495. 495. Instruções sobre o perdão aos pecadorese despedida aos discípulos sobre o caminho de Betânia.


17 de setembro 1946.

495.1 Jesus alcançou os doze apóstolos e os principais discípulos nas faldas do Monte das Oliveiras perto da fonte de Siloan. Quando eles veem que vem chegando, a passos apressados, Jesus entre Pedro e João, vão ao encontro deles, e é justamente perto da fonte que vão reunir-se.

– Vamos subir pela estrada de Betânia. Vou deixar a cidade por algum tempo. Enquanto vamos andando, Eu vos direi o que tereis que fazer –diz Jesus.

Entre os discípulos estão também Manaém e Timoneu que já mais calmos, tomaram de novo o seu lugar. Aí estão Estêvão e Hermes, Nicolau, João de Éfeso, o sacerdote João e, afinal, todos os mais notáveis pela sabedoria, além de outros, simples mas muitos ativos pela graça de Deus e por sua própria disposição.

– Estás deixando a cidade? Aconteceu-lhe alguma coisa? –perguntam-lhe muitos.

– Não. Mas há lugares que estão esperando.

495.2 – Que fizeste esta manhã?

– Eu falei… Os profetas… Uma vez mais. Mas eles não entendem…

– Não fizeste nenhum milagre, Mestre? –pergunta Mateus.

– Nenhum. Um perdão. E uma defesa.

– Quem era? Quem havia ofendido?

– Aqueles que se julgam sem pecado acusavam uma pecadora. E Eu a salvei.

– Mas, se era uma pecadora, eles tinham razão.

– A carne dela certamente era pecadora. Mas sua alma… Muito Eu teria que dizer sobre as almas. Eu não diria que são pecadoras somente aquelas cuja culpa é evidente. São pecadoras também aquelas que levam outros a pecar. Com um pecado mais cheio de astúcia, elas fazem ao mesmo tempo a parte da serpente e a do pecador.

– Mas o que a mulher havia feito?

– Adultério.

– Adultério? E Tu a salvaste? Não o devias fazer! –exclama Iscariotes.

Jesus olha fixamente para ele, e depois diz:

– Por que Eu não devia?

– Mas, porque… Isso pode te prejudicar. Tu sabes como te odeiam, procuram acusações contra Ti. É certo… Salvar uma adúltera é ir contra a Lei.

– Eu não disse que a estava salvando. Disse a eles somente que, quem estivesse sem pecado a atacasse. Portanto, Eu confirmei a Lei que prescreve o apedrejamento dos adúlteros, mas também salva, porque não achou nem um apedrejador.

– Mas Tu…

– Quererias que Eu a apedrejasse? Teria sido justiça, porque Eu a teria podido apedrejar. Mas não teria sido misericórdia.

– Ah! Ela estava arrependida. Ela te suplicou e Tu…

– Não. Ela não estava arrependida. Estava somente aviltada e amedrontada.

– Mas, então! Por quê?… Não te entendo mais! Antes eu ainda conseguia compreender os teus perdões a Maria de Magdala, a João de Endor, a… afinal a muitos pec…

– Dize logo: a Mateus. Não o levarei a mal. Pelo contrário, sou-te agradecido, se tu me ajudas a recordar-me da minha dívida de reconhecimento para com o meu Mestre –diz Mateus, calmo e cheio de dignidade.

– Sim. Pois bem. Também Mateus… Mas esses se haviam arrependido dos seus pecados, de sua vida licenciosa… Mas, esta! Eu não te entendo mais! Não sou só eu que não te entendo.

– Eu sei que tu não me entendes. Sempre me entendeste pouco. E não tu somente. Mas não será isso que irá mudar o meu modo de agir.

– O perdão é dado a quem o pede.

– Oh! Se Deus devesse dar o perdão somente a quem o pede! E ferir logo a quem depois da culpa, não procura logo arrepender-se! Tu não te sentiste nunca perdoado, antes de te teres arrependido? Podes mesmo dizer que te arrependeste e que por isso já estás perdoado?

– Mestre, eu…

495.3 – Ouvi-me, vós todos, porque muitos entre vós acham que Eu errei, e que Judas está com a razão. Aqui estão Pedro e João. Eles ouviram o que Eu falei à mulher e vo-lo podem repetir. Eu não fui um tolo ao perdoar. Eu não disse o que já disse a outras almas, às quais eu perdoava, porque elas estavam completamente arrependidas. Mas Eu dei modo e tempo àquela alma para chegar ao arrependimento e à santidade, se quiser consegui-los. Recordai-vos disso para quando fordes mestres das almas.

Duas coisas é preciso que se tenha para se poder ser verdadeiros mestres. Primeira coisa: uma vida austera para consigo mesmos, de modo a poder julgar sem as hipocrisias de condenar nos outros o que a nós mesmos nos perdoamos. Segunda: uma paciente misericórdia, para dar às almas um modo de ficarem sãs e robustecidas.

Nem todas as almas ficam sãs instantaneamente de suas feridas. Algumas o fazem por fases sucessivas, algumas vezes lentas e sujeitas a recaídas. Expulsá-las, condená-las, amedrontá-las não é a arte de um médico espiritual. Se vós as expulsais, por vós mesmos, elas voltarão por ricochete a cair nos braços dos falsos amigos e mestres. Abri os vossos braços e os vossos corações sempre para as pobres almas. Que elas encontrem em vós um verdadeiro e santo confidente, sobre cujos joelhos não se envergonhem de chorar. Se vós as condenardes, privando-as de uma ajuda espiritual, sempre mais fareis que elas se tornem doentes e fracas. Se vós fazeis que elas fiquem com medo de vós e de Deus, como poderão levantar seus olhares para vós e para Deus?

