615. 615. A noite de Sábado Santo.
31 de março de 1945.
615.1Com muita cautela, entra Maria de Alfeu e fica escutando. Talvez ela pense que a Virgem tenha adormecido. Aproxima-se e se inclina. E a vê de joelhos, com o rosto por terra, junto do Sudário. E murmura:
– Oh! Que desventurada! Assim ela ficou! –e deve ter pensado que Maria adormeceu ou desmaiou, ficando daquela maneira.
Mas Maria, saindo de sua oração, diz:
– Não, eu estava rezando.
– Mas assim de joelhos! No escuro! No frio! Com a janela aberta! Estás ouvindo? Estás gelada!
– Mas eu estou muito melhor, Maria. Enquanto eu estava rezando — e somente o Eterno é que sabe como eu estava arrasada, depois de ter sustentado tantas vezes a fé dos que vacilam, iluminado tantas mentes, que nem mesmo sua morte iluminou — pareceu-me sentir um perfume angelical, um frescor celestial, a carícia de uma asa… Foi um instante…Não mais do que isso. Mas pareceu-me que, no mar de mirra que, de três dias para cá, procura furiosamente submergir-me, se infundisse uma gota de serena doçura. Pareceu-me que a abóbada fechada dos céus se entreabrisse, e que um fio de um amor luminoso descesse sobre a Abandonada. Pareceu-me que, de distâncias incomensuráveis, viesse um murmúrio incorpóreo que me dizia: ‘Realmente terminou’. A minha oração, que até aquele momento era de desolação, passou a ser feita em paz. Ela se tingiu de uma luminosa paz — oh! apenas uma nuance — da luminosa paz que eram os meus contatos com Deus na oração… 615.2As minhas orações!… Maria: tu amaste muito o teu Alfeu, quando eras ainda a virgem desposada?
– Oh! Maria!… Eu me regozijava quando chegava a aurora, dizendo: “Passou mais uma noite. E um dia a menos na espera,” Eu me alegrava ao pôr do sol, dizendo: “Mais um dia terminou. Já está mais próxima a minha entrada sob o telhado dele.” E quando o sol sumia, eu cantava como uma cotovia, pensando assim: “Daqui a pouco ele vem.” E, quando eu o via vir, lindo no rosto como o meu Judas — e é por causa dele que o Judas é o meu predileto — mas com os olhos apaixonados como os do meu Tiago, oh! então eu já nem sabia mais onde estava! E quando ele me saudava dizendo: “Doce esposa,” e eu lhe podia responder “Meu Senhor.” Então eu… eu creio que se tivesse sido esmagada naquele momento por algum carro pesado ou atingida por uma flecha, eu não teria sentido dor. E depois!… quando tornei-me a sua mulher… Ah!…
E Maria se perde nos êxtases das recordações. Depois ela pergunta:
– Por que foi que me perguntaste isso?
– Para explicar-te o que eram para mim as orações. Multiplica por cem os teus sentimentos e aumenta-os em potência por mil e mil vezes, e compreenderás, então, o que tem sido sempre para mim a oração e a espera daquela hora… É, eu creio que, mesmo quando eu não orava lá na paz da gruta ou do meu quarto, mas fazia todos os serviços da mulher, a minha alma orava sem parar… Mas quando podia dizer: “Eis que a hora de recolher-me em Deus está chegando,” eu ficava com o coração ardente e palpitando velozmente. E quando eu me perdia Nele… então… Não… Isto não sou capaz de te explicar. Quando estiveres na Luz de Deus, compreenderás…
615.3Tudo isso há três dias que estava perdido. E era ainda mais doloroso do que não ter mais o meu Filho. E Satanás trabalhava nestas duas chagas sobrepostas, da morte de meu Filho e do abandono de Deus, criando assim uma terceira chaga, que era a do terror da falta de fé. Maria, eu te quero bem, e és minha parenta. Tu o dirás depois aos teus filhos apóstolos, a fim de que eles saibam resistir no apostolado e triunfar sobre Satanás. Eu tenho a certeza de que, se eu tivesse aceitado a dúvida, se tivesse cedido à tentação de Satanás e tivesse dito: “Não é possível que Ele ressurja,” negando Deus — pois dizer isso seria negar Deus com sua Verdade e Potência — tão grande Redenção teria caído de novo no nada. Eu, a nova Eva, teria mordido de novo a maçã da soberba e do sentido espiritual, e teria desfeito a obra do meu Redentor. Os apóstolos continuamente serão tentados assim: pelo mundo, pela carne, pelo poder de Satanás. Que eles fiquem firmes. Contra todas as torturas, e as corporais serão as mais leves, a fim de não destruir o que Jesus fez.
