60. 60. Cura da sogra de Simão Pedro.
3 de novembro de 1944.
60.1 Pedro fala a Jesus:
– Mestre, eu queria pedir-te que vás à minha casa. Não tive coragem de dizer isso no sábado passado. Mas… queria que fosses.
– Em Betsaida?
– Não, aqui… na casa de minha mulher, quero dizer, a casa nativa.
– Por que tens esse desejo, Pedro?
– Ah!… por muitas razões… e, além disso, hoje me disseram que minha sogra está doente. Se quisesses curá-la, talvez te…
– Acaba de falar, Simão.
– Eu queria dizer… se Tu te aproximasses, ela acabaria… sim, em suma, Tu sabes, uma coisa é ouvir falar de alguém e outra é vê-lo e ouvi-lo e, se essa pessoa depois fica sã, então…
– Então, também o ódio se acaba, queres dizer.
– Não, ódio não. Mas Tu sabes… o povoado está dividido em muitos pareceres e ela… não sabe a quem dar razão. Vai, Jesus.
– Eu vou. Vamos. Avisarás aos que estão esperando que da tua casa falarei a eles.
60.2 Vão até uma casa baixa, mais baixa ainda do que a de Pedro em Betsaida e ainda mais próxima ao lago. Está separada deste por uma pequena faixa da margem e creio que nas borrascas as ondas venham a morrer contra as paredes da casa que, se é baixa, é em compensação bem espaçosa, como se fosse habitada por mais pessoas.
Na horta-pomar, que está à frente da casa, perto do lago, nada mais há do que uma videira já velha e nodosa que se estende em uma rústica parreira e uma velha figueira que os ventos do lago curvaram em direção à casa. A fronde despenteada da árvore roça as paredes e bate contra as venejiadas das janelinhas que estão fechadas para servirem de proteção contra o sol forte que bate sobre a baixa casa. Nada mais há além desta figueira e desta videira e de um poço raso com um muro esverdeado.
– Entra, Mestre.
Algumas mulheres estão na cozinha, umas ocupadas em consertar as redes, outras em preparar a comida. Elas saúdam a Pedro e depois se inclinam confusas diante de Jesus; entretanto, olham-no de soslaio, com curiosidade.
– A paz esteja nesta casa. Como vai a doente?
– Fala, tu que és a nora mais velha –dizem três mulheres a uma que está enxugando as mãos na barra da veste.
– A febre está forte, muito forte. Nós fizemos com que o médico a visse, mas ele disse que ela está velha para sarar e que quando aquele mal dos ossos chega ao coração e dá febre, especialmente naquela idade, o doente morre. Ela não está comendo mais… Eu procuro fazer-lhe comidas boas, mesmo agora, vê Simão? Eu lhe estava preparando aquela sopa de que ela gostava tanto. Escolhi o peixe melhor que peguei com os cunhados. Mas acho que ela não vai poder comer. E depois… está tão inquieta! E se lamenta, grita, chora, pragueja…
– Tende paciência, como se fosse vossa mãe e tereis merecimento diante de Deus. 60.3Levai-me a ela.
– Rabi… Rabi… não sei se ela irá querer te ver. Não quer ver a ninguém. Eu nem tenho coragem de dizer-lhe: “Agora vou te trazer o Rabi.”
Jesus sorri sem perder a calma. Depois se vira para Pedro:
– Cabe a ti, Simão. Tu és homem, e o mais velho dos genros, como me disseste. Vai.
Pedro faz uma careta muito significativa mas obedece. Ele atravessa a cozinha, entra em um quarto; através da porta fechada atrás dele, eu o ouço conversar com uma mulher. Depois, põe a cabeça e uma mão fora da porta e diz:
– Vem, Mestre. Anda depressa!
E acrescenta, em voz mais baixa, só o tanto necessário para ser entendido:
– Antes que ela mude de idéia.
Jesus atravessa rápido a cozinha e abre a porta toda. De pé, à porta, Ele diz a sua doce e solene saudação:
– A paz esteja contigo.
Em seguida, entra, não obstante não tenha recebido resposta. Vai para perto da enxerga sobre a qual está estendida uma pequena mulher toda grisalha, descarnada e ofegante pela forte febre que lhe torna corado o rosto abatido.
Jesus se inclina para o pequeno leito e sorrindo para a velhinha, diz:
– Que estás sentindo?
– Eu estou morrendo!
– Não. Não estás morrendo. Podes crer que Eu te posso curar?
– E por que irias fazer isso? Não me conheces.
– Por causa de Simão, que pediu a mim… e também por causa de ti, para dar tempo à tua alma de ver e amar a Luz.
– Simão? Ele faria melhor em… Como Simão foi capaz de pensar em mim?
– Porque ele é melhor do que pensas. Eu o conheço e sei. Eu o conheço e estou contente por vir atendê-lo.