O homem encontra como seu primeiro juiz o homem. Somente o ser que vive espiritualmente é que sabe encontrar em primeiro lugar a Deus. Mas a criatura que já chegou a viver espiritualmente não cai em culpas graves. Sua parte humana pode, ainda ter fraquezas, mas seu espírito é forte e vela, e suas fraquezas não se transformam em culpas graves. Enquanto que o homem, que é ainda muito carne e sangue, peca e encontra o homem. Mas, se o homem que o deve levar a Deus e formar seu espírito, lhe incutir medo, como é que o culpado pode ter confiança e nele se abandonar? Como poderá dizer: “Eu me humilho, porque çreio que Deus é bom e perdoa”, se vê que o seu semelhante não é bom?

Vós deveis ser um termo de comparação, na medida daquilo que é Deus, assim como uma pequena moeda é uma parte que nos ajuda a compreender o valor que a tem um talento. Mas, se vós sois cruéis com as almas, vós, pequenas moedas que sois uma pequena parte do Infinito, e o representais, como crerão então eles que seja Deus? Que dureza intransigente pensarão que haja nele?

495.4 Judas, tu que julgas com severidade, se neste momento Eu te dissesse: “Eu vou denunciar-te ao Sinédrio pela prática da magia”…

– Senhor! Não farás isto! Seria… seria… Tu sabes o que é…

– Sei e não sei. Mas tu estás vendo como logo invocas piedade para contigo… e tu sabes que não serias condenado por eles, porque…

– Que queres dizer, Mestre? Por que dizes isto? –diz, muito agitado Judas, interrompendo a Jesus.

Jesus, muito calmo, mas com um olhar que atravessa o coração de Judas, e, ao mesmo tempo, freia o seu perturbado apóstolo sobre o qual convergem os olhares dos outros onze apóstolos e os de muitos discípulos, diz:

– Porque eles te amam. Tens bons amigos lá dentro. Tu já disseste isso muitas vezes.

Judas dá um suspiro de alívio enxuga o suor, um suor estranho, num dia frio e ventoso com aquele, e diz:

– É verdade. Velhos amigos. Mas não creio que se eu pecasse…

– E pedes piedade por isso?

– Certamente. Eu sou ainda imperfeito e quero tornar-me perfeito.

– Tu o disseste. Também aquela criatura é muito imperfeita. Eu lhe dei tempo para que ela se torne perfeita, se quiser.

Judas não replica mais nada.

495.5 Eles já estão na estrada de Betânia, já longe de Jerusalém. Jesus para e diz:

– Vós destes aos pobres o que Eu vos havia mandado dar? Fizestes tudo o que eu vos disse?

– Tudo, Mestre –dizem os apóstolos e discípulos.

– Então, escutai. Agora Eu vos abençoarei e me despedirei de vós. Vós vos espalhareis como sempre pela Palestina. E vos reunireis de novo aqui pela Páscoa. Não falteis naquela ocasião… e nesses meses fortalecei o vosso coração e o coração de quem crê em Mim. Sede sempre mais justos, desinteressados, pacientes. Sede sempre aquilo que Eu vos ensinei a ser. Girai pelas cidades, povoados, casas solitárias. Não eviteis ninguém! Suportai tudo. Não é ao vosso eu que vós servis, assim como Eu não sirvo ao eu de Jesus de Nazaré, mas sirvo ao meu Pai. Vós também servi ao vosso Pai. Por isso, os interesses dele, e não os vossos, é que devem ser sagrados para vós, ainda que possam causar dor ou lesão aos vossos interesses humanos. Tende espírito de abnegação e de obediência. Poderá acontecer que Eu vos chame, ou que vos mande ficar onde estais. Não fiqueis julgando a minha ordem. Seja ela qual for, obedecei, crendo firmemente que isso é bom, e mandado para o vosso bem. Não tenhais inveja, se uns forem chamados por Mim e outros, não. Vós vereis… Alguns se afastaram de Mim… e Eu sofri com isso. Eram aqueles que ainda queriam regular-se por suas cabeças. A soberba é a alavanca que faz capotar os espíritos e o ímã que os subtrai de Mim. Não amaldiçoeis aos que me deixaram. Rezai para que eles voltem… Os meus pastores estarão, dois a dois, nas imediações de Jerusalém. Isaque, por enquanto, vem comigo, junto com Marziam. Amai-vos muito uns aos outros. Ajudai-vos uns aos outros. Meus amigos, que o vosso espírito vos diga tudo o mais, e vo-lo digam os vossos anjos. Eu vos abençoo.

Todos se prostram, enquanto Jesus diz a bênção de Moisés. Depois se reúnem para saudar a Jesus. Finalmente se separam dele que, com os doze, Isaque e Marziam, continua pelo caminho de Betânia.

– Agora permaneceremos o tempo necessário para saudar Lázaro, depois prosseguiremos, rumo ao Jordão.

– Não vamos a Jericó? –pergunta, interessado, Judas de Keriot.

– Não. Vamos a Betábara.

– Mas… e a noite…

– Não faltam casas e povoados daqui até o rio…

Ninguém fala mais nada. A não ser o ruído que, ao vento, fazem os ramos das oliveiras, e os produzidos pelos passos, não se ouve nenhum outro rumor.