308. 308. Cura do filho de Simão de Alfeu.Marziam é o primeiro dos meninos discípulos.
20 de outubro de 1945.
308.1 Jesus, com Simão Zelotes e Marziam, atravessa Nazaré, direto para a campina, entre Caná e Nazaré. E atravessa essa sua cidade incrédula e hostil, passando exatamente pelas ruas mais centrais e cortando obliquamente a praça do mercado, cheia de gente àquela hora da manhã. Muitos se viram para olharem para ele: um ou outro dos moradores o saúdam, as mulheres, especialmente as de mais idade, lhe sorriem. Mas, a não ser algum menino, ninguém vai até Ele. Um murmúrio se forma atrás dele, depois que Ele passa. Certamente Jesus está vendo tudo, mas faz como se não visse. Ele conversa com Simão ou com o menino, que está entre os dois homens, e vai para a frente, seguindo o seu caminho.
308.2 Aparecem já as últimas casas. À porta de uma delas, está uma mulher na casa dos quarenta anos. Parece estar esperando alguém. Quando ela vê Jesus, faz um gesto como quem quer mover-se, depois inclina a cabeça, enrubescendo.
– É uma parenta minha. É a mulher de Simão de Alfeu –diz Jesus ao apóstolo.
A mulher parece estar pisando sobre espinhos, pelo grande contraste que há em seus sentimentos. Ela muda de cor, levanta e abaixa o olhar, todo o seu rosto exprime uma vontade de falar, que está detida por algum motivo.
– A paz a ti, Salomé –saúda-a Jesus, que a alcançou.
A mulher olha para Ele, como espantada pela afetuosidade que há na voz do seu Parente, e responde, enrubescendo ainda mais:
– A paz a…
Um nó na garganta e um pranto a impedem de terminar a frase. Ela cobre o rosto com o braço dobrado e chora angustiadamente, encostada à ombreira da porta da casa.
– Por que chorar assim, Salomé? Não poderei fazer nada para consolar-te? Vem cá, até para lá daquele canto, e dize-me o que é que tens…
E a pega pelo cotovelo, levando-a para uma ruazinha, entre a casa dela e a horta de outra casa. Simão com Marziam, este todo assustado, ficam na entrada da mesma ruazinha.
– Que tens, Salomé? Tu sabes que Eu sempre te quis bem. Eu sempre vos quis bem. A todos. E vos quero. Deves acreditar nisto, e ter confiança no que digo…
O choro dela tem pausas e suspensões, como se fosse para escutar aquelas palavras e compreendê-las em seu verdadeiro significado. Depois, ele recomeça mais forte, entremeado com palavras interrompidas:
– Tu sim… Nós… Mas não eu… E nem Simão… Mas ele é mais estulto do que eu… Eu lhe dizia… “Chama Jesus”… Mas a população toda está contra nós… contra Ti… contra mim… contra o meu filho…
Tendo tocado no ponto trágico, o pranto, por sua vez, também se torna trágico. A mulher se contorce e geme, batendo-se no rosto, como se estivesse num delírio de dor. Jesus lhe segura as mãos, dizendo:
– Assim, não. Eu estou aqui para consolar-te. Fala e Eu farei tudo…
A mulher olha para Ele com olhos arregalados pelo espanto e pela dor. Mas a esperança ainda lhe dá alento para falar, e falar ordenadamente:
– Mesmo que Simão seja culpado, terás piedade de mim? Terás mesmo? É Alfeu, o último. Ele está mal… está morrendo!… Tu amavas Alfeu. Entalhavas na madeirabrinquedos para ele. Tu o levantavas para que ele colhesse a uva e os figos das tuas plantas… e, antes de partir para… para andar pelo mundo, já lhe ensinavas tantas coisas boas… Agora, não poderias mais… Ele está como morto… Não comerá mais uvas nem figos. Não aprenderá mais nada… –e ela chora fortemente.
