518. 518. Em Jerusalém, o encontro com o cego curadoe o discurso que revela Jesus como o Bom Pastor.


25 de outubro de 1946.

518.1Jesus, tendo entrado na cidade pela Porta de Herodes, vai atravessando-a e se dirigindo para o Tiropeon e o subúrbio de Ofel.

– Estamos indo para o Templo? –pergunta Iscariotes.

– Sim.

– Cuidado com o que estás fazendo! –chamam-lhe muitos a atenção.

– Não pararei, pois é o tempo da oração.

– Eles te prenderão.

– Não. Entraremos pelas portas do norte e sairemos pelas portas do sul, e eles não terão tempo de organizar-se para me fazerem mal. A não ser que haja sempre atrás de Mim alguém que me vigie e me mostre a eles.

Ninguém replica, e Jesus continua indo para o Templo, que lá vem aparecendo em cima de sua colina como um espectro em sua luz verde amarelada, em uma manhã cor de chumbo de inverno, durante o qual o sol nascente não é mais do que uma lembrança de um sol que teima em apresentar-se, procurando abrir para si um espaço vazio por entre as nuvens pesadas. Mas é um esforço inútil. O esplendor alegre da aurora reduziu-se a um reflexo amortecido de um amarelo irreal, que não se espalhou, mas deixou apenas algumas manchas misturadas a uns laivos de chumbo, listrado de verde. E expostos a esta luz, os mármores e o ouro do Templo parecem amortecidos, tristes, eu diria até lúgubres como ruínas, emergindo de alguma região da morte.

Jesus olha atentamente para esta cena, ao subir para o muro. E olha também para os rostos das pessoas que vão chegando pela manhã. A maior parte delas são pessoas humildes: são hortelãos, pastores com os seus animaizinhos para o matadouro, os servos e as donas de casa que se dirigem para as feiras. Todas são pessoas que lá se vão silenciosas, envolvidas em seus mantos, um pouco inclinadas para se defenderem do vento da manhã. Também os rostos de todas parecem estar mais pálidos do que estão normalmente os rostos desta raça. E é a luz estranha que os torna assim verdoengos ou quase cor de pérolas, dentro do contorno dos tecidos coloridos de seus mantos, que certamente não se adaptam àquele verde nem ao roxo vivo nem ao amarelo intenso, para poderem lançar reflexos dourados sobre os rostos. Alguns saúdam o Mestre, mas sem pararem. A hora não é de parar. Mendigos não são vistos por enquanto a lançar seus lamentos, seus gritos nas encruzilhadas e por baixo das grandes abóbadas que, pouco a pouco, vão cobrindo as ruas. A hora e a estação contribuem para a liberdade com que Jesus pode prosseguir, sem encontrar obstáculos.

Ei-los chegados ao muro. Entram. Vão para o Átrio dos Israelitas. Vão rezando, enquanto um som de trompas, que pelo seu timbre eu diria serem de prata, anuncia certamente alguma coisa importante, e se espalha pela colina, enquanto um perfume de incenso vem-se difundindo suavemente, desfazendo quaisquer outros odores menos agradáveis que se possam sentir no alto do Monte Mória, isto é, o perpétuo, eu diria, o natural odor da carne dos animais degolados e que vai sendo exposta à ação do fogo e da farinha queimada, da gordura quente, que sempre começa a coagular-se lá em cima, mais ou menos forte, mas sempre presente por causa dos contínuos holocaustos.

Eles vão indo para outra direção, e começam a ser notados pelos primeiros que vão chegando ao Templo, pelos que trabalham nele, pelos cambistas e vendedores, que estão montando suas bancas e seus recintos. Mas, por enquanto, são poucos demais, e a surpresa é tão grande que eles nem sabem o que fazer. Mas, entre uns e outros, trocam palavras que revelam o seu espanto.

– Ele voltou!

– Ele não foi para a Galileia, como diziam.

– Mas onde é que estava escondido, se não foi achado em lugar nenhum?

– Ele quer mesmo desafiá-los.

– Que estulto!

– Que santo!

E assim por diante, segundo a opinião de cada um.

