448. 448. Reunião de barcas sobre o lagoe parábola sugerida por Simão Pedro.
24 de junho de 1946.
448.1 – Para onde, Mestre? –pergunta o Pedro, que já terminou as manobras e os prepativos para a navegação, e está com sua barca já à frente da pequena flotilha de barcas carregadas de passageiros dispostos a acompanhar o Mestre.
– Para, Magdala. Eu o prometi à Maria de Lázaro.
– Está bem –responde Pedro, move o timão do navio, de modo que ele tome a direção exata, e sai bordejando.
Joana, que está na barca com o Mestre, a Virgem Maria e Maria do Cléofas, além de Marziam, Mateus, Tiago de Alfeu e de um que eu não conheço, diz, acenando para as muitas barcas que estão sobre o lago naquela tarde serena de verão, que faz esmaecer os fogos do pôr de sol, transformando-o em cascatas de véus violáceos, como se do céu estivessem chovendo chuvas de ametistas ou cachos de glicínias floridas:
– Talvez entre as barcas estejam também as barcas das romanas. É um dos divertimentos prediletos delas simular uma pesca nestas horas calmas da tarde.
– Haverá mais ao meio dia –observa um homem que eu não conheço.
– Oh! não, Benjamim. Elas têm barcas velozes e barqueiros experientes. Chegam até cá em cima.
– Para aquilo que vão fazer… –resmunga Pedro.
E continua a resmungar por dentro de sua barba, em sua intransigência de pescador, que encara a navegação e a pesca como uma profissão e não como um passatempo quase como uma religião, toda regulada por leis severas e úteis, e lhe parece até uma profanação o modo como a tratam abusivamente:
– Com os seus incensos, flores e perfumes e outras coisas demoníacas, eles corrompem as águas. Com os seus ruídos e os seus gritos e com seu falatório perturbam os peixes, com suas tochas fumacentas os espantam e com suas redes malditas, jogadas sem o necessário cuidado, estragam os lugares profundos e das desovas dos peixes… Isso deveria ser-lhes proibido. O Mar da Galileia é dos galileus e dos pscadores associados… não das prostitutas e dos seus companheiros… Se eu fosse o dono, vos faria ver, ó fedorentas barcas pagãs, ó sentinas flutuantes do vício, alcovas que navegais para trazerdes até aqui, para cima destas águas de Deus, do nosso Deus aos seus filhos, os vossos… Oh! Mas olhai! Eles se dirigem agora justamente para nós! Mas pode-se ver… E poder-se-á permitir… Mas…
448.2 Jesus interrompe esse discurso acusatório, no qual Pedro desabafa todo o seu espírito de israelita e de pescador, ficando vermelho, sufocado pela indignação, ofegante, como se estivesse lutando contra as forças do inferno, e diz, com um pacato sorriso:
– Mas é bom que tu não sejas o dono. Felizmente, tu não o és. Bom para eles, bom para ti. Porque a eles tu impedirias de seguirem um bom impulso, impresso no espírito deles pela Misericórdia Eterna, que guia estas criaturas, não culpadas por terem nascido na nação romana, em vez de o terem sido na hebraica, com olhos de piedade, justamente porque as vê inclinadas para o que é bom. E farias mal a ti mesmo, porque cometerias um ato contra a caridade e outro contra a humildade.
– Humildade? Não vejo… Se eu fosse dono do lago, ser-me-ia permitido fazer dele o que eu quisesse.
– Não, Simão de Jonas. Não. Tu estás enganado. Até as coisas que nos pertencem, pertencem-nos porque Deus no-las concede. E assim é, porque, mesmo que as possuamos por um tempo limitado, é preciso pensar sempre que Um só é o que possui tudo e sem limitação nem quanto ao tempo, nem quanto à medida. Um só é o Dono. Os homens… Oh! Eles não são mais do que administradores de algumas migalhas da grande Criação. Mas o Dono é Ele, o meu Pai e teu Pai, e Pai de todos os viventes. Além disso, Ele é Deus, por isso perfeitíssimo em todos os seus pensamentos e ações. Pois bem. Se Deus olha com benignidade para o movimento desses corações pagãos, que se dirigem para a Verdade, não só olha, mas também favorece esse movimento, imprimindo-lhe uma velocidade sempre maior, dirigida para o Bem, não te parece que tu, homem, querendo impedi-los de o fazer, no fundo estás querendo impedir a Deus de realizar uma ação? E, quando é que se impede uma coisa? Quando se julga que não é boa. Portanto tu estarias pensando assim do teu Deus: que Ele está fazendo uma coisa não boa. Pois bem. Se julgar os irmãos já não é uma coisa boa, porque cada homem tem os seus defeitos, tem uma faculdade de conhecer e julgar tão limitada, que sete vezes em dez erra em seu julgamento, então uma coisa completamente malvada será o julgar a Deus em suas ações. Simão, Simão! Lúcifer quis julgar a Deus em um dos seus pensamentos, disse que Ele estava errado, quis colocar-se no lugar de Deus, julgando-se mais justo do que Ele. Tu sabes, Simão, o que foi que Lúcifer conseguiu. E tu sabes que toda dor que nós sofremos veio daquela soberba…
448.3 – Tens razão, Mestre. Eu sou um grande infeliz! Perdoa-me, Mestre!