– Dize isto, Maria, aos meus filhos… Que queres que a tua pobre cunhada saiba dizer?! 615.4Oh! Porém! Se tivessem vindo! Fugirem logo no começo! Mas depois?!
– Vê que Lázaro e Simão tinham recebido ordens de levá-los a Betânia. Jesus sabe tudo…
– Sim. Mas…Oh! Quando eu os vir, os censurarei duramente. Eles procederam como uns vilões. Que outros o fossem! Mas eles não. Os meus filhos! Nunca os perdoarei…
– Perdoa, perdoa… Foi um instante de desvario… Eles não acreditavam que Ele pudesse ser preso. Ele o havia dito…
– Justo por isso eu não os perdoo. Eles sabiam. Portanto, estavam já preparados. Quando se sabe de uma coisa e se acredita em quem a diz, nada mais causa espanto!
– Maria, a vós também Ele disse: “Eu ressurgirei.” No entanto, se eu pudesse abrir o vosso peito e vossa cabeça sobre o coração e o cérebro, eu veria lá escrito: “Não pode ser.”
– Mas, pelo menos…Sim. É difícil crer…Contudo nós ficamos no Calvário.
– Foi por uma graça gratuita de Deus. Se assim não fosse, teríamos fugido, nós também. Ouviste o que disse Longino? Ele disse: “É uma coisa horrível.” E ele é um guerreiro. Nós, mulheres, sozinhas com um rapaz, resistimos por uma ajuda direta de Deus. Portanto, não te glories disto. Não é um mérito nosso.
– E por que não para eles?
– Porque eles serão os sacerdotes do futuro. Portanto, eles devem saber. Saber, depois de tê-lo experimentado, como é fácil para o fiel de um Credo cair na negação. Jesus não quer sacerdotes como aqueles que o são tão pouco a ponto de terem sido os seus mais contumazes inimigos…
– Tu estás falando de Jesus, como se Ele já tivesse voltado.
– Estás vendo? Tu mesmo confessas que não crês. Como é, então, que podes censurar os teus filhos?
Maria de Alfeu não sabe o que dizer. Fica de cabeça inclinada, e começa a mexer maquinalmente nos objetos. Encontra uma pequena candeia e sai com ela, para voltar depois com ela acesa, e posá-la no lugar de costume.
Maria está sentada de novo ao lado do Sudário estendido. O Sudário que, à luz amarela da candeia de azeite, à chama trêmula, adquire uma energia particular e parece estar se movendo na boca e nos olhos.
– Não queres tomar nada? –pergunta, um pouco mortificada, a cunhada.
– Um pouco d’água. Estou com sede.
Maria vai e volta… trazendo leite.
– Não insistas. Não posso. Água, sim. Eu não tenho mais água em Mim. Creio que não tenho mais nem sangue. Mas…
615.5Estão batendo no portão. Maria de Alfeu sai. Há um falatório no vestíbulo e depois João enfia a cabeça para dentro.
– João, tu voltaste? Nenhuma novidade mais?
– Sim. Simão Pedro… e o manto de Jesus… tudo junto. Estão no Getsêmani. O manto…
João desliza de joelhos, e diz:
– Ei-lo aqui. Mas está todo rasgado e ensanguentado. As marcas das mãos são de Jesus. Somente Ele é que as tinha assim longas e finas. Mas os rasgões foram feitos com os dentes, e se percebe claramente que foram dentes de homem. Eu penso que tenha sido… tenha sido Judas Iscariotes, porque perto do lugar onde Simão Pedro encontrou o manto, havia um pedaço da veste amarela de Judas. Ele voltou lá… depois… antes de de matar. Olha, Mãe.
