316. 316. Adeus de Jesus a João de Endor e a Síntique.
1 de novembro de 1945.
316.1 A mesma estrada — a única, afinal, desta região que parece um ninho de águia, no alto de um pico solitário — que retomam no dia seguinte, perseguidos por um tempo chuvoso e frio, que dificulta o andar.
Deve descer da carroça também João de Endor, porque a estrada na descida é mais perigosa que na subida, e se o burro, por si mesmo não correria grande perigo, o peso que está na carroça, que a inclinação faria correr todo para a frente, faz que o pobre animal se encontre em má situação. E mal também se sentem os seus condutores, que devem, hoje, já não mais suar para empurrar, mas muito mais para segurar o veículo, que poderia despencar, provocando desventuras ou, no mínimo, a perda da carga. A estrada é feia assim até à terça parte do seu comprimento, a últimaem direção do vale. Depois, ela se bifurca, e um dos seus ramos se dirige para o oeste, tornando-se mais cômoda e plana.
Param para descansar, enxugando-o suor, e Pedro recompensa o burrinho, que é todo um frêmito de ânsia, sacudindo as orelhas e bufando, por certo absorto em alguma profunda reflexão sobre a dolorosa condição dos burros e sobre os caprichos dos homens que escolhem certas estradas. Pelo menos Simão de Jonas atribui a considerações assim a expressão pensativa do animal e, para acalmar-lhe o humor, pendura-lhe ao pescoço um saco cheio de favas e, enquanto o burro vai mastigando o duro alimento com ávido prazer, também os homens estão comendo pão com queijo e bebendo o leite com que encheram também os odres.
A refeição terminou. Mas Pedro quer ir abeberar o “seu Antônio, que bem merece mais honras do que César”, diz ele, e vai com um pequeno balde, que tem sobre a carroça, buscar água numa torrente que se dirige para o mar.
316.2– Agora, podemos ir… e iremos também a trote, pois penso que além daquela colina seja tudo plano… mas depois não poderemos trotar. Contudo, andaremos depressa. Vamos, João, e tu, mulher. Subi, e vamos.
– Eu também subo, Simão, e guio Eu. Vós todos acompanhai-nos… –diz Jesus, logo depois que os dois subiram.
– Por quê? Estás sentindo-te mal? Estás tão pálido!…
– Não, Simão. Eu quero falar a sós com estes… –e mostra os dois, que também estão empalidecidos, percebendo que chegou o momento do adeus.
– Ah! Está bem.Suba e nós te seguiremos
Jesus se assenta sobre a mesa, que faz de banqueta para o condutor, e diz:
– Vem cá para o meu lado, João. E tu, Síntique, vem para perto…
João se assenta à esquerda do Senhor e Síntique a seu pés, quase na beira da carroça, virando as costas para a estrada, conservando o rosto levantado para Jesus. Assim colocada, sentada sobre os calcanhares, enfraquecida, como se estivesse sendo oprimida por algum peso que a deixasse extenuada, as mãos abandonadas sobre o regaço e cruzadas para poder conservá-las firmes porque um tremor as sacode, o rosto cansado, os belíssimos olhos de uma cor violeta-negra, como que embaçados por tanto pranto derramado, à sombra do véu e do manto muito descidos, parece mais uma imagem da Virgem da Piedade desolada. João, então!… Acho que se no fim do caminho estivesse o seu patíbulo, ele estaria menos transtornado.
O burro se põe a dar passos, tão obediente e cuidadoso, que não obriga Jesus a uma contínua vigilância. E Jesus se aproveita para abandonar as rédeas e segurar as mãos de João e pôr a outra sobre a cabeça de Síntique.
316.3 – Meus filhos, Eu vos agradeço por toda a alegria que me tendes dado. Este foi para Mim um ano coberto de flores de alegria, porque Eu pude colher as vossas almas e tê-las diante de Mim a esconder de Mim as feiuras do mundo, a perfumar o ar corrompido pelo pecado do mundo, a infundir-me doçura e confirmar-me na esperança de que a minha missão não é inútil. Marziam, tu, meu João, Hermasteu, tu, Síntique, e Maria de Lázaro, Alexandre Misaque e outros ainda… As flores triunfais do Salvador, que somente os retos de coração sabem sentir assim… Por que estás sacudindo a cabeça, João?
