466. 466. A permanência junto aos cônjugesanciãos Judas e Ana.


3 de agosto de 1946.

466.1 Chegam sentindo muito calor, mesmo depois de terem caminhado por entre pomares bem viçosos, com ramos pendentes sob o peso das frutas maduras. Dos numerosos e muito bonitos vinhedos vem o cheiro característico das videiras, quando os cachos já estão maduros e as folhas começam a murchar com a chegada do outono.

Quem se deixa ver em primeiro lugar são dois camponeses que estão voltando dos pomares, carregados com cestos de belíssimas maçãs, dando a notícia a um dos servos, que a passa para diante. Enquanto isso, os dois camponeses estão saudando Jesus e anunciando que “muitos discípulos estão passando uns dias na casa, tendo eles vindo dos montes da Gaulanítide e da Itureia, e estão indo para Jerusalém”, e que “os patrões deles decidiram ir com eles à festa dos Tabernáculos, viajando através da Decápole e da Pereia.” Mas não conseguem fazê-lo a tempo para terminar suas informações, pois já os patrões, precedidos e acompanhados por muitos discípulos, acorrendo de fora da casa ao encontro do Mestre.

Entre os discípulos estão quase todos aqueles que eram pastores em Belém entre eles estão outros, como o primeiro leproso curado e o estropiado, que ficou são, um amigo dele e outros ainda, ou seja, os do Além-Jordão, menos Timoneu. Não estou vendo Isaque, nem Estêvão, nem Hermes, nem Hermasteu e José de Emaús, nem Abel de Belém, nem Nicolau de Antioquia e nem mesmo João de Éfeso. A eles se misturam os servos e os camponeses entre os quais está o menino curado1 da paralisia na outra vindima e sua mãe.

466.2– A paz esteja com todos e com esta casa –diz Jesus, levantando a mão para abençoar.

– Entra, Mestre, vem descansar sob o nosso teto. Ainda está quente a estação para se ficar caminhando a estas horas. Nós te daremos uma refeição e os quartos estão frescos durante a noite.

– Eu não permanecerei aqui senão umas poucas horas. Pela tarde, ir-me-ei embora. Pouco falta para a festa dos Tabernáculos. Eu preciso ainda ir a muitos lugares.

Os donos da casa estão decepcionados, mas não insistem. Somente dizem:

– Nós esperávamos que Tu nos atendesses. Amanhã começa a vindima e a colheita das frutas já se iniciou. E, depois da pisadura, todos teremos partido com estes teus discípulos. Já estamos velhos e as estradas estão muito sem segurança, desde que bandos de ladrões começaram a chegar, não sabemos de onde, e a infestar esta margem do Jordão. Eles se aninham nos montes da Rabatamon e de Galaad, ao longo do vale do Jaboque, e caem em cima dos caravaneiros. Os legionários de Roma lhes dão caça… Mas… Por acaso, serão bons os encontros com eles? Nós preferimos ficar com estes, pois são teus discípulos e Deus os protege certamente.

Jesus esboça um sorriso cheio de argúcia, mas não diz nada sobre o assunto. Entra na casa, recebendo com agrado os refrescos que os hospedeiros oferecem, tanto para os membros, como para as gargantas sedentas. Depois fica ouvindo os discípulos que estão contando como é o trabalho que fazem sobre os montes:

– Mas é com pouco resultado, Mestre. Pouco também é em Cesareia de Filipe onde, porém, não fomos molestados. Mas lá voltaremos contigo. E, então!

Jesus olha para eles, mas não os decepciona e responde:

– Perseverando, certamente os convertereis. Deus ajuda sempre aos seus servos.

466.3 Depois Jesus os deixa, indo ao encontro da dona da casa, que pessoalmente está preparando as mesas, e a convida a sair com Ele, porque Ele lhe precisa falar. A boa velhinha não espera que Ele o diga duas vezes e, para não ir andar sob aquele calor fora de casa, leva Jesus para uma sala comprida, fresca, do lado norte.