518.2Jesus já está fora do Templo e desce para a rua que vai para Ofel, quando, na encruzilhada com algumas estradas que sobem para Sião, Ele esbarra com o cego de nascença, que há pouco foi curado e que, carregado de cestas cheias de maçãs muito cheirosas, ia indo alegremente, caçoando com outros jovens carregados como ele, e que vão indo para o lado oposto ao dele. Talvez ao jovem aquele encontro iria passar sem ser observado, pois ele não conhece o rosto de Jesus, nem os dos apóstolos. Jesus, porém, não deixa de conhecer o rosto do miraculado. E o chama. Sidônias, chamado Bartolomeu, se vira e olha, como quem estivesse fazendo uma pergunta para o homem alto e majestoso, ainda que humildemente vestido, que o chamou pelo nome ao dirigir-se para um pequeno beco.

– Vem cá –ordena-lhe Jesus.

O jovem se aproxima dele, sem depor no chão sua carga, olha de soslaio para Jesus, e, achando que ele é alguém que quer comprar maçãs, lhe diz:

– O meu patrão já as vendeu. Mas ele tem outras, se quiseres. São bonitas e boas. Elas vieram ontem dos pomares de Saron. E, se comprares muitas, terás um bom desconto, porque…

Jesus sorri, levantando a mão direita, como para fazer parar toda aquela falação do jovem. E diz:

– Eu não te chamei para comprar as maçãs, mas para congratular-me contigo e bendizer contigo ao Altíssimo, que te concedeu sua graça.

– Oh! Sim. Eu faço isso continuamente, pela luz que estou vendo, pelo trabalho que eu posso fazer por ajudar meu pai e minha mãe, enfim. Eu achei um bom patrão. Ele não é hebreu, mas é bom. Os hebreus não gostavam de mim, porque sabiam que eu fui expulso da sinagoga –diz o jovem, pondo a cesta no chão.

– Então, eles te expulsaram? Por quê? Que foi que fizeste?

– Eu, nada. Eu te garanto. Foi o Senhor que o fez. Ele num sábado me fez achar aquele homem, que dizem ser o Messias, e Ele me curou, como tu estás vendo. E por isso foi que eles me expulsaram.

– Então, Aquele que te curou afinal não te fez um bom serviço

–provoca-o Jesus.

– Não digas isso, homem! Tu estás blasfemando! Antes de tudo, Ele me mostrou que Deus me ama e depois me deu a vista… Tu não sabes o que é “ver”, porque sempre viste. Mas uma pessoa que nunca tinha visto! Oh!… É… Com a vista vemos todas as coisas ao mesmo tempo. Eu te digo que, quando eu enxerguei, lá perto de Siloé, eu ri e chorei, mas de alegria, sabes? Eu chorei de um modo como nunca tinha chorado no tempo da minha desventura. Porque foi aí que eu compreendi como ela havia sido grande e como é bom o Altíssimo. E agora posso ganhar a minha vida, e com um trabalho decente. E depois — isto é o que mais do que tudo eu espero que me conceda o milagre recebido — e depois espero encontrar o homem que se diz o Messias, e o discípulo dele que me…

– E que farias, então?

– Eu quereria bendizê-lo. A Ele e ao seu discípulo. E quereria dizer ao Mestre que me tomasse como seu servo.

– Como! Por causa dele tu estás excomungado, com dificuldade encontras trabalho, podes ser até punido, e queres servi-lo? Não sabes que são perseguidos todos aqueles que acompanham ao que te curou?

– Ah! Eu o sei. Mas Ele é o Filho de Deus, isso é o que se diz entre nós. Por mais que aqueles lá de cima –(e mostra o Templo)– não queiram que se diga. E, então, não vale a pena deixar tudo para servir a Ele?

518.3– Crês, então, no Filho de Deus, na presença dele na Palestina?

– Eu creio. Mas quereria conhecê-lo para crer nele, não somente com o meu entendimento, mas com todo o meu ser. Se tu sabes quem Ele é, e onde se encontra, dize-o a mim, para que eu vá a Ele e o veja, e creia completamente nele e o sirva.