– Porque Tu és bom, e me colocas entre os retos de coração. Mas o meu pecado está sempre presente no meu pensamento…
– O teu pecado é o fruto de uma carne incitada por dois malvados. A tua retidão de coração é o substrato do teu eu honesto, desejoso de coisas honestas, desgraçado, porque elas te foram tiradas pela morte ou pela malvadeza, mas nem por isso menos vivo, ainda que sob o acúmulo de tantas dores. Bastou que a voz do Salvador descesse até o fundo onde estava enlanguescendo o teu eu para que te pusesses de pé, sacudindo todo o peso, para vires até Mim. Não é assim? Portanto, tu és um reto de coração. Muito, muito mais reto do que outros que não tem o teu pecado, mas têm outros muito piores, porque premeditados e obstinadamente conservados vivos… .
Vós, pois, vós, as minhas flores do meu triunfo de Salvador, sede benditos. Neste mundo obtuso e inimigo, que abebera de amargura e de desgosto o Salvador, representastes o amor. Obrigado! Nas horas mais penosas que neste ano Eu vos tive presentes para receber de vós consolação e apoio. E nas coisas ainda mais penosas que terei, mais ainda vos terei presentes. Até à morte. E comigo estareis pela eternidade. Eu vo-lo prometo.
316.4 Eu vos confio os meus mais caros interesses, isto é, a propaganda da minha Igreja na Ásia Menor, lá onde Eu não posso ir, porque aqui na Palestina é o meu lugar de missão, e porque também a mentalidade atrasada dos grandes de Israel por todos os meios me prejudicaria, se Eu fosse para outro lugar além daqui. Assim, tivesse Eu outros Joãos e outras Síntiques para os outros lugares, de modo que os meus apóstolos encontrassem o terreno arado para nele espalharem a semente na hora que virá!
Sede doces e pacientes e, ao mesmo tempo, fortes para penetrar e suportar. Encontrareis obtusidades e derisões. Não desanimeis por isso. Pensai assim: “Nós comemos o mesmo pão e bebemos o mesmo cálice que bebe o nosso Jesus.” Vós não sois mais do que o vosso Mestre, e não podeis pretender ter melhor sorte. A melhor sorte é esta: participar daquilo que é do Mestre.
Dou somente uma ordem: não vos acomodeis, não fiqueis querendo encontrar resposta a esta separação que não é um exílio, como quer pensar João, mas é antes um colocar-vos às soleiras da Pátria antes de todos os outros, como servos formados, como nenhum outro o é. O Céu desceu sobre vós como véu materno e o Rei dos Céus vos acolhe já em seu seio, vos protege sob as suas asas de luz e de amor, como primogênitos da desmesurada ninhada dos servos de Deus, do Verbo de Deus, que em nome do Pai e do Eterno Espírito vos abençoa agora e para sempre.
E rogai por Mim, o Filho do Homem, que vai ao encontro de todas as suas torturas de Redentor. Oh! que em verdade a minha Humanidade está para ser triturada por tudo o que se pode pensar de mais amargo!… Rezai por Mim. Eu vou ter necessidade das vossas orações1… Serão carícias… Serão declarações de amor… Serão ajuda para não chegar a dizer: “A humanidade toda virou-se para Satanás…”
316.5 Adeus, João. Demo-nos o beijo do adeus… Não chores assim. Ainda que me arrancassem pedaços de minha carne, Eu ainda te teria conservado, se não tivesse visto todo o bem, que desta separação vai resultar para ti e para Mim. Um bem eterno.
