414. 414. Invectiva contra fariseus e doutoresno banquete em casa do sinedrita Elquias.


10 de abril de 1946.

414.1 Jesus entra na casa de quem o convidou, e que fica pouco longe do Templo, mas na direção do bairro situado aos pés do Tofet. É uma casa nobre, um pouco carrancuda, da estreita observância, ou melhor, de um observante exagerado. Penso que até os pregos de sua casa foram pregados no número e na posição em que os seiscentos e treze preceitos acham estar bem. Não há nenhum desenho nos tecidos, nenhum ornato nas paredes, nada que pareça pueril… nada daqueles pormenores, que até nas casas de José e de Nicodemos, e dos próprios fariseus de Cafarnaum, lá estão colocados para embelezarem a casa. Esta transpira por todos os poros o espírito do seu dono. É fria, pois totalmente despida de todo ornato. É de um aspecto duro em seus móveis escuros e pesados, e esquadrejados como se fossem uns sarcófagos. É repelente. É uma casa nada acolhedora, e que se fecha, inimiga de quem nela quiser entrar.

E Elquias ainda faz que isso seja notado.

– Estás vendo, Mestre, como eu sou observante? Tudo o diz. Olha: o toldo não tem desenho, os móveis não têm ornatos, nada de vasos com esculturas, nem lampadários imitando flores. Eis tudo regulado pelo preceito1: “Não farás para ti nenhuma escultura, nem representação do que existe lá em cima no céu, ou aqui em embaixo na terra, ou nas águas abaixo da terra.” Assim, tanto na casa como nas minhas vestes e nas dos meus familiares. Eu, por exemplo, não aprovo neste teu discípulo (Iscariotes) aqueles trabalhos na veste e no manto. Tu me dirás: “Muitos os usam.” Dirás: “Não é mais do que uma grega.” Está bem. Mas, com aqueles ângulos, com aquelas curvas, faz lembrar muito os sinais do Egito. Que horror! São sinais diabólicos. Sinais de necromancia! São siglas de Belzebu! Não ficas honrado, ó Judas de Simão, por trazê-los, nem tu, Mestre, por consentires nisso.

Judas responde com uma risadinha sarcástica. E Jesus responde humildemente:

– Mais do que nos sinais das vestes, Eu presto atenção para ver se não há sinais de horror nos corações. Mas Eu pedirei, e desde já peço ao meu discípulo que traga vestes menos ornadas, para não escandalizar a ninguém.

Judas faz uma boa intervenção:

– Na verdade, o meu Mestre muitas vezes me tem dito que teria preferido mais simplicidade em minhas vestes. Mas eu… fiz como eu queria, porque me agrada estar vestido assim.

– Mal, muito mal. Que um galileu ensine a um judeu, vai muito mal, e logo a ti, que eras do Templo… oh!

E Elquias mostra logo como está escandalizado, e os seus amigos o acompanham.

Judas já ficou cansado de ser bom. E replica:

– Oh! Nesse caso haveria muitas pompas a serem suprimidas, a começar pelas vossas do Sinédrio! Se devêsseis tirar todos os desenhos, que colocastes para esconder as faces de vossas almas, apareceríeis bem feios!

– Como falas?

– Como alguém que vos conhece.

– Mestre! Estás ouvindo?

– Eu estou ouvindo, e digo que é necessária a humildade de um lado, e dos dois lados a verdade. E uma recíproca condescendência. Só Deus é perfeito.

– Falaste bem, ó Rabi! –diz um dos amigos… É uma voz de pouca influência, solitária, que vem do grupo dos fariseus e doutores.

– Pelo contrário, falaste mal –replica Elquias–. O Deuteronômio é claro em suas maldições2. Ele diz: “Maldito o homem que faz imagem esculpida, ou saída de uma forma, coisa abominável, obra da mão de artífices e…”

– Mas o que temos sobre nós são vestes, e não esculturas –responde Judas.

