322. 322. Partida de Selêucia sobre um carroe chegada a Antioquia.


[sem data]

322.1 – Nas feiras com certeza encontrareis alguma pequena condução. Mas, se quereis a minha, eu vo-la dou, em atenção a Teófilo. Se eu hoje sou um homem remediado, é a ele que eu o devo. Ele me defendeu, porque era justo. E de certas coisas a gente não se esquece –diz o velho albergador, que está de pé, diante dos apóstolos, aos primeiros raios do sol da manhã.

– Mas é que nós levaremos o teu carro por muitos dias… E, além disso, quem vai conduzi-lo? Eu já estou chegando a conduzir o carro puxado a burro… Mas, o puxado por cavalos…

– Mas, é a mesma coisa, homem! Eu não te irei dar um poldro chucro, mas um animal manso, para carruagem, manso como um cordeirinho.Com ele fareis a viagem logo, e sem cansar-vos. Ao meio dia estareis em Antioquia, e até antes, porque o cavalo conhece bem a estrada, e vai até por si mesmo.Tu mo entregarás quando quiseres, sem outro interesse de minha parte, a não ser o de poder fazer uma coisa agradável ao filho do Teófilo, ao qual vós direis que eu lhe devo muito, e que me lembro disso, e me considero servo dele.

– Que vamos fazer? –pergunta Pedro aos companheiros.

– Faze o que achares melhor. Tu determinas, e nós obedecemos.

– Vamos tentar com o cavalo? Eu estou pensando em João… e também em chegar mais depressa… Parece-me estar levando alguém para a morte, e não vejo a hora em que tudo isso já tenha passado…

– Tens razão –dizem todos.

– Então, homem, eu aceito.

– E eu com alegria o cedo. Já vou preparar a carruagem.

322.2 O albergador sai dali. Então, Pedro desabafa a sua preocupação completamente:

– Eu consumi a metade do tempo de vida que eu tinha, nestes poucos dias. É uma pena! Uma pena! Eu gostaria de estar com o carro1 de Elias, com o manto dele apanhado por Eliseu, tudo o que fôsse bem rápido, para poder fazer tudo ir para a frente bem depressa… E, mais do que tudo, eu gostaria do, ainda que para isso tivesse que sofrer a morte, gostaria de achar alguém que consolasse àqueles pobrezinhos, e os fizesse esque-cer os… Nem sei o que dizer, afinal… Qualquer coisa que fôsse, para que eles não ficassem sofrendo tanto… E, se eu conseguir saber qual é a causa principal desse sofrimento, não serei mais Simão de Jonas, se eu não o torcer como um pano que foi preciso espremer. Eu não falo propriamente em matá-lo, isso não. Mas em espremê-lo, como ele espremeu a alegria e a vida destes dois pobrezinhos…

– Tu tens razão. É uma grande pena. Mas Jesus diz que se devem perdoar as ofensas… –diz Tiago de Alfeu.

– Se a tivessem feito a mim, eu deveria perdoá-los. E poderia. Eu sou são e forte e, se alguém me ofende, eu tenho força para reagir até à dor. Mas o pobre daquele João! Não, eu não posso perdoar a ofensa feita ao redimido pelo Senhor, a um pobre que vai morrendo, aflito assim…

– Eu fico pensando na hora em que o vamos deixar definitivamente… –suspirá André.

– Eu também. É para mim um pensamento fixo, e que vai se intensificando, à medida que o momento se aproxima… –murmura Mateus.

– Façamos aquilo logo, por piedade –diz Pedro.

– Não, Simão. Perdoa, se eu te faço considerar que não tens razão em querer isso. O teu amor está se tornando um amor desviado do próximo, e, em ti, que és sempre reto, não deve acontecer tal coisa –diz, pacato, o Zelotes, pondo a mão sobre o ombro do Pedro.

– Por que, Simão? Tu és muito culto e bom. Mostra-me em que é que eu estou errado, e eu, se vejo que estou mesmo, direi que: Tu tens razão.

– O teu amor está ficando doente, porque está se transformando em egoísmo.

– Como? Eu me aflijo por eles, e sou egoísta?

