368. 368. Quinta-feira antes da Páscoa.Em Jerusalém, no Templo.


24 de janeiro de 1946.

368.1 Não vejo a distribuição dos alimentos aos leprosos de Hinon, e deles só ouço a conversação, mas parece-me que não tenha havido milagres entre eles, pois Simão Pedro diz:

– A solidão atroz não lhes deu a graça de crer e conhecer onde está a Salvação.

Depois, a cidade os acolhe, pela porta que conduz ao populoso e barulhento subúrbio de Ofel.

E, tendo andado alguns metros, da porta entreaberta de uma casa, pula para fora, toda festiva, Anália, que presta sua reverência ao Mestre, dizendo:

– Tenho licença da mãe para ficar até à tarde contigo, Senhor.

– Não ficará descontente Samuel?

– Não há mais Samuel em minha vida, Senhor. E ao Altíssimo dou graças por isso. E que Ele somente me conceda que, como ele me deixou, não te deixe a Ti, ó meu Deus.

A boca juvenil sorri heroicamente, enquanto o brilho das lágrimas se mostra em seus castos olhos.

Jesus olha fixamente para ela, e lhe diz, como resposta:

– Vai unir-te às discípulas.

E retoma o seu caminho.

Mas a velha mãe de Anália, mais velha pelas dores do que pela idade, aproxima-se por sua vez, toda inclinada em uma respeitosa e humilde saudação, e diz:

– A paz esteja contigo, Mestre. Quando eu poderia te falar? Eu estou muito ansiosa!…

– Podes falar logo, mulher.

E, virando-se para os que estão com Ele, diz:

– Ficai aqui fora. Eu vou entrar um pouco nesta casa ali –e procura ir atrás da mulher.

Mas a Anália, que é do grupo das discípulas, o chama, com uma só palavra:

– Mestre!

Mas quanta coisa há nessa Palavra! E ela ainda une as mãos para dizê-la, como se estivesse suplicando…

– Não temas. Fica em paz. A tua causa está em minhas mãos, e também o teu segredo –garante-lhe Jesus.

Depois, rapidamente, Ele entra pela porta semi-aberra.

Fora estão comentando o fato, e as curiosidades dos homens e das mulheres estão apostando para saberem… saberem… saberem…

368.2 Do lado de dentro, se ouve e se chora. Jesus é quem ouve. Apoiado com suas costas à porta, que foi fechada por Ele mesmo logo que entrou, com os braços cruzados sobre o peito, está escutando a mãe da menina que, chorando, lhe fala da volubilidade do noivo, que se valeu de um pretexto para livrar-se de qualquer vínculo…

– Desse modo Anália ficou como uma repudiada, e nunca mais ela se casará, porque ela declarou que Tu não aprovas que, depois do repúdio, torne a casar-se. Mas não é assim não. Ela é ainda uma menina! Ela não se vende a si mesma a outro homem, porque de nenhum homem ela foi. E ele é culpado por sua crueldade. E por alguma coisa mais. Porque ele teve vontade de casar-se de novo, mas vai ser a minha filha que vai parecer ser culpada, e o mundo zombará dela. Toma providências, ó Senhor, pois isto está acontecendo por causa de Ti.

– Por causa de Mim, mulher? Em que foi que Eu pequei?

– Oh! Tu não pecaste! Mas ele diz que Anália te ama. E finge estar com ciúmes. Ontem à tarde, ele veio, e ela estava contigo. Ele se enfureceu, e jurou que não a queria mais por mulher. E Anália, que estava chegando naquela hora, lhe respondeu: “Fazes bem. Somente o que me desagrada é que vistas a verdade com as vestes da mentira e da calúnia. Tu sabes que só se ama a Jesus com a alma. Mas a tua alma já está corrompida, e abandona a Luz pela carne, enquanto que eu deixo a carne pela Luz. Não poderíamos mais ser um só pensamento, como devem ser dois esposos… Vai, pois, e que Deus vele sobre ti.” Não houve nem uma lágrima, compreendes? Nada que tenha tocado o coração do homem! As minhas esperanças ficaram decepcionadas! Ela… Certamente por irreflexão, causa sua própria ruína.

368.3Chama-a, Senhor. Fala-lhe. Convence-a pela razão. Procura o Samuel. Ele está na casa de Abraão, seu parente, na terceira casa depois da Fonte da Figueira. Ajuda-me! Mas antes fala com ela, e depois…

– Falar, eu falarei. Mas deverias dar graças a Deus, que dissolve um vínculo humano que, como está claro, não tem nenhuma garantia segura. O homem é volúvel e injusto para com Deus e para com sua mulher…

– Sim, mas é horrível que o mundo julgue que ela é culpada, e que Tu sejas culpado, só porque ela é tua discípula.

