381. 381. A parábola do administrador infiel e perspicaz.Hipocrisia dos fariseus e conversão de um essênio.


10 de fevereiro de 1946.

381.1 Uma numerosa multidão está à espera do Mestre, e está espalhada pelas encostas mais baixas de um monte um tanto isolado, pois está afastado por uma confluência de vales que o circundam, e de cujas encostas surgem, ou melhor, caem desbarrancadas, quase a pique, em certos lugares realmente íngremes. Para se chegar ao alto, há um caminho talhado na rocha calcária, que arranha os flancos do monte com uma vereda que, em certos pontos, tem como limites de sua largura, de um lado a parede vertical do monte, e do outro o precipício que se abre. E o caminho escabroso, de um amarelento escuro, tendendo um pouco para o vermelhão, parece uma fita jogada por entre o verde poeirento de umas moitas baixas e espinhosas. Eu diria que suas folhas são os seus próprios espinhos, que cobrem as pedregosas e áridas encostas, ornando-se com borlas aqui e ali, de uma flor de viva cor roxo-avermelhada semelhante a um penacho ou a um floco de seda, arrancado das vestes de algum infeliz que passou por aqueles espinheiros. E essa veste torturante, cheia de pontas de espinhos de um verde azulado e triste, como se tivesse sido pincelado com uma cinza impalpável, se estende em faixas até às bases do monte e pela planície entre o monte e os outros montes tanto para o noroeste como para o sudeste chegando-se aí aos primeiros lugares onde há verdadeira erva e verdadeiros arbustos, que não torturam nem são inúteis.

Sobre esses lugares, as pessoas acamparam e, com paciência, estão esperando a vinda do Senhor. Deve este ser o dia seguinte ao do discurso aos apóstolos. A manhã está fresca e o orvalho ainda não se evaporou de sobre todas as folhas. Especialmente daquelas que ainda estão mais à sombra, onde o orvalho enfeita os espinhos e flores transformando em flocos de diamantes as estranhas flores dos arbustos espinhosos. Esta, com certeza para este triste monte, é a hora da beleza. Porque nas outras horas, sob um sol desapiedado, ou nas noites de lua, deve ser horrível o aspecto deste lugar de expiação infernal.

Para o leste há uma rica e vasta cidade na planície fértil. E não se vê nada mais deste lado da encosta, ainda baixa, onde estão os peregrinos, mas lá do alto os olhos podem apreciar uma vista muito bonita, que abarca as regiões vizinhas. Creio eu que, pela altura do monte, nossa vista deveria espraiar-se até por sobre o Mar Morto as regiões a oriente dele, como também até às cadeias da Samaria e às que nos escondem Jerusalém. Mas eu não estive lá em cima, e por isso…

Os apóstolos circulam pelo meio da multidão, procurando conservá-la quieta e em ordem e colocar nos melhores lugares os doentes. Alguns discípulos, talvez os que trabalham nesta região e que haviam guiado, perto dos confins da Judeia os peregrinos desejosos de ouvir o Mestre, os ajudam a fazer o que desejam.

381.2A aparição de Jesus é repentina. Ele está vestido de linho branco, mas envolvido em um manto vermelho, para conciliar o calor das horas de sol com o frescor das noites que ainda não são as de verão. Jesus está olhando, sem que o vejam, para as pessoas que o estão esperando e está sorrindo. Parece que Ele está vindo de detrás (oeste) do monte, da meação da altura do mesmo, e vai descendo rapidamente pela vereda difícil.

Um menino, não sei se para acompanhar o voo de uns passarinhos que estavam aninhados por entre as touceiras e levantaram voo, tendo sido espantados por uma pedra que veio rolando lá de cima, ou por uma atração do olhar, vê Jesus e grita dando uns pulos:

– É o Senhor!

Todos se viram e veem Jesus que não está longe, a uns duzentos metros no máximo. Esforçam-se para correr até Ele, mas Ele, com um gesto dos braços e com a voz que chega clara até eles, talvez ajudada pelo eco do monte, lhes diz:

– Ficai onde estais.