– Tu já o viste, e não é necessário que tu vás a Ele. Este que tu estás vendo neste momento e que te está falando é o Filho de Deus.

Eu não posso afirmá-lo com toda a segurança, mas parece-me que, ao dizer estas palavras, Jesus tenha quase passado por uma brevíssima transfiguração, mostrando-se em grande beleza, eu diria, em grande esplendor. Diria que para premiar o homem humilde que acredita nele, e para confirmá-lo em sua boa fé, tenha pelo espaço de um instante revelado sua futura beleza, quero dizer, aquela que Ele assumirá depois da Ressurreição e conservará no Céu, a de um corpo humano glorificado, unido à inexprimível beleza da Perfeição que é dele. Um instante, eu digo, um relâmpago, mas o canto meio escuro para onde tinham ido a fim de falar, por baixo da arquivolta do beco, ilumina-se estranhamente com uma luminosidade que, repito, o faz ficar belíssimo.

Depois, volta tudo a ficar como antes, menos o jovem, que agora está tombado no chão, com o rosto na poeira, e que adora, dizendo:

– Eu creio, Senhor, meu Deus!

– Levanta-te. Eu vim ao mundo para trazer a Luz e o conhecimento de Deus, e para provar os homens e julgá-los. Este meu tempo é tempo de escolha, eleição e seleção. Eu vim para que os puros de coração e de intenção, os humildes, os mansos, os amantes da justiça, da misericórdia, da paz, aqueles que choram e aqueles que sabem dar às diversas riquezas materiais o seu real valor e preferir as coisas espirituais às riquezas materiais, encontrem o que o seu espírito deseja; e aqueles que eram cegos, porque os homens levantaram grossas muralhas para impedir a passagem da luz, isto é, o conhecimento de Deus, para que eles vejam, e para que os que acham que estão vendo se tornem cegos…

518.4– Então tu odeias uma grande parte dos homens e não és bom como dizes ser. Se assim fosses, procurarias que todos vissem e que quem já vê não ficasse cego –interrompem-no alguns fariseus que acabaram de chegar, vindos da estrada mestra, e que se aproximam com outros, cautelosamente, tendo chegado por detrás do grupo dos apóstolos.

Jesus se volta e olha para eles. Mas agora Ele não está mais transfigurado em sua doce beleza! É um Jesus bem severo este que fixa sobre os seus perseguidores os seus olhos de safira, enquanto sua voz não tem mais a nota de ouro da alegria, mas é a de bronze e, como o som do bronze, ela é incisiva e severa, ao responder-lhes:

– Não sou Eu que quero que não vejam a verdade aqueles que no momento a estão combatendo, mas são eles mesmos que levantam placas diante de suas pupilas para não verem. E se fazem de cegos por sua livre vontade. E o Pai me mandou para que a separação se faça, e sejam verdadeiramente conhecidos os filhos da Luz e os filhos das Trevas, os que querem ver e os que querem ficar cegos.

– Estaremos também nós entre esses cegos?

– Se estivésseis, mas procurásseis ver, não teríeis culpa por isso. Mas é porque dizeis: “Nós enxergamos”, e depois não quereis ver que vós pecais; o vosso pecado permanece porque não procurais ver, ainda que sejais cegos.

– E o que devemos ver?

– O Caminho, a Verdade e a Vida. Um cego de nascença, como este era, com o seu bastãozinho, sempre pode encontrar a porta de sua casa e andar por dentro dela, pois ele conhece sua casa. Mas se ele fosse levado para outros lugares, não poderia entrar pela porta da casa nova, porque não saberia onde está, e daria cabeçadas contra as paredes.

518.5O tempo da nova Lei chegou. Tudo se renova e um mundo novo, um novo povo, um novo reino estão surgindo. Agora, aqueles que são dos tempos passados não conhecem este. Eles conhecem o tempo deles. São como uns cegos levados para um novo povoado, onde está o Palácio Real do Pai, mas do qual eles não sabem o lugar em que fica. Eu vim para conduzi-los e introduzi-los nele, e para que o vejam. Mas sou Eu mesmo a Porta pela qual se chega à casa paterna do Reino de Deus, à Luz, à Vida. E sou também Aquele que veio para reunir o rebanho que ficou sem guia, e além de conduzi-lo para um único ovil: o do Pai. Eu sou a porta do Ovil, porque Eu sou ao mesmo tempo Porta e Pastor. E lá Eu entro e saio como e quando quero. Lá entro livremente, e pela porta, pois Eu sou o verdadeiro Pastor.