– O mundo acusa, e depois se esquece. O Céu, pelo contrário, é eterno. Tua filha será uma flor do Céu.

– Então, por que a fizeste viver? Ela teria sido uma flor, sem ter sido apedrejada pelas calúnias. Oh! Tu que és Deus, chama-a, fá-la raciocinar, e depois, chama Samuel à reflexão…

– Lembra-te, mulher, que nem Deus pode oprimir a vontade e a liberdade do homem. Eles, Samuel e tua filha, têm o direito de seguir o que acham que é bom para eles. Especialmente Anália tem direito a isso…

– Mas, por quê?

– Porque mais do que por Samuel, ela é amada por Deus. É de Deus a tua filha!

– Não. Em Israel isso não existe. A mulher deve ser casada. O meu casamento me garantia paz para os dias do futuro…

– A tua filha estaria no sepulcro, há um ano, se Eu não tivesse agido. Quem sou Eu para ti?

– Meu Mestre e Deus.

– E, como Deus e Mestre, Eu digo que o Altíssimo tem direitos mais do que qualquer outro sobre os seus filhos, e que muitas coisas vão ser mudadas na religião, e que, de agora em diante, será possível às virgens ficarem assim para sempre, por amor de Deus. 368.4Não chores, mãe. Deixa a tua casa e vem conosco hoje. Vem! Lá fora está minha Mãe e outras mães heroicas, que deram seus filhos ao Senhor. Une-te a elas…

– Fala com a Anália… Experimenta, Senhor! –geme a mulher, por entre soluços.

– Está bem. Eu farei como tu queres –diz Jesus.

E, aberta a porta, chama:

– Minha Mãe, vem cá com Anália.

As duas chamadas vão até Ele, imediatamente.

– Menina, tua mãe quer que Eu te mande pensar ainda. Ela quer que Eu fale ao Samuel. Que devo fazer? Que resposta me dás?

– Fala, então, ao Samuel. E eu até te suplico que o faças. Mas somente porque eu quereria que ele, ao ouvir-te, se tornasse um justo. Quanto a mim, Tu sabes. Eu te peço que dês à minha mãe a resposta mais verdadeira.

– Estás ouvindo, mulher?

– Qual é, então a resposta? –pergunta, com uma voz entrecortada, a velha que, logo às primeiras palavras da filha, esperava ouvir um arrependimento dela, mas depois compreendeu que não era bem isso.

– A resposta é que há já um ano que tua filha é de Deus, e seu voto é para sempre, enquanto ela estiver viva.

– Oh! Infeliz de mim! Que mãe existe mais infeliz do que eu?!

Maria deixa a mão da menina, para ir tomar em seus braços a mulher, dizendo-lhe docemente:

– Não peques com o teu pensamento e com a tua língua. Não é uma infelicidade dar a Deus um filho, mas é uma glória bem grande. Tu me disseste um dia que a tua dor era a de não ter tido mais do que uma filha, porque terias gostado de ter um filho homem consagrado ao Senhor. Mas não é um filho homem que tu tens, e sim um anjo, um anjo que irá à frente do Salvador, em seu triunfo! E queres dizer-te infeliz? Minha mãe espontaneamente me consagrou ao Senhor, desde a primeira palpitação que ela ouviu em seu seio, e era de mim, concebida por ela em idade tardia. E não me teve consigo mais de três anos. E eu também não a tive mais, a não ser no coração. Contudo, sua paz, ao morrer, foi por me ter dado a Deus. Vamos. Vem ao Templo para cantar o louvor Àquele que tanto te ama, que chegou a escolher a tua filha como esposa. Procura ter uma verdadeira sabedoria no coração. Verdadeira sabedoria é não pôr limites à sua própria generosidade para com o Senhor.

A mulher não está mais chorando. Fica ouvindo… E depois se decide. Pega o manto e se enrola nele. Mas, passando diante da filha, ainda suspira:

– Antes a doença, e agora o Senhor… Ah! Eu não devia ter-te…

– Não, minha mãe. Não fales assim. Nunca me tiveste como agora. Tu e Deus. Deus e tu. Somente vós, até à morte…

E a abraça docemente, com este pedido:

– Dá-me a tua bênção, mãe. Uma bênção… porque eu sofri muito, por ter-te feito sofrer. Mas Deus assim queria…

Beijam-se chorando. Depois saem, atrás de Jesus e de Maria, fecham a casa, e se enfileiram junto com os discípulos.