E, sempre sorrindo, desce até os que o esperam, parando no ponto mais alto da planície.

De lá Ele os saúda:

– A paz esteja com todos –e, com particular sorriso, repete a saudação aos apóstolos e discípulos que estão perto, ao redor dele.

Jesus está radiante de beleza. Com o sol à sua frente e o flanco verdolengo do monte às suas costas, parece uma visão de sonho. As horas passadas na solidão, um fato por nós desconhecido, talvez um transbordar sobre Ele das carícias paternas, não sei por que, acentuam a sua sempre perfeita beleza e a fazem gloriosa e cheia de dignidade, pacífica, serena, eu diria alegre, como de quem volta de um encontro de amor, de um amor divino que transluz multiplicada por centenas e centenas de vezes tudo quanto no conjunto é um dom visível, uma amostra do pobre amor humano. E o Cristo com ele está fulgurante. E aprisiona os presentes que, admirados, o estão contemplando em silêncio, como se estivessem intimidados pela intuição de um mistério, o da reunião do Altíssimo com o seu verbo. É um segredo, uma hora secreta de amor entre o Pai e o Filho. Ninguém a conhecerá nunca. Mas o Filho conserva dela o sinal como se, depois de ter sido o Verbo do Pai, como Ele está no Céu, com dificuldade pudesse voltar a ser o Filho “do homem”. A Divindade transborda, explode, irradia da Humanidade, como óleo suave que sai de uma argila porosa ou como a luz de uma fornalha coberta por um véu de vidros opacos.

E Jesus inclina seus olhares radiantes, vira o seu rosto feliz, esconde o seu maravilhoso sorriso curvando-se sobre os doentes que Ele vai acariciando e curando e que olham espantados para aquele rosto cheio de luz e de amor, inclinado sobre a miséria deles para lhes dar alegria. Mas depois Ele precisa erguer-se de novo e mostrar às turbas o que é o rosto do Pacífico, do Santo, do Deus feito Carne, ainda todo envolto na luminosidade deixada pelo êxtase. Ele repete:

– A paz esteja convosco.

Até sua voz está mais musical que de costume, cheia de notas suaves e triunfais. Poderosa, ela se espalha por entre os mil ouvintes, vai em busca dos corações, acaricia-os, sacode-os, os convida a amar.

A não ser aquele grupo dos fariseus áridos e ásperos, espinhosos e carrancudos mais do que o próprio monte, que estão como umas estátuas da incompreensão e do ódio em um canto; a não ser também o outro grupo que, todo de branco e separado, está escutando de um lado, e que ouço Bartolomeu e Iscariotes mostrar como sendo “essênios.”

E Pedro resmunga:

– Assim temos um poleiro a mais de gaviões!

Os outros estão todos atentos.

– Oh! Deixa-os agir. O Verbo é para todos! –diz Jesus, sorrindo a seu Pedro, referindo-se aos essênios.

381.3 Depois Ele começa a falar.

– Como seria belo, se o homem fosse perfeito como o Pai do Céu quer. Perfeito em todos os seus pensamentos, afetos e atos. Mas o homem não sabe ser perfeito, e usa mal dos dons de Deus, o qual deu ao homem a liberdade de agir, ordenando-lhe, porém que faça as coisas boas, aconselhando-lhe as perfeitas, de tal modo que o homem não possa dizer “Eu não sabia.”

Como o homem usa da liberdade que Deus lhe deu? Assim como poderia usar dela um menino na maior parte da humanidade, ou então, como um estulto ou até como um delinquente por outros. Mas, depois disso vem a morte e, então, o homem é sujeito ao Juiz que, severo, lhe perguntará: “Como foi que usaste e abusaste do que Eu te dei?” Que pergunta terrível! Aí, então, é que os bens da terra aparecerão como menos do que uns pedacinhos de palha, bens por causa dos quais frequentemente o homem se torna pecador. Pobre, de uma eterna miserabilidade, nu, sem aquela veste que ninguém pode fazer igual, estará envilecido e tremendo diante da majestade do Senhor e não encontrará palavras para justificar-se. Porque sobre a terra é fácil justificar-se, enganando os pobres homens. Mas no Céu isso não pode acontecer. A Deus não se engana. Nunca. E Deus não aceita combinações. Nunca.

