61. 61. Jesus faz o bem aos pobres depois de ter contadoa parábola do cavalo amado pelo rei.


4 de novembro de 1944.

61.1 Jesus subiu a um monte de cestas e cordas que está à entrada do pomar da casa da sogra de Pedro. O pomar está apinhado de gente. Também há gente junto à margem do lago, uns sentados, outros sobre os barcos que foram puxados para a terra. Parece que Ele já vinha falando por algum tempo, porque seu discurso já vai bem adiantado. Eu o ouço:

– … Certamente vós muitas vezes, em vosso coração, já tereis pensado assim. Mas não é bem assim. O Senhor não faltou à benignidade para com o seu povo, ainda que este tenha faltado à fidelidade para com Ele mil e dez mil vezes.

Ouvi esta parábola. Ela vos ajudará a entender.

Um rei tinha muitos e esplêndidos cavalos em suas estrebarias. Mas ele gostava de um deles com uma estima toda especial. Antes de possuí-lo, o rei o tinha almejado muito; depois, tendo-o adquirido, colocou-o num lugar delicioso, para onde ele se dirigia, com os olhos e o coração, só para tornar a ver aquele seu predileto, sonhando fazer dele um dia a maravilha do seu reino. E, quando o cavalo, rebelando-se contra todos os comandos, havia desobedecido e fugido para outro patrão, o rei, ainda que com dor, em seu rigor, tinha prometido ao rebelde o perdão, depois de tê-lo castigado. E, fiel a isso, mesmo de longe, velava sobre o seu predileto, mandando-lhe presentes e guardas que o conservassem com a lembrança do dono em seu coração.

Mas o cavalo, ainda que sofrendo por estar exilado do reino, não era constante, como o rei o era, em amar e desejar o perdão completo. E, se em certos tempos era bom, em outros tempos era mau; nem o bom era maior do que o mau. Pelo contrário. Contudo, o rei tinha paciência; com censuras e carícias procurava fazer do seu cavalo mais querido um dócil amigo. Quanto mais o tempo passava, mais o animal se mostrava rebelde. Invocava o seu rei, chorava sob o chicote dos outros patrões, mas não queria ser verdadeiramente do rei. Não tinha vontade de o ser. Esgotado, oprimido e gemente, não era capaz de dizer: “Por culpa minha é que estou assim”, mas acusava ao seu rei.

Este, depois de ter tentado de tudo, recorreu a uma última prova. “Até agora, disse, eu mandei mensageiros e amigos. Agora vou mandar o meu próprio filho. Ele tem o mesmo coração meu e falará com o mesmo amor que eu, terá carícias e presentes semelhantes aos que eu tinha; aliás, ainda mais doces, porque meu filho sou eu mesmo, mas sublimado no amor.” E mandou o seu filho.

Esta é a parábola. 61.2Agora dizei-me vós: Achais que o rei amava o seu animal preferido?

O povo responde a uma só voz:

– Infinitamente o amava.

– Podia o animal lamentar-se do seu rei, por todo o mal que sofreu, por tê-lo abandonado?

– Não, não podia –responde a multidão.

– Respondei-me ainda ao seguinte: aquele cavalo, segundo o vosso parecer, como terá recebido o filho do rei, que ia para resgatá-lo, curá-lo e levá-lo novamente para o lugar de delícias?

– Com alegria, naturalmente, com reconhecimento e afeto.

– Mas, se o filho do rei tiver dito ao cavalo: “Eu vim para isto e para fazer-te isto, mas tu precisas ser bom, obediente, cheio de boa vontade e fiel a mim”, que achais que o cavalo terá respondido?

– Oh! Não é preciso perguntar! Ele terá respondido que sabia bem o que lhe custava ser expulso do reino e que queria ser como o filho do rei dizia.

– Então, segundo vós, qual era o dever daquele cavalo?

– Ser ainda melhor do que lhe estava sendo pedido, mais afetuoso, mais dócil, para ser perdoado do mal passado, em reconhecimento pelos bens obtidos.

– E se ele não tivesse feito assim?

– Seria digno de uma morte, porque seria pior do que uma fera selvagem.

– Amigos, vós julgastes bem. Mas fazei também vós como quereríeis que o cavalo fizesse. Vós, homens, criaturas prediletas do Rei dos Céus, Deus, meu Pai e vosso; vós a quem, depois dos Profetas, foi mandado por Deus o seu próprio Filho, sede, oh! sede — eu vos conjuro pelo vosso bem e porque vos amo como só um Deus pode amar, aquele Deus que está em Mim para operar o milagre da Redenção — sede, ao menos, como vós julgais que deve ser aquele animal. Ai daquele que rebaixa a si próprio, homem, a um grau inferior ao do animal! Mas, se ainda podia haver desculpa para aqueles que até o momento presente estavam pecando — porque muito tempo e muita poeira do mundo já passaram, desde quando foi dada a Lei, e sobre esta se pousou — agora já não podeis mais. Eu vim para trazer-vos de novo a palavra de Deus. O Filho do homem está entre os homens para levá-los novamente a Deus. Segui-me. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

61.3 Ouve-se o murmúrio de costume por entre a multidão.

Jesus, então, ordena aos discípulos:

– Fazei que os pobres venham para a frente. Para eles Eu tenho a rica oferta de alguém que a eles se recomenda para obter o perdão de Deus.

