287. 287. De Ramot a Gerasa com a caravana do mercador.
26 de setembro de 1945.
287.1Na luz ainda um pouco fraca desta manhã um tanto ventosa, a singularidade deste povoado apoiado sobre uma plataforma rochosa, erguida entre uma coroa de picos, uns mais altos, outros mais baixos do que ele, aparece em toda a sua beleza característica. Parece uma grande bandeja de granito, tendo sobre si apoiadas casas, casinhas, pontes, fontes, para o divertimento de um menino gigante.
As casas parecem ter sido entalhadas na rocha calcária, que constitui a matéria básica desta região1. Esquadradas em blocos superpostos, mas sem nenhum revestimento de reboco, outros nem mesmo trabalhados, até parecem mesmo as casinhas de um presépio construído com cubos por alguma criança engenhosa.
E, ao redor de todo este pequeno povoado, pode-se ver a sua fértil campina cheia de árvores, com culturas variadas, as quais, vistas do alto, parecem um tapete feito de quadrados, de trapézios, de triângulos, outros amorenados pela cor da terra recentemente capinada, outros ainda verdes como esmeraldas, por causa da erva que já nasceu, depois das chuvas de outono e os que vão ficando avermelhados pelas extremas folhas das videiras e dos pomares, outros, enfim, de um verde cinzento por causa dos choupos e salgueiros, ou do verde esmalte dos carvalhos e das alfarrobeiras, ou ainda de um verde bronze, que é devido aos ciprestes e às coníferas. É muito, muito belo!
Há estradas que vão, como fitas que saem de um nó, ou seja, do povoado para a planície distante ou então para os montes, até para os mais altos, e descem por baixo dos bosques, ou separam, com sua cor cinzenta, o verde dos prados cor de amora dos campos arados.
Vê-se um risonho curso d’água, que é cor de prata, para lá do povoado, que é de um azul desbotado meio cor de jade, na parte oposta onde está a descida para o vale, por entre gargantas e declives, que numa hora aparece e noutra desaparece, brincalhão, cada vez mais crescido e mais azul, pois vai aumentando pouco a pouco o volume de suas águas, não permitindo mais que os caniços nascidos em seu fundo nem as ervas de seu fundo o pintem de verde nos meses da seca, mas agora está refletindo o céu, tendo sepultado os caules sob um espesso véu de águas profundas.
O céu está de um azul irreal: uma escama preciosa de um azul esmalte forte, sem nenhuma rachadura, em seu conjunto maravilhoso.
287.2A caravana põe-se assim de novo em movimento, com as mulheres ainda a cavalo, porque, como diz o mercador, a estrada é difícil através desta região, e é preciso percorrê-la logo, para se poder chegar a Gerasa já de noite. Cobertos com seus mantos, bem dispostos, porque bem descansados, vão indo, ligeiros, pela estrada que vai subindo por baixo de uma mata bem cerrada e que passa rente aos altos barrancos de um monte solitário, que se ergue como um enorme bloco sobre as costas dos outros montes subjacentes. Um verdadeiro gigante, semelhante ao qual só se encontra nos pontos mais altos do nossos Apeninos.
– Galaad –diz, fazendo um sinal, o mercador, que permanece perto de Jesus, o qual vai segurando sempre as rédeas do burrinho da Virgem.
E acrescenta:
– Depois disto, a viagem é melhor. Já estiveste por aqui?
– Nunca. Queria vir na primavera. Mas em Gálgala fui repelido.
– Repelido, Tu? Que erro!
Jesus olha para ele, e se cala.
O mercador trouxe para sua sela Marziam, que estava de fato passando mal com suas perninhas curtas, para manter a distância, atrás do passo rápido dos cavalos. E Pedro é que sabe se esse passo é rápido! Ele faz todo o esforço para caminhar à frente, e é imitado pelos outros, mas vai ficando sempre um tanto distanciado da caravana. Está suado, mas está contente porque ouve Marziam rir, vê repousada a Senhora, e alegre o Senhor. Fala, esbaforido, com Mateus e com seu irmão André, que são os que vão na retaguarda como ele, e faz que eles se riam, dizendo que, assim como tem pernas, se tivesse asas, seria bem feliz, naquela manhã. Ele se desembaraçou de todos os pesos, como os outros, amarrando os sacos nas selas das mulheres, mas a estrada é difícil mesmo, ainda mais nos lugares em que se vai pisando sobre as pedras que o orvalho fez ficar escorregadias. Os dois Tiagos, juntos com João e Tadeu são os mais valentes, e dão seus passos ao mesmo tempo que as mulas das mulheres. Simão Zelotes fala com João de Endor. Timoneu e Hermasteu também se ocupam em guiar os burros.