368.5 – Por que entramos aqui, Senhor? Não era melhor entrar pelo outro lado? –pergunta Tiago de Zebedeu.

– Porque, passando por aqui, passamos pela frente da fortaleza Antônia.

– E Tu esperas… Cuidado, Mestre!… O Sinédrio está de olho em Ti –diz Tomé.

– Como é que sabes disso? –pergunta Bartolomeu.

– Basta refletir no interesse dos fariseus em compreender. Dizei-me se, com mil pretextos, eles não estão vindo, continuamente, observar o que estamos fazendo!… Com que fim, a não ser para acharem alguma culpa no Mestre!

– Tens razão. Então, não vamos passar pela Antônia, Mestre. Se os romanos não te virem, tanto melhor.

– E nessa vossa razão, o que está mesmo em jogo não é bem um cuidado comigo, mas um desejo de passar por longe deles, não é mesmo, filho de Tomai? Como serias sábio, se tirasses do coração essas misérias! –responde Jesus, que continua a ir pelo seu caminho, sem dar ouvidos a ninguém.

Para irem até à Antônia, devem passar pelo Sisto, onde estão o palácio de Joana e o de Herodes, não muito longe um do outro. E Jônatas está na soleira da porta do palácio de Cusa, e, logo que vê Jesus, chama os de casa. Sai rapidamente Cusa, e faz uma inclinação. Depois dele, Joana, já pronta para unir-se ao grupo das discípulas.

Cusa fala:

– Ouvi dizer que hoje estás na casa de Joana. Concede a este teu servo a honra de ter-te como hóspede em um banquete.

– Sim. Contanto que me permitas fazer dele um banquete de caridade para os pobres e os infelizes.

– Como achares bom, Senhor. Manda que eu farei o que Tu queres.

– Obrigado. A paz esteja contigo, Cusa.

Joana pergunta:

– Tens alguma ordem para Cusa? Ele está à tua disposição.

– Eu lhe darei a ordem, depois de ter estado no Templo. Vamos, porque estamos sendo esperados.

Passam pouco depois ao lado do belo e cruel palácio de Herodes. Mas ele está fechado, como se não houvesse moradores nele. Passam ao lado da Fortaleza Antônia. Os soldados observam o pequeno cortejo do Nazareno.

368.6Entram no Templo. E, enquanto as mulheres param na parte inferior, os homens vão indo para o lugar que lhes toca. Chegam assim ao lugar onde são apresentados todos os meninos, e purificadas as mulheres. Um pequenino grupo de pessoas vai acompanhando uma jovem mãe, e para, a fim de observar as cerimônias do rito.

– É um pequeno consagrado ao Senhor! –diz André, que está observando a cena.

– E, se não me engano, é aquela mulher1 de Cesarareia de Filipe, aquela do Castelo. Ela passou diante de mim, enquanto Te estávamos esperando na Porta Dourada –diz Tiago de Alfeu.

– Sim. Com ela está também a sogra e o intendente do Filipe. Eles não nos viram. Mas nós os vimos –acrescenta Tadeu.

E Mateus diz ainda:

– Nós dois vimos também Maria de Simão, em companhia de um velho. Mas Judas não estava. A mulher parecia estar muito triste. E olhava ao redor de si, preocupada.

– Nós a procuraremos depois. Agora vamos rezar. E tu, Simão de Jonas, vai fazer a oferta no gazofilácio2. Por todos nós.

Rezam por longo tempo, sendo muito observados pelas pessoas que estão mostrando o Mestre.

368.7 Há uma breve altercação, na qual sobressai uma voz feminina aguda, que faz que virem para ela as cabeças os que estão orando menos recolhidos.

– Se eu aqui estive para oferecer o meu filho homem a Deus, posso permanecer aqui mais um pouco de tempo, para oferecê-lo Àquele que o salvou, ao Senhor –diz a voz aguda.

Mas umas vozes nasais de homem lhe replicam:

– Não é permitido à mulher deter-se aqui, depois do rito. Vai-te embora.

– Eu irei, mas atrás dele.

– Chama-o, então, e vai-te embora com Ele.

– Devagar! Devagar! Deixai que a mulher fale e nos explique como é que ela pode dizer que o Nazareno salvou para Deus o menino –diz uma voz arrastada de homem.