– Salomé, sê boa. Dize-me, o que há?
– O ventre dele está muito doente. Ele grita, cai em espasmos, fica delirando durante muitos dias. Agora já não fala mais. Está como se tivesse sido ferido na cabeça. Ele geme, mas não responde. Nem sabe que está gemendo. Está lívido. Já está ficando frio. 308.3Há muitos dias que venho suplicando a Simão que vá a Ti. Mas… oh! eu o amei sempre, mas agora o odeio, porque é um ignorante que, por uma idéia estulta, deixa morrer o filho. Mas, morrendo ele, eu também me irei. Vou para minha casa. Com os outros filhos. Ele não é capaz de ser pai, quando é preciso. Eu cuido de meus filhos. Eu me vou, sim. Diga o mundo o que quiser. Eu me vou.
– Não digas isso. Deixa logo esse pensamento de vingança.
– De justiça. Eu me revolto. Estás vendo? Eu te esperei, porque ninguém te dizia: “Vai.” Mas eu to digo. Eu tive que fazer isso, como se se tratasse de uma má ação. Eu não te posso dizer “Entra”, porque lá em casa estão aqueles do José e…
– Não é preciso. Tu me prometes que perdoarás a Simão? Que serás sempre sua boa mulher? Se tu me prometes, Eu te digo: “Vai para tua casa, que o teu filho te sorrirá, já curado.” Podes crer nisso?
– Eu creio em Ti. Até contra o mundo todo, eu creio.
– E, assim como tens fé, podes também perdoar?
– … Mas tu o curas mesmo?
– Não somente isso. Eu te prometo que terá fim a dúvida de Simão a meu respeito, e que o pequeno Alfeu, e com ele os teus outros filhos, e tu, junto com o esposo e pai, voltareis à minha casa. Maria está sempre falando em ti.
– Oh! Maria! Maria! Alfeu nasceu, quando ela estava aqui… Sim, Jesus. Perdoarei. Não lhe direi nada… Ou melhor, eu lhe direi: “Vê como Jesus responde ao teu modo de agir: dando-te de novo o filho.” Isto eu posso dizer.
– Podes dizê-lo… Vai, Salomé. Vai. Não chores mais. Adeus. A paz esteja contigo, boa Salomé. Vai, vai.
E Ele a reconduz até à porta, e a fica olhando entrar, e sorri, ao ver que pela grande ânsia em que ela está, lá se vai correndo pela estrada, sem nem pensar em fechar a porta, que Ele depois, devagarzinho vai encostando, até fechá-la completamente.
308.4Ele se vira para os dois companheiros, e diz:
– Agora vamos para onde devíamos ir…
– Crês que Simão se converterá? –pergunta o Zelotes.
– Ele não é um infiel. É apenas alguém que se deixa dominar pelo mais forte.
– Oh! Mas, então! Mais forte do que o milagre!
– Estás vendo que respondes a ti mesmo… 308.5Estou contente por ter salvo o menino. Eu o vi com poucas horas de nascido, e ele sempre me quis bem…
– Assim como eu te quero bem? E ele se tornará discípulo? –pergunta Marziam, interessado e um pouco sem acreditar que alguém possa amar a Jesus como ele o ama.
– Tu me amas como menino e como discípulo. Alfeu me amava somente como menino. Mas depois ele me amará também como discípulo. Por enquanto, é muito menino. Acaba de fazer oito anos. Tu o verás.
– Então, quem é menino e discípulo sou só eu?
– Somente tu, por enquanto. Tu és o chefe dos meninos discípulos. Quando já estiveres feito homem, lembra-te que tu soubeste ser discípulo não menos do que os homens, e por isso abre os braços a todos os meninos que virão a ti para me procurarem, dizendo “Quero ser discípulo de Cristo.” Farás isto?
– Eu o farei, promete, sério, Marziam…
A campina aberta, cheia de sol, já está ao redor deles, e eles vão ficando longe de mim, ao sol…