Como então nos salvaremos? Como é que faremos que tudo sirva para a salvação, até aquilo que veio da corrupção, que transformou os metais e as pedras preciosas em instrumentos de riquezas, que acendeu as ânsias do poder e os apetites da carne? Não poderá, então, o homem que, por mais pobre que seja, sempre pecar desejando imoderadamente o ouro, os cargos e as mulheres, — e, às vezes, se torna ladrão dessas coisas para poder ter o que o rico tinha — não poderá, então, o homem, seja ele rico ou pobre, salvar-se nunca? Sim, pode. E como? Usando das riquezas para fazer o bem. O pobre que não tem inveja, que não pragueja, que não cobiça o que é dos outros, mas se contenta com o que tem, usa do seu humilde estado para com ele construir sua santidade futura e, na verdade, a maioria dos pobres sabe fazer assim. Os ricos sabem menos e para eles a riqueza é uma continua armadilha de Satanás e da tríplice concupiscência.

381.4 Mas ouvi uma parábola e vereis que os ricos também podem salvar-se, mesmo sendo ricos, reparando os seus erros passados com o bom uso das riquezas, mesmo as mal adquiridas. Porque Deus, o Senhor boníssimo, deixa sempre muitos meios aos seus filhos para que se possam salvar.

Havia, pois, um rico que tinha um administrador. Alguns, que eram inimigos deste porque invejavam o bom cargo que ele tinha, ou então porque eram muito amigos do rico e se preocupavam com o seu bem-estar, foram ao patrão acusar o administrador que ele tinha. “Ele está esbanjando os teus bens. Ele se descuida de fazê-los produzir. Abre os olhos! Trata de defender-te!”

O rico, tendo ouvido aquelas contínuas acusações, mandou o administrador comparecer à sua presença. E lhe disse: “Sobre ti, disseram-me isto e aquilo. Como foi que fizeste uma coisa destas? Presta-me contas da tua administração, pois eu não te permito mais estar à frente dela. Eu não posso confiar em ti e não posso dar um exemplo de injustiça nem de estupidez, que levaria os outros empregados a agirem como tu agiste. Vai, e volta amanhã com toda a escrita para que eu a examine e me ponha a par da situação dos meus bens, antes de confiá-los a um novo feitor.” Ele despachou o administrador, que se foi pensativo, dizendo a si mesmo: “E agora? Que vou fazer, agora que o patrão me tira a administração? Economias, eu não tenho, porque, certo como eu estava de poder viver sossegado, eu tanto usurpava os bens como gozava com eles. Ir agora fazer-me de camponês e súdito, não dá, porque me desacostumei do trabalho e estou viciado nas farras. Pedir esmola, isso não. Seria rebaixar-me demais. Que farei, então?”

Ele pensou e julgou ter achado o modo de sair-se bem de sua penosa situação. E pensou assim: “Encontrei. Com os mesmos meios com que eu consegui uma boa vida até agora, de agora em diante conseguirei ter amigos que me hospedarão por reconhecimento quando eu estiver fora da administração. Quem faz benefício sempre tem amigos. Vamos, então, fazer benefícios para sermos beneficiados e vamos logo, antes que a notícia se espalhe, e fique tarde demais.”

E, tendo ido aos diversos devedores do seu patrão, disse ao primeiro: “Quanto estás devendo ao teu patrão pela soma que ele te emprestou na primavera, há três anos?”

E o interrogado respondeu: “Cem barris de óleo pela soma e com os juros.”

“Oh! pobrezinho. Tu, assim cheio de filhos, tu, preocupado com as doenças dos filhos, teres que pagar tudo isso? Ele não te fez o empréstimo no valor de trinta barris?”