O que Maria fez foi acariciar e beijar o pesado manto vermelho de seu Filho, mas por insistência de João Ela o abre e vê os sinais de sangue, sinais escuros sobre o vermelho do Sangue, e os rasgões feitos pelos dentes. Ela treme e murmura:
– Quanto sangue!
E parece que Ela só vê aquilo.
– Mãe… a terra está vermelha de sangue. Simão, que correu lá para cima nas primeiras horas da manhã, diz que a erva estava ainda com sangue fresco sobre as folhas… Jesus… não sei não. Ele não me parecia ferido. De onde, então, é que vinha tanto sangue?
– Do Corpo dele. Na angústia… Oh! Jesus Vítima total! Oh! Meu Jesus!
Maria chora tão angustiadamente, com uma lamentação exausta, que as mulheres vêm até à porta, ficam olhando, e depois se retiram:
– E isto, enquanto todos te abandonam. Que é que estáveis fazendo, enquanto Ele sofria em sua primeira agonia?
– Estávamos dormindo, Mãe…
E João chora.
615.6– Lá estava Simão? Conta como foi.
– Eu tinha ido procurar o manto. Tinha pensado em perguntar a Jonas e a Marcos… Mas eles haviam fugido… A casa está fechada e tudo está abandonado. Então, eu desci para os muros, a fim de percorrer toda a estrada que eu percorri na quinta-feira… Eu estava tão cansado naquela noite, e angustiado, que eu não podia nem recordar-me onde Jesus tirou o manto. Primeiro me parecia que Ele estivesse e depois que não estivesse com ele. No lugar da captura, nada… Onde nós três estivemos, nada. Eu fui pelo caminho feito pelo Mestre… E pensei que também Simão Pedro tivesse morrido, porque eu o vi lá, todo acocorado contra uma rocha. Eu gritei. Ele levantou a cabeça… e eu pensei que ele havia ficado louco, pois estava completamente diferente. Ele deu um urro e procurou fugir. Mas estava cambaleando, meio cego por ter chorado muito, e eu o segurei. E ele me disse: “Deixa-me. Eu sou um demônio. Eu o reneguei. Como ele dizia… o galo cantou, e Ele olhou para mim. Eu fugi… corri para cima e para baixo, pelos campos, e acabei vindo parar aqui. E estás vendo? Aqui Javé me fez achar o sangue dele para me acusar. Tudo tem sangue! Tudo tem sangue! Há sangue sobre as rochas, sobre a terra e sobre as ervas. Fui eu que o fiz espargir-se. Como também tu, como todos. Mas eu reneguei aquele Sangue.” Ele me parecia estar delirando. Procurei acalmá-lo e lavá-lo de lá. Mas ele não queria. Ele só dizia: “Aqui. Aqui. Para fazer guarda a este Sangue e ao seu manto. E com minhas lágrimas eu o quero lavar. Quando não houver mais sangue sobre o pano, talvez então eu volte para o meio dos vivos, batendo no peito, e dizendo: ‘Eu reneguei o Senhor’!” Então eu lhe disse que tu querias vê-lo. E que me havias mandado procurá-lo. Mas ele não queria acreditar. Então, eu lhe disse que tu querias também Judas, para perdoá-lo, e que sofrias por não mais poderes fazê-lo por causa do suicídio. Então, ele chorou, mas mais calmo. Ele quis saber de tudo. E me contou que o prado estava ainda com o sangue fresco, e que o manto havia sido todo estragado por Judas, do qual ele tinha até achado um pedaço da veste. Eu o deixei falar, falar bastante, e depois lhe disse: “Vem à casa da Mãe.” Oh! Mas quanto eu não tive que pedir, até persuadi-lo! E quando me pareceu que o havia persuadido, e ia me levantando para virmos embora, ele já não queria mais vir. E só lá pela noitinha é que ele veio. Mas quando passou para o outro lado do portão, ele se escondeu de novo em uma horta deserta, dizendo: “Não quero que ninguém me veja, pois eu trago escritas na frente estas palavras: Renegador de Deus.” E agora, que a escuridão já está completa, eu consegui puxá-lo até aqui.