E Pedro, sempre impulsivo, larga a barra do timão para ir precipitar-se aos pés de Jesus, enquanto a barca, subitamente entregue a si mesma, justamente no ponto da maior correnteza, desvia assustadoramente, por entre os brados de Maria de Cléofas e de Joana, e os gritos dos que vão na leve barca gêmea, que estão vendo como vem em cima da barca deles a barca de Pedro. Por feliz sorte, Mateus prontamente pegou o timão e a barca toma de novo a rota, depois de uns balanços amedrontadores, e também porque, para afastá-la, os outros tiveram que usar dos remos, produzindo sacudidas bruscas e agitando as águas.
– Que é isto, Simão? Uma vez tu insultaste1 os romanos, dizendo que eram uns navegantes de brinquedo, porque vinham em cima de nós. Mas agora és tu que fazes feia figura. E logo diante da vista deles. Olha como estão todos de pé nas barcas, a olhar… –ataca Iscariotes, mostrando as barcas romanas, que já estão bem perto sobre o espelho da água, à frente de Magdala, permitindo ver, ainda que os véus roxos da tarde se tenham tornado cada vez mais escuros e amortecendo a luz.
– Perdeste também um cesto de vime e um baldezinho, Simão. Queres que procuremos pescá-los com ganchos? –diz Tiago de Zebedeu, lá de uma outra barca, que já está perto, porque, depois do incidente, todos foram agrupar-se ao redor da barca do Pedro.
– Mas, como foi que fizeste! Que isto não te suceda nunca mais!
–exclama André, falando de uma outra barca.
Pedro vai respondendo a todos, enquanto os outros vão falando quase ao mesmo tempo.
– Eles viram? Não importa. Tomara que eles tenham visto também o meu coração e… Bem, isto não deves dizer, Pedro… Mas tu, fica sabendo que não me fazes mal. Não se trata de uma manobra mal feita, mas de uma coisa que aconteceu por uma causa boa e que me pode humilhar. Não te preocupes, Tiago! São coisas velhas que vão para o fundo… Talvez eu pudesse jogar atrás delas o velho homem que em mim ainda resiste! Eu quereria perder tudo, até a barca, para ser exatamente como o Mestre quer… Que foi que eu fiz? Eu me mostrei a mim mesmo, à minha soberba, que quer ensinar até a Deus nas coisas do espírito, eu que sou um ignorante até nas coisas da barca… Para mim foi bom. Eu me tornei uma parábola para mim mesmo… Mestre, não é verdade?
Jesus sorri, concordando… Sentado à popa, em seu lugar de costume, com suas vestes brancas em contraste com o ar, que já vai ficando escuro. Tranquilo, com os cabelos levemente ondulados e soltos ao vento da tarde, Ele sobressai no crepúsculo como um anjo luminoso de paz.
448.4 As barcas romanas já chegaram perto deles.
– Eles têm pequenas naves muito boas e velas da melhor qualidade… e também marinheiros, como não?! Navegam velozes como uns alcíones. Sabem aproveitar-se de cada rajada de vento e de todas as canalizações das correntezas…
– São quase todos escravos, vindos de Creta ou do Nilo, os remadores –explica Joana.
– Mas há muitos também da Itália… Eles transpõem Cila e Caribdis… e basta isso para serem ótimos –confessa o desconhecido chamado Benjamim.