– Ana, tu sempre me dizes que gostarias de servir-me de todos os modos…

– Sim, meu Senhor. Eu e o Judas também. Mas tu não recorres nunca a nós. É uma grande festa agora para nós, porque os teus discípulos são um pouco de Ti, e tê-los em casa já nos parece estar te servindo.

– Assim é de fato, porque o que é feito a um discípulo é feito ao Mestre, até um copo d’água ou um pão dado para socorrer a quem trabalha por Mim encontrará recompensa do próprio Deus. Os discípulos cuidam do espírito dos fiéis e os fiéis devem ter amor para com os discípulos e ajudá-los, pensando que eles renunciaram a tudo, estão prontos a renunciar à vida para mostrarem aos fiéis o Caminho, a Verdade e a Vida que o Mestre deles lhes ensinou com a ordem de transmiti-las aos fiéis.

– Oh! Senhor, deixa que eu vá chamar o meu Judas. A tua palavra é tão santa!

– Chama o teu Judas –consente Jesus, sorrindo.

E a mulher sai, para voltar com o marido, ao qual ela vai repetindo as palavras do Mestre.

– Nós, podes crer, o faremos de boa vontade. Mas moramos longe da estrada e certamente é por isso que os teus discípulos pouco vêm aqui –diz o velho, e se sente entristecido por ter assim sido deixado de lado.

– Eu direi a eles que venham mais vezes. 466.4Enquanto isso, Eu vos peço uma graça…

– Tu? Mas para nós é que é uma graça servir-te! Dá as tuas ordens, Senhor! Já estamos velhos, não podemos acompanhar-te, como fazem muitos. Mas de servir-te nós temos o desejo. Que é que queres? Ainda que fossem estes vinhedos e esta casa,tão queridos por mim, pois foram do meu pai e porque aqui nasceram os nossos filhos, se forem do teu agrado, se Tu queres que nós tos demos. Promete-nos somente a divina misericórdia sobre nossas almas.

– Não duvideis, pensando que ela vos possa faltar. Mas Eu não estou pedindo tão grande sacrifício. Ouvi. Eu estou indo para a Judeia e o inverno está chegando. Em Corozaim há uma viúva com muitos filhos e o maior é pouco mais do que um menino. O pai dele era carpinteiro…

– Ah! O carpinteiro! Oh! Todos falaram do teu ato… Mas Corozaim não se converteu, ainda que, mais do que pela tua palavra, o teu gesto devia convertê-la. A mãe trabalhou nos trigais… Mas ela tem pouca saúde… Nós sabemos, sabemos.

– Pois bem. Eu não vos peço que façais deles uns ociosos. Mas que os ajudeis. Não vos faltarão necessidades para atender nisto ou naquilo. Pensai em José, a assistência que tendes o dever de prestar, seja completada por uma amorosa piedade.

– Oh! Mestre! Tão pouca coisa? Eu sim diria, e tu, mulher, que é que dizes? Eu diria que ficássemos com as duas menininhas, que respigariam em nossos trigais. A casa é grande, tu estás velha e eu estou velho, e velhas também já estão Maria e Noemi… Para as pequenas coisas…

– Assim faremos, Judas. Lembrando-nos de nossa pequena… De nossa única filha, Senhor… Floresceu durante três primaveras… e depois… São passados tantos anos… Mas a dor está aqui… Se Tu já estivesses entre nós, ela não teria morrido… Eu não a teria perdido… Uma filha é sempre um sorriso…

A velha está comovida e o velho suspira.

– Ela não está perdida… Mas nos está esperando. É um espírito inocente e ficai certos de que o reencontrareis. O que é mais necessário é temer por aqueles filhos que já são adultos e não vivem completamente nos caminhos do Senhor…

– É verdade. É verdade! Tu sabes, Senhor. Tu sabes tudo. Nesta casa, tão tranquila, há esta dor… Mestre, nosso sacrifício pode obter graça num caso assim?