– E por que te preocupas tanto com isso, Jônatas de Uziel?

– Por que me preocupo com isso? Certamente isso é um novo pecado. É uma nova prova que temos. Escuta-me, mulher. Como foi que aquele homem salvou o teu filho? Queres dizê-lo a nós, que vivemos procurando com persistência a verdade? –pergunta, com voz melíflua, este fariseu, que para mim não é novo3.

– Oh! sim. É com gratidão que vou dizê-lo. Eu estava desesperada, porque meu menino havia nascido morto. Eu sou viúva, e este filho ia ser tudo para mim. Então, Ele veio, e lhe deu vida.

– Quando? Onde?

– Em Cesareia de Filipe. Eu sou do Castelo de Cesareia.

– A vida! Terá sido apenas algum desfalecimento do menino…

– Não. Ele estava morto. Minha mãe o pode dizer. E pode dizê-lo também o intendente do Castelo. O Senhor chegou e soprou em sua boca, e o menino estremeceu e soltou um vagido.

– E tu, onde estavas?

– Na cama, meu senhor. Eu tinha acabado de dar à luz.

– Oh! Que horror!

– Ah! Seja anátema!

– Impuro!

– Sacrílego!

– Estás vendo se eu tinha razão para fazer perguntas?

– És sábio, Jônatas de Uziel. Como tiveste a intuição?

– Eu conheço o homem. Eu o vi violar o sábado nas minhas terras da planície, para matar a fome.

– Vamos expulsá-lo daqui.

– Vamos referir o caso aos Príncipes dos Sacerdotes.

– Não. Vamos perguntar-lhe se ele já foi purificar-se. Não podemos acusar sem saber…

– Cala-te aí, Eleazar. Não te emporcalhes com uma defesa tão tola!

A jovem Dorcas, que estava no meio deles, e que foi a causa daquela confusão, tem uma explosão de pranto, e grita:

– Oh! Por minha causa não lhe façais mal!

368.8 Mas alguns daqueles agitados foram procurar o Senhor, e lhe disseram:

– Vem cá, e nos responde.

Os apóstolos e os discípulos estão nervosos, irados, e com temor. Jesus, calmo e cheio de dignidade, vai aos que o estão chamando.

– Reconheces esta mulher? –gritam eles, empurrando Dorcas para o meio do círculo que se formou e mostrando-a como se mostra uma leprosa.

– Sim. É uma jovem viúva e mãe, de Cesareia de Filipe. E aquela lá é a sogra dela. E aquele é o intendente do Castelo. E, então?

– Ela te acusa de teres entrado na casa dela, enquanto estava acontecendo o parto.

– Não é verdade, Senhor. Eu não disse isso. Eu disse que Tu fizeste voltar à vida o meu filho. E nada mais. Eu queria te prestar uma honra, e te estou ofendendo. Oh! Perdão, perdão!

O intendente do Filipe intervém em ajuda dela, e diz:

– Não é verdade. Vós estais mentindo. A mulher não falou assim, e disso eu sou testemunha, e estou pronto a jurar isso, e também que o Rabi não entrou no quarto, mas da soleira da porta operou o milagre.

– Cala-te, servo.

– Não. Não me calarei. E o irei dizer a Filipe, que respeita o Rabi mais do que vós, falsos devotos do Deus Altíssimo.

A altercação desliza da mulher para o terreno religioso e político. Jesus se cala. Dorcas chora.

368.9 Eleazar, o conviva justo do banquete em casa de Ismael, diz:

– Eu acho que se esclareceu a dúvida, e que caiu a acusação, e o Rabi, agora justificado, possa ficar livre para ir-se embora.

– Não. Eu quero saber se ele já se purificou, por ter tocado em um morto. Que Ele o jure por Javé –grita Jônatas de Uziel.

– Eu não me purifiquei, porque o menino não estava morto, mas só estava com dificuldade para respirar.

– Ah! Agora achas mais cômodo dizer que ele não ressuscitou, hein? –grita um fariseu.

– Por que não te gabas, como fizeste em Quedes? –pergunta um outro.

– Ora, não percamos tempo com palavras. Expulsa-o, e levemos a nova acusação ao Sinédrio. Já há um montão de acusações!

– Qual é a outra? –pergunta Jesus.

– Qual? É a de teres tocado na leprosa, sem teres ido purificar-te depois. Podes negar isso? E teres blasfemado em Cafarnaum, e a tal ponto, que os mais justos te abandonaram. Podes negá-lo?