– Para onde vamos, Senhor? Para Magdala, ou então… Olha lá! Os de Magdala estão vindo a nós…
De fato, todas as pequenas barcas desse lugar se apressam para deixar a praia e o pequeno porto, carregadas, sobrecarregadas de gente, de um modo perigoso a tal ponto, que estão com o bordo ao nível da água, se dirigem com dificuldade para as barcas de Cafarnaum.
– Não. Paremos ao largo, à frente da cidade. Eu falarei da barca…
– Mas é que… Aqueles imprudentes querem se afogar. Olha só, Mestre. É verdade que o lago está tranquilo como uma lâmina de prata… mas a água é sempre água… e o peso é peso… e eles… parecem pensar que estão pisando na terra e que não estão sobre a água… Dá uma ordem para que vão para trás… Eles vão se afogar…
– Homem de pouca fé! Não te lembras de que, enquanto acreditaste no meu convite, tu caminhaste2 sobre a água como se fosse um terreno sólido? Eles têm fé. E por isso, contra as leis do equilíbrio entre o peso e a densidade, as águas sustentarão aquelas barcas, que estão cheias demais.
– Se isto acontecer, esta é mesmo uma tarde de grandes milagres… –murmura Pedro, encolhendo os ombros, enquanto vai descendo a pequena âncora, a fim de parar a barca, que fica assim no centro de um círculo de barcas que vieram, umas de Cafarnaum, outras de Magdala, e outras de Tiberíades, e estas são as das romanas que, prudentemente, vão colocar-se atrás das de Cafarnaum, para o lado do centro do lago.
Os rostos parecem estranhos. Jesus fica de costas viradas para elas. Está olhando para os que vieram de Magdala, para o vasto e sombreado jardim de Maria de Lázaro e para as casinhas que, com sua cor branca, se destacam de noite, perfiladas ao longo da praia.
448.5 O lago, não mais rasgado pelas proas e pelos remos, vai-se recompondo em paz. É uma larga chapa de cristal jaspeada de prata, devido às primeiras claridades do luar, semeada com escamas de topázios e rubis, nos lugares onde os focos dos faróis ou as chamas dos archotes, colocados em todas as proas, se refletem na superfície das águas.
Os rostos parecem estranhos, pelo contraste das luzes vermelho-amareladas, ou pelos raios da lua, que por um lado se mostram muito claros e por outro, apenas se vê o que são, outros se mostram como partidos em dois, ou no comprimento ou na largura, ou só com a fronte, ou somente com o queixo expostos à luz, ou, então, com uma só das faces, um meio-rosto que se destaca em uma superfície interrompida, como se do outro lado não houvesse rosto. Os olhos de alguns estão brilhando, outros parecem ter as órbitas vazias, assim as bocas de algumas das quais sai um sorriso aberto por sobre uns fortes dentes, ou então desaparecem suas faces na sombra.
Mas, para que cada um possa ver Jesus, das barcas de Cafarnaum e de Magdala estão sendo passadas tochas e mais tochas, sendo colocadas aos pés de Jesus e sobre as pequenas barcas, penduradas nos remos que não estão em uso, colocadas sobre a madeira da popa e da proa, até em forma de cachos sobre a árvore na qual está arriada a vela. A barca, onde está Jesus, brilha dentro de um círculo de barcas, que ficaram sem luzes, e Jesus está agora bem visível, revestido de luz por todos os lados. Somente as barcas romanas se avermelham ainda por causa de seus archotes vermelhos, cujas chamas se dobram ao sopro da mais leve brisa.
448.6 – A paz esteja convosco! –começa Jesus, pondo-se de pé, firme, apesar do ligeiro balouçar da barca, abrindo os braços para abençoar.
Depois continua, falando lentamente para ser bem ouvido por todos, e sua voz se espalha, forte e harmoniosa, através do lago silencioso.
– Há pouco um dos meus apóstolos me propôs uma parábola, e agora Eu vo-la apresento, porque pode ser útil a todos, porque todos vós a podeis entender. Ouvi-a. Um homem, navegando sobre o lago, em uma tarde serena como esta, sentindo-se seguro de si mesmo, presumiu-se ser um homem sem defeitos. Era um homem muito hábil nas manobras, por isso se julgava superior aos que ele encontrava sobre as águas, e dos quais muitos vinham para se divertirem, vinham sem aquela experiência que se adquire no trabalho do dia a dia e que é boa para sustentar a vida. Além disso, era um bom israelita, por isso se julgava possuidor de todas as virtudes. Enfim, era realmente um bom homem.
