475. 475. Abel de Belém da Galileiapede o perdão para seus inimigos.
17 de agosto de 1946.
475.1 – Levantai-vos e vamos –ordena Jesus aos seus, que estão dormindo num sono pesado, deitados sobre o feno que é mais um junco do que um feno que cresceu em um campo perto de um riozinho, que está à espera das chuvas de outono para regar o álveo com suas águas.
Os apóstolos obedecem sem dizer nada, pois ainda estão com sono. Eles apanham suas sacolas, põem os seus mantos, que eles haviam usado durante a noite como cobertas, e se põem a caminho com Jesus.
– Estamos indo para o Carmelo? –pergunta Tiago de Alfeu.
– Não. Para Séforis. E depois tomaremos o caminho para Magedo. O tempo mal dá para isso… –responde Jesus.
– Sim. As noites vão-se tornando úmidas e frias para se dormir nos campos, quando por algum motivo não se encontra uma casa que nos acolha –observa Mateus.
– Os homens! Mas como eles se esquecem facilmente! Senhor? Será que sempre vai ser assim? –pergunta André.
– Sempre.
– E, então! Se assim já fazemos em tua companhia, que faremos nós, logo que nos virares as costas? Tudo estará acabado –diz, muito desconsolado, Tomé.
475.2 – Eu digo, porém, que aqui há alguém que faz que se esqueça isso. Porque os homens, sim, se esquecem com facilidade. Mas nem sempre se esquecem. Eu vejo que entre nós homens, nos lembramos das coisas que tivemos e das que demos. Mas para Ti… Não, há sempre aqueles, os tais que trabalham para acabar com a lembrança de Ti
–diz Pedro.
– Não fiques fazendo juízos sem teres uma base firme –diz Jesus.
– Mestre, mas eu tenho a base!
– Tu a tens? Que foi que descobriste? –pergunta Iscariotes, muito interessado.
E, com ele, outros perguntam a mesma coisa. Mas o interessado mesmo é Judas. Ele está ansioso.
Pedro, que estava olhando para Jesus, se volta e olha para Iscariotes… é um olhar atento, vigilante, suspeitoso, e se cala, olhando para ele por alguns momentos. Depois diz:
– Oh! Não é nada… e é tudo, se não te desagrada ficar sabendo o que é. É a mesma coisa. Se eu fosse alguém que quisesse usar de todos os meios para sair-me bem, a ponto de ir correndo denunciar muitas coisas a quem nos governa, tenho a certeza de que alguém iria passar seus apertos. Mas eu prefiro não sair-me bem, prefiro isso a ter ajuda daquela parte. Nas coisas de Deus, não conto senão com a ajuda de Deus. E me pareceria intrometer a profanação nas coisas de Deus colocar aquele… aqueles… a fim de ajudarem a esmagar os répteis… e… eu não confiaria neles. Eles são capazes de esmagar os denunciados e os denunciadores, todos juntos… Assim… Vou agir por mim mesmo. Eis!
– Não percebes que fazes uma ofensa ao Mestre?
– Eu? Por quê?
– Porque Ele vai-se aproximando deles.
– Ele é Ele, e, se se aproxima deles, não o faz para conseguir alguma vantagem, mas para levá-los para Deus. Ele é capaz de fazer isso… e o faz. Mas não sai correndo atrás deles. Vê bem que… são eles que o procuram para ouvirem o “filósofo”, como eles dizem. Mas agora me parece que não estão mais com tanta vontade. E eu não choro por isso.
– Parecias estar contente, tu também, pela Páscoa!
– Parecia. O homem muitas vezes é estulto. Mas agora não parece mais, nunca mais. E eu tenho razão.
– Como uma criatura que não mistura as vantagens humanas com as coisas espirituais, tu tens razão. Mas como um apóstolo que se alegra porque os outros se afastam da luz, não. Não tens razão. Se pensasses que cada alma conquistada para a Luz é uma glória para o teu Mestre, não falarias assim –diz Jesus.
Judas Iscariotes fica olhando para Pedro com um sorriso sarcástico. Pedro o vê… mas se domina, e não diz nada.