– Eu não nego nada. Mas estou sem pecado, porque tu, Sadoque, que me acusas, sabes pelo marido da Anastásica, que ela não era leprosa, tu o sabes tu, o casamenteiro, cúmplice no adultério de Daniel, tu, um mentiroso diante do mundo em companhia dele, para favorecer a libidinagem dele, um imundo, e dando também o nome de lepra ao que não era lepra, e condenando uma mulher àquela tortura, que é ser a gente chamada de “leprosa” em Israel, somente porque tu és cúmplice do marido culpado.

O escriba Sadoque, um daqueles que estavam em Gíscala, e depois em Quedes, tendo sido assim ferido em cheio, afasta-se rapidamente dali, sem dizer mais nada. O povo vai atrás dele gritando e zombando dele.

– Silêncio. O lugar é sagrado –diz Jesus.

E ordena à mulher e aos que estão com ela:

– Vamos. Vinde comigo aonde Eu estou sendo esperado.

E se põe a caminho, sério e cheio de dignidade, acompanhado pelos seus.

368.10 Enquanto isso, a mulher, tendo sido interrogada por muitos, conta e torna a contar, repetindo cada vez:

– Meu filho é dele, e a Ele o consagro.

O intendente, por sua vez, aproxima-se de Jesus, e diz:

– Mestre, eu contei a Filipe o milagre. Ele me mandou dizer-te que te ama. Lembra-te disso, diante das insídias de Herodes… e dos outros. Mas ele também quer te ver e ouvir. Não irás à casa dele hoje? Ele te acolheria de boa vontade, até na Tetrarquia.

– Eu não sou um histrião, nem um mago. Sou o Mestre da Verdade. Venha à Verdade, e eu não o rejeitarei.

Eles estão no pátio das mulheres.

– Ei-lo! Ei-lo! –dizem as discípulas a Maria, que está preocupada com o atraso.

Todos se reúnem, e Jesus gostaria de despedir-se daqueles que são de Cesareia, para poder ir à procura da Maria, mãe de Judas, mas Dorcas se ajoelha, e diz:

– Eu estava te procurando antes dela, desta que tu estás procurando e que é mãe de um discípulo. Eu estava te procurando para dizer-te: “Este filho é teu. É meu filho homem unigênito, e eu o consagro. Tu és o Deus Vivente. Que ele seja o teu servo.”

– Sabes o que quer dizer isso? Quer dizer consagrar o teu filho à dor, perdê-lo como mãe e conquistá-lo como mártir no Céu. Tens a vontade de ser mártir em teu filho?

– Sim, meu Senhor. Mártir me iria fazer a morte dele, e do martírio de uma pobre mulher mãe. Mas por Ti eu o serei de uma maneira perfeita, agradável ao Senhor.

– E assim seja!… 368.11Oh! Maria do Simão, quando foi que vieste?

– Agora, com Ananias, meu parente. Eu também estava te procurando, Senhor…

– Eu sei. E mandei Judas dizer-te que viesses. Ele não veio?

A mãe de Judas inclina a cabeça, e murmura:

– Eu saí, logo depois dele, para… Eu corri para o Templo… E agora te encontro… Em tempo para ouvir esta moça, já mãe, e tão feliz!… Oh! Eu gostaria de poder falar-te como ela, e a respeito de um Judas recém-nascido, doce… doce… como um destes cordeirinhos…

E, chorando, ela mostra os cordeiros balindo e que vão indo para o sacrificador. Ela se enrola em seu manto, para esconder o pranto.

– Vem comigo, mãe. Nós conversaremos em casa de Joana. Aqui o lugar não é próprio.

As discípulas põem Maria, mãe de Judas, no meio do seu grupo, enquanto o parente dela, Ananias, vai para o meio dos discípulos. Também Dorcas e sua sogra vão para o meio das discípulas e Maria de Alfeu, junto com Salomé vão, extasiadas, acariciar o pequenino.

Eles se põem a caminho da saída. Mas, antes de lá chegarem, eis que um escravo romano chega trazendo uma tabuinha encerada para Joana, que a lê, e responde:

– Dirás que sim. Depois do meio-dia, comigo, no palácio.

Depois se ouve o grito de alegria de Jáia e de sua mãe, ao verem o Salvador:

– Ei-lo, ei-lo, eis o Doador da luz! Bendito sejas Tu, ó Luz de Deus!

E ficam com a fronte por terra, felizes. O povo se comprime, pergunta, compreende e entoa hosanas.

