23. 23. Nascimento de João Batista.Todo sofrimento se acalma no ventre de Maria.
3 de abril de 1944.
23.1 Em meio às coisas repugnantes, que nos oferece o mundo de hoje, desce do céu (e não sei como posso fazer, visto que sou como uma palhinha, levada pelo vento, nestes contínuos choques contra a maldade humana, tão destoante de tudo o que vive em mim) desce do Céu esta visão de paz.
23.2 Continuo vendo sempre a casa de Isabel. Estamos em uma bela tarde de verão, ainda com a claridade do sol e, no entanto já adornada também com o arco da lua, semelhante a uma foice no céu, parecendo também com uma vírgula de prata colocada sobre um grande pano de cor azul intensa.
As roseiras estão exalando uma agradável fragrância e as abelhas dando os seus últimos vôos do dia, como gotas de ouro, que zumbem, através do ar quente e parado da tarde. Dos prados vem um forte cheiro do feno que está secando ao sol, é um cheiro de pão, do pão quente que foi tirado agora do forno. Talvez esse cheiro venha também dos muitos tecidos que estão estendidos para secarem, por toda parte, e que Sara está dobrando.
Maria está passeando, de braços dados com a prima. Devagar, devagarinho, caminham para cima e para baixo, por debaixo de uma parreira meio escura.
Maria está atenta a tudo e, mesmo quando se ocupa com Isabel, vê que Sara está muito ocupada em dobrar de novo um longo tecido que ela tirou de cima de uma sebe.
– Espera-me sentada aqui –diz ela à sua parenta.
E vai ajudar a velha criada, puxando o tecido para esticá-lo, e dobrando-o depois com cuidado.
– Ainda estão com cheiro de sol, estão quentes –diz com um sorriso.
E, para fazer feliz a mulher, acrescenta:
– Este tecido, depois do branqueamento que fizeste, ficou tão bonito como nunca. Ninguém como tu pode fazer isso tão bem.
E lá se vai Sara muito alegre com a sua carga dos tecidos fragrantes. Maria volta a Isabel e lhe diz:
– Ainda uns poucos passos. Eles vão te fazer bem.
E, como Isabel, cansada, não quer mover-se dali, Maria lhe diz:
– Vamos só ver se os teus pombos estão todos em seus ninhos e se a água de seus bebedouros está limpa. Depois, voltamos para casa.
23.3 Os pombos devem ser os prediletos de Isabel. Quando chegam à frente da torrinha rústica, onde os pombos já se recolheram, as fêmeas estão nos buracos, os machos estão diante delas e não se movem, mas, ao verem as duas mulheres, dão ainda um sinal de saudação. Isabel fica comovida. O seu estado de fraqueza a vence e lhe traz temores que a fazem chorar. Ela, então se desabafa com sua prima:
– Se eu tivesse que morrer… pobres dos meus pombinhos! Tu não vais ficar aqui. Se ficasses em minha casa, eu não me importaria de morrer. Eu já tive a maior das alegrias que uma mulher possa ter, uma alegria que eu já me tinha resignado a não ter nunca, e até da morte eu não tenho de que me queixar com o Senhor, porque Ele — seja por isso bendito — me cumulou de graças com a sua benignidade. Mas aqui está o Zacarias… e chegará o menino. Zacarias já velho, e que se encontraria como um perdido no deserto, sem sua mulher; o menino, tão pequenino, seria como uma flor destinada a morrer enregelada, sem a sua mãe. Pobre menino, sem as carícias de sua mãe!…
– Mas, por que essa tristeza? Deus te deu a glória de ser mãe, e não vai tirá-la, logo agora que ela será plena. O pequeno João terá todos os beijos da mamãe, e Zacarias, os cuidados de sua fiel esposa, até a mais prolongada velhice. Vós sois dois ramos de uma mesma planta. Um não morrerá, deixando o outro sozinho.
– Tu és boa, e me confortas. Mas eu já estou muito velha para ter um filho. E agora, que estou para tê-lo, estou com medo.
– Oh! não! Jesus está aqui. Não precisa ter medo onde há Jesus. O meu Menino abrandou o teu sofrimento, tu mesma o disseste, quando Ele era ainda como uma flor em botão recém-formado. Agora, que cada vez mais vai crescendo ele afastará de ti todo perigo, pois já vive como filho meu e sinto bater seu coraçãozinho em minha garganta, como um filhote de passarinho, pois o pequenino coração pulsa rápido. Deves ter fé.