“Sim. Mas eu estava com uma necessidade urgente e ele me disse: ‘Eu tos dou, mas com a combinação de que tu me dás o que esta soma rende em três anos’. E me arrendou tudo pelo valor de cem barris. E eu lhes devo dar.”

“Mas isso é uma usura! Não. Não. Ele é rico e tu mal estás tendo para comer. Ele tem família pequena e tu uma muito grande. Escreve que ele te arrendou por cinquenta barris e não penses mais nisto. Eu jurarei que isto é verdade. E tu terás o teu bem-estar.”

“Mas tu, não me trairás se ele vier a saber?”

“Pensas assim? Eu sou o administrador e o que eu juro é sagrado. faze como eu te digo e sê feliz.”

O homem escreveu, assinou e disse: “Bendito sejas tu! Meu amigo e salvador! Como te recompensarei?”

“Mas, de modo nenhum! Quer dizer que, se por causa de ti eu tivesse que sofrer e ser expulso, tu me acolherias por reconhecimento.”

“Mas, com certeza! Com certeza. Conta comigo, então!”

O administrador saiu dali e se dirigiu a um outro devedor, mantendo mais ou menos a mesma conversa. Este devia pagar cem alqueires de trigo porque a seca durante três anos havia destruído os cereais, e ele tinha precisado recorrer ao rico para sustentar a família.

“Mas não penses nem em dobrar o que ele te deu. Nega-lhe o trigo. Está exigindo o dobro de alguém que tem fome e tem filhos, enquanto que o que é dele está carunchando nos celeiros, pois isso ele possui com grande fartura. Escreve oitenta alqueires.”

“Mas se ele se lembrar que me deu vinte e mais vinte, e depois dez?”

“Mas, de que queres que ele se lembre? Eu os dei, e eu não quero pensar nisso. Faze, faze assim e fica firme em teu lugar. É necessário que haja justiça entre pobres e ricos! Pois eu, se fosse o teu patrão, quereria somente os cinquenta alqueires e talvez até os perdoasse.”

“Tu és bom. Se todos fossem como tu! Lembra-te de que minha casa é tua amiga.”

O administrador foi atrás de outros, usando sempre o mesmo método, comprometendo-se até a sofrer para pôr as coisas em seus lugares com justiça. E ofertas de ajuda e bênçãos choveram sobre ele.

381.5 Tendo assim garantido o seu amanhã, foi ele tranquilo até o patrão, o qual, por sua vez, havia investigado a vida do administrador e descoberto o jogo dele. Contudo, ele o elogiou, dizendo: “O teu modo de agir não foi bom e por ele eu não te elogio. Mas eu devo louvar-te pelo teu tino. Em verdade, em verdade, os filhos deste século são mais perspicazes do que os filhos da Luz.”

E o que o rico disse, Eu também vos digo:

A fraude não é uma coisa bonita e, por praticá-la, Eu jamais louvarei a ninguém. Mas Eu vos exorto a serdes pelo menos como filhos do século, perspicazes, usando os meios do século a fim de fazê-los usar de suas moedas para entrarem no Reino da Luz.” Isto quer dizer que, por meio das riquezas terrestres, que são uns meios injustos na repartição e usados para a aquisição de um bem- estar transitório, que não tem valor no Reino eterno, fazei, por meio deles, amigos vossos que vos abram as portas do Reino. Fazei o bem com os meios que tendes, restituí aquilo que vós, ou outros de vossa família, apanharam sem terem direito a fazê-lo, afastai-vos de um afeto doentio e culpado para com as riquezas. E todas essas coisas serão como amigos que, na hora da morte, vos abrirão as portas eternas e vos receberão nas moradas dos bem-aventurados.

Como podeis exigir que Deus vos dê os seus bens no Paraíso, se estais vendo que não sabeis fazer bom uso nem dos bens terrestres? Quereis que, o que é uma suposição impossível, que Ele admita na Jerusalém celeste elementos esbanjadores? Não, nunca. Lá em cima se viverá com caridade, com generosidade e justiça. Todos por um e todos por todos. A Comunhão dos Santos é uma sociedade ativa e honesta, uma santa sociedade. E ninguém, que tiver mostrado que é injusto e infiel pode entrar lá.