Depois é o velho Matias, o homem que na noite tempestuosa hospedou Jesus e os seus, perto de Jabes-Galaad, e lhe presta os seus respeitos, e o bendiz.

Depois é o avô de Marziam e os outros camponeses, aos quais Jesus, depois de ter falado com Joana, diz:

– Vinde comigo –como Ele já disse a Dorcas, a Jáia, a Matias.

368.12 E, perto da Porta Dourada, está Marcos de Josias, o discípulo infiel, que está falando animadamente com Judas Iscariotes. Judas vê que o Mestre vem vindo, e o diz ao seu companheiro. Este se vira, quando Jesus já está às suas costas. Seus olhares se cruzam. E, que olhar o de Cristo! Mas o outro já está surdo a todo santo poder. E, para fugir dali mais depressa, quase que empurra Jesus contra uma coluna. E Jesus, com toda reação, diz:

– Marcos, para. Por piedade para com tua alma, e para com tua mãe!

– Satanás! –grita o outro, e vai-se embora.

– Que horror! –gritam os discípulos–. Mas, amaldiçoa-o, Senhor!

E o primeiro a dizer isso é Judas Iscariotes.

– Não. Eu não seria mais Jesus… Vamos.

– Mas, como, como é que ele chegou a ficar assim? Ele era tão bom!

–diz Isaque, que parece estar transpassado por uma flecha, pelo tanto que ele se sente amargurado com a mudança de Marcos.

– É um mistério. Uma coisa inexplicável –dizem muitos.

E Judas de Keriot:

– Sim. Eu o estava fazendo falar. Era uma heresia completa. Mas, como ele se impõe! Quase que nos persuade. Ele não era tão sábio, quando era um justo.

– Deves dizer que ainda não era tão doido, quando estava endemoninhado perto de Gíscala! –diz Tiago do Zebedeu.

E João pergunta:

– Por que, Senhor, quando ele estava endemoninhado, te fazia menos mal do que agora? Não poderias curá-lo, para que não te faça mal?

– É porque agora deu acolhida em si mesmo a um demônio inteligente. Antes, ele era como um albergue tomado à força por uma legião de demônios. Mas faltava o consentimento para tê-lo. Agora sua inteligência quis Satanás, e Satanás introduziu nele uma força demoníaca inteligente. Contra essa segunda possessão. Eu nada posso. Eu teria que violentar a vontade livre do homem.

– Tu estás sofrendo, Mestre?

– Sim. São as minhas angústias… as minhas derrotas. E o que mais me entristece é porque são almas que se perdem. Somente por isso, não pelo mal que me fazem.

368.13 Parados como estão, esperando ter a estrada livre de gente e de cavalgaduras, todos estão em círculo. E o olhar da mãe do Judas é um olhar tão penetrante, que o seu filho lhe pergunta:

– Mas, afinal, que tens? Estás vendo o meu rosto pela primeira vez? Em verdade, estás doente, e preciso fazer que te curem…

– Não estou doente, meu filho! E não é a primeira vez que te vejo!

– E, então?

– E, então… nada. Eu somente desejaria que tu não merecesses nunca aquelas palavras do Mestre.

– Eu não o abandono, nem o acuso. Eu sou o seu apóstolo!

Recomeçam a caminhar, até que Jesus para, a fim de saudar Joana e as discípulas, que estão indo com Joana para a casa dela. Os homens, por sua vez, vão todos para o Getsêmani.

– Podíamos ir todos para lá. Eu gostaria de ver o que Elisa ia dizer –resmunga entre os dentes Pedro.

– Tu o verás. Porque só hoje é que ela vai saber, e por meio de Mim, que Eu lhe confio Anastásica.

– O banquete será esta tarde?

– Sim. Eu já disse a Joana o que deve fazer.

– Que é que ela deve fazer? Quando foi que lhe falaste? –perguntam mais que um.

– Vós o vereis. Antes de deixá-la. Enquanto a estava saudando. Vamos logo, para estarmos cedo no jardim de Joana.

1 mulher, que é Dorca, encontrada em 345.3/5.
2 gazofilácio dizia-se do ambiente interno ao recinto do Templo onde os fieis depositavam as ofertas em dinheiro. Assim é chamado em João 8,20; mas as novas traduções usam lugar do tesouro. Na obra encontra-se, por exemplo, em 197.3 - 523.8 - 596.4 - 645.2; e poderia ser o vasto cômodo bem decorado de 506.1.
3 para mim não é novo, porque já encontrado em 207.2/4.


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