– Sim, meu irmão. Porque tu, por um excesso de amor, — e todo excesso é uma desordem que, por isso, induz ao pecado — tu te tornas vil. Queres não sofrer tu, por estares vendo sofrer. Isto é egoísmo, meu irmão em nome do Senhor.

– É verdade. Tens razão. Eu te agradeço, por me teres admoestado. É assim que se faz entre bons companheiros. Está bem. Então não vou mais ter pressa… Contudo, dizei a verdade: Não é uma coisa que causa dó?

– Sim, que o é, sim, que o é… –dizem todos.

322.3 – Como faremos, então, para deixá-los?

– Eu diria que o fizéssemos, depois que Filipe lhes der hospedagem, ficando nós escondidos em Antioquia por algum tempo, indo às vezes ao Filipe para saber como eles se vão adaptando… –sugere André.

– Não. Seria fazê-los sofrer demais, com uma separação tão violenta –diz Tiago de Alfeu.

– Então, façamos assim: tomemos o conselho do André pela metade. Fiquemos em Antioquia, mas não na casa de Filipe. E, alguns dias depois, iremos vê-los, e voltaremos cada vez menos, sempre menos, até que, afinal, não voltamos mais –diz o outro Tiago

– É uma dor sempre renovada, e uma cruel desilusão. Não. Assim não se deve fazer –diz Tadeu.

– Que vamos fazer, Simão?

– Ah! Eu gostaria de estar em vosso lugar, mais do que ter que dizer: “Eu vos saúdo” –diz Pedro, abatido.

– Eu proponho uma coisa. Vamos com eles para a casa do Filipe, e lá fiquemos. Depois, sempre juntos, vamos a Antigônio. É um lugar muito aprázível … E lá fiquemos. Quando eles já estiverem aclimatados, nós nos retiramos, com tristeza, mas com virilidade. Isto eu faria. A não ser que Simão Pedro tenha recebido ordens diferentes do Mestre –diz Simão Zelotes.

– Eu? Não. Ele me disse: “Faze tudo bem, com amor, sem preguiça e sem pressa e do modo que julgares que é melhor.” Até agora parece-me ter feito assim. Houve aquilo de eu ter dito que era pescador!… Mas, se eu não dissesse aquilo, ele não me deixaria sobre a ponte!

– Não fiques criando escrúpulos tolos, Simão. Isto são insídias do demônio para te perturbar –anima-o Tadeu.

– Oh! Sim. É assim mesmo. Creio que ele está ao redor de nós, como nunca esteve, criando-nos obstáculos e temores, para induzir-nos a alguma covardia –diz o apóstolo João.

E termina em voz baixa:

– Creio que ele quisesse induzir aqueles dois ao desespero, detendo-os na Palestina… e agora, que eles fogem de suas insídias, então ele se vinga, vindo contra nós… Eu o percebo ao redor de mim, como uma serpente escondida na erva… E há meses que eu o percebo ao redor assim… Mas, eis que chega o albergador, e vem chegando de um lado, e João com Síntique do outro. Eu vos direi o resto, quando estivermos sozinhos, se é que vos interessa.

De fato, de um lado do pátio vem vindo um carro grande, ao qual está atrelado um robusto cavalo, guiado pelo hospedeiro, enquanto do outro lado vêm vindo ao encontro deles os dois discípulos.

– Já é hora de irmos? –pergunta Síntique.

– Sim. Já é hora. Estás bem coberto, João? Estás melhor de tuas dores?

– Sim. Estou envolvido em lãs e o ungüento me ajudou.

– Então sobe, que agora nós vamos também…

322.4 … E, tendo terminado o carregamento, tendo todos subido, vão saindo pelo amplo portão, depois das repetidas afirmações do hospedeiro sobre a docilidade do animal. Atravessam uma praça, que lhes foi indicada, e pegam uma estrada, ao lado dos muros, até saírem por uma porta, beirando, primeiro um fundo canal, e depois o próprio rio. É uma bela estrada, bem conservada, que vai para a direção nordeste, mas seguindo sempre as voltas do rio. Do outro lado há montes muito verdes, em suas encostas, enseadas e despenhadeiros, e já se podem ver, nos pontos mais ensolarados dos bosques, como vêm brotando as borbulhas de mil arbustos.