– Silêncio, tu. Vai falar o teu Mestre. Elquias, sê justo, e não confundas uma coisa com outra. Maldito é quem faz ídolos. Mas não quem faz desenhos, copiando as coisas belas que o Criador colocou na natureza. Vamos, então, colher flores para ornar…

– Eu não as colho, nem quero ver os quartos ornados com elas. E ai das minhas mulheres, se fizerem este pecado nos quartos delas! Só Deus há de ser contemplado.

– Pensamento justo. Só Deus. Mas pode-se contemplar a Deus até numa flor, reconhecendo que Ele é o artífice da flor.

– Mas, não. Isso é paganismo! Paganismo!

– Judite se ornou3, e Ester se ornou para um fim santo…

– Mulheres! E a mulher é sempre um ser desprezível. 414.2Mas eu te peço, Mestre, que entres na sala do banquete, enquanto eu me afasto um pouco, para ir falar com os meus amigos.

Jesus aceita sem discussões.

– Mestre, eu estou respirando mal! –exclama Pedro.

– Por quê? Estás sentindo-te mal? –perguntam alguns.

– Não. É um mal-estar… como o de alguém que cai numa armadilha.

– Não fiques agitado. E sede todos muito prudentes –aconselha Jesus.

Ficai no grupo e de pé, até que entrem os fariseus, acompanhados pelos seus servos.

– As mesas, sem demora! Temos uma reunião, e não podemos chegar atrasados –ordena Elquias.

E distribui os lugares, enquanto os servos já vão trinchando as viandas.

Jesus está ao lado de Elquias, e, ao lado de Jesus, está Pedro. Elquias oferece os alimentos, e a refeição começa no meio de um silêncio espantoso… Mas depois começam a deixar-se ouvir as primeiras palavras. Naturalmente, elas se dirigem a Jesus, e os outros doze são deixados de lado, como se lá não estivessem.

414.3 O primeiro a interrogar é um doutor da Lei.

– Mestre, então tens mesmo a certeza de seres o que dizes que és?

– Não o digo por minha boca. Os profetas o disseram, antes que Eu estivesse no meio de vós.

– Os profetas!… Tu que negas que nós sejamos santos, podes também aceitar como boa a minha palavra, se eu disser que os nossos profetas foram uns exaltados.

– Os profetas são santos.

– E nós não, não é? Mas olha bem que Sofonias4 une os profetas aos sacerdotes, em sua condenação contra Jerusalém. “Os seus profetas são uns exaltados, homens sem fé, e os seus sacerdotes profanam as coisas santas e violam a Lei.” Tu censuras isso sempre em nós. Mas, se aceitas o profeta, na segunda parte de suas palavras, tens que aceitar também a primeira, e reconhecer que não há base de apoio nas palavras que vêm de uns exaltados.

– Rabi de Israel, responde-me. Quando, poucas linhas depois, Sofonias diz: “Canta e alegra-te, ó filha de Sião… o Senhor retirou o decreto contra ti… o Rei de Israel está no meio de ti”, o teu coração aceita estas palavras?

– Para mim, é uma glória repeti-las, sonhando com aquele dia.

– Mas elas são palavras de um profeta, de um exaltado, e por isso…

O doutor da Lei, por um momento, fica embaraçado. Mas um amigo o socorre.

– Ninguém pode pôr em dúvida que Israel reinará. Não um só, mas todos os profetas e pré-profetas, isto é, os patriarcas, falaram desta promessa de Deus.

– E nenhum dos pré-profetas e profetas deixou de mostrar-me como quem Eu sou.

– Oh! Está bem. Mas nós não temos as provas! Podes Tu também ser um exaltado. Que provas nos dás de que és Tu o Messias, o Filho de Deus? Dá-me uma baliza, para que eu possa julgar.

– Não te falo de minha morte, descrita por Davi e por Isaías. Mas Eu te falo da minha ressurreição.

– Tu? Tu? Ressurgires, Tu? E quem te fará ressurgir?