Quando alguém vem dar às ovelhas de Deus outras informações, ou procura desviá-las, levando-as para outras moradas e outros caminhos, não é o bom Pastor, mas um pastor falso. E assim, quem não entra pela porta do ovil, mas procura entrar por outra parte, pulando por cima da cerca, não é um pastor, mas um ladrão e assassino, que lá entra com a intenção de roubar e matar, para que os cordeirinhos roubados não fiquem se lamentando e chamando a atenção dos guardas e do pastor.

Até as ovelhas do rebanho de Israel procuram introduzir falsos pastores em seu meio, a fim de desviá-los para fora das pastagens e para longe do verdadeiro Pastor. E eles entram dispostos até a arrancá-los do meio do rebanho com violência, nessa ocasião até dispostos a matá-los e feri-los de todos os modos, para que não vão dizer ao Pastor quais são as astúcias dos falsos pastores, nem gritem, pedindo a Deus que os proteja contra os seus inimigos e inimigos do Pastor.

Eu sou o Bom Pastor, e as minhas ovelhas me conhecem, e me conhecem aqueles que são para sempre os porteiros do verdadeiro Ovil. Esses conheceram a Mim e o meu Nome, e o disseram para que ele fosse conhecido em Israel, e disseram como Eu sou e prepararam os meus caminhos, e, quando minha voz foi ouvida, eis que o último deles me abriu as portas, dizendo ao rebanho que estava à espera do verdadeiro Pastor, ao rebanho reunido em torno do seu bastão: “Ei-lo aí! Este é aquele de quem eu falei, que vinha depois de mim. Alguém que me precede porque já existia antes de Mim, e eu não o conhecia. Mas por isso e para que estejais prontos para recebê-lo eu vim batizar com água, a fim de que Ele fosse manifestado em Israel”. E as ovelhas boas ouviram a minha voz e, quando Eu as chamei pelo nome, elas vieram correndo, e Eu as levei comigo, assim como faz um verdadeiro pastor, conhecido pelas ovelhas, que o reconhecem pela voz e o acompanham por toda parte aonde ele vá. E, quando as faz sair todas, caminha diante delas, e elas vão atrás dele, porque amam a voz do pastor. Ao passo que elas não vão atrás de um estranho, mas, pelo contrário, elas fogem para longe dele, porque não o conhecem, e o temem. Eu também caminho à frente de minhas ovelhas para ensinar-lhes o caminho e enfrentar, por primeiro, os perigos, e mostrá-los ao rebanho que Eu quero conduzir com segurança até o meu Reino.

518.6– Por acaso, Israel não é mais o Reino de Deus?

– Israel é o lugar de onde o povo de Deus deve subir para a verdadeira Jerusalém e para o Reino de Deus.

– E o Messias prometido, então? Aquele Messias que Tu dizes ser, não é Ele que vai fazer Israel triunfar, glorioso, dono do mundo, sujeitando ao seu cetro todos os povos e vingando-se, oh! vingando-se ferozmente de todos aqueles que o sujeitaram desde quando ele se tornou um povo? Não é verdade nada disso, então? Tu negas os profetas? Tu dizes que nossos rabis são uns estultos? Tu…

– O Reino do Messias não é deste mundo. Ele é o Reino de Deus fundado sobre o Amor. Não é outra coisa. E o Messias não é um rei de povos e milícias, mas rei de espíritos. Do povo eleito virá o Messias, da estirpe real, e sobretudo de Deus, que o gerou e o mandou. Do povo de Israel é que se iniciou a fundação do Reino de Deus, a promulgação da Lei do Amor, o anúncio da Boa Nova, da qual fala1 o profeta. Mas o Messias será rei do mundo, Rei dos reis, e o seu reino não terá limites, nem confins nem no tempo nem no espaço. Abri os olhos, e aceitai a verdade.