Jesus também vê, e diz, olhando para Pedro, mas como se falasse a todos:
– Ficai sabendo, porém, que é mais desculpável um excesso de escrúpulo religioso, para um fim bom, do que um modo descuidado de passar por cima de tudo, para conseguir um fim humano. Eu já vo-lo disse muitas vezes: é a vontade humana, boa ou não boa, que determina o valor da ação. Nesse caso a vontade é boa, ainda que seja imperfeita na forma, quando ela se opõe a por o humano por cima do sobre-humano, ou aceita o que ela considera imundo aos olhos de Deus. Não é justa a sua intransigência, porque Eu vim para todos. Mas está muito perto da perfeição o seu juízo de que nas coisas de Deus se deve recorrer somente à ajuda sobrenatural, sem ficar mendigando ajudas humanas interessadas ou oportunistas.
E, com esta sentença equânime, Jesus pôs fim à discussão.
475.3 Já passaram a pé enxuto mais um leito fluvial enxugado pelo verão e, tendo-se chegado à estrada mestra, que vai de Sicaminon para a Samaria, como acho, se é que bem me lembro do lugar visto na outra vez. A estrada está cheia de gente, por causa da aproximação da festa, e já tomou aquele ar característico das estradas da Palestina nas épocas das peregrinações obrigatórias ao Templo. Viajantes, asnos, carros levando pessoas com tendas, utensílios para as paradas entre uma e outra etapa, e até na própria Jerusalém, sempre cheia de gente nas solenidades, a tal ponto que é até aconselhado que se vá comprar nas colinas que a rodeiam, se a estação do ano o permitir. Por isso, nesta festa dos Tabernáculos ainda é mais perceptível esta emigração de famílias inteiras, não porque os peregrinos sejam mais numerosos do que na Páscoa e no Pentecostes, mas porque, devendo eles obrigatoriamente viver debaixo de tendas por alguns dias, levam os utensílios que, nas outras solenidades todos tomam cuidado para não deixar para trás. É verdadeiramente o êxodo de um povo que se derrama de todas as estradas na capital, assim como o sangue de cada veia aflui para o coração.
475.4Para se entender ainda hoje a obstinada religião de Israel, tão tenaz, tão compacta — pela qual os correligionários se ajudam uns aos outros em qualquer lugar a que tenham sido impelidos pela sorte, seja qual for a Nação em que tenham nascido, isso não é obstáculo para que um hebreu de outra nação se sinta sempre irmão e compatriota do correligionário que ele tiver encontrado — essa religião precisa considerar que eles, dispersos, perseguidos, escarnecidos, aparentemente sem uma verdadeira Pátria, aquela que o seu Javé lhes deu. Eles tem a sua capital: Jerusalém, e para lá converge do mundo todo o melhor de sua raça: o espírito, o coração. Eles pecaram? Deus os puniu? As profecias se cumpriram? Sim. É verdade. Mas sempre fica uma luminosa causa de uma luminosa esperança: a reconstrução do Reino de Israel… deste Messias que deve vir… É uma dor que treme por ter perdido o merecimento diante de Deus em uma perpétua interrogação: “Mas Jesus de Nazaré era o verdadeiro Messias”? Eles procuram reconstituir-se como nação para o terem, a esse Messias, e procuram conservar firme essa fé em sua religião para merecerem o perdão de Deus e verem o cumprimento da promessa.
Eu sou uma pobre mulher. Não entendo de problemas políticos, nunca me interessei pelos hebreus atuais, nem por seus lamentos, algumas vezes eu até me ri daqueles que esperam ainda a Quem já veio. Eles o crucificaram e o choro deles me pareceu um pouco um choro de crocodilos, suas ações não me pareceram, nem me parecem dignas de merecer o que eles estão esperando de Deus, não de Cristo, que só virá no Último Dia, mas não para a reconstrução da raça hebreia dispersa em uma Nação independente. Contudo, agora que estou vendo espiritualmente os pais dos hebreus atuais, compreendo o drama secular deles, a sua tenacidade e a fonte dessa sua tenacidade. É ainda o Povo de Deus que, pela vontade de Deus, está convergindo para a Terra Prometida a seus pais, os Patriarcas, o povo que, há centenas de séculos, segue o rito mosaico, pensando em Jerusalém e no seu Templo, que brilha sobre o monte Mória. Estarão eles impedidos de ir para lá? Sim. Mas eles o farão em em espíritos.