– Certamente vós é que não sereis. Não é o Pontífice, nem o Monarca. Não serão as castas nem o povo. Mas por Mim mesmo ressurgirei.

– Não blasfemes, ó galileu, e não mintas!

– Eu nada mais faço do que dar honra a Deus, e dizer a verdade. E, com Sofonias, Eu te digo: “Espera-me, quando Eu ressuscitar.” Até aquela hora, poderás ter dúvidas, todos vós podereis tê-las, e podereis esforçar-vos por incuti-las no povo. Mais do que isso não podereis, quando o Eterno, que vive por Si mesmo, depois de ter redimido, ressuscitar, para não mais morrer, Juiz intocável, Rei Perfeito que, com o seu cetro e a sua justiça, governará e julgará até o fim dos séculos, e continuará a reinar nos Céus para sempre.

414.4 – Mas, não sabes que estás falando a doutores e sinedritas? –diz Elquias.

– E que tem isso? Vós me interrogais, Eu respondo. Vós mostrais desejo de saber, Eu vos mostro a verdade. Não quererás fazer-me vir à mente, tu que, por causa de um desenho em uma veste, te lembraste da maldição do Deuteronômio, da outra maldição do mesmo: “Maldito quem fere de emboscada o seu próximo.”

– Eu não te firo. Eu te dou alimento.

– Não. Porque as perguntas insidiosas são ferimentos feitos nas costas. Fica atento, Elquias. Porque as maldições de Deus continuam, e aquela que eu citei continua assim: “Maldito quem aceita presentes para condenar à morte um inocente.”

– Neste caso os presentes, és Tu que os aceitas, caro hóspede.

– Eu não condeno nem mesmo os culpados, se eles estiverem arrependidos.

– Então, Tu não és justo.

– Não. Justo Ele é, porque ele calcula que o arrependimento merece perdão, e, por isso, não condena –diz aquele mesmo que aprovou o que Jesus disse no átrio da casa.

– Cala a boca, Daniel! Queres saber mais do que nós? Ou estás seduzido por um, sobre o qual muito ainda resta decidir, e que nada faz para ajudar-nos a decidir em seu favor? –diz um dos doutores.

– Eu sei que vós sois os sábios e que eu, um simples judeu, que nem sei por que ainda me quereis entre vós…

– Mas é porque és parente! Coisa fácil de compreender-se! E eu quero que sejam santos e sábios aqueles que entram na minha parentela! Eu não posso admitir ignorâncias na Escritura, na Lei, nos Halaschiot e no Hagadã. E não os suporto. Tudo tem que ser conhecido. Tudo observado.

– E eu te agradeço por tantos cuidados. Mas eu, um simples cultivador de terras, que indignamente me tornei teu parente, só me tenho preocupado em conhecer a Escritura e os Profetas, para ter um conforto em minha vida. E, com a simplicidade de um indouto, eu te confesso que reconheço no Rabi o Messias, que foi precedido pelo seu Precursor, que foi quem no-lo mostrou. E João, tu não o podes negar, estava penetrado pelo Espírito de Deus.

Um silêncio. Negar que o Batista era infalível, eles não querem. Mas também não querem dizer que ele o era.

E então um outro diz:

– Fora… Nós dizemos que o Precursor foi aquele anjo que Deus mandou, a fim de preparar o caminho para o Cristo. E… admitamos que no Galileu haja a santidade suficiente para julgarmos que Ele seja o tal anjo. Depois dele, virá o tempo do Messias. Não vos parece a todos vós que este meu pensamento seja conciliador? Tu o aceitas, Elquias? E Tu, Nazareno?

– Não.

– Não.

– Não.

Os três “não” são seguros.

– Como? Por que não o aprovais?

Elquias se cala. Os amigos dele também se calam. Somente Jesus, sincero, é que responde:

– Porque não posso aprovar um erro. Eu sou mais que um anjo. O anjo foi o Batista, Precursor do Cristo, e o Cristo sou Eu.