615.7– Onde está ele?
– Detrás daquela porta.
– Faze-o entrar.
– Mãe…
– João…
– Não o censures. Ele está arrependido.
– Tu me conheces tão pouco ainda? Faze-o entrar.
João sai. Depois volta. Mas volta sozinho. E diz:
– Ele não tem coragem. Experimenta chamá-lo Tu.
E Maria, com doçura:
– Simão de Jonas, vem.
E nada.
– Simão Pedro, vem.
Nada.
– Pedro de Jesus e de Maria, vem.
Ouve-se um áspero acesso de choro. Mas ele não entra. Maria se levanta. Deixa o manto sobre a mesa e vai até à porta.
Lá fora está Pedro, agachado. Está como um cão sem dono. E chora tão forte e sem parar, que nem ouve o barulho da porta que se abre chiando, nem o arrastar das sandálias de Maria. Ele só percebe que Ela está ali, quando Ela se inclina para pegar-lhe uma das mãos que está apertada sobre os olhos, e o faz levantar-se. Maria entra no quarto puxando-o atrás de Si, como se faz com um menino. Ela fecha a porta com o trinco e o ferrolho e, encurvada pela dor assim como ele pela vergonha, volta ao seu lugar.
Pedro vai pôr-se aos pés dela, de joelhos, e chora desenfreadamente. Maria o acaricia por sobre seus cabelos grisalhos e suados pela dor. Nada mais além desse carícia, até que ele fica mais calmo.
615.8Depois, afinal, Pedro diz:
– Tu não me podes perdoar. Por isso, não me acaricies. Porque eu o reneguei.
Maria lhe diz:
– Pedro, tu o renegaste. É verdade. Tiveste a coragem de renegá-lo em público. A coragem covarde de fazer isso. Os outros… Todos, menos os pastores, Manaém, Nicodemos e João, somente tiveram a covardia. Todos o renegaram: homens e mulheres de Israel, com exceção de umas poucas mulheres… Eu não cito os sobrinhos nem Alfeu de Sara. Esses eram parentes e amigos!… Mas os outros!… E nem mesmo tiveram a coragem satânica de mentir para se salvarem, nem a coragem espiritual de se arrependerem e chorar, nem ainda a mais alta de reconhecer publicamente o seu êrro. És um pobre homem. Amanhã serás um santo. Mas, mesmo que não fosses como és, eu te teria perdoado do mesmo modo. Pois eu teria perdoado até Judas, contanto que ele salvasse o seu espírito. Porque o valor de um espírito1, ainda que seja um só, merece todo esforço para superar repugnâncias e ressentimentos, até que eles sejam despedaçados. Lembra-te disso, Pedro. Eu te repito: o valor de uma alma é tão grande, que mesmo às custas de morrer pelo esforço que se faz para tê-la perto, temos que mantê-la assim, entre os braços, como eu tenho a tua cabeça encanecida, se entendemos que, fazendo assim, podemos salvá-la. É assim. Como uma mãe que, depois do castigo que o pai deu, pega sobre o seu coração a cabeça do filho culpado e, mais com as palavras de seu coração que bate, bate de amor e de dor, do que com as palmadas do pai, ele se arrepende e se corrige. Ó Pedro do meu Filho, ó pobre Pedro que, como todos, estiveste nas mãos de Satanás naquela hora tenebrosa, e sem o perceberes, achando que fizeste tudo por ti mesmo, vem cá, vem cá ao coração da Mãe dos filhos do meu Filho. Aqui Satanás não pode mais fazer-te mal. Aqui se acalmam as tempestades, e enquanto esperamos o sol — o meu Jesus, que ressuscitará para dizer-te: “A paz ao meu Pedro!” — surge a estrela da manhã. Pura, bela, fazendo ficar puro e belo tudo o que ela toca, como acontece com as águas puras do nosso mar nas frescas manhãs da primavera. Por isto eu desejei muito que tu viesses. Aos pés da Cruz, eu estava sendo martirizada por Ele e por vós — como foi que não o percebeste? — e chamava os vossos espíritos com voz tão alta, que eu acho que eles vieram realmente a Mim. E, fechados em meu coração, ou melhor, colocados sobre o meu coração, como os pães da proposição, Eu os mantive sob o banho do seu Sangue e do seu pranto. Eu o podia fazer, porque Ele, na pessoa de João, me fez Mãe de toda a sua prole… Quanto Eu te esperei!.. Naquela manhã, naquela tarde e noite, e em cada novo dia… Por que é que tu fizeste uma mãe esperar tanto, pobre Pedro ferido e pisado pelo Demônio?