As baionetas, os canhões, os cárceres servem contra o homem, não contra o espírito. Israel não pode perecer, porque permaneceu em sua religião. Teórica, farisaica, ritual e privada do que é a vida verdadeira de uma religião: será a correspondência do espírito ao rito material? Tudo o que quiserdes, mas, ao redor do triturado corpo, que já foi uma Nação, agora são fragmentos inumeráveis espalhados por toda a Terra, continuam a conservá-lo reunido em faixas de ideias, de ritos, de preceitos seculares vindos dos profetas e dos rabis como um farol visível de todas as partes do mundo, brilha um lugar: Jerusalém. Esse nome é como um estandarte desfraldado como um chamamento, como uma lembrança. Não. Não pode este povo ser submetido a calar-se por nenhuma força humana. Uma força maior do que a humana está nele.
Tudo se compreende quando se observa este povo, indo por caminhos intransitáveis em estações difíceis, sem se preocupar com nada que seja sofrimento, contente com a alegria de poder ir a Cidade Santa. Tudo isso se entende ao vê-los ir, ricos e pobres, meninos e velhos, da Palestina ou da Diáspora ao seu coração: Jerusalém. Tudo isso se compreende ao ouvi-los cantar os seus cantos… Eu o confesso: eu quereria que nós, os cristãos e católicos, fossemos como eles, tivéssemos como o coração do cristianismo Roma, a Igreja, e para aquele que vive nela: o Pedro atual. Tivéssemos o sentimento desses que eu vejo ir caminhar, caminhar, caminhar; eu gostaria que tivessemos o que eles tem, além da nossa Fé, que é perfeita, porque é cristã.
Talvez me dirão: “Eles são cheios de defeitos.” E nós? Estamos sem defeitos? Sem defeitos, nós que somos fortificados pela Graça e pelos Sacramentos? Nós, que deveríamos ser “perfeitos como é o Pai que está no Céus?”
475.5 Eu fiz uma digressão. Mas, acompanhando a marcha dos apóstolos, misturados com as outras turbas de Israel, o pensamento trabalha…
Trabalha até ver numa encruzilhada um grupo de discípulos, vê o Mestre e se põe ao redor dele. Entre eles está Abel de Belém, que se joga imediatamente aos pés de Jesus, dizendo:
– Mestre, eu rezei muito ao Altíssimo para que me fizesse encontrar contigo. Ele me ouviu. Eu não o esperava mais. Ele me ouviu. Agora Tu escuta a um teu discípulo.
– Que queres, Abel? Vamos lá para o limite do campo. Aqui há muita gente que vai nos perturbar.
Vão todos para onde Jesus falou e lá Abel diz o que quer.
– Mestre, Tu me salvaste1 da morte e da calúnia, fizeste de mim um discípulo teu. Então, é que me amas muito?
– E ainda podes perguntar?
– Eu pergunto para me certificar de que Tu ouves a minha oração. Quando Tu me salvaste, castigaste os meus inimigos com um horrível castigo. Certamente o que fizeste foi justo. Mas, oh! Senhor! É realmente horrível. Eu fui procurar aqueles três. Todas as vezes que eu ia à casa de minha mãe, eu os procurava. Por sobre os montes, nas cavernas, por perto de minha cidade. E não os encontrava nunca.
– Para que tu os procuravas?
– Para falar-lhes de Ti, Senhor. Para que, crendo em Ti, te invocassem e obtivessem o perdão e a cura. Somente no verão é que os encontrei, e não estavam juntos. Um deles, aquele que me odiava por causa de minha mãe, separou-se dos outros, que foram mais para cima, para o lado dos montes mais altos de Jeftael. Eles me disseram onde ele está… E, por si mesmos, eles me deram os sinais dos lugares por onde passaram os pastores de Belém, aqueles que te hospedaram naquela tarde. Os pastores, com os seus rebanhos, andam por toda parte e sabem de muitas coisas. Eles sabiam que no monte da Bela Fonte estavam os dois leprosos que eu procurava. E eu fui até lá. Oh!…
O horror transparece no rosto do jovem, que é quase um jovenzinho ainda.
