591. 591. A tarde no Getsêmani. Os apóstolossão chamados à realidade depois da ebriedade do triunfo.


4 de março de 1945.

591.1Jesus está com os seus naquela paz do Horto das Oliveiras. O entardecer já chegou. É um entardecer morno de lua cheia. Estão sentados sobre as cadeiras naturais, que são algumas saliências por baixo das oliveiras, justamente as primeiras que se deixam ver sobre a pracinha natural que forma uma clareira, logo no começo. O Cedron rumoreja contra os seus seixos e parece estar conversando sozinho. Ouve-se um ou outro canto de rouxinol. Algum sopro da brisa. E nada mais.

Jesus fala.

– Depois do triunfo desta manhã, bem diferente está o vosso espírito. Que é que eu devo dizer? Que ficou tranquilo? Oh! Sim! Segundo a humanidade ficou tranquilo. Entrastes na cidade tremendo por causa de minhas palavras. Parecia que cada um estava com medo, por si próprio, dos valentões que estão do outro lado dos muros, prontos a assaltá-lo e fazê-lo prisioneiro.

591.2Em cada homem há um outro homem que se revela nas horas de perigo. Nele há também o herói, que nas horas de maior perigo aflora daquele homem manso que todos sempre olhavam e julgavam não valer nada, o herói que, na hora da luta, diz: “Eis-me aqui!” e que diz ao inimigo, ao prepotente: “Vem cá! Vem medir-te comigo.” Há o santo que, enquanto todos fogem atemorizados diante da ferocidade dos que querem fazer vítimas, lhes diz: “Levai-me como refém e como vítima. Eu pagarei por todos.” E há o cínico, que da infelicidade dos outros quer tirar proveito para si próprio e ainda ri sobre os corpos mortos das vítimas. Há o traidor, que tem uma coragem que lhe é própria: a de fazer o mal. O traidor é uma amálgama do cínico com o velhaco, que é também uma das categorias que gostam de se manifestar nas horas dolorosas. Porque cinicamente ele tira proveito de uma desventura e velhacamente passa para o partido mais forte, e ousa, contanto que daí leve vantagem, enfrentar o desprezo dos inimigos e as maldições dos abandonados. E, enfim, há o tipo mais comum, o do velhaco, que na hora séria só é capaz de ficar se queixando por ter-se dado a conhecer como sendo de um partido e seguidor de um homem, que agora estão atingidos pela maldição e têm que fugir… Esse velhaco não é tão delinquente como o cínico, nem tão repugnante como o traidor. Mas ele mostra a imperfeição de sua natureza espiritual. Vós… sois esses tais. Não digais que não. Eu leio em vossas consciências.

591.3Esta manhã, vós assim pensáveis falando um ao outro: Que é que nos acontecerá? Teremos que ser levados para a morte nós também. E a parte mais baixa gemia: “E em muito alto grau.” Sim. Ter-vos-ei enganado alguma vez? Desde as minhas primeiras palavras, Eu vos falei de perseguição e de morte. E quando um de vós, por um excesso de admiração, quis me ver e quis apresentar-me como um rei, um dos pobres reis desta terra, sempre pobre, mesmo sendo rei e restaurador do Reino de Israel, Eu logo corrigi aquele erro, e disse: “Eu sou Rei do espírito. Eu ofereço privações, sacrifício, dores. Não tenho outra coisa. Aqui na terra nada mais tenho a oferecer. Mas depois da minha e da vossa morte, na minha fé, Eu vos darei um Reino eterno: o Reino dos Céus.” Será que o que Eu vos disse foi diferente? Não. Vós dizeis que não.

E vós, então, me dizíeis também: “É só isso que queremos. Contigo, como Tu, por Ti queremos viver e ser tratados, e padecer.” Sim. Vós faláveis assim. E éreis bem sinceros. Mas era porque somente raciocináveis como crianças, como umas crianças distraídas. Pensáveis que para vós o seguir-me era fácil, e estáveis tão impregnados pela sensualidade que nem podíeis admitir que fosse verdade aquilo que Eu dizia. Vós pensáveis assim: “Ele é o Filho de Deus. E diz isso para provar o nosso amor. Mas Ele não poderá ser atacado pelo homem. Ele, que opera milagres, fará mais um em seu favor!” E cada um acrescentava: “Eu não posso crer que Ele vai ser traído, preso e morto.” Tão forte era aquela vossa fé humana no meu poder que chegáveis a não ter fé nas minhas palavras, a Fé verdadeira, espiritual, santa a e santificante.

“Ele, que faz tantos milagres, irá fazer também um em favor de Si próprio!”, dizíeis. Não um só, mas muitos desses milagres Eu ainda farei. Contudo, dois deles serão tais, como a mente humana nem pode pensar. Serão tais, como somente os que acreditam no Senhor poderão admitir. Todos os outros, nos séculos dos séculos, dirão: “É impossível!” E até depois da morte Eu serei objeto de contradição para muitos.

591.4Em uma amena manhã de primavera, Eu anunciei do alto de um monte as diversas bem-aventuranças. Há ainda mais uma: “Bem-aventurado aquele que sabe crer sem ver.” Eu já disse, andando pela Palestina: “Felizes daqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam.” E ainda: “Felizes daqueles que fazem a vontade de Deus”, e outras e mais outras Eu disse, porque na casa de meu Pai são numerosas as alegrias que estão esperando os santos. Mas também esta outra existe. Oh! Felizes daqueles que creem sem ter visto com os olhos corporais! Muitos santos haverá que, estando na terra, já estarão vendo Deus, o Deus escondido no Mistério de amor.