– Eu tenho. Mas, se eu morrer… não deixes Zacarias logo. Eu sei que pensas em tua casa. Mas, fica um pouco mais de tempo. Para ajudar meu esposo nas primeiras dores.
– Eu ficarei para me felicitar pela tua alegria e a alegria dele, e só te deixarei, quando estiveres forte e bem disposta. Fica tranqüila, Isabel. Tudo irá bem. Tua casa não sofrerá nada, enquanto estiveres sofrendo. Zacarias, será servido pela mais amorosa das criadas, tuas flores serão cuidadas, teus pombos serão tratados, e encontrarás todos alegres e bonitos, para fazerem festa para a volta da patroa. 23.4Vamos para dentro agora, pois estás ficando pálida…
– Sim, parece-me que vou começar a sofrer de novo. Talvez tenha chegado a hora. Maria, reza por mim.
– Eu te darei um apoio com a oração, até que o teu trabalho de parto chegue ao fim com alegria.
As duas mulheres, a passos lentos, tornam a entrar em casa. Isabel se retira para os seus aposentos. Maria, muito habilidosa e previdente, dá ordens e vai preparando tudo quanto pode ser necessário, além de ir confortar Zacarias, que está preocupado.
Na casa, onde ninguém dorme nesta noite, ouvem-se as vozes estranhas das mulheres, que foram chamadas para ajudar. Maria também está acordada, como um farol em noite de tempestade. A casa toda encontra nela o seu apoio. Ela, doce e sorridente, provê a tudo. Reza. Toda vez que não é chamada para alguma coisa, se recolhe em oração. Ela está na sala onde se reuniam sempre para refeições e para o trabalho.
Com ela está Zacarias, que suspira, passeando perturbado. Os dois já rezaram juntos. Depois, só Maria continua a rezar. O velho agora, cansado, foi sentar-se em sua cadeira de braços, perto de uma mesa. Está calado e sonolento. Maria está rezando, mas, quando vê que ele já está completamente adormecido, com a cabeça sobre os braços cruzados e apoiados sobre a mesa, Ela tira as sandálias para fazer menos barulho, e caminha descalça, fazendo menos ruído do que uma borboleta, quando voa num quarto. Pega o manto de Zacarias e o estende sobre ele, de um modo tão delicado, que ele nada percebe, continuando a dormir com o calor da lã, que o defende do frio da noite, que, em pequenas lufadas, vem entrando pela porta que está quase sempre aberta. Depois, volta à oração. Reza, sempre mais intensamente, de joelhos, com os braços levantados, quando os gemidos de Isabel se tornam mais agudos.
23.5 Sara entra, fazendo um sinal a Maria para que saia. Maria sai, de
pés descalços, até o jardim.
– A patroa vos está chamando –diz Sara.
– Estou indo –e Maria caminha ao longo da casa, subindo depois a escada… Parece um anjo branco, que anda durante a noite sossegada e cheia de estrelas. Maria entra no quarto de Isabel.
– Oh, Maria! Que dor, Maria! Não aguento mais, Maria! Quanto se tem que sofrer para ser mãe!
Maria a acaricia com amor e a beija.
– Maria! Maria! Deixa-me pôr as mãos em teu ventre!
Maria pega aquelas mãos rugosas e inchadas e as coloca sobre o abdômen arredondado, calcando-as com suas mãozinhas lisas e delicadas. Começa então a falar devagar, agora que as duas estão sozinhas:
– Jesus está aqui, e te está ouvindo e vendo. Tem confiança nele, Isabel, pois o coração santo dele está batendo mais forte, e agora está agindo para o teu bem. Eu percebo as palpitações dele, como se ele estivesse em minhas mãos. Estou compreendendo as palavras que o Menino está dizendo: “Diz à mulher que não tema. Ainda um pouco de dor. E depois, ao raiar do sol, no meio de muitas rosas, que estão esperando os primeiros raios matutinos para se abrirem sobre seus pedúnculos, a casa dela terá a rosa mais bonita, que será João, o meu Precursor.”
Isabel, então, apoia o rosto sobre o ventre de Maria, e chora baixinho.