– Continua.
– Eles me reconheceram. Eu não era capaz de reconhecer naqueles dois monstros os meus conterrâneos… Eles me chamaram… e me rogaram, como se eu fosse um deus… o servo me causou dó, mais do que os outros. Pelo seu puro arrependimento. Ele nada mais quer do que o teu perdão, Senhor… Aser quer também a cura. Ele tem uma velha mãe que na cidade está morrendo de dor…
– E o outro? Por que se separou?
– Porque é um demônio. Ele é o principal culpado. Já era adúltero, quando se tornou homicida. Foi quem incitou Aser, corrompeu o servo de Joel, pois este é um pouco fraco e facilmente se deixou dominar, e continua a ser um demônio. De sua boca só sai ódio e blasfêmia. E do seu coração, ódio e crueldade. Eu o vi também… Eu queria torná-lo bom. Ele caiu sobre mim como um abutre e sozinho, eu me pus em fuga com rapidez e resistência, pois que eu, era jovem e tinha saúde, mas eu não perco a esperança de salvá-lo. Eu voltarei… uma, duas, muitas vezes para levar-lhe socorros, com amor. Eu me farei amar. Ele pensa que eu vou para escarnecer de sua ruína. Mas o que eu quero é construir de novo sobre ela. Se ele conseguir amar-me, me ouvirá, e, se me escutar, acabará crendo em Ti. Isto é o que eu quero. Com os outros, oh! foi fácil, porque, por si mesmos eles meditaram e compreenderam. O servo se tornou simplesmente o mestre do outro, porque no servo há uma grande fé e um grande desejo de perdão.
475.6Vem, Senhor! Eu lhes prometi levar-te a eles, quando eu te tivesse encontrado.
– Abel, o delito deles era grande, muitos delitos em um só. E pouco ainda é o tempo que fizeram de expiação…
– Grande tem sido o tormento e o arrependimento deles. Vem.
– Abel, eles te queriam ver morto.
– Não importa, Senhor. Eu quero a vida para eles.
– Que vida?
– Aquela que Tu dás, a do espírito, o perdão, a redenção.
– Abel, eles eram os teus Cains, te odiaram a não poderem mais. Eles queriam tirar-te tudo: a vida, a honra e a mãe…
– Eles foram os meus benfeitores, porque foi por eles que eu Te tive. Eu os amo por este presente, te peço que estejam onde eu estou, acompanhando-te. Quero a salvação deles, como a minha, mais do que a minha, porque maior é o pecado deles.
– Que é que oferecerias a Deus em troca de tua salvação, se Ele te pedisse uma oferta?
Abel pensa por um momento… e depois diz com segurança:
– A mim mesmo. A minha vida. Eu perderia um punhado de lama para ir possuir o Céu. Seria uma perda feliz. Uma aquisição grande, infinita: Deus, o Céu. E dois pecadores salvos: os primogênitos do rebanho que eu espero levar a Ti e tos oferecer, Senhor.
Jesus faz um gesto que nunca fez assim em público. Ele se inclina, porque é muito mais alto do que Abel, e, segurando a cabeça dele entre suas mãos, o beija na boca, dizendo: “Assim seja”, pelo menos acho que isso é o que quererá dizer o seu “Maranata.”
E acrescenta:
– Pelos teus sentimentos, seja-te feito segundo o que pedem as tuas palavras. Vem comigo. E vós, ide para diante pela estrada de Magedo a Enganim. Lá me esperareis, se ainda não me tiverdes encontrado.
– Pregaremos a Ti e à tua doutrina –diz Iscariotes.
– Não. Vós me esperareis. Simplesmente. Conservando uma conduta de justos e humildes, e nada mais. Tratando-vos entre vós como irmãos. Passareis, quando continuardes a andar, pelas casas dos camponeses de Jocanã, dando-lhes o que vós tendes, dizendo-lhes que o Mestre, se puder, passará por Jezrael, lá pela aurora, daqui a dois dias. Ide. A paz esteja convosco.
1 me salvaste, em 248.5/11. No mesmo episódio remetem as indicações que leremos em 476.6/7.
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