Não digais: “Mas lá em cima seremos fiéis porque lá em cima teremos tudo sem nenhum temor.” Não. Quem é infiel no pouco seria infiel também se possuísse tudo1 e quem é injusto no pouco é injusto no muito. Deus não confia as verdadeiras riquezas a quem, na prova terrena, mostra que não sabe usar das riquezas terrenas. Como é que pode Deus confiar-vos um dia no Céu a missão de espíritos sustentadores dos irmãos sobre a terra quando tiverdes mostrado que extorquir e fraudar e conservar com avidez, foi o que soubestes fazer? Por isso, Ele não vos dará o vosso tesouro, mas o dará àqueles que souberam ser precavidos nesta terra, usando até daquilo que era injusto e prejudicial em obras que os tornam justos e retos.

Ninguém pode servir a dois patrões. Porque será de um ou do outro, ou odiará a um ou ao outro. Os dois patrões entre os quais ele pode escolher são Deus e o dinheiro. Mas se ele quiser servir ao primeiro não pode vestir as insígnias, atender aos comandos, nem fazer uso dos meios do segundo.

381.6 Uma voz se levanta do meio do grupo dos essênios:

– O homem não está livre para escolher. Ele é constrangido a seguir o seu destino. Nós não dizemos que tal destino esteja distribuído sem sabedoria. Pelo contrário, a Mente perfeita estabeleceu, por seus próprios e perfeitos desígnios, o número daqueles que serão dignos dos Céus. Os outros inutilmente se esforçarão para consegui-lo. Assim é. De outro modo não pode ser. Assim como alguém, ao sair de casa pode estar indo ao encontro da morte por causa de uma pedra que escapa da cornija, enquanto que um outro, no ponto mais encarniçado de uma batalha pode sair-se bem, sem levar nem uma pequena ferida, igualmente aquele que quer salvar-se mas não está escrito que ele o deva ser outra coisa não fará a não ser o pecado, mesmo sem o saber, porque está decretada a sua condenação.

– Não, homem. Assim não é e trata de mudar de opinião. Pois assim pensando, fazes uma grave afronta ao Senhor.

– Por quê? Prova-o a mim, e mudarei de opinião.

– Porque tu, dizendo isso, mentalmente já estás admitindo que Deus é injusto para com as suas criaturas. Ele as criou de modo igual e com o mesmo amor. Ele é um Pai Perfeito em sua paternidade como em todas as outras coisas. Como é, então, que Ele pode fazer distinções e, quando um homem é concebido, amaldiçoá-lo, enquanto ele é ainda um embrião inocente? E isso, desde quando ele ainda é incapaz de pecar?

– Para ter um ressarcimento pela ofensa que recebeu do homem.

– Não. Não é assim que Deus busca ressarcimento! Ele não se contentaria com um miserável sacrifício como esse, afinal um sacrifício injusto e forçado. A culpa para com Deus só pode ser tirada pelo Deus feito Homem. Ele é que será o Expiador. Não este ou aquele homem. Oh! Se tivesse sido possível que Eu tivesse que tirar somente a culpa original. Que a terra não tivesse tido nenhum Caim, nenhum Lamec, nenhum corrompido sodomita, nenhum homicida, ladrão, fornicador, blasfemo, nenhum sem amor aos pais, nenhum perjuro e assim por diante! Mas de cada um desses pecados, não é Deus, mas é o pecador que é o culpado e o autor. Deus deu liberdade aos filhos de escolherem o Bem ou o Mal.

– Mas Ele não fez bem –grita um escriba–. Ele nos tentou, além da medida. Sabendo que éramos fracos, ignorantes, envenenados, colocou-nos diante da tentação. Isto é imprudência e malvadez. Tu, que és justo, deves dar-me razão, pois eu digo uma verdade.

– Tu estás dizendo uma mentira para me tentares. Deus a Adão e Eva tinha dado todos os conselhos, e para que serviu?