Vêm avante três velhinhos esfarrapados, dois cegos e um encolhido; depois uma viúva com sete meninos macilentos.

Jesus os olha fixamente um por um, sorri para a viúva e especialmente para os orfãozinhos. Antes diz a João:

– Que essas pessoas sejam colocadas lá no pomar. Quero falar com elas.

Mas Ele se torna severo, com os olhos flamejantes, quando a Ele se apresenta um dos velhinhos. Porém, não diz nada no momento.

Jesus chama Pedro e faz com que ele lhe dê a bolsa recebida pouco antes e uma outra cheia de moedas menores, esmolas diversas recolhidas entre os bons. Despeja tudo sobre o banco que está junto ao poço, conta e divide. Faz seis partes: uma delas bem grande, toda com moedas de prata; cinco menores em dimensão, com muito bronze e só uma ou outra moeda grande. Chama os pobrezinhos doentes e lhes pergunta:

– Não tendes nada a dizer-me?

Os cegos se calam. Mas o encolhido diz:

– Que Aquele de quem vens te proteja.

E nada mais.

Jesus lhe põe a esmola na mão sã. O homem lhe diz:

– Que Deus te recompense. Mas, mais do que isto, eu de Ti queria a cura.

– Tu não a pediste.

– Sou pobre, um verme que os grandes pisam, não ousava esperar que Tu tivesses piedade de um mendigo.

– Eu sou a Piedade que se inclina sobre toda miséria que clama por Mim. Não rejeito ninguém. Não peço mais do que amor e fé, para dizer: “Eu vou te atender.”

– Oh! Meu Senhor! Eu creio! Eu te amo! Salva-me, então! Cura o teu servo!

Jesus põe a mão sobre aquele dorso curvado e a faz deslizar como que acariciando-o; diz então:

– Quero que sejas curado.

O homem se endireita, ágil e íntegro, com palavras de bênçãos infinitas.

61.4 Jesus dá a esmola aos cegos, e espera um momento para despedi-los…depois os deixa ir.

Chama os velhos. Dá ao primeiro uma esmola e o conforta ajudando-o a pôr na cinta as moedas.

Jesus se interessa piedoso pelas desventuras do segundo, que lhe conta a doença de uma filha:

– Só tenho essa! E agora ela está mor­rendo. Que será de mim? Oh! Se Tu pudesses ir lá! Ela não pode vir, não se mantém em pé. Queria… Mas não pode. Mestre, Senhor, Jesus, tem piedade de nós!

– Onde moras, pai?

– Em Corozaim. Pergunta por Isaque de Jonas, chamado o Adulto. Irás mesmo? Não te vais esquecer da minha desventura? E curarás a minha filha?

– Podes crer que Eu a possa curar?

– Oh! Se eu creio! Por isso é que Te estou falando dela.

– Vai para casa, pai. Tua filha estará à porta para te saudar.

– Mas ela está de cama e não pode levantar-se há três… Ah! Compreendi! Oh! Obrigado, Rabi! Bendito és Tu e Aquele que Te enviou! Louvor a Deus e ao seu Messias!

O velho vai chorando, coxeando, o mais rápido que pode. Mas quando já está quase saindo do pomar, ele diz:

– Mestre, mas irás assim mesmo à minha pobre casa? Isaque Te espera para beijar-te os pés, lavá-los com suas lágrimas e oferecer-te o pão do amor. Vai Jesus, eu falarei de Ti aos da cidade.

– Irei. Vai em paz e sê feliz.

61.5Vem para a frente o terceiro velhinho, que parece o mais esfarrapado. Mas Jesus só tem agora o monte maior de moedas. E Ele chama em voz alta:

– Mulher, vem com os teus pequeninos.

A mulher, jovem e macilenta, vem para a frente, de cabeça inclinada. Parece uma galinha choca, entre a sua triste ninhada.

– Desde quando és viúva, mulher?

– Faz três anos, na lua de Tisri.

– Quantos anos tens?

– Vinte e sete.

– São todos filhos teus?

– Sim, Mestre, e… e não tenho mais nada. Tudo se acabou… como posso trabalhar, se ninguém me quer com todos estes pequeninos?

– Deus não abandona nem o verme que Ele criou. Ele não te abandonará, mulher. Onde moras?

– Perto do lago, a três estádios fora de Betsaida. Ele me disse que viesse… Meu marido morreu no lago, era pescador.

“Ele” é André, que ficou corado, e querendo desaparecer.

– Fizeste bem, André, em dizer à mulher que viesse a Mim.

André se anima e murmura:

– O homem era meu amigo, era bom, e morreu durante uma tempestade, perdendo também seu barco.

