502. 502. Outro desconforto de Pedro e liçãosobre as possessões, sejam divinas ou diabólicas.


25 de setembro de 1946.

502.1Acabaram de passar o vau de Betânia. Através do rio azul e bastante cheio de água, por ter sido alimentado pelos afluentes, todos eles cheios pelas chuvas do outono, vê-se do outro lado a margem oriental, onde estão muitas pessoas fazendo gestos. Na margem ocidental, ao contrário, que é onde estão Jesus e os seus, só há um pastor e um rebanho que está pastando a erva verde da margem.

Pedro vai pôr-se sentado sobre as ruínas de um pequeno muro que por ali se encontra, sem nem ter enxugado as pernas molhadas na travessia do vau. Porque nesta estação usam as barcas, é verdade, mas não para arrastá-las na areia em um lugar de águas rasas como este, mas as usam na parte mais funda, parando para deixar os passageiros nos lugares onde a quilha passa, esfregando-se nas ervas do fundo. Desse modo, por poucos que sejam os passos a serem dados, hão de ser dados dentro da água.

– Que tens? Estás sentindo-te mal? –perguntam-lhe.

– Não. Mas não posso mais com isto. No alto do Nebo, aquela violência. Antes foi em Esebon e antes de lá, em Jerusalém, e em Cafarnaum. Depois do Nebo, em Caliroé e agora em Betábara… Oh!

Ele inclina a cabeça entre as mãos e chora…

– Não te entristeças, Simão. Não me faças ficar privado até da tua, da vossa coragem! –diz-lhe Jesus, indo para perto dele e pondo uma mão sobre a pesada veste cinzenta com que se cobre o apóstolo.

– Não posso, não posso nem ver. Não posso ver-te sendo maltratado assim… Se me deixasses reagir, talvez eu pudesse. Mas assim… eu ter que me conter… e ficar ouvindo os insultos deles aos teus sofrimentos, como um pequenino inocente. Oh! Isso me arrebenta todo por dentro e viro um trapo… Mas olhai se é possível ficar vendo-o assim! Parece um doente, alguém que está morrendo de febre… Parece um culpado que está sendo perseguido e não encontra onde parar para comer um bocado, para beber um gole, para achar uma pedra onde encostar a cabeça. Aquela hiena do Nebo! Aquelas serpentes de Caliroé. Aquele doido que ainda está lá (e mostra a outra margem). Sem falar no segundo, que tu dizes ser dominado por Belzebu! 502.2Eu tenho medo dos endemoninhados. Penso que se Satanás assim os prendeu devem ter sido muito maus. Mas… o homem pode cair sem nenhuma vontade de fazê-lo. Contudo aqueles que, sem serem possessos, fazem o que estão fazendo, com todo o seu raciocínio livre!… Oh! Não os vencerás nunca, visto que não os queres castigar? E eles… te vencerão.

E o pranto do apóstolo fiel, que se havia enxugado sob o fogo da ira, recomeça forte…

– Meu Pedro, e tu crês que eles não sejam possessos? Crês que para o serem precisam ser como aquele de Caliroé e outros que temos encontrado? Crês que a possessão se manifeste somente com aqueles gritos indecentes com aqueles pulos, aquelas fúrias, a mania de viver em furnas, com os mutismos, com os membros encolhidos, com a razão entorpecida, de modo que o possesso fala e age inconscientemente? Não. Há também as obsessões e as possessões mais sutis e fortes, e mais perigosas, porque criam obstáculos à razão, e a enfraquecem a fim de que não faça coisas boas, mas até a desenvolvem: a aumentam para que seja poderosa a fim de servir aquele que a possui. Deus, quando toma posse de uma inteligência e faz uso dela a fim de que o sirva, transfunde na mesma, e nas horas em que o próprio indivíduo está a serviço de Deus, a inteligência sobrenatural, que aumenta de muito a inteligência natural dele. Credes, por exemplo, que Isaías, Ezequiel, Daniel e os outros profetas, se tivessem devido ler e explicar aquelas profecias, como se elas tivessem sido escritas por outros, não teriam encontrado nelas as dificuldades indecifráveis que nelas encontram nossos contemporâneos? E, no entanto, eu vos digo que eles, quando as recebiam, as compreendiam perfeitamente. Olha, Simão. Apanhemos esta flor que nasceu aqui aos teus pés. Que estás vendo na sombra que envolve o cálice? Nada. Vês um cálice profundo, uma pequena boca e nada mais. Agora, olha para ela, enquanto eu a apanho e a trago para cá, para baixo deste raio de sol. Que estás vendo?

– Vejo uns estames, vejo o pólen, uma coroazinha de pequenos pelos que parecem uns cílios. E, ao redor dos estames, uma tirinha toda cheia de cílios pequeninos, que orna a pétala larga e as duas menores… e vejo uma gotinha de orvalho no fundo do cálice… e… oh! Aí está! Um mosquitinho cheio de cílios, que não consegue livrar-se mais… Mas então! Deixa-me ver melhor! O pequeno pelo parece ter sido untado com mel e está pegajoso… Já entendi! Deus o fez assim, ou para que a planta se nutra, ou para que se nutram os passarinhos que vêm apanhar as moscas, ou para que o ar fique limpo delas… Que maravilha.