– Nisso também Ele fez mal. Ele não devia ter posto a árvore, a tentação, no Paraíso.

– E, então, qual seria o merecimento do homem?

– Viveria sem isso. Viveria sem seu próprio merecimento e somente pelo merecimento de Deus.

– Eles te estão querendo tentar, Mestre. Deixa essas serpentes e dá ouvidos a nós, que vivemos em continência, e na meditação –grita de novo o essênio.

– Sim, vós viveis. Mas de um modo mau. Por que não o viveis santamente?

381.7 O essênio não respondeu a essa pergunta. mas perguntou:

– Como me apresentaste uma razão persuasiva sobre o livre arbítrio, eu irei meditar nela sem preconceitos esperando poder aceitá-la. Mas, agora dize-me uma coisa. Crês Tu realmente em uma ressurreição da carne e em uma vida dos espíritos de novo unidos a ela?

– E queres, então, que Deus ponha fim à vida do homem?

– Mas a alma… Se é verdade que o prêmio a torna feliz, para que é que se ressuscita a matéria? Será que isso vai aumentar a glória dos Santos?

– Nada poderá aumentar a glória que um santo terá quando ele possuir a Deus. Só uma coisa aumentará essa glória no último Dia: e é a de ficar sabendo que o pecado não existe mais. Mas, não te parece justo que, assim como durante este dia a carne e a alma estiveram unidas na luta para conseguir Céu, assim no Dia eterno que a carne e a alma estejam unidas para gozarem do prêmio? Não estás persuadido disto? E, então, por que vives em continência e meditação?

– Para… para ser homem de modo mais perfeito, acima dos outros animais que obedecem aos instintos desenfreadamente e para ser maior do que a maior parte dos homens que estão emporcalhados pela animalidade e ainda vivem exibindo filactérias e fímbrias, e franjas e vestes largas, e se dizem “os separados”.

Anátema! Os fariseus, tendo recebido em cheio as flechadas, o que fez a multidão murmurar sua aprovação, estão se contorcendo e gritando como uns possessos.

– Ele nos está insultando, Mestre! Tu conheces a nossa santidade. Defende-nos, então –gritam eles gesticulando.

Jesus responde:

– Ele também conhece a vossa hipocrisia. Vossas vestes não correspondem à vossa santidade. Merecei ser louvados, e Eu poderei falar. Mas, a ti, essênio! Eu te respondo que muito demais te sacrificas por pouca coisa. Por quê? Por quem? Por quanto? Por um louvor humano. Por um corpo mortal. Por um tempo que passa rápido como o voo de um falcão. Procura engrandecer o teu sacrifício. Crê no Deus verdadeiro, na feliz ressurreição, na vontade livre do homem. Vive como um asceta. Mas por estas razões sobrenaturais. E, com tua carne ressuscitada, gozarás da eterna alegria.

– É tarde! Já estou velho! Talvez eu tenha estragado a minha vida pertencendo a uma seita cheia de erros2… Tudo terminou!

381.7– Não. Nada terminou para quem quer fazer o bem! Ouvi, ó pecadores, ó vós que estais em vossos erros, ó vós, seja qual for o vosso passado. Arrependei-vos. Vinde, à Misericórdia. Ela vos abre os braços. Ela vos indica o caminho. Eu sou a fonte pura, a fonte da vida. Jogai fora as coisas que até aqui vos extraviaram. Vinde nus para o banho. Revesti-vos de luz. Renascei. Andastes roubando como ladrões pelas estradas, ou como gente fina com esperteza nos negócios e nas administrações? Vinde. Tendes sido opressores? Vinde. Vinde. Arrependei-vos. Vinde ao amor e à paz. Oh! Mas deixai que o amor de Deus possa derramar-se sobre vós. Aliviai-o nesse seu amor que vive angustiado pela vossa resistência, por vosso medo e vossas titubeações. Eu vo-lo peço em nome do meu e do vosso Pai. Vinde à Vida e à Verdade, e tereis a vida eterna.