– Toma mulher. Isto te ajudará por muito tempo; depois virá outro sol no teu dia. Sê boa, educa na Lei os teus filhos e não te faltará a ajuda de Deus. Eu te abençôo, a ti e aos teus pequenos.

E os acaricia um por um com grande piedade.

A mulher vai-se com o seu tesouro apertado sobre o coração.

61.6 – E a mim? –pergunta o velhinho que ficou por último.

Jesus olha para ele, e se cala.

– Nada para mim? Não és justo! A ela deu seis vezes mais do que aos outros e a mim nada. Mas… e era mulher!

Jesus olha para ele e se cala.

– Olhai todos se está havendo justiça! Eu venho de longe, porque me disseram que aqui se dava dinheiro; depois, estou vendo aqui quem ganha demais e a mim não se dá nada. Um pobre velho que é doente! E quer que se creia Nele!…

– Velho, não te envergonhas de mentir assim? Estás com a morte atrás de ti, e mentes; procuras roubar de quem está com fome. Por que queres roubar dos irmãos a esmola que Eu recebi para distribuir com justiça?

– Mas eu…

– Cala-te! Deverias já ter compreendido pelo meu silêncio e pelo meu ato que Eu havia te conhecido; e,então, seguir o meu exemplo de silêncio. Por que queres que Eu te envergonhe?

– Eu sou pobre.

– Não. Tu és um avarento e um ladrão. Vives para o dinheiro e para a usura.

– Eu nunca emprestei com usura. Deus é minha testemunha.

– E isto não é usura, e da mais feroz, roubar de quem tem verdadeiramente necessidade? Vai. Arrepende-te. Para que Deus te perdoe.

– Eu te juro…

– Cala-te! Eu te ordeno. Foi dito: “Não jurarás em falso.” Se Eu não tivesse respeito pelos teus cabelos brancos, Eu daria uma busca em ti e em teu peito acharia uma bolsa cheia de ouro, que é o teu coração. Vai-te embora.

Mas agora o velhinho, envergonhado, vendo-se descoberto em seu segredo, vai-se embora sem que seja necessário o som de trovão que há na voz de Jesus.

A multidão o ameaça, o escarnece e o insulta como a um ladrão.

– Calai-vos! Se ele errou não queirais vós também errar. Ele falta com a sinceridade, é um desonesto. Vós, se o insultardes, faltais com a caridade. Ao irmão, que comete uma falta, não se insulta. Cada um tem o seu pecado. Ninguém é perfeito, a não ser Deus. Eu precisei envergonhá-lo, porque não é lícito ser ladrão e, menos ainda, ladrão que rouba dos pobres. Mas só o Pai é que sabe quanto sofri por dever fazer isso. Vós também sofrei com isso, ao verdes que um de Israel falta contra a Lei procurando defraudar o pobre e a viúva. Não sejais cobiçosos. Que o vosso tesouro seja a vossa alma, não o dinheiro. Não sejais perjuros. Que a vossa linguagem seja sincera e honesta como as vossas ações. A vida não é eterna e a hora da morte chega. Vivei de modo que na hora da morte a paz possa estar em vosso espírito. A paz de quem viveu como um justo. Ide para as vossas casas…

61.7 – Piedade, Senhor! Este meu filho é mudo, por causa de um demônio que o maltrata.

– E este meu irmão é semelhante a um animal imundo: ele se revolve na lama e come excrementos. E um espírito maligno o arrasta; ele, mesmo sem querer, faz coisas imundas.

Jesus se dirige para o grupo que o está implorando. Ele ergue os braços e ordena:

– Sai deles. Deixai a Deus as suas criaturas.

Entre gritos e barulho, os dois infelizes ficam curados. As mulheres que os conduziam prostram-se dando louvores a Deus.

– Ide para as vossas casas e sede reconhecidos a Deus. A paz esteja com todos. Ide.

A multidão vai-se, comentando os fatos. Os quatro discípulos colocam-se ao redor do Mestre.

– Amigos, em verdade Eu vos digo que em Israel estão todos os pecados, e os demônios aí fizeram sua morada. E não são possessões só aquelas que tornam mudos os lábios e levam os homens a viver como animais comendo sujeiras. Mas as mais verdadeiras e numerosas são aquelas que tornam os corações mudos para a honestidade e para o amor, fazendo deles um antro de vícios imundos. Oh! Meu Pai!

Jesus, abatido, se assenta.

– Estás cansado, Mestre?

– Cansado não, meu João. Mas desolado pelo estado dos corações e pela pouca vontade de se emendarem. Eu vim… mas o homem… o homem… oh! Meu Pai!…

– Mestre, eu Te amo, nós todos Te amamos.

– Eu sei disso. Mas sois tão poucos… e meu desejo de salvar é tão grande!

Jesus abraça João e mantém a cabeça dele sobre a sua. Está triste. Pedro, André, Tiago, ao redor Dele, olham-no com amor e tristeza.

E a visão cessa assim.