287.3Finalmente, a pior parte já passou e um grande e diferente cenário se abre aos olhos admirados. O vale do Jordão desapareceu completamente. Agora os olhares se espalham para o lado do oriente, por cima de um altiplano de grande extensão, sobre o qual somente uma encrespadura de colinas faz um leve sinal de querer elevar-se, para quebrar a monotonia da paisagem. Eu nunca teria pensado que pudesse haver na Palestina uma coisa assim. Parece que, depois da tempestade rochosa dos montes, ela se tenha petrificado e sossegado, transformando-se em um enorme vagalhão, que ficou suspenso entre o nível do fundo e o céu, com uma única lembrança da sua primitiva fúria, e que ficou naquelas fileiras de colinas, com a espuma das cristas solidificada aqui e ali, enquanto que a água do vagalhão se esparramou, formando esta superfície plana de maravilhosa beleza. E a esta região de paz luminosa se chega, atravessando uma última garganta, selvagem como é o abismo entre dois vagalhões que se chocam, os dois últimos vagalhões de uma tempestade no mar, em cujo fundo há uma torrente espumante, que corre para o oeste, vinda do leste por um agitado e furioso caminho, por entre rochas e cascatas, e que contrasta tanto com aquela paz lá ao longe, no enorme planalto.
– Agora o caminho vai ser bom. Se permites, eu vou dar ordens de parar –diz o mercador.
– Eu me deixo guiar por ti, homem. Tu sabes.
Descem todos e se espalham pelo declive, indo procurar lenha para cozinhar os alimentos, água para os pés cansados e para as gargantas sedentas. Os animais, aliviados do peso de suas cargas, estão pastando a erva viçosa, e descem para onde possam beber a água límpida da torrente. Pelo ar se espalha o cheiro de resinas e de carne assada: ele vem de pequenas fogueiras, que eles já acenderam, e já começaram a assar os cordeiros.
Os apóstolos já prepararam também o seu pequeno fogo, e sobre ele estão esquentando peixes salgados, depois de os terem lavado na água fresca da torrente. Mas o mercador vê isso, e se aproxima deles, levando um cordeirinho já esfolado, ou um cabritinho, e os obriga a aceitá-lo. E Pedro se prontifica a assá-lo, depois de tê-lo enchido com poejos frescos.
A refeição é logo preparada, e logo consumida. 287.4E, debaixo de um sol que está em pleno meio-dia, a marcha é retomada por um caminho melhor, que vai ladeando a torrente, em direção ao nordeste, por uma região de uma fertilidade maravilhosa e muito bem cultivada, rica de ovelhas e de manadas de porcos, que fogem grunhindo, diante da caravana.
– Aquela cidade murada é Gerasa, Senhor. Cidade de grande futuro. Agora ela está se formando, e creio não errar, se disser que ela logo irá competir com Jope e Ascalon, com Tiro e com muitas outras cidades pela beleza, comércio e riqueza. Os romanos estão vendo a importância dela, colocada sobre esta estrada que, do Mar Vermelho, e, portanto, do Egito, passando por Damasco, vai até o Mar do Ponto. E os gerasenos ajudam a construí-la… Eles têm olhos e faro muito bons. Por enquanto, ela tem só bons negócios. Mas depois!… Oh! Ela será bela e rica! Será uma pequena Roma com templos e piscinas, circos e termas. Eu aí só tinha negócios, mas agora já adquiri aí muitos terrenos, para neles construir empórios, e vende-los a alto preço daqui a pouco, talvez para construir uma casa de grão-senhor, e vir para ficar aí em minha velhice, quando Baltasar, Nabor, Félix e Sidmia já estiverem podendo, respectivamente, tomar conta dos empórios e administrá-los em Sinopo, em Tiro, em Jope, e em Alexandria, que fica na foz do rio Nilo. Enquanto isso, irão crescendo os outros três filhos homens, e eu lhes darei os empórios de Gerasa, de Ascalon, e de Jerusalém talvez. E as moças, ricas e belas, serão cortejadas e farão bons casamentos, e me darão muitos netos…
O mercador está sonhando, de olhos abertos, com um futuro mais cor-de-rosa e dourado.
287.5Jesus, calmo, lhe pergunta:
– E depois?
O mercador estremece, olha, perplexo, para Jesus, e depois diz:
– E depois? Basta. Depois virá a morte… É triste. Mas é assim.
– E deixarás todas as atividades? Todos os empórios? Todos os afetos?