Um homem do meio da multidão grita:

– Eu sou rico e pecador. Que devo fazer para ir?

– Renuncia a tudo por amor a Deus e à tua alma.

Os fariseus murmuram e zombam de Jesus, dizendo ser Ele um “vendedor de ilusões e de heresias”, “um pecador que se finge de santo”, e o advertem, dizendo que os hereges são sempre hereges, que assim são os essênios. Dizem que as conversões repentinas não são mais do que exaltações momentâneas e que o impuro será sempre assim, e o ladrão sempre ladrão, o homicida sempre homicida. E terminam dizendo-lhe que somente eles, que vivem na santidade perfeita, têm direito ao Céu e a fazer a pregação perfeita.

381.9 – Era um dia feliz. Uma semeadura de santidade descia até os corações. O meu amor, nutrido pelo beijo de Deus, dava vida às sementes. O Filho do Homem estava feliz em santificar… Vós me envenenais o dia. Mas, não importa. Eu vos digo — se agradável não vos for, de vós é a culpa — Eu vos digo que vós sois daqueles que parecem justos ou tentam parecê-lo à vista dos homens, mas justos vós não sois. O que é grande à vista dos homens é abominável diante da imensidade e da perfeição de Deus. Vós gostais de viver falando na Lei antiga. Por que, então, não a praticais? Vós modificais a Lei conforme as vossas conveniências, tornando-a pesada com pesos que vos são úteis. Por que, então, não quereis que Eu a modifique em favor desses pequenos, tirando dela todas as franjas e os zizites e telefins pesados, inúteis, que são preceitos criados por vós, e tais e tantos que a Lei essencial até desaparece por baixo deles e morre afogada? Eu tenho piedade dessas turbas, destas almas que procuram respirar na Religião e acham que o nó dela está frouxo. Eles procuram o amor e o que encontram é o terror…

Não. Vinde, ó pequenos de Israel. A lei é amor! Deus é amor. Assim é que Eu digo aos que têm medo de vós. A Lei severa e os profetas ameaçadores que me predisseram, mas que não conseguiram frear o pecado, não obstante os urros do seu profetizar angustioso, chegaram até o tempo de João. De João para cá já chegou o Reino de Deus, o Reino do amor. E Eu digo aos humildes: “Entrai nele. ele é para vós.” E todos aqueles que são de boa vontade se esforçam por entrar nele. Mas para aqueles que não querem inclinar a cabeça, bater no peito e dizer “Eu pequei”, para esses não será o Reino. Está escrito3:

“Circuncidai o vosso coração, sem endurecerdes ainda mais a vossa cerviz.”

Esta terra viu o prodígio de Eliseu, que fez ficarem doces as águas amargas ao jogar sal dentro delas. E Eu não jogo o sal da sabedoria em vossos corações? E, então, será que sois inferiores às águas e não mudais o vosso espírito? Misturai às vossas fórmulas o meu sal e elas terão um sabor novo, capaz de dar à Lei a sua primitiva força. Em vós antes dos outros, porque sois os mais necessitados. Vós dizeis que Eu mudo a Lei. Não. Vós mentis. Eu restituo à Lei a sua primitiva forma por vós deturpada. Porque é uma lei que durará tanto quanto a Terra e antes haverão de desaparecer o céu e a terra do que um só dos seus termos e dos conselhos. E, se vós a mudais porque assim vos agrada, se buscais pretextos para justificar escapatórias para as vossas culpas, ficai sabendo que isso não adianta. Não adianta, ó Samuel. Não adianta, ó Isaías. Sempre foi dito: “Não cometer adultério”, e Eu completo: “Quem manda embora uma esposa para tomar outra é adúltero, e quem se casa com uma repudiada pelo marido é adúltero, porque aquilo que Deus uniu só a morte pode separar.”

Mas as palavras duras são para os pecadores impenitentes. Aqueles que pecaram, mas se arrependem com desolação do que fizeram, que fiquem sabendo, creiam que Deus é Bondade e vão a Ele, que os absolve, perdoa e admite à Vida. Ide com esta certeza. Espalhai-a nos corações. Pregai a misericórdia que vos dá a paz, abençoando-vos em nome do Senhor.