Maria, por algum tempo, fica assim, pois parece que a dor está diminuindo, com uma pausa de alívio, e acena a todos para que fiquem quietos, enquanto ela continua em pé, branca e bela, à fraca claridade da luz de um candeeiro, como um anjo ao lado de quem está sofrendo. Ela está rezando. Estou vendo como move os lábios. Mas, mesmo que não visse seus lábios, eu saberia que está rezando, pela expressão arrebatada do seu rosto.
23.6 O tempo vai passando. A dor volta outra vez a Isabel. Maria a beija de novo, e se afasta. Desce, ágil, à luz do luar, e vai correndo ver se o velho ainda está dormindo. Sim, ele está dormindo, e está gemendo durante o sono. Maria faz um gesto de compaixão. E torna a pôr-se em oração.
O tempo passa. O velho desperta do seu sono, com o olhar de quem está querendo indagar porque é mesmo que ele está ali, naquele lugar. Mas depois se lembra. Faz, então, um gesto e solta uma exclamação gutural. Depois escreve: “Não nasceu ainda?” Maria faz um sinal de negação. Zacarias escreve: “Que dor! Coitada de minha mulher! Conseguirá dar à luz, sem morrer?”
Maria segura a mão do velho, e lhe garante:
– Ao romper da aurora, daqui a pouco, o menino já terá nascido. Tudo vai correr bem. Isabel é bem forte. E, como vai ser bonito este dia — pois daqui a pouco já é dia — no qual o teu menino verá a luz! Será o dia mais bonito da tua vida! o Senhor reserva grandes graças para ti, e o teu menino é o anunciador delas!
Zacarias sacode tristemente a cabeça, e faz um sinal, mostrando sua boca muda. Ele bem que gostaria de dizer muitas coisas, mas não pode.
Maria compreende, e responde:
– O Senhor te vai dar uma alegria completa. Crê Nele completamente, espera Nele infinitamente, ama-O totalmente. O Altíssimo te ouvirá, por mais que não te atrevas a esperar isso. Ele quer esta tua fé total, como para purificar-te da tua desconfiança passada. Diz comigo em teu coração: “Eu creio.” Diz isto a cada batida do teu coração. Os tesouros de Deus se abrem para quem crê nele e em sua poderosa bondade.
23.7 A luz começa a penetrar pela porta semi-aberta. Maria vai abri-la toda. A luz da aurora vai fazendo ficar toda branca a terra, coberta de orvalho. Levanta-se um cheiro de terra úmida e de folhas verdes e, com os primeiros chilreios, os passarinhos se chamam um ao outro, voando de um ramo para outro.
O velho e Maria vão até à porta. Estão pálidos por causa da noite sem dormir, e a luz da aurora os faz ainda mais pálidos. Maria torna a pôr suas sandálias, vai até os pés da escada e fica escutando. Nesse momento, uma mulher aparece, faz sinais, depois volta. Por enquanto, nada.
Maria vai a um quarto, e volta com leite quente, que ela dá ao velho para beber, depois vai ver os pombos, e torna a desaparecer naquele cômodo. Talvez seja a cozinha. Maria anda de um lado para outro e está atenta a tudo. Parece ter dormido um bom sono, de tão disposta e calma que está.
Zacarias, passeia nervosamente para baixo e para cima no jardim. Maria olha para ele com piedade. Depois, ela entra de novo no mesmo cômodo e, ajoelhada ao lado do tear, reza intensamente, porque o queixume da pobre sofredora vai-se agravando mais. Maria se inclina até o chão para suplicar ao Eterno. Zacarias volta a entrar, e, ao vê-la assim prostrada, chora. Maria se levanta, e o toma pela mão. Ela é muito mais nova do que ele, mas fica parecendo a mãe daquela pobre velhice desolada, e derrama sobre ele suas palavras de conforto.
23.8 Estão assim, um junto do outro, ao sol, que vem enchendo de tons
rosados o ar matutino e assim o anúncio jubiloso os alcança:
– Nasceu! Nasceu! É homem! Feliz do pai! É homem: um homem viçoso como uma rosa, belo como o sol, forte e bom como a mãe. Alegria para ti, ó pai abençoado pelo Senhor, que te deu um filho, a fim de que o possas oferecer em seu Templo. Glória a Deus, que concedeu posteridade a esta casa! Bênção para ti e para o filho que geraste! Possa a sua descendência perpetuar o teu nome nos séculos dos séculos, por gerações, sempre em aliança com o Senhor Eterno.