414.5Um silêncio longo e glacial. Elquias, com o cotovelo apoiado sobre uma almofada e a face apoiada na mão, fica pensando, renitente e intransigentes como toda a sua casa.

Jesus se vira, olha para ele, e depois diz:

– Elquias, não confundas a Lei e os Profetas com coisas sem importância!

– Estou vendo que leste o meu pensamento. Mas não podes negar que Tu transgrediste o preceito.

– Do mesmo modo que tu, e com astúcia, e, portanto com culpa, transgrediste o dever de um hospedeiro, com vontade de fazer o que fizeste, e me fizeste ficar distraído, e depois me mandaste para aqui, enquanto tu com os teus amigos vos purificáveis, e, quando vieste de lá, ainda nos pediste que andássemos depressa, porque tinhas uma reunião, e tudo isso para poderes dizer-me: “Tu pecaste.”

– Podias lembrar-me o meu dever de dar-te os meios para te purificares.

– De muitas coisas Eu poderia fazer-te recordar, mas isso só serviria para fazer que ficasses ainda mais intransigente e inimigo.

– Não. Dize quais são essas coisas. Dize-as. Nós queremos escutar-te e…

– E acusar-me diante dos Príncipes dos Sacerdotes. Por isso é que Eu te fiz lembrar da última e penúltima maldição. Eu o sei. Eu vos conheço. Estou aqui inerme, entre vós. Estou aqui, longe do povo que me ama, e diante do qual não ousais agredir-me. Mas Eu não tenho medo. Não venho atender a compromissos, nem pratico vilezas. E eu vos digo o vosso pecado, o de toda a vossa casa, e o vosso, ó fariseus, falsos puros da Lei, ó doutores, falsos sábios, que confundis e misturais, de propósito, o que é verdadeiro com o que é falso, que aos outros e dos outros exigis a perfeição nas coisas exteriores, e de vós mesmos nada exigis. Vós me censurais, unidos ao vosso e meu hospedeiro, por não me ter lavado antes da refeição. Vós sabeis que eu estou vindo do Templo, do qual não nos aproximamos, a não ser depois de purificar-nos5 das imundícies da poeira e do caminho. Quereis, por ventura, dizer que o Lugar sagrado é um lugar de contaminação?

– Nós nos purificamos antes de comer.

– E a nós nos foi feita esta imposição: “Ide para lá, e ficai esperando.” E depois: “Ide para as mesas, sem demora.” Entre as tuas paredes, que não têm nenhum desenho, afinal havia um, o plano de arrastar-me a um engano. Qual foi a mão que escreveu sobre a parede o motivo para poderdes acusar-me? Teria sido o teu espírito, ao qual tu dás ouvidos? 414.6Pois bem, ouvi agora todos.

Jesus se levanta, põe-se de pé e, estando com as mãos apoiadas à beira da mesa, começa a sua invectiva:

– Vós, ó fariseus, lavais o cálice e o prato por fora, e lavais vossas mãos e vossos pés, como se o prato e o cálice, as mãos e os pés tivessem que entrar em vosso espírito, que vós gostais de proclamar que é puro e perfeito. Mas não sois vós, e sim Deus, que pode proclamar essas coisas. Pois bem. Ficai sabendo o que é que Deus pensa do vosso espírito. Deus pensa que ele está cheio de mentira, de sujeira e de rapina, cheio de iniquidades, e que nada do exterior pode corromper aquilo que já está corrompido.

Jesus levanta a mão direita da mesa e, involuntariamente, começa a gesticular com ela, enquanto continua:

– Mas, quem fez o vosso espírito, como fez também o vosso corpo, não pode exigir, pelo menos em medida igual, que tenhais um respeito às coisas interiores, como tendes para as coisas exteriores? Ó estultos que sois, mudando os dois valores, invertendo o poder deles! Não quererá o Altíssimo um maior cuidado com o espírito, feito à sua semelhança, e que pela corrupção perde a Vida Eterna, do que com a mão e o pé, cuja sujeira pode ser limpa com facilidade, e que, se por acaso ainda continuassem sujos, não teriam nenhuma influência sobre a limpeza interior? E pode Deus preocupar-se com a limpeza de um cálice ou de uma bandeja, quando essas coisas são apenas coisas sem alma, e não podem influir sobre a vossa alma?