– Quantos mirtos! –exclama Síntique.

– E loureiros! –acrescenta Mateus.

– Perto de Antioquia há um lugar consagrado a Apolo –diz João de Endor.

– Talvez os ventos tenham trazido até aqui as sementes.

– Talvez. Mas este já é um lugar cheio de belas vegetações –diz o Zelotes.

– Tu, que já estiveste aqui, achas que passaremos por perto de Dafne?

– Certamente. Vereis um dos vales mais belos do mundo. Com exceção do culto obsceno e degenerado em orgias cada vez mais sujas, o vale é um paraíso terrestre e, se nele penetrar a Fé, será um verdadeiro paraíso. Oh! Quanto bem podereis fazer aqui! Eu vos auguro que encontreis corações férteis, como fértil é o solo… –diz o Zelotes, para suscitar pensamentos de consolação nos dois.

Mas João inclina a cabeça, e Síntique suspira.

322.5 O cavalo vai trotando cadenciadamente, e Pedro está calado, todo preocupado no trabalho de guiar, ainda que o animal vá com muita segurança, sem precisar de guia nem de estímulo. A estrada vai, pois, sendo percorrida com bastante rapidez, até o ponto em que eles param, perto de uma ponte, para comer e para dar um descanso ao cavalo. O sol já está à altura do meio-dia, e o que há de belo, em toda essa singular natureza, está podendo agora ser visto.

– Mas… acho melhor aqui do que no mar… –diz Pedro, dando uma olhadela ao redor de si.

– Mas, que tempestade!

– O Senhor orou por nós. Eu percebi que Ele estava perto de nós, quando nós estávamos rezando na ponte do navio. Perto de nós, como se estivesse entre nós… –diz, sorrindo, João.

– Onde é que estará Ele agora? Eu não fico em paz, ao pensar que Ele está sem as suas roupas … Tomará banho? Que será que Ele come? Talvez esteja jejuando…

– Podes estar certo de que Ele está fazendo isso para nos ajudar –diz com segurança Tiago de Alfeu.

– E também por outros motivos. O nosso irmão está muito aflito já faz algum tempo. Eu acho que Ele vem-se mortificando continuamente para vencer o mundo –diz Tadeu.

– Quererás dizer o demônio que está no mundo –diz Tiago de Zebedeu.

– É a mesma coisa.

– Mas ele não conseguirá. Eu estou com o coração aflito por mil temores… –suspira André.

– Oh! agora que nós estamos longe, tudo irá melhor! –diz, com certa amargura João de Endor.

– Não o penses. Tu e ela não éreis nada a respeito dos “grandes erros” do Messias, segundo os grandes de Israel –diz Tadeu, decidido.

– Tu estás seguro? Eu, no meu sofrer, tenho também este prego no coração: de ter sido causa de mal a Jesus com a minha vida. Se estivesse seguro de que isto não acontece, sofreria menos –diz João de Endor.

– Crês que eu seja sincero, João? –pergunta Tadeu.

– Sim, eu o creio!

– Pois bem, em nome de Deus e no meu, eu te garanto que tu só deste uma tristeza a Jesus: e foi a de ter que mandar-te para cá, em missão. De todas as outras tristezas passadas, presentes e futuras, tu não és o motivo.

Um primeiro sorriso, depois de tantos dias de uma profunda melancolia. Enche-se de luz o rosto descarnado de João de Endor, que diz:

– Que consolo me estás trazendo! Parece-me que o dia se torna mais claro, mais leve o meu sofrimento, mais conformado meu coração. Obrigado, Judas de Alfeu! Obrigado!

322.6Sobem de novo para o carro e, tendo atravessado a ponte, passam para a outra margem do rio, para a outra estrada, que vai direta a Antioquia, atravessando uma região de grande fertilidade.

