípulo. Paralelo no qual sai sempre mais nítida a figura do meu predileto.

Ele é aquele que se despoja do seu modo de pensar e de julgar, para ser “o discípulo.” É aquele que se doa, sem querer de si nem mesmo uma molécula — do si mesmo antecedente à eleição. Judas é aquele que não quer se despojar de si mesmo. A sua doação é, por isso, uma doação irreal. Ele traz consigo o seu eu doente de soberba, de sensualidade, de cobiça. Conserva o seu modo de pensar. Com isso ele neutraliza os efeitos da doação e da Graça.

Judas é o chefe da família de todos os apóstolos fracassados. E são tantos! João é o chefe da família dos que se fazem hóstias por meu amor. Ele é o teu modelo.

Eu e minha mãe somos as Hóstias excelsas. Alcançar-nos é difícil, aliás, impossível, porque o nosso sacrifício foi de uma aspereza total. Mas o meu João! É a hóstia imitável por todas as classes dos meus amadores: virgem, mártir, confessor, evangelizador, servo de Deus e da mãe de Deus, ativo e contemplativo, é um exemplo para todos. É aquele que ama.

Observa os diferentes modos de raciocinar. Judas investiga, argumenta, teima, e, mesmo quando parece estar cedendo, na realidade está conservando ainda o seu modo de pensar. João se julga um nada, aceita tudo, não pergunta as razões, e se sente bem pago se puder me fazer feliz. Eis o exemplo.

70.9 Não é verdade que te sentiste toda cheia de paz, diante daquela sua simples e querida amorosidade? Oh! O meu João! E o meu pequeno João que Eu quero seja sempre mais parecido com o meu dileto. Aceita tudo, dizendo sempre como o Apóstolo: “Tudo aquilo que fazes é bem feito, Mestre”, para merecer ouvir sempre que se lhe diga: “És a minha amorosa paz.” Preciso de consolo Eu também, Maria. Dá-me. O meu Coração seja o teu repouso.