– E, então, tu me curarias? Não vou mais morrer?
– Não, mulher. Por enquanto não morrerás. Podes crer em Mim?
– Creio, creio. Basta-me não morrer!
60.4 Jesus sorri ainda. E a pega pela mão. A mão enrugada e de veias inchadas desaparece na mão juvenil de Jesus que se endireita e toma aquele aspecto de quando faz um milagre; exclama:
– Sê curada! Eu quero! Levanta-te!
Solta-lhe a mão que recai sem que a velha se lamente, enquanto que antes, mesmo tendo-a Jesus pegado com muita delicadeza, só de tê-la movido já tinha sido causa de um lamento por parte da enferma.
Houve um breve tempo de silêncio. Depois a velha exclama com voz forte:
– Oh! Deus de nossos pais! Mas eu não tenho mais nada! Estou curada! Vinde! Vinde!
Acorrem as noras.
– Mas olhai! –dizia a velha–. Eu me movo, e não sinto mais dor! E não tenho mais febre! Vede como estou com saúde. E o coração não se parece mais com o martelo do ferreiro. Ah! Não vou mais morrer!
E não tem nenhuma palavra para o Senhor!
Mas Jesus não leva isso em consideração. Ele diz à mais velha das noras:
– Vesti-a para que se levante. Ela já pode levantar-se.
E vai-se encaminhando para sair.
Simão, mortificado, se vira para a sogra:
– O Mestre te curou. E não lhe dizes nada?
– Está certo! Não pensei nisso. Obrigada. Que posso fazer para mostrar-te o meu agradecimento?
– Ser boa, muito boa. Porque o Eterno foi bom para contigo. E, se não te for muito incômodo, deixa-me repousar hoje em tua casa. Percorri nesta semana todos os povoados vizinhos e cheguei ao despertar desta manhã. Estou cansado.
– Certo! Certo! Fica, sim, se assim te agrada.
Mas não existe muito entusiasmo em suas palavras.
60.5 Jesus, com Pedro, André, Tiago e João vai sentar-se no pomar.
– Mestre!…
– Que há, meu Pedro?
– Eu estou mortificado.
Jesus faz um gesto, como se dissesse: “Deixa para lá.” Depois, diz:
– Não é esta a primeira nem será a última que não sinto um reconhecimento imediato. Mas Eu não peço reconhecimento. Basta-me dar às almas o modo de se salvarem. Faço o meu dever. A elas cabe fazer o delas.
– Ah! Então já houve outros assim? Onde?
– Simão curioso! Mas Eu quero te contentar, embora não goste de curiosidades inúteis. Foi em Nazaré. Lembras-te da mãe de Sara? Estava muito doente quando chegamos a Nazaré e nos disseram que a menina estava chorando. Para não fazer dela, que é boa e dócil, uma órfã e amanhã uma enteada, fui procurar a mulher… Eu queria curá-la. Mas, ainda não tinha posto os pés na casa dela, quando o seu marido e um irmão me expulsaram, dizendo: “Vai embora, vai embora! Não queremos aborrecimentos com a sinagoga.” Para eles, para muitos, Eu já sou um rebelde… mas Eu a curei do mesmo jeito… por causa de seus filhos. E à Sara, que estava na horta, Eu disse, acariciando-a: “Eu curo tua mãe. Vai para casa. Não chores mais.” E a mulher ficou curada no mesmo instante; a menina foi dizer isso a ela, e também ao pai e ao tio… E foi castigada por ter falado Comigo. Eu sei, porque a menina veio correndo atrás de Mim, quando Eu já ia deixando o povoado… Mas não importa.
– Eu faria com que ela ficasse doente de novo!
– Pedro!
Jesus está severo:
– É isso que Eu ensino a ti e aos outros? Que foi que ouviste dos meus lábios desde a primeira vez que me ouviste? De que é que Eu tenho sempre falado como primeira condição para serdes meus verdadeiros discípulos?
– É verdade, Mestre. Eu sou um verdadeiro animal. Perdoa-me. Mas… não posso suportar que não te amem!
– Ó Pedro, verás um desamor bem maior! Quantas surpresas terás, Pedro! Há pessoas que o mundo chamado “santo” despreza como publicanos, e que, ao invés, serão exemplos para o mundo, e um exemplo não seguido por aqueles que as desprezam. Há gentios que estarão entre os meus maiores fiéis. Há meretrizes que se tornam puras, por vontade e por penitência. Pecadores que se emendam…
– Escuta, que se emende um pecador… ainda pode ser. Mas uma meretriz e um publicano!…
– Tu não acreditas?
– Eu não.
– Estás errado, Simão. 60.6Mas, eis tua sogra que está vindo a nós.
– Mestre… eu te peço que te assentes à minha mesa.
– Obrigado, mulher. Deus te recompense por isto.