Adeus, Síntique. Sim, beija, sim, as minhas mãos, mas pensa que, se o sexo diferente me proíbe2 beijar-te como uma irmã, à tua alma Eu dou o meu fraterno beijo…
E esperai-me com o vosso espírito. Eu irei. Vós me tereis ao lado de vossas fadigas e de vossas almas. Porque, se o amor para com o homem encerrou a minha Natureza divina nesta carne mortal, não pôde, no entanto, limitar sua liberdade. E Eu sou livre como Deus, para ir a quem merece ter Deus consigo.
Adeus, meus filhos. O Senhor está convosco…
E se afasta, com força, do abraço apertado de João, que lhe comprime as costas, e de Síntique, que se agarrou aos seus joelhos, e pula da carroça, fazendo um sinal de adeus aos seus apóstolos, e sai correndo pela estrada, por onde veio, veloz como um cervo perseguido…
316.6O burro parou, ao perceber que caíram por terra as rédeas, que antes estavam sobre os joelhos de Jesus. E lá, parados, atônitos, lá estão os oito apóstolos, olhando o Mestre, que vai se afastando cada vez mais.
– Ele estava chorando… –sussurra João.
– E estava pálido como um morto –murmura Tiago de Alfeu.
– Nem mesmo sua sacola Ele pegou… Lá está ela na carroça… –observa o outro Tiago.
– E como é que Ele fará agora –pergunta Mateus.
Judas de Alfeu solta toda a sua voz forte para chamar:
– Jesus! Jesus! Jesus!…
O eco das colinas responde lá de longe: “Jesus! Jesus! Jesus!” Mas uma curva da estrada absorve o Mestre, no meio do verde das árvores das margens, sem que Ele nem se vire, para ver quem o está chamando…
– Ele foi-se embora… Não temos outra coisa a fazer, senão andar… –diz, desolado, Pedro, subindo para a carroça, e pegando as rédeas, para incitar o burrinho.
E a carroça entra pelo caminho, balançando, por entre aquele rumor ritmado dos cascos ferrados e o pranto angustiado dos dois que, abandonados no fundo da carroça, estão gemendo:
– Não o veremos mais, nunca. Nunca mais…
1 Eu vou ter necessidade das vossas orações: necessidade não como um homem qualquer para suas necessidades de cada espécie. Mas para sentir o seu espírito no consolo do amor de seus discípulos, expressa através da oração, “a Ele” e “por Ele”. Assim dizem as notas de MV numa cópia datilografada, e acrescenta: Para evitar más interpretações explico: lembre-se que orar é recordar-se de alguém, seja ele Deus ou ao próximo. Recordar-se de alguém é amar esse alguém. Jesus tinha o desejo de amor e de consolação para compensar todo o ódio que o cercava. Mesmo agora, ele deseja que os homens devem se lembrar de rezar para o mundo amá-lo para a sua própria saúde. Os dois registros de MV também se aplicam a outras etapas do trabalho em que Jesus pede auto amor, oração, ajuda (por exemplo, em: 121.2 - 162.8 - 176.1 - 339.2 - 339.4 última linha - 355.4 - 356.6 - 395.3 - 415.5 - última linha 455.4 - 478.11 - 517.2/3 - 520.11 - 528.2 - 587.7 - 599.4 - 600.40 - 602.9.10.13.16 - 608.9 últimas linhas). Significativa com as seguintes palavras de Jesus em 478.11: “… o Filho do homem tem um coração… e esse coração precisa de amor…”.
2 me proíbe, não porque era a coisa em si ilícita, mas porque era conveniente para a utilidade dos outros, de acordo com o conceito expresso por São Paulo em 1 Coríntios 6,12; 10,23-24. No entanto, alguns contatos com mulheres (outro exemplo é 519.7: impedidas de abraçá-Lo porque eram mulheres) também pode ser considerada proibida pelos comentários rabínicos da Sagrada Escritura, que, talvez, favoreceu o desprezo insensato, como aquele expresso por um escriba em 525.8. Jesus resgata a mulher do seu estado de inferioridade, por exemplo, em 511.3 e 525.8.
1
2
3
4