– Não entendemos nada dos teus delírios. Tu dizes palavras sem nexo. Fala, responde-nos sem parábolas. És ou não és o messias?

– E ainda não compreendestes? Por isso Eu vos disse que sou a Porta e o Pastor. Até agora ninguém pode entrar no Reino de Deus, porque ele estava fechado e sem saídas. Mas agora Eu vim, e a porta para entrar nele está aberta.

– Oh! Outros já disseram que eram o Messias e depois foram reconhecidos como uns ladrões e rebeldes, e a justiça humana puniu a patifaria deles. Quem é que nos garante que Tu não és um deles? Estamos cansados de sofrer e de fazer o povo sofrer o rigor de Roma, graças aos mentirosos, que se dizem reis e levam o povo às sublevações!

– Não. A vossa frase não é exata. Vós não quereis sofrer, isso é verdade. Mas que o povo sofra, com isso não vos importais. E tanto é verdade que ao rigor dos que nos dominam ajuntais o vosso rigor, oprimindo-o com os dízimos odiosos, e ao povo miúdo com muitas outras coisas. Quem é que vos garante que Eu não sou um malandro? As minhas ações. Não haverei de ser Eu quem vá colocar sobre vós o peso da mão de Roma. Mas, pelo contrário, o que às vezes aconteceu foi que Eu aconselhasse aos dominadores e aos dominados paciência e humanidade. Pelo menos, estas duas.

Muitas pessoas — pois já lá se ajuntou muita gente e sempre vai aumentando, a ponto de ficar interrompido o trânsito sobre a estrada mestra, e por isso vão ocupando espaço no pequeno beco, sob os arcos do qual ressoam as vozes — aprovam, dizendo:

– Falou bem a respeito dos dízimos! É verdade. Ele a nós aconselha submissão e aos romanos, piedade.

518.7Os fariseus, como sempre, ficam enfurecidos pela aprovação da multidão e se tornam ainda mais mordazes no tom com que se dirigem ao Cristo:

– Responde sem tantas palavras e mostra que és o Messias.

– Em verdade, em verdade Eu vos digo que Eu o sou. Somente Eu é que sou a Porta do Ovil, que é o Céu. Quem não passa por Mim, não pode entrar. É verdade. Já houve falsos Messias, e haverá ainda outros. Mas o único verdadeiro Messias sou Eu. Quantos até hoje já vieram, dizendo-se tais, mas não o eram, eram ladrões e salteadores. E eles não somente se faziam chamar messias por alguns poucos de sua mesma classe, mas também por outros ainda que, sem se darem aquele nome, exigem uma adoração que nem ao verdadeiro Messias é prestada. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Mas estai atentos. Nem aos falsos Messias nem aos falsos pastores e mestres as ovelhas deram ouvidos, porque o espírito delas percebia a falsidade da voz deles, que queriam mostrar-se amáveis, mas eram cruéis. Somente uns bodes é que os seguiram, para serem seus companheiros em suas velhacarias. Bodes selvagens, indômitos, que não querem entrar no Ovil de Deus sob o cetro do verdadeiro Rei e Pastor. Pois isto agora é o que se vê em Israel. Que Aquele que é Rei dos reis se torne o Pastor do rebanho, enquanto, tempos atrás, aquele que era pastor de rebanhos se tornou rei, e, tanto Um como outro vêm da mesma raiz, isto é, da raiz de Isaí, como está dito2 nas promessas e profecias.