Eu estou lendo o teu pensamento, Simão Boetos. Não. Ele não tem consistência. Não é por um pensamento de saúde, não é para a proteção de vossa carne, de vossa vida, que vós tomais esses cuidados e praticais essas purificações. Os pecados carnais, especialmente os pecados da gula, das intemperanças, das luxúrias são certamente mais nocivos à carne do que um pouco de poeira sobre as mãos ou sobre o prato. Contudo, vós os praticais, sem preocupar-vos de cuidar de vossa existência e da incolumidade dos vossos familiares. E fazeis pecados de outras espécies, porque, além da contaminação do espírito e do vosso corpo, o esbanjamento de vossas forças, a falta de respeito para com os familiares, as faltas feitas para com o Senhor pela profanação do vosso corpo, no qual deveria estar o trono para o Espírito Santo. E a ofensa pelo juízo que fazeis de que vos deveis proteger das doenças que vêm de um pouco de poeira, como se Deus não pudesse intervir para proteger-vos das doenças físicas, se a Ele recorrêsseis com espírito puro.

414.7 Mas Aquele que criou o interior, por acaso não criou também o exterior, e vice-versa? E não é o interior a parte mais nobre e marcada pela semelhança com Deus? Fazei, então, obras que sejam dignas de Deus, e não essas mesquinharias, que não se elevam acima da poeira, com a qual e da qual são feitas, da pobre poeira que é o homem em seu corpo, em sua estrutura como criatura animal, um barro ao qual se deu uma forma, e que volta ao pó, um pó que o vento dos séculos espalha. Fazei obras que permaneçam, que sejam dignas do Rei, e santas, obras que mereçam a coroa da bênção divina. Fazei caridade, e dai esmola, sede honestos, sede puros em vossas obras, em vossas intenções e, mesmo sem recorrer à água de vossas abluções, tudo será puro em vós.

Mas, que é que estais achando? Que estais certos, porque pagais os dízimos dos aromas? Não. Ai de vós, ó fariseus, que pagais os dízimos da hortelã e da arruda, da mostarda e do cominho, do funcho e de todas as outras hortaliças, mas vos descuidais da justiça e do amor a Deus. Pagar os dízimos é um, dever, e se cumpre. Mas há outros deveres, e que também são cumpridos. Ai de quem observa as coisas exteriores, e se descuida de observar as interiores, baseadas sobre o amor a Deus e ao próximo. Ai de vós, ó fariseus, que amais os primeiros lugares nas sinagogas e nas reuniões, e gostais de ser reverenciados nas praças, mas não pensais em fazer as obras que vos deem um lugar no Céu, e mereçam para vós a reverência dos anjos. Vós sois parecidos a uns escondidos, que ficam sem serem observados por quem passa por perto deles e não sente arrepios, mas que arrepios sentiria, se pudesse ver o que é que está fechado dentro deles. Deus, porém, vê todas as coisas até as mais ocultas, e não se engana, ao julgar-vos.

414.8 Jesus é interrompido por um doutor da Lei, que se levanta, e põe-se de pé para contradizê-lo:

– Mestre, falando assim nos ofendes, logo a nós, e isso não te convém, porque nós devemos te julgar.