Mas vós, depois dos três anos que estais comigo, ainda não chegastes a ter essa fé. E só credes naquilo que vedes. Por isso, desde hoje de manhã, depois do triunfo, dizei: “É aquilo que nós dizíamos: Ele triunfa. E nós com Ele.” E como passarinhos que mudam as penas que foram arrancadas por algum malvado, vós vos pondes a voar, cheios de alegria, seguros, livres daquele aperto que minhas palavras vos haviam posto no coração. Ficastes mais aliviados, então, até no espírito? Não. Nisso estais ainda menos aliviados. Porque estais ainda mais despreparados para a hora que está chegando. Vós bebestes os hosanas como um vinho forte e agradável. E ficastes ébrios com ele. Será que um ébrio pode ser um forte? Basta a mãozinha de um menino para fazê-lo cambalear e cair. Assim sois vós. E bastará a aparição dos valentões para fazer-vos fugir como tímidas gazelas ao verem aparecer sobre uma das rochas do monte o focinho aguçado do chacal e, velozes como o vento, elas se dispersam pelas solidões do deserto.

591.5Oh! Tomai cuidado para que não morrais de uma sede horrível sobre aquela areia ardente, que é o mundo sem Deus! Não digais, não digais, ó meus amigos, o que diz1 Isaías, aludindo a esse vosso estado de espírito falso e perigoso. Não digais: “Este homem só sabe falar de conjuras, mas não é preciso ter medo, não é preciso ficar espantado. Não devemos temer aquilo que Ele nos profetiza. Israel o ama. E isso nós vimos.” Quantas vezes o tenro pé nu de um pequenino pisa nas ervas floridas do prado, colhendo flores para levá-las à mamãe, e crê encontrar somente caules e flores; e, ao contrário, pousa o calcanhar sobre a cabeça de uma serpente e leva uma mordida, e morre! As flores escondiam a serpente. Também esta manhã… Até nesta manhã! Eu sou o Condenado coroado de rosas. As rosas!… Quanto duram as rosas? Que é que sobra delas depois que sua corola se despetalou? Somente os espinhos.

Eu — Isaías o disse — serei para vós, e convosco digo que serei para o mundo, santificação, mas também uma pedra de tropeço, pedra de escândalo, um laço e uma ruína para Israel e para a Terra. Santificarei aqueles que tiverem boa vontade e farei cair e ser reduzidos a pedaços aqueles que tiverem má vontade. Os anjos não dizem palavras de mentira nem palavras de pouca duração. Eles vêm de Deus, que é Verdade e é Eterno, e o que dizem é verdade e palavra imutável. Eles disseram: “Paz aos homens de boa vontade.” Foi quando nascia, ó Terra, o teu Redentor. Mas para se obter a paz que vem de Deus, isto é, a santificação e a glória, é preciso ter “boa vontade.” É inútil o meu nascimento, inútil a minha morte para aqueles que não têm essa boa vontade. O meu vagido e o meu estertor, o meu primeiro passo e o último, a ferida da circuncisão e a da consumação terão sido em vão se em vós, se nos homens, não houver a boa vontade de se redimirem e se santificarem. Eu vo-lo digo: muitíssimos tropeçarão em Mim, que estou posto como uma coluna de sustentação e não como armadilha para o homem, e cairão porque estão ébrios de soberba, de luxúria, de avareza, e serão pegos na rede de seus pecados, presos e entregues a Satanás. Ponde estas palavras em vossos corações e selai-as para os futuros discípulos.

591.6Vamos. A Pedra se levanta2. Demos mais um passo para frente.

Para subirmos ao monte. Ele deve estar esplendente, lá no cume, porque ele é Sol, é Luz e é o Oriente. E o Sol já esplende sobre os cumes. Deve ser sobre o Monte, por que o Templo verdadeiro deve ser visto por todo o mundo. E por Mim mesmo Eu o edifico com a Pedra viva da minha Carne imolada. Eu colo as partes dela com a cal feita de suor e sangue. E ficarei sobre o meu trono, coberto com uma púrpura viva, coroado com uma coroa nova, e aqueles que estão longe virão a Mim, trabalharão no meu Templo, ao redor dele. Eu sou a base e o cume. Mas tudo ao redor se tornará sempre maior, e o tamanho da casa aumentará. Eu mesmo é que lapidarei as minhas pedras e formarei os meus operários. Pelo Pai, pelo Amor e pelo homem, e pelo ódio, Eu fui trabalhado a cinzel, assim Eu também os trabalharei. E, então, depois que em um só dia terá sido tirada a iniquidade da Terra, sobre a pedra do Sacerdote para sempre se voltarão os sete olhos a fim de verem a Deus, e desembocarão as sete fontes para vencerem o fogo de Satanás.

Satanás… Judas, vamos. E lembra-te de que o tempo urge e que na noite de quinta-feira3 o Cordeiro deve ser entregue.

1 diz, em: Isaías 8,12-16 inclusive para as citações que vêm a seguir.
2 A Pedra se levanta… é uma paráfrase de: Zacarias 3,9.
3 quinta-feira é de compreensão imediata para o leitor de hoje, que se adapta à linguagem da obra valtortiana. Nos títulos dos próximos capítulos, como acontece muitas vezes no texto da obra, são mencionados os dias da semana (outro exemplo: sexta-feira em 174.17) que, ao invés, não tinham um nome – exceto sábado (nota em 407.1) e parasceve (nota in 372.5) – para os judeus daquele tempo.


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