– Lá está! Naquele vale poético está Dafne com o seu templo e os seus pequenos bosques. E lá adiante, naquela planície, está Antioquia, com suas torres sobre os muros. Nós entraremos pela porta, que está do lado do rio. A casa de Lázaro não fica muito longe dos muros. Suas mais belas casas foram vendidas. Ficou ainda esta que, há tempo, servia como ponto de parada para os servos e os clientes de Teófilo, possuíndo muitas cavalariças e celeiros. Agora lá mora Filipe. É um bom velho. Um amigo fiel de Lázaro. Lá vos sentireis bem. E juntos, iremos a Antigônio, onde ficava a casa habitada por Euquéria e por seus filhos, que naquele tempo eram meninos…

– É muito fortificada esta cidade, não? –pergunta Pedro, que está recuperando o fôlego, agora que está vendo como, em sua primeira experiência de cocheiro, saiu-se bem.

– Sim. Bem fortificada. As muralhas são de uma altura e de uma espessura muito grandes, tem mais de cem torres que, como estais vendo, mais parecem uns gigantes postados sobre os muros, e que têm, junto as suas bases, uns valos intransponíveis. Também o monte Sílpio pôs os seus cumes a serviço da defesa e como contraforte para os muros, em sua parte mais frágil… Aqui está a porta. É melhor que pares aqui, e entres segurando o freio. Eu te irei conduzindo, porque sei o caminho.

Passam pela porta, guardada por romanos. O apóstolo João diz:

– Quem sabe não estará aqui aquele soldado da Porta dos Peixes… Jesus gostaria de sabê-lo…

– Vamos procurar saber. Mas agora, caminha depressa –ordena Pedro,preocupado pela idéia de estar indo para uma casa desconhecida.

João obedece, sem dizer nada. Somente ele fica olhando atentamente para todo soldado que vê.

322.7 É um caminho curto, depois uma casa grande e simples, isto é, que tem uma parede alta e sem janelas. Só há um portão, no meio da parede.

– Pronto. Pode parar –diz o Zelotes.

– Oh! Simão! Cria coragem! Fala tu agora!

– Pois sim, se isto te der prazer, falarei eu –e o Zelotes bate no pesado portão.

Ele se apresenta como um enviado de Lázaro. Entra sozinho. Sai com um velho alto e cheio de dignidade, que faz grandes inclinações, e dá ordem a um servo para abrir o portão, a fim de que o carro possa entrar. E pede desculpas por fazê-los entrar todos por ali, um de cada vez, pela porta da casa.

O carro vai parar em um amplo pátio, que tem uma série de pórticos, bem conservado, tendo quatro grandes plátanos, nos quatro cantos e dois no centro, como defesa de um poço e de um tanque para dar de beber aos cavalos.

– Trata do cavalo –ordena o intendente ao servo.

E depois diz aos hóspedes:

– Eu vos peço, vinde, e seja bendito o Senhor que me mandou os seus servos e amigos do meu patrão. Mandai, que o vosso servo vos escuta.

Pedro fica vermelho, porque especialmente a ele é que estão sendo dirigidas aquelas palavras e aquelas inclinações, e nem sabe o que dizer… Mas o Zelotes o socorre:

– São discípulos do Messias de Israel, dos quais te fala Lázaro de Teófilo, que de agora em diante virão morar na tua casa para servirem ao Senhor, e eles só precisam de um repouso. Queres mostrar-me onde eles poderão morar?

– Oh! Há sempre quartos prontos para os peregrinos, como era o costume de minha patroa. Vinde, vinde…

E, acompanhado por todos, entra por um corredor, passa depois por um pequeno pátio, no fundo do qual está a verdadeira casa. Abre a porta, vai indo por uma passagem lateral, depois dobra à direita. Aparece uma escada. Eles sobem. Vem um novo corredor, com quartos nos dois lados.

– Aí está. E que a casa vos seja agradável. Agora eu vou mandar buscar água e roupa de cama. Deus esteja convosco –diz o velho, e vai-se embora.

Abre as portas dos quartos, que eles vão escolhendo… Os muros e os fortes de Antioquia estão à frente dos que estão ao lado. E o tranqüilo pátio decorado com roseiras trepadeiras, por enquanto sem flores por causa da estação, é visível para os outros do outro lado.

E, depois de tanto andar, eis finalmente uma casa, um quarto, uma cama… Para alguns vai ser uma morada. Para os outros, um ponto de chegada.

 

1 o carro, como em: 2 Reis 2,11, e o manto, como em: 2 Reis 2,14.


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