Eu te conduzo a Jesus. 615.9Tu O queres ver? Quereas ver o seu sorriso para te persuadires de que Ele te ama ainda? Sim? Oh! Então, afasta-te do meu pobre seio de mulher e vai pousar a tua fronte sobre a fronte coroada dele, e tua boca sobre sua boca ferida, e beija o teu Senhor.
– Ele morreu… Eu nunca mais o poderei fazer.
– Pedro, responde-me: Qual achas que tenha sido o último milagre do teu Senhor?
– O da Eucaristia. Aliás, não. Talvez tenha sido o do soldado ferido e curado lá… lá… Oh! Não me faças ficar recordando!
– Uma mulher fiel, amorosa, foi para perto dele no Calvário e enxugou o seu rosto. E Ele, para ensinar quanto pode o amor, gravou o seu Rosto sobre o linho. Ei-lo aqui, Pedro. Uma mulher conseguiu isso na hora daquelas trevas infernais e da ira divina. Só porque ele amou. Lembra-te disso, Pedro. Durante as horas em que te parecer que o Demônio seja mais forte do que Deus. Deus estava sendo prisioneiro dos homens, já oprimido, condenado, flagelado, moribundo… Contudo, já que entre as mais duras perseguições Deus é sempre Deus e, se a Ideia for agredida, Deus que a suscita é intocável, eis que Deus, aos negadores, aos incrédulos, aos homens dos estultos “porquês,” dos culposos “não pode ser,” dos sacrílegos “o que eu não compreendo não é verdade,” a eles Ele responde sem palavras, mas com este linho. Olha para ele. 615.10Um dia, tu me disseste, e tu disseste a André2: “O Messias vir manifestar-se a ti? Isso não pode ser verdade!” E depois a tua pobre razão humana teve de se dobrar à força do espírito que via o Messias lá onde a razão não o via. Outra vez, sobre o mar tempestuoso, tu perguntaste: “Posso ir, Mestre?”, e depois sobre as águas, já no meio do caminho, sobre as águas agitadas, tu duvidaste, dizendo: “A água não me pode sustentar” e, com tua dúvida como pretexto, por pouco não te afogavas. Somente quando contra a razão prevaleceu o espírito, que soube crer, pudeste achar a ajuda de Deus. Outra vez tu disseste: “Se Lázaro já morreu há quatro dias, que é que viemos fazer aqui? Para morrer inutilmente.” Porque não podias, com a tua razão humana, admmitir outra solução. E a tua razão foi desmentida pelo espírito que, mostrando-te com o ressuscitado a glória do Ressuscitador, te mostrou que não foi inutilmente que tínheis ido. Outra vez ainda, e mais outras, tu disseste, ao ouvir o Senhor falar de morte, e de uma morte atroz: “Isto não te acontecerá nunca!” E tu vês que a tua razão foi refutada. Eu agora fico esperando ouvir a palavra do teu espírito neste último caso…
– Perdão.
– Não isso. Uma outra palavra.
– Eu creio.
– É uma outra palavra.