– Não. Não vós. Vós não podeis julgar-me. Vós é que sereis os julgados, e não juízes, e quem vos julga é Deus. Vós podeis falar, emitir sons por meio de vossos lábios. Mas, nem mesmo a voz mais poderosa é capaz de chegar aos céus, nem percorre toda a terra. Num pequeno espaço de tempo, volta o silêncio… E, depois de pouco tempo, vem o esquecimento. Mas o julgamento de Deus é uma voz que permanece, e não está sujeita a esquecimentos. Séculos e séculos já se passaram, desde quando Deus julgou a Lúcifer, e julgou a Adão. Mas a voz daquele juízo não emudeceu. E as consequências daquele juiz ainda existem. E, se aos homens, por meio do Sacrifício perfeito, o juízo sobre o ato de Adão continua sendo o que é — e é chamado “Culpa de origem” —, assim o será sempre. Os homens serão redimidos, lavados por uma purificação superior a qualquer outra, mas nascerão com aquele sinal, porque Deus decretou que aquele sinal deva estar em todos os nascidos de mulher, menos para aqueles que, não por obra de homem, mas pelo Espírito Santo, foi feito, e para a Preservada e o Pré-santificado, virgens para sempre. A Primeira, para poder ser a Mãe de Deus, e o segundo para poder vir à frente do Inocente, nascendo já limpo, pela fruição antecipada dos méritos infinitos do Salvador Redentor.

414.9E Eu vos digo que Deus vos julga… E vos julga, dizendo: “Ai de vós, doutores da Lei, porque sobrecarregais o povo com pesos insuportáveis, transformando em castigo o paterno Decálogo, pelo Altíssimo dado ao seu povo.” Ele com amor e por amor o havia dado, para que o homem fosse ajudado por um justo guia, o homem, esse eterno imprudente, e ignorante menino. E vós, em vez das amorosas andadeiras com que Deus havia ajudado as suas criaturas, a fim de que pudessem andar para a frente, pelo seu caminho, e apertá-las sobre o seu coração, substituístes as andadeiras por montanhas de pedras agudas, pesadas, atormentadoras, com um labirinto de prescrições, um íncubo de escrúpulos, pelo qual o homem fica esmagado, extraviado, e para, e fica com medo de Deus, como de um inimigo. Vós criais obstáculos para a ida dos corações a Deus. Vós separais o Pai dos filhos. Vós negais, com as vossas imposições, esta doce, bendita, verdadeira Paternidade. Vós, porém, os pesos que dais aos outros não quereis, nem com um dedo, tocar neles. Vós vos julgais justificados, só por haver-lhes dado aqueles pesos. Mas, ó estultos, não sabeis que sereis julgados por aquilo que houverdes julgado ser necessário para a salvação? Não sabeis que Deus vos dirá: “Vós dizeis que era sagrada e justa a vossa palavra. Pois bem. Eu também a julgo assim. E, visto que a impusestes a todos, e pelo modo como foi acolhida e praticada é que tendes julgado os irmãos, eis que Eu vos julgo pela vossa palavra. E, pois que não fizestes o que dissestes a eles que fizessem, sede condenados”?

Ai de vós que ergueis sepulcros para os profetas, que os vossos pais mataram. E, por que não? Achais que com isso diminuireis a gravidade da culpa de vossos pais? E que a anulareis aos olhos dos pósteros? Não, pelo contrário. Vós dais testemunhos desses atos dos vossos pais. Não somente isso. Mas os aprovais, e estais prontos para imitá-los, erguendo depois um sepulcro em honra do profeta perseguido, para poderdes dizer: “Nós lhe prestamos honras.” Hipócritas! É por isso que a Sabedoria de Deus disse: “Eu lhes mandarei profetas e apóstolos. E deles eles matarão alguns, perseguirão a outros, para que se possa exigir desta geração o sangue de todos os profetas, que foi derramado desde a criação do mundo até hoje, desde o sangue de Abel6 até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o Santuário.” Sim. Em verdade, em verdade, Eu vos digo que de todo esse sangue de santos será pedida conta a esta geração, que não sabe distinguir onde é que está Deus e persegue o justo, e o mata, porque o justo é a prova viva da injustiça deles.