Entram na cozinha e se assentam à mesa e a velha serve aos homens com grande distribuição de peixe ensopado e assado.
– Não há mais do que isso –ela se desculpa.
E, para não perder o costume, diz a Pedro:
– Os teus cunhados fazem até demais, sozinhos como ficaram, desde quando foste para Betsaida! E ao menos se prestasses a fazer mais rica a minha filha… Mas ouço dizer que freqüentemente estás ausente e que não vais pescar.
– Eu sigo o Mestre. Estive com Ele em Jerusalém e aos sábados estou com Ele. Não perco o tempo em farras.
– Mas não ganhas nada com isso. Farias melhor, já que queres ser o servo do Profeta, que venhas para cá de novo. Pelo menos aquela pobre criatura, que é a minha filha, enquanto tu ficas aí te fazendo de santo, terá os parentes que lhe matem a fome.
– Mas, não te envergonhas de falar assim diante Dele que te curou?
– Eu não o critico. Ele faz o seu trabalho. Eu critico é a ti, que vives como um mandrião. Afinal, tu não serás nunca um profeta, nem um sacerdote. És um ignorante e um pecador, és um bom para nada.
– Tens razão, porque Ele está aqui, senão…
– Simão, tua sogra te deu um ótimo conselho. Podes pescar também aqui. Pescavas também antes em Cafarnaum, pelo que ouço. Podes voltar até agora.
– E morar aqui de novo? Mas Mestre, Tu não…
– Bom, meu Pedro, se ficares aqui estarás no barco sobre o lago, ou Comigo. Por isso, para ti que diferença há entre estar ou não estar nesta casa?
Jesus pôs a mão sobre o ombro de Pedro e parece que a calma de Jesus passa para Pedro que já estava fervendo.
– Tens razão. Sempre tens razão. É assim que eu vou fazer. Mas… e estes? –e mostra João e Tiago, seus sócios.
– Não poderão vir eles também?
– Oh! O nosso pai, e principalmente a nossa mãe, estarão sempre mais felizes, se souberem que estamos Contigo, do que com eles. Eles não criarão obstáculos.
– Talvez também Zebedeu virá –diz Pedro.
– É mais que provável. E com eles outros. Viremos, Mestre. Viremos sem falta.
60.7 – Está aqui Jesus de Nazaré? –pergunta um menininho que aparece à porta.
– Está sim. Entra.
Vem à frente um menino, que eu reconheço como um daqueles das primeiras visões em Cafarnaum; justamente como aquele que, brincando por entre os pés de Jesus, prometeu que seria bom… para comer o mel do Paraíso.
– Pequeno amigo, vem cá –lhe diz Jesus.
O menino, um pouco amedrontado no meio de tanta gente que está olhando para ele, se encoraja e corre para Jesus que o abraça, o põe sobre os joelhos e lhe dá um pedacinho do seu peixe sobre uma fatiazinha de pão.
– Aqui está, Jesus. Isto é para Ti. Ainda hoje aquela pessoa me disse: “Hoje é sábado. Vai levar isto para o Rabi de Nazaré e diz ao teu amigo que reze por mim.” Ela sabe que és o meu amigo!…
O menino ri feliz, e come o seu pão com peixe.
– Muito bem, pequeno Tiago! Dirás àquela pessoa que as minhas orações sobem ao Pai por ela.
– É para os pobres? –pergunta Pedro.
– Sim.
– Será o presente de costume? Vamos ver.
Jesus lhes entrega a bolsa. Pedro despeja as moedas e as conta:
– Sempre a mesma grande importância! Mas, quem é essa pessoa? Diz-me, menino! Quem é?
– Eu não o devo dizer, e não o direi.
– Que malcriado! Vamos, sê bom que eu te darei umas frutas.
– Eu não o direi nem se me insultares nem se me acariciares.
– Mas ouvi só que língua!
– O Tiago tem razão, Pedro. Ele mantém a palavra dada. Deixa-o em paz.
– Tu, Mestre, sabes quem é essa pessoa?
Jesus não responde. Ele se entretém com o menino, a quem dá outro pedacinho de peixe assado, já bem limpo das espinhas. Mas Pedro insiste e Jesus precisa responder:
– Eu sei tudo, Simão.
– E nós, não o podemos saber?
– E tu, nunca vais ficar curado deste teu defeito?
Jesus censura, mas sorri. E acrescenta:
– Logo o saberás. Porque como o mal gosta de ficar oculto e nem sempre pode permanecer assim, o bem, ainda que queira ficar oculto, para ter seu merecimento, um dia será descoberto para a glória de Deus, cuja natureza brilha em um filho seu. A natureza de Deus é o amor. E essa pessoa o compreendeu, porque ama o seu próximo. Vai, Tiago. Vai levar àquela pessoa a minha bênção.
Assim termina a visão.