– Não sei…
– Eu amo. Pedro, ama. E serás perdoado. Crerás. Serás forte. Serás o Sacerdote e não o fariseu, que oprime e só tem formalismos e não uma fé ativa. 615.11Olha para Ele. Coragem, e olha para Ele. Todos olharam para Ele e o veneraram. Até Longino… E tu? Não conseguirias? No entanto, soubeste renegá-lo! Se não o reconheceres agora, através do fogo de minha materna e amorosa dor, que vos une, vos dá a paz, então não poderás mais. Ele ressurge. Como poderás olhar para Ele, em seu novo fulgor, se não sabes como é o seu Rosto de Mestre, que conheces, mas que se converterá em Rosto de Triunfador, que não conheces? Porque a dor, toda a Dor dos séculos e do mundo, afetou-O com cinzel e macete naquelas horas que vão desde a véspera da Quinta-feira até a hora nona da Sexta-feira. E mudaram o seu Rosto. Antes era somente Mestre e Amigo. Agora é Juiz e Rei. Ele subiu para a sua Cátedra a fim de julgar. E cingiu-se com a coroa. E assim ficará. Com a diferença de que, depois da gloriosa Ressurreição, será não mais o homem Juiz e Rei. Mas o Deus Juiz e Rei. Olha para Ele. Olha, enquanto sua Humanidade e sua Dor o velam, a fim de que poder olhar quando Ele triunfar em sua Divindade.
Pedro levanta finalmente a cabeça do colo de Maria e fica olhando para Ela com seus olhos avermelhados pelo pranto em um rosto de velho menino desolado e espantado, pelo mal que fez e pelo bem que encontra feito.
Maria o obriga a olhar para o seu Senhor. E então, enquanto Pedro, vendo diante de si um rosto vivo, geme dizendo:
– Perdão, perdão! Não sei como foi. O que foi. Não era eu. Era alguma coisa que me fazia não ser eu. Mas eu te amo, Jesus! Eu te amo, Mestre meu! Volta! Volta! Não te vás embora assim, sem me dizeres que me entendeste!
Maria repete o ato já feito na Câmara sepulcral. Com os braços estendidos e de pé, parece uma sacerdotisa no ato de fazer a oferta. E, como lá Ela ofereceu a Vítima sem mancha, aqui Ela oferece o pecador arrependido. Pois Ela é a Mãe dos Santos e dos pecadores!
615.12Depois Ela levanta Pedro. E torna a consolá-lo. E lhe diz:
– Agora estou mais contente. Sei que estás aqui. Agora, vai. Com as mulheres e João. Vós estais precisando de repouso e alimento. Vai. E sê bom… –como se falasse a um menino.
E depois, enquanto a casa está mais calma nesta segunda noite depois de sua morte, e apresenta o aspecto cansado e resignado das casas nas quais os que sobreviveram vão voltando devagar daquele golpe mortal, e todos vão voltando aos hábitos humanos quanto ao sono e à alimentação, só Maria prefere ficar em pé. Firme no seu posto. Na sua expectativa. Em sua oração. Sempre. Sempre. Sempre. Pelos vivos e pelos mortos. Pelos justos e pelos culpados. Pelo retorno. O retorno. Pelo retorno do seu Filho.
A cunhada quis ficar com Ela. Mas agora ela está dormindo profundamente, sentada a um canto, com a cabeça virada para a parede. Marta e Maria vêm duas vezes, mas depois, cheias de sono, se retiram para um quarto vizinho e, depois de algumas palavras, elas também caem no sono. E mais adiante, em um quartinho pequeno, que mais parece de brinquedo, estão dormindo Salomé e Susana, enquanto, sobre duas esteiras jogadas no chão, dormem Pedro e João, roncando rumorosamente. O primeiro deles está ainda com um soluço, que se ouve intercalado entre um ronco e outro. O segundo, com um sorriso de criança que está sonhando diante de alguma visão alegre.
A vida retoma os seus atos e a carne, os seus direitos… Somente a Estrela da Manhã resplandece alerta, com seu amor que vigia junto à imagem do Filho.
E a noite do Sábado Santo vai passando assim. Até que o canto do galo, aos primeiros alvores da aurora, faz com que Pedro desperte com um grito e se levante. Mas o seu grito, amedrontado e doloroso, desperta os outros que estão dormindo.
E assim para eles termina a trégua. E recomeça o sofrimento. Enquanto que Maria não sente outra coisa senão a ansiedade crescente da expectativa.
1 o valor de um espírito… Expressão semelhante está na boca de Jesus em 300.3 e na da própria Mãe dele em 437.4.
2 disseste a André, em 48.3; tu perguntaste, em 274.3/4; disseste (para Lázaro, mas foi Tomás a dizer aquilo que também Pedro pensava), in 547.6; disseste (pela predição da morte de Jesus), em 346.6.
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