Maria, com lágrimas de alegria, está bendizendo o Senhor. Depois, os dois recebem o pequeno, levando ao pai para que o abençoe. Zacarias não vai a Isabel. Recebe o menino, que está gritando desesperadamente, mas não vai até sua mulher.
Quem vai até lá é Maria, levando com amor o pequenino, o qual de repente fica calado, logo que ela o toma em seus braços. A parteira, que a acompanha, observa este fato.
– Mulher –diz ela a Isabel–, teu menino calou-se de repente, quando ela o pegou. E olha só como ele está dormindo sossegado. E o céu é que sabe quanto ele é inquieto e forte. Agora, olha! Parece um pombinho!
Maria coloca a criança junto da mãe e a acaricia, alisando-lhe os cabelos cinzentos.
– A rosa nasceu –diz ela em voz baixa–. E tu estás viva. Zacarias está feliz.
– Ele já está falando?
– Ainda não. Mas espera no Senhor. Descansa agora. Eu estou ao teu lado.
23.9 Maria diz:
– Se a minha presença santificou o Batista, não tirou a Isabel a condenação que deriva de Eva: “Tu darás à luz os filhos com dor”, havia dito o Eterno.
Somente eu, sem mancha, e que não tinha tido união com homem, é que fui isenta de dar à luz com dor. A tristeza e a dor são frutos da culpa. Eu, que era a inculpável, tive que conhecer também a dor e a tristeza, porque eu era a co-redentora. Mas não conheci a dor, ao dar à luz. Eu não senti essa dor.
Contudo, acredita em mim, minha filha, que nunca houve, nem haverá dor de parto semelhante à minha dor de mártir, de uma maternidade espiritual, que se realizou sobre o mais duro leito: o leito da minha cruz, aos pés do patíbulo de meu Filho, que estava morrendo. Qual a mãe que foi constrangida a dar à luz desse modo? Qual a mãe que teve de misturar o tormento sofrido em suas entranhas dilaceradas pelos estertores de seu Filho moribundo, com o das entranhas que se retorcem, por terem que superar o horror de ter que dizer: “Eu vos amo. Vinde a mim, que sou vossa mãe”? Qual a mãe que teve que dizer isso aos assassinos de seu Filho, o Filho nascido do mais sublime amor que o céu nunca tinha visto antes, do amor de um Deus por uma virgem, do beijo de Fogo e do abraço de Luz, que se fizeram carne, tornando o ventre de uma mulher, o Tabernáculo de Deus?
“Quanta dor para ser mãe!” diz Isabel. Uma grande dor, sem dúvida, mas quase nada, em comparação com a minha dor.
23.10 “Deixa-me pôr as mãos sobre o teu ventre.” Oh! se em vossos sofrimentos me pedísseis sempre isto!
Eu sou a eterna portadora de Jesus. Ele está no meu ventre, conforme tu viste1 no ano passado, que Ele é como uma Hóstia consagrada no ostensório. Quem vem a mim, O encontra. Quem em mim se apoia, põe-se em contato com Ele. Quem se dirige a mim, fala com Ele. Eu sou a sua veste. Ele é a minha alma. Agora Ele está mais unido a mim, do que nos nove meses em que crescia no meu ventre. O meu Filho está unido à sua mãe. Acalmam-se todas as dores, florescem todas as esperanças, fluem todas as graças de quem vem a mim, e pousa sua cabeça sobre o meu ventre.
Eu rezo por vós. Recordai-vos disso. A felicidade de estar no céu, de viver no raio da luz de Deus, não me deixam esquecer meus filhos sofredores na terra. Rezo. Todo o céu está rezando. Porque o céu ama. O céu é caridade viva. A caridade tem piedade de vós. Ainda que fossem só as minhas orações, já seriam suficientes para as necessidades de quem espera em Deus. Porque eu não cesso de rezar por todos vós: pelos santos e pelos maus, para alcançar a alegria para os santos, e o arrependimento que salva para os malvados.
Vinde, ó filhos de minha dor. Eu vos espero aos pés da cruz para dar-vos a graça.
1 tu viste, a 23 de Junho de 1943, em “I quaderni del 1943” (Os cadernos de 1943).