E então, numa tarde em que ele ia navegando muito seguro, começou a permitir-se o direito de expor seus juízos sobre o seu próximo. Um próximo que, segundo ele, estará tão longe dele, que nem merecia ser chamado próximo. Entre eles não havia nenhum liame de nacionalidade, nem de ofício, nem de fé que o unisse àquele próximo e portanto ele, sem nenhum obstáculo contra a solidariedade nacional, religiosa ou profissional, zombava dele tranquilamente, até severamente, e se lamentava por não ser dono daquele lugar, porque se o fosse, teria expulsado aquele próximo daquele lugar, e, em sua fé intransigente, quase censurava o Altíssimo por conceder a outros homens assim diferentes dele poderem viver e fazer o que quisessem, do modo e no lugar onde vivia e fazia o que ele queria.
Sobre sua barca havia um amigo seu, um seu amigo muito bom, o qual o amava de verdade, por isso queria que ele se tornasse um sábio, e, quando se fazia necessário, corrigia as ideias erradas dele. Naquela tarde, pois, o seu amigo disse ao barqueiro: “Por que esses pensamentos? Não é um só o Pai de todos os homens? Não é Ele o Senhor do Universo? O seu sol não desce sobre todos os homens para aquecê-los e as suas nuvens, por acaso, não molham tanto os campos dos gentios, como os dos hebreus? E, se isso Ele fez para atender às necessidades materiais do homem, não usará das mesmas providências para as necessidades espirituais? E quererias tu sugerir a Deus o que Ele deve fazer? Quem como Deus?”
O homem era bom. Em sua intransigência havia muita ignorância, muitas ideias erradas, mas não era má vontade, não tinha a intenção de ofender a Deus, pelo contrário, até que havia nele a intenção de defender os direitos de Deus. Ouvindo aquelas palavras, ele se jogou aos pés do sábio e lhe pediu perdão por ter falado como um estulto. Mas tão impetuosamente ele fez esse pedido, que por pouco não causou uma catástrofe, fazendo ir para o fundo a barca e os que estavam nela, porque, naquele forte desejo de pedir perdão, não cuidou mais do timão, nem da vela, nem se lembrou da correnteza das águas. Por isso, depois do primeiro erro por mau juízo, cometeu um segundo erro de manobra mal feita e provou a si mesmo que, não só era um fraco juiz, mas também um inábil marinheiro.
Esta é a parábola. Agora, ouvi. Achais que aquele homem será perdoado por Deus, ou não? Lembrai-vos de que ele havia pecado contra Deus e contra o próximo, julgando as ações de ambos, e por pouco se tornava homicida por matar seus companheiros. Meditai e respondei…
Jesus cruza os braços, corre o olhar sobre todas as barcas, até às mais distantes, que são as romanas, o que lhe mostrou uma fileira de rostos atentos, das patrícias até os remadores, que aparecem às margens.
448.7 As pessoas do povo conversam e trocam pareceres… Ouve-se um sussurro, muito fraco, de vozes que se fundem com o bater das ondas contra o casco. O julgamento é dificil. Mas a maior parte acha que o homem não será perdoado porque pecou. Não. Ainda que seja só pelo primeiro pecado, não deverá ser perdoado…
Jesus ouve crescer o sussurro dos que assim pensam, sorri, olhando com seus belíssimos olhos, que estavam luminosos naquela noite, como duas safiras expostas à luz do luar, pois ele está cada vez mais belo e claro, a tal ponto, que muitos estão pensando em apagar suas tochas e faróis, para ficarem só com a luz fosforescente da lua para iluminá-los.
– Apaga estas também, Simão. Elas são umas miseráveis centelhas, em comparação com as estrelas, por baixo deste céu cheio de astros e planetas –diz Jesus a Pedro, que está suspenso, ao ouvir o juízo da multidão.
Jesus acaricia o seu apóstolo, enquanto este se move para ir tirar as lâmpadas, e lhe pergunta em voz baixa:
– Por que aqueles olhares espantados?
– Porque desta vez tu me fazes julgar pelo povo.
– Oh! Por que tens medo disso?
– Porque ele é como eu, injusto…
– Mas é Deus quem julga, Simão!
– Sim. Mas Tu ainda não me perdoaste, ficas esperando o julgamento deles para fazê-lo… Tens razão, Mestre… Eu sou incorrigível… Mas por que, para o teu pobre Simão, este juízo de Deus?