Os falsos pastores não têm tido palavras sinceras nem gestos de conforto. Eles dispersaram e torturaram o rebanho, ou o abandonaram aos lobos, ou o mataram para tirarem proveito dele, vendendo-o para manterem a vida, e acabaram com as pastagens deles, fazendo no lugar delas moradas de prazer e pequenos bosques para os seus ídolos. Sabeis vós quais são esses lobos? São as más paixões, os vícios que os próprios falsos pastores ensinaram ao rebanho, praticando-os eles mesmos, em primeiro lugar. E sabeis quais são os bosques dos ídolos? São os próprios egoísmos, diante dos quais muitos queimam incensos. As outras duas coisas não precisam ser explicadas, porque é até clara demais a explicação. Mas que os falsos pastores assim façam, é evidente. Eles não são mais do que uns ladrões, que vêm para roubar, matar e destruir, para levarem as ovelhas para fora do ovil, para pastagens perigosas, ou conduzi-las para ovis falsos, que não são mais do que uns matadouros. Mas aqueles que passam para Mim, estão seguros e poderão sair para irem às minhas pastagens, ou tornarem a entrar nos meus repousos, e se tornarem robustos com os sucos santos e sadios. Porque Eu vim para isso. A fim de que o meu povo, as minhas ovelhas, até agora magras e aflitas, tenham a vida, e vida abundante, vida de paz e alegria. E Eu tanto quero isso que vim para dar a minha vida, a fim de que as minhas ovelhas tenham a vida plena e abundante dos filhos de Deus.

518.8Eu sou o Bom Pastor. E um pastor, quando é bom, dá a vida para defender o seu rebanho dos lobos e dos ladrões, enquanto que o mercenário, que não ama as ovelhas e sim o dinheiro que ele ganha para levá-las às pastagens, só se preocupa em salvar-se a si mesmo e as economias que ele traz na bolsa, e quando vê que o lobo vem chegando o ladrão foge, e só volta depois para apanhar alguma ovelha deixada ainda meio viva pelo lobo ou extraviada pelo ladrão, e matar a primeira para ele mesmo comer, ou vender como sua a segunda, aumentando suas economias, e indo dizer ao patrão, com lágrimas mentirosas, que nenhuma das ovelhas se salvou. Que importa ao mercenário se o lobo agarra ou dispersa as ovelhas, se o ladrão faz entre elas uma depredação para levá-las ao açougueiro? Terá ele velado por elas, quando estavam crescendo? Ter-se-á afadigado para torná-las robustas? Mas aquele que é o dono e sabe quanto custa uma ovelha, quantas horas de cansaço, quantas de vigília, quantos sacrifícios, esse as ama e toma cuidado delas, pois são o seu bem. Mas Eu sou mais do que um dono. Eu sou o Salvador do meu rebanho e sei quanto me custa a salvação de uma única alma, e por isso estou pronto para tudo, contanto que salve uma alma. Ela me foi confiada por meu Pai. Todas as almas me foram confiadas, com a ordem para que delas Eu salve o número maior possível. Quantas mais eu conseguir arrancar da morte do espírito, tanto mais o meu Pai terá glória. E por isso Eu luto para livrá-las de todos os seus inimigos, isto é, do seu eu, do mundo, da carne, do demônio e dos meus adversários, que as querem tomar para me fazerem sofrer. Eu faço isso porque conheço o pensamento de meu Pai. E o Pai me mandou fazer isso, porque Ele conhece o meu amor para com Ele e pelas almas. E também as ovelhas do meu rebanho me conhecem e ao meu amor, e sabem que Eu estou pronto para dar a minha vida a fim de dar a elas alegria.

E Eu tenho outras ovelhinhas. Mas elas não são deste Ovil. Por isso elas não me conhecem pelo que Eu sou, e muitas delas ignoram o que Eu sou e quem Eu sou. Ovelhinhas que a muitos dentre nós parecem piores do que umas cabras selvagens e consideradas indignas de conhecer a verdade, de ter a Vida e o Reino. Contudo, não é assim. O Pai quer também estas e por isso Eu devo aproximar-me também delas, fazer-me conhecer, fazer conhecer a Boa-Nova, conduzi-las às minhas pastagens, reuni-las. E elas também darão ouvidos à minha voz e acabarão por amá-la. E haverá um só Ovil sob um só Pastor, e o Reino de Deus ficará formado sobre a Terra, pronto para ser transportado e acolhido nos Céus, sob o meu cetro e o meu sinal e o meu verdadeiro Nome.