– Mas, Senhor! Eu não quereria isso. Mas, assim como nasci, também tenho que morrer. E deverei deixar tudo –e dá um suspiro tal, que faz andar para a frente a caravana com seu sopro.
– Mas, quem te diz que com a morte se deixa tudo?
– Quem? Ora, os fatos. Uma vez mortos… Nada mais. Nem mãos, nem olhos e ouvidos.
– Tu não és somente mãos, olhos e ouvidos.
– Eu sou um homem. Eu sei. Tenho outras coisas. Mas tudo se acaba com a morte. É como o pôr-do-sol. Ele muda tudo…
– Mas a aurora torna a criá-lo, ou melhor, no-lo reapresenta. Tu és um homem, como disseste, não és um animal, como esse que estás cavalgando. Ele, uma vez morto, de fato se acabou. Mas tu, não. Tu tens uma alma. Não sabes disso? Nem isso tu sabes mais?
O mercador ouve a triste censura, triste e doce, e inclina a cabeça, murmurando:
– Isto eu ainda sei…
– E, então? Não sabes que a alma sobrevive?
– Eu sei.
– E, então? Não sabes que ela sempre tem uma atividade na outra vida? Uma atividade santa, se ela for santa. Má, se ela for má. Ela tem os seus sentimentos. Oh! Se tem! De amor, se for santa. De ódio, se for condenada. Ódio por quem? ódio pelas causas de sua condenação. No teu caso são as tuas atividades: os empórios, os afetos totalmente humanos. E de amor por quem? Pelas mesmas coisas. E, que bênçãos para os filhos e para as atividades dos filhos não lhes poderá dar uma alma que estiver na paz do Senhor?
O homem está pensativo. Depois ele diz:
– É tarde. Já estou velho.
E faz parar o burro. Jesus sorri, e responde:
– Eu não te obrigo. Eu te aconselho.
E depois se vira, e fica olhando para os apóstolos que, nesta última etapa, antes de entrarem na cidade, estão ajudando as mulheres a descer e apanhando os seus sacos.
287.6A caravana parte dali, e vai entrando logo na cidade, pela porta que é vigiada das torres, nesta cidade de tráfego intenso.
O mercador volta até Jesus:
– Queres ficar ainda comigo?
– Se tu não me repeles, porque haveria Eu de não querer?
– Por aquilo que eu te disse. Eu devo estar causando-te náuseas, porque Tu és Santo.
– Oh! Não! Eu vim para aqueles que são como tu. Eu vos amo, porque sois os mais necessitados. Tu ainda não me conheces. Mas Eu sou o Amor que passa mendigando amor.
– Então, não me odeias?
– Eu te amo.
O homem está com um brilho em seus olhos fundos. Mas, ele diz, com um sorriso:
– Então, vamos ficar juntos. Em Gerasa, eu pararei três dias para negócios. Lá eu deixarei os burros, e passarei a usar camelos. Eu tenho um ponto de caravanas em cada lugar de parada maior, e tenho um servo cuidando dos animais que eu deixo no lugar. E Tu, que farás?
– Evangelizarei no sábado. Eu te teria deixado, se tu não tivesses parado, porque o sábado é um dia consagrado ao Senhor.
O homem franze a testa, pensa e, como alguém que sente muita dificuldade, afinal concorda:
– Sim. É verdade. É consagrado ao Deus de Israel. É consagrado. É consagrado.
Ele olha para Jesus…
– Eu te consagrarei, se me permites.
– A Deus. Não ao Servo.
– A Deus e a ti, ouvindo-te. Farei hoje e amanhã de manhã os meus negócios. E depois te ouvirei. Vais para o albergue agora?
– É preciso. Estou com as mulheres, e aqui sou desconhecido.
– Aqui está a minha propriedade. É minha, porque nela estão as minhas cavalariças todos os anos. Mas eu tenho amplos quartos para as mercadorias. Se quiseres…
– Que Deus te recompense por isso. Vamos.
1 desta região, da qual MV fez dois esboços sobre a face interna de um folheto dobrado, que costurou entre as páginas autografadas do caderno. Sobre o esboço da esquerda, se lê: Como se apresenta no panorama Ramot – Judeia – Planície do Jordão – Mar Morto – Jordão – Planície além Jordão – Galaad – Ramot. Sobre o esboço da direita, se lê: Como depois de ter superado os montes – Gerasa – Altiplano. Sobre a face externa do folheto, MV escreveu: Fazer cadeias montanhosas tão próximas não é fácil, e eu só farei bem pouco. Porém muito embrionariamente o esboço serve para dar ideia, ainda mais se nos ajuda com a descrição.
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