– Mas sem a forte luz do sol não terias visto nada.

– É verdade. Não teria.

– Igualmente acontece com o que é da propriedade de Deus. A criatura que de seu leva somente a boa vontade de amar totalmente ao seu Deus, com o abandono de seus desejos, com a prática das virtudes e o domínio de suas paixões, fica absorta em Deus, na Sabedoria que é Deus, tudo vê e compreende. Depois de terminada essa ação, penetra na criatura um estado no qual o que foi recebido se transforma em norma de vida e santificação, mas faz ficar escuro, ou melhor, crepuscular, o que antes parecia tão claro. O demônio, perpétuo imitador de Deus, produz um efeito análogo nos obsessos da mente, ainda que mais limitado porque somente Deus é infinito, naqueles que espontaneamente se lhe entregaram para triunfarem, e comunica-lhes uma inteligência superior, mas unicamente voltada para o mal, para prejudicar, para ofender a Deus e ao homem. Mas a ação de Satanás encontrando o consentimento na alma, é contínua, levando-o assim, gradualmente, à ciência total do mal. Estas são as piores possessões. Nada disso aparece externamente e por isso não são evitados esses possessos. Como Eu já disse muitas vezes, o Filho do homem vai ser ferido pelos possessos desta qualidade.

– Mas Deus não poderia ferir o Inferno? –pergunta Filipe.

– Poderia. Ele é mais forte.

– E por que não o faz para defender-te?

– As razões de Deus serão conhecidas no Céu. Eia, vamos. E não fiqueis abatidos.

502.3O pastor que ficou escutando, mas sem dar sinal disso, pergunta:

– Tens para onde ir? Estás preparado?

– Não, homem. Eu deveria ir para lá de Jericó. Mas não estou sendo esperado.

– E estás muito cansado, Rabi?

– Cansado, sim. Não nos concederam alojamento nem parada desde que viemos do Monte Nebo.

– E então… Eu te queria dizer… Eu sou de perto de Betagla, a antiga… Tenho meu pai cego e não posso ir para longe, para não deixá-lo por vários meses. Mas com isso sofre o coração e o rebanho. Se Tu quisesses… eu te daria alojamento. Não fica longe. O velho crê muito em Ti. José, o filho do José, teu discípulo, sabe disso.

– Vamos.

O homem não espera que Jesus o diga duas vezes. Reúne o rebanho e o encaminha para o povoado, que deve estar a nordeste do lugar onde agora estão.

Jesus se coloca com os seus atrás do rebanho.

502.4– Mestre! –diz Iscariotes, depois de algum tempo–, Betagla com certeza não tem quem possa receber os donativos feitos por aquele homem…

– Quando formos para Jericó, indo para Nique, os venderemos.

– É que… este homem é pobre e será preciso pagar-lhe alguma coisa. E eu não tenho mais nenhuma moeda.

– Víveres nós temos bastante. E até para alguns mendigos. Não precisamos de mais, por enquanto.

– Como quiseres Tu. Mas seria melhor que Tu me mandasses na frente. Eu iria pedir…

– Não é preciso.

– Mestre, isto é desconfiança! Por que não nos mandas mais, como antes, dois a dois?

– Porque Eu vos amo e penso no vosso bem.

– Não é bom ficarmos assim desconhecidos. Pensarão que… somos uns indignos, uns incapazes… Antes Tu nos deixavas ir, pregávamos, fazíamos milagres e éramos conhecidos.

– Tu te queixas por não fazeres mais estas coisas? Fazia-te bem andar longe de Mim? Tu és o único que se lamenta por não poder ir sozinho… Judas!…

– Mestre, Tu sabes que te amo! –diz Judas.

– Eu sei. E para que o teu espírito não se corrompa é que Eu te tenho comigo. Tu já és o que guarda e distribui, o que vende ou troca para os pobres. Isso basta. E já é demais. Olha os teus companheiros. Nenhum deles pede o que tu pedes.

– Mas aos discípulos Tu deste esta licença… E essa diferença é uma injustiça.

– Judas, tu és o único que me chama de injusto… Mas Eu te perdoo. Vai na frente. E manda-me André.

E Jesus vai indo mais devagar para esperar André e falar-lhe à parte. Não sei o que Ele lhe diz. Só sei que André sorri com aquele seu sorriso humilde e se inclina para beijar as mãos do Mestre, e depois vai para frente.

Jesus fica sozinho atrás de todos… e com a cabeça muito inclinada vai enxugando o rosto com a aba do seu manto, como se estivesse suando.

Mas são lágrimas e não gotas de suor que escorrem por sobre suas faces emagrecidas e pálidas.

502.5Diz Jesus:

– Aqui colocareis a visão de 3 de outubro de 1944: “A mulher do Saduceu necromante.”