O meu verdadeiro Nome! Só Eu mesmo é que o conheço. Mas quando o número dos eleitos estiver completo e entre hinos de regozijo se assentarem para a grande ceia das núpcias do Esposo com a Esposa, então é que o meu Nome será conhecido pelos meus eleitos que, pela fidelidade a Ele, se terão santificado, mesmo sem terem conhecido toda a extensão e a profundidade do que é serem assinalados com o meu Nome e premiados pelo seu amor a Ele, nem qual é o prêmio… Isto Eu quero dar às minhas ovelhas fiéis. E isso será a minha própria alegria…

518.9Jesus volta um olhar, com o brilho de um pranto extático, sobre os rostos que estão voltados para Ele, e um sorriso lhe tremula sobre os lábios, um sorriso de tal modo espiritualizado no rosto espiritualizado, que um calafrio faz vibrar a multidão, que percebe o arrebatamento do Cristo em uma visão beatifica, e o seu amoroso desejo de vê-la plenamente realizada. Ele volta a si. Fecha por um instante os olhos, escondendo o mistério que sua mente está vendo e que os olhos poderiam trair, e continua:

– Por isso é que meu Pai me ama, ó meu povo, ó meu rebanho! Porque é por ti, para o teu bem e pelo teu bem eterno que Eu dou a vida. Mas depois a retomarei. Antes, porém, Eu a darei para que tenhas a vida, e o teu Salvador, que é a vida que tu tens. Eu a darei de tal modo, que tu te alimentes dela, transformando-me de Pastor em alimento e fonte, que darão alimento e bebida, não por quarenta anos3, como para os judeus no deserto, mas por todo o tempo que durar este exílio nos desertos desta terra. Ninguém, na realidade, me tira esta vida. Nem aqueles que, amando-me com todo o seu ser, merecem que Eu a imole por eles, nem aqueles que me tiram por um ódio desmesurado e um medo estulto. Ninguém me conseguiria tirá-la se por Mim Eu não consentisse em entregá-la e se o Pai não o permitisse, tomados ambos — o Pai e Eu — por um delírio de amor pela humanidade culpada. Por mim mesmo é que Eu a dou. E tenho o poder de retomá-la quando quiser, pois não é conveniente que a Morte prevaleça contra a Vida. Por isso o Pai me deu esse poder, e o Pai até me mandou fazer assim. E pela minha vida, oferecida e consumada, os povos se tornarão um só Povo: o meu, o Povo celeste dos filhos de Deus, separando-se, por entre os povos, as ovelhas dos cabritos, e seguindo as ovelhas ao seu Pastor no Reino da Vida Eterna.

518.10E Jesus, que até agora falou em voz alta, volta-se, e em voz baixa, diz a Sidônias, chamado Bartolomeu, que ficou o tempo todo diante dele com o seu cesto de maçãs cheirosas:

– Tu te esqueceste de tudo por causa de Mim. Agora, certamente irás ser castigado e perderás o emprego. Estás vendo? Eu te faço sofrer sempre. Por causa de mim perdeste a sinagoga e agora perderás o patrão…

– E que farei com tudo isso se eu já Te tenho? Para mim só Tu é que tens valor. Eu deixo tudo para seguir-te, contanto que o permitas. Deixa somente que eu vá levar estas frutas a quem as comprou e depois fico contigo.

– Vamos juntos. Depois iremos ao teu pai. Pois tu tens um pai e deves prestar-lhe honra, pedindo-lhe a bênção.

– Sim, Senhor. Tudo como quiseres. Depois, ensina-me muito, porque eu não sei nada, nada mesmo, nem mesmo ler e escrever, pois eu era cego.

– Não te preocupes com isso. A boa vontade te servirá de escola.

E se encaminha para tomar a estrada principal, enquanto a multidão fica comentando, discutindo e até brigando, na incerteza entre os diversos pareceres, que são sempre os de costume: Jesus de Nazaré é um possesso ou um santo? A multidão, em discordância, fica discutindo, enquanto Jesus vai-se afastando.

1 fala, em Isaías 61,1.
2 está dito, como em Isaías 11,1.10; Jeremias 23,5-6.
3 por quarenta anos, como é mencionado em Êxodo 16,35.


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