Jesus lhe põe a mão sobre o ombro, faz isso com facilidade, porque Pedro está na parte de baixo da barca e Jesus está de pé sobre a madeira da popa e, por isso, bem mais alto do que Pedro. E sorri. Mas não lhe responde. Em vez disso, pergunta ao povo:
– E então? Falai alto. Barca por barca.
Ai! Pobre Pedro! Se Deus tivesse julgado segundo o parecer dos presentes, o teria condenado. Menos três barcas, todas as outras, incluindo as dos apóstolos, o condenam. As romanas não se pronunciam, e não são interrogadas, mas é visível que elas também o julgam condenável porque de uma barca para a outra — são três barcas — elas fazem o sinal, com o polegar para baixo.
Pedro levanta seus olhares bovinos, assustado, para o rosto de Jesus, e encontra um olhar ainda mais doce, que vem daqueles olhos de safira como uma paz, vê inclinar-se para ele um rosto brilhando de amor, e se sente puxado para o lado de Jesus, de tal modo, que sua cabeça acinzentada está sobre o lado de Jesus, enquanto o braço do Mestre o aperta, abraçando-o pelas costas.
448.8 – Assim julga o homem. Mas assim não julga Deus, ó meus filhos! Vós dizeis: “Não terá sido perdoado.” Eu digo: “O Senhor não vê nele nem o que ser perdoado.” Porque todo perdão supõe uma culpa. Mas neste caso não havia culpa.
Não, não murmureis. Repito: aqui não havia culpa. A culpa, quando é que se forma? Quando existe a vontade de pecar, o conhecimento do que é pecado e a persistência em querer pecar, mesmo depois que se ficou sabendo que aquela ação era pecado. Tudo depende da vontade com que alguém realiza um ato. Seja essa ação virtuosa ou pecaminosa. Até quando alguém faz uma coisa aparentemente boa, mas não sabe que está fazendo um ato bom, e pensa que ele é um ato mau, tem culpa, como se estivesse fazendo um ato mau, e vice-versa.
Pensai, por exemplo: alguém tem um inimigo e sabe que ele está doente. Sabe que, por ordem do médico, ele não deve beber água fria e nenhum outro líquido. E vai fazer-lhe uma visita, fingindo que o ama. Lá ele o ouve gemer, dizendo: “Estou com sede! Estou com sede!”, e, fingindo ter piedade dele, apressa-se em dar- lhe de beber água gelada do poço, dizendo-lhe: “Bebe, meu amigo. Eu te amo, não posso ficar te vendo sofrer assim com todo este ardor. Olha. Eu te trouxe, de propósito, esta água bem fresca. Bebe, bebe, pois grande recompensa é dada a quem presta assistência aos enfermos e dá de beber aos sedentos”, e, dando-lhe de beber, causa a morte dele. Credes vós que aquele ato, que em si mesmo é bom, porque constou de duas obras de misericórdia, terá sido bom, quando foi feito com má intenção? Não o é.
E ainda: Um filho que tenha um pai beberrão e que, para salvá-lo da morte porque ele bebe continuamente, fecha a adega, ou tira o dinheiro do pai, e lhe diz severamente que não vá pelo povoado para beber e arruinar-se, perece-vos que ele vá contra o quarto mandamento, só porque reprova o que o pai faz, e ele, o filho, tomaria do próprio pai o lugar de chefe da família? Em aparência, o filho faz o pai sofrer, parece culpado. Mas na realidade ele é um bom filho, porque a sua intenção é boa, é a de salvar da morte o seu pai. É sempre a intenção que dá valor ao ato.
E ainda: o soldado que mata na guerra é homicida? Não, se o seu espírito não consente na mortandade, ele combate porque é obrigado, o faz com aquele mínimo de humanidade, que a dura lei da guerra e de sua condição de soldado lhe impõe.
Portanto, aquele homem da barca que, por uma boa vontade de quem crê, é patriota e pescador, não suportava aqueles que, em sua opinião, eram uns profanadores, não fazia pecado contra o amor ao próximo, mas somente tinha um conceito errado do amor ao próximo. Ele não fazia pecado contra o respeito devido a Deus, porque o seu ressentimento contra Deus provinha de seu bom, mas não equilibrado e luminoso espírito de quem tem fé. Ele não cometia homicidio, porque provocava o desbaratamento com uma boa vontade de pedir perdão. Procurai sempre saber distinguir.