381.10 O povo vai saindo lentamente, ou porque o caminho é estreito ou porque Jesus o atrai. Mas vai sorrindo…

Ficam os apóstolos com Jesus e, falando, vão pegando o caminho. Procuram sombra, caminhando ao lado de um pequeno bosque de umas tamareiras descabeladas. Mas dentro do bosque está um essênio. Aquele que falou com Jesus. Ele está tirando suas vestes brancas.

Pedro, que vai à frente de todos, fica espantado ao ver que o homem, que ficou somente com as calças curtas, vai correndo atrás de Jesus, dizendo:

– Mestre! Um doido! Aquele que estava falando contigo, o essênio. Ele se desnudou, está chorando e suspirando. Não podemos ir lá.

Mas o homem, magro, barbudo, que de fato está nu em seu corpo, menos nas partes cobertas pelas calças curtas e pelas sandálias, já está saindo da parte mais fechada do bosque e vai para Jesus, chorando e batendo no peito. Ele se prostra:

– Pois eu sou o milagre do coração. Tu curaste o meu espírito. Eu obedeço à tua palavra. Eu me revisto de luz, deixando todos os outros pensamentos, que fossem para mim uma veste de erro. Eu me separo para meditar no Deus verdadeiro, para conseguir vida e ressurreição. Assim está bom? Mostra-me o novo nome e um lugar em que eu possa viver de Ti e das tuas palavras.

– Ele está doido! Nós não sabemos ainda viver, nós que já ouvimos tantas coisas! E ele… só com ouvi-las uma vez… –dizem uns aos outros os apóstolos.

Mas o homem, que os ouviu, lhes diz:

– E quereis vós impor limites a Deus? Ele me quebrantou o coração para dar-me um espírito livre. Senhor… –suplica estendendo os braços para Jesus.

– Sim. Chamas-te Elias, e agora, sê fogo. Aquele monte é cheio de cavernas. Vai para ele e quando perceberes que a terra está tremendo por um grande terremoto sai, e vai procurar os servos do Senhor para te unires a eles. Tu renascerás para seres um servo, tu também. Vai.

O homem lhe beija os pés, levanta-se e pega o caminho.

– Mas, ele vai nu assim? –perguntam, aturdidos.

– Dai-lhe um manto, uma faca, uma isca e um fuzil, e um pão. Ele caminhará hoje e amanhã e depois, onde pararmos, ele vai retirar-se para a oração e o Pai proverá para o seu filho.

André e João partem dali correndo e o alcançam, quando ele já estava para desaparecer, atrás de uma curva.

Eles voltam, dizendo:

– Ele os recebeu. Nós ainda lhe mostramos o lugar onde estávamos. Que presa inesperada, Senhor!

– Deus até sobre as rochas faz que floresçam flores. Até nos desertos dos corações faz surgirem espíritos cheios de boa disposição, para conforto meu. Agora, vamos para Jericó. Pararemos em alguma casa na campina.

1 Quem é infiel no pouco seria infiel também se possuísse tudo… A expressão se entende à luz de Lucas 16,10-12, esclarecida por MV com a seguinte nota em uma cópia datilografada: Linguagem figurada por ser compreensível a comparação. Certo é que no Céu não se pode pecar nem ser infiel, porque quem está no Céu já está confirmado em graça e não pode mais pecar. Mas Jesus traz esta comparação por ser mais facilmente entendido.
2 seita cheia de erro, não pela vida que os essênios conduziam e que era do tipo monástico, mas pela doutrina que professavam, cujos erros, já indicados em 80.3 e nas últimas linhas de 80.4, são evidenciados e refutados no presente diálogo entre Jesus e o essênio. Encontraremos um outro essênio no capítulo 464.
3 escrito, em Deuteronômio 10,16; prodígio de Eliseu, narrado em 2 Reis 2,19-22.


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