– Não só num caso assim, mas sempre.

– Ah! Como é doce ouvir dizer isso! Vai em paz, Mestre. A viúva de Corozaim será ajudada, e Tu os encontrarás contentes. Porque, se os recomendas para o inverno, é sinal de que voltas na primavera.

– Eu não volto. Desço para a Judeia e não volto.

466.5 – E vai para a Judeia também o pequeno discípulo?

– Sim. Marziam vai para a Judeia…

– A viagem é longa, Mestre. E ele está muito enfraquecido.

– Ele perdeu o último parente. Vós sabeis a história dele… e esta nova dor o deixou debilitado.

– E, além disso a idade e o crescimento… Mas nós sabemos… sabemos também o bem que ele faz. É um pequeno mestre, isto mesmo, um pequeno mestre… O pai dele estava na planície de Esdrelon, não é verdade? E morreu lá, não é? Ele sofreu com isso, não?

– Sim, mulher. Por que o perguntas?

– Porque… Mestre, eu não deveria dizê-lo a Ti, que és mestre. Mas eu sou mulher e mãe e tenho chorado… Eu te digo: por que o queres levar para aqueles lugares? Deixa-o ir comigo até Jerusalém… Parecer-me-á estar descendo para a Cidade Santa como ia com os meus filhos ainda novinhos… e ele não se cansará, não sofrerá mais ainda. Os outros discípulos também vão…

Jesus fica pensando. Depois diz:

– Marziam fica contente por estar comigo, e Eu com ele.

– Sim. Mas, se tu falas com ele, ele obedecerá, muito contente. Não serão mais do que alguns dias de separação. Um pouco mais de duas semanas. Que é isso para quem é tão jovem? Ele tem mais tempo para gozar de tua companhia.

Jesus olha para ela, olha para o velho, os quais estão muito mal informados sobre quão curto é o tempo que ainda lhes resta para gozar da companhia do Salvador. Mas não diz nada. Só abre os braços, como para dizer: “Seja feito como quereis”, mas de fato diz somente isto:

– Então ide chamar Marziam e Simão.

O velho sai e volta com os dois. Simão está com um olhar indagador. Parece estar suspeitando, sei lá de quê. Mas, quando ouve o motivo, se acalma, e diz:

– Deus vos abençoe. O filho está muito enfraquecido e, digo a verdade, pareceria-me uma imprudência fazê-lo caminhar tanto…

– Mas eu iria de boa vontade! Estaria com o Mestre e, se o Mestre me levasse consigo, seria sinal de que eu estava podendo andar… Pois Ele faz tudo bem feito…

E Marziam já está com lágrimas em sua voz.

– É verdade, Marziam. Mas é preciso que sejamos também condescendentes. Estes são dois bons amigos. Tanto para Mim como para os meus amigos todos. Eu consinto no desejo deles, e tu…

– Como Tu quiseres, Mestre meu. Mas em Jerusalém, como será?

– Em Jerusalém, tu vens comigo –promete Jesus.

E Marziam não replica mais nada.

466.6 Todos saem da sala, e Jesus se reúne com os discípulos que estão alegres por esse encontro inesperado.

O velho dono da casa está dando suas voltas ao redor do grupo. Jesus percebe isso. E lhe pergunta o porquê.

– Eis: eu quereria ainda uma palavra tua. Tu estás cansado. Eu estou vendo. Mas, diante das mesas, antes do repouso, já irás repousar até a tarde, não nos dirás nada?

– Eu falarei antes de partir. Pois assim até os servos da casa e dos campos poderão ouvir-me. Agora é tua mulher que nos está chamando. Não estás vendo?

Jesus se levanta, entra na sala onde estão já preparadas as mesas para os hóspedes benditos.

1 curado, em 108.7.


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