448.9 Deus é misericórdia, mais do que intransigência. Deus é bom. Deus é Pai. Deus é Amor. O verdadeiro Deus é este. O verdadeiro Deus abre os corações para todos, dizendo a todos: “Vinde”, a todos mostrando o seu Reino. Ele é livre para fazê-lo porque Ele é o único Senhor, Universal, Criador, Eterno.
Eu vo-lo peço, ó vós de Israel. Sede justos. Lembrai-vos destas coisas. Não façais que as compreendam aqueles que para vós são imundície, enquanto permanecem incompreensíveis para vós. Até o excessivo e desordenado amor da religião e da pátria é pecado, porque se transforma em egoísmo. E o egoísmo é sempre razão e ocasião de pecado.
Sim… o egoísmo é pecado, porque semeia no coração uma má vontade que nos torna rebeldes a Deus e aos seus mandamentos. A mente do egoísta não vê mais a Deus claramente, nem as suas verdades. A soberba produz uma fumaça no egoísta e ofusca as verdades. Na escuridão, a mente que não vê mais a luz pura da verdade, como via antes de tornar-se soberba, começa o processo dos porquês, e dos porquês passa para a dúvida, da dúvida passa para o afastamento, não somente do amor e da confiança em Deus e em sua justiça, mas também do temor de Deus e de seu castigo. Por causa disso nasce a facilidade para pecar, e da facilidade de pecar vem a solidão da alma que se afasta de Deus, que não tendo mais a vontade de Deus para guiá-la, cai na lei de sua vontade de pecador.
Oh! Uma bem rude cadeia a vontade do pecador, pois uma extremidade dela está na mão de Satanás e a outra extremidade está presa aos pés do homem, com uma bola pesada para segurá-lo ali como um escravo na lama e todo encurvado nas trevas. Como poderá, então, o homem não cometer pecados mortais? Poderá deixar de fazê-los, se ele só tem em si a má vontade? Então, Só então, é que Deus não perdoa. Mas, quando o homem tem boa vontade, realiza atos espontâneos de virtude, certamente acaba possuindo a Verdade, porque a boa vontade conduz a Deus, e Deus, o Pai Santíssimo, se curva amoroso, cheio de piedade e indulgente para ajudar, para abençoar, para perdoar só seus filhos que têm boa vontade.
Por isso, o homem daquela barca foi amplamente amado porque, não querendo fazer o pecado, não tinha pecado. Ide em paz agora para as vossas casas. As estrelas já tomaram conta do céu e a lua veste de pureza o mundo. Ide, obedientes como as estrelas, e tornai-vos puros como a lua. Porque Deus ama os obedientes e os puros de coração e abençoa os que põem em todas as suas ações a boa vontade de amar a Deus e aos irmãos, de trabalhar para a glória dele e para utilidade deles. A paz esteja convosco!
E Jesus torna a abrir os braços, abençoando, enquanto o círculo das barcas vai-se desfazendo. Cada um toma o seu próprio rumo.
448.10 Pedro está tão feliz, que nem pensa em mover-se. Mateus o sacode:
– Não tomas providências, Simão? Eu não sou muito capaz…
– É verdade… Oh! Mestre meu! Então não me tinhas condenado? E eu estava com tanto medo…
– Não temas, Simão de Jonas. Eu te tomei para salvar-te, e não para perder-te… Eu te tomei pela tua boa vontade… Eia! Pega o timão, olha a estrela Polar e vai com segurança, Simão de Jonas. Sempre seguro… Em todas as navegações. Deus, o teu Jesus, estará sempre de pé, a teu lado, sobre a proa de tua barca espiritual. E te compreenderá sempre, Simão de Jonas. Estás entendendo? Sempre. E não terá que perdoar-te, porque poderás cair também, como um frágil menino, mas não terás nunca a má vontade de cair… Alegra-te, Simão de Jonas.
Pedro, fora de si, muito comovido para poder falar, sufocado pelo amor, com a mão tremendo um pouco sobre o timão, mas com um rosto onde resplandece a paz, a segurança e o amor, enquanto fica olhando para o seu Mestre, que está a seu lado, em pé, lá, dentro dos limites da pequena nave, como se fosse um cândido arcanjo.
1 tu insultaste, em 98.2.
2 caminhaste, em 274.3/4.
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