414.10 Ai de vós, doutores da Lei, que usurpais a chave da ciência, e fechais o templo para não entrardes nele, a fim de por ela serdes julgados, e não permitistes que os outros lá entrassem. Porque vós sabeis que, se o povo fosse doutrinado pela verdadeira Ciência, isto é, pela Sabedoria santa, poderia julgar-vos. Por isso vós preferis que ele fique ignorante, para que não vos julgue. E vós me odiais, porque Eu sou a palavra da Sabedoria, e gostaríeis de ver-me fechado, antes do tempo, em um cárcere, em um sepulcro, para que Eu não falasse mais.

Mas Eu falarei, enquanto ao Pai agradar que Eu fale. E depois falarão as minhas obras, mais ainda do que as minhas palavras. E falarão os meus merecimentos, mais ainda do que as minhas obras, e o mundo será instruído, e ficará sabendo, e vos julgará. O primeiro juízo é sobre vós. Depois virá o segundo, o juízo singular, na morte de cada um de vós. E finalmente o último, o Universal. E vos lembrareis deste dia, e destes dias, e vós, vós sozinhos, conhecereis o Deus terrível, que vos tereis esforçado para apresentar como uma visão de íncubo, diante do espírito dos simples, enquanto vós, no interior do vosso sepulcro, tiverdes zombado dele e do primeiro e principal mandamento — o amor —, até o último dado no Sinai, pois não tivestes respeito a ele, e desobedecestes.

Inutilmente, ó Elquias, é que não tenhas figurações em tua casa. Inutilmente, ó vós todos, que não tenhais objetos esculpidos em vossas casas. No interior de vossos corações é que tendes o ídolo, muitos ídolos. Um deles é que vos creiais uns deuses, os das vossas concupiscências. 414.11Vinde, vós. Vamos embora.

E, fazendo que os doze saiam na frente, Ele sai por último.

Faz-se um silêncio…

Depois, os que ficaram fazem um clamor, dizendo todos juntos:

– É preciso persegui-lo, apanhá-lo em falta, encontrar circunstâncias que o acusem. É preciso matá-lo!

Outra vez, faz-se silêncio.

Depois, enquanto dois vão saindo dali desgostosos por causa do ódio e dos propósitos dos fariseus, e que são o parente do Elquias e o outro que, por duas vezes defendeu o Mestre, os que ficaram perguntam uns aos outros:

– E agora?

Mais uma vez se faz silêncio.

Depois, com uma risada estridente, Elquias diz:

– É preciso preparar Judas de Simão…

– Certo! Uma boa ideia. Mas tu o ofendeste!

– Disso me encarrego eu –diz aquele que Jesus chamou de Simão Boetos–. Eu e Eleazar de Anás… Nós o prepararemos.

– Um pouco de promessas.

– Um pouco de medo…

– Muito dinheiro…

– Não. Muito, não… Promessas. Promessas de muito dinheiro.

– E depois?

– Por que “e depois”?

– Ora! Depois. Tendo ele feito o que queremos, que é que lhe daremos?

– Ora! Nada. A morte. Assim… ele não falará mais… –diz, de modo lento e cruel, Elquias.

– Que é isso? A morte…

– Tens horror disso? Ora, vai-te embora: Se matarmos o Nazareno, que é um justo… poderemos matar também Judas, que é um pecador…

Ficam na incerteza.

Mas Elquias, levantando-se, diz:

– Vamos ouvir também Anás… E vereis que ele nos dará uma boa ideia. E vireis vós também… Oh! Se vireis.

Todos saem atrás do seu hospedeiro, que lá se vai, dizendo:

– Vós vireis… Vós vireis.

1 preceito, que está em Êxodo 20,4.
2 maldições, das quais Elquias recorda a de Deuteronômio 27,15; enquanto Jesus recordará outras em Deuteronômio 27,24-25.
3 se ornou, como em Judite 10,3-4; Ester 5,1.
4 Sofonias, que será citado nas seguintes passagens Sofonias 3,4.8.14.15.
5 purificar-nos, como ocorreu em 413.1.
6 o sangue de Abel, em Gêneis 4,8; o sangue de Zacarias, em 2 Crônicas 24,20-22.


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