298. 298. O socorro aos órfãos Maria e Matiase os ensinamentos que lhe derivam.
8 de outubro de 1945.
298.1 Revejo o lago Meron, em um dia de chuva cinzento. Barro e nuvens. Silêncio e nevoeiros. O horizonte desaparece na névoa. As cordilheiras do Hermon estão cobertas pelas formações de nuvens baixas. Mas deste lugar — um pequeno planalto situado um pouco acima do pequeno lago de cor cinzento-amarelada, por causa do barro que desce de mil riozinhos, que nas enchentes transbordam, e pelo céu de um novembro cheio de nuvens — vê-se bem este pequeno espelho de água formado pelo Alto Jordão, que se alarga depois, para ir formar o outro lago maior, que é o de Genezaré.
A tarde vem descendo, sempre mais triste e chuvosa, enquanto Jesus vai indo pela estrada, que atravessa o Jordão, depois do lago Meron, para, em seguida, entrar por um caminho estreito, e dirigir-se a uma casa…
(Jesus diz:
– Neste ponto colocareis a visão dos órfãos Matias e Maria, que teve lugar a 20 de agosto de 1944).
20 de agosto de 1944.
298.2 Uma outra doce visão de Jesus e duas crianças.
Eu digo assim, porque estou vendo Jesus passando por um caminho estreito, situado entre dois campos, que há pouco devem ter sido semeados, pois a terra ainda está fofa e escura, como quando faz pouco tempo que recebeu as sementes, mas ele procura ficar firme para acariciar a dois pequeninos: um menino, que não tem mais do que quatro anos, e uma menina que terá oito ou nove. Devem ser umas crianças muito pobres, pois estão vestidas com umas roupinhas desbotadas e esfarrapadas, e tem uns rostinhos tristes e definhados pelos sofrimentos.
Jesus não pergunta nada. Ele somente olha fixamente para eles, enquanto os acaricia. Depois, se apressa em ir para uma casa, que fica no fim do caminho. É uma casa de campo, mas bem situada, com uma escada externa, que sobe do chão para o terraço, no qual há uma latada de videira, que agora está despida de cachos e de folhas. Somente uma ou outra folha, já amarelada, está pendente e sendo balançada pelo vento úmido de um triste dia de outono. No parapeito da casa uns pombos estão arrulhando, e esperando a chuva que o céu cinzento e todo nublado está prometendo.
Jesus, acompanhado pelos seus, empurra a cancela vermelha, que está no muro de pedras soltas, ao redor da casa, e entra pelo pátio, nós diríamos pelo terreiro onde está o poço e, a um canto, também está o forno. Acho que este deve ser aquele pequeno quarto, de paredes enegrecidas pela fumaça, que até agora mesmo dele está saindo, e que o vento está fazendo descer para o chão.
Tendo ouvido o barulho dos passos, uma mulher aparece à porta da casa, e vendo Jesus, o saúda com alegria, e vai correndo avisar aos de casa.
E eis que um homem, já velhinho e gordo, se apresenta à porta e se apressa a ir a Jesus:
– Que grande honra e alegria, Mestre, poder ver-te –ele o saúda.
Jesus também diz a sua saudação:
– A paz esteja contigo.
E acrescenta:
– A tarde está chegando, e a chuva já vem perto. Eu te peço abrigo e um pão para Mim e para os meus discípulos.
– Entra, Mestre. A minha casa é tua. O servo já está para desenfornar o pão. Fico muito feliz em poder oferecê-lo com o queijo do leite de minhas ovelhas e com os frutos de meus terrenos. Entra, entra, que o vento está úmido e frio…
E, muito atencioso, segura aberta a porta, e se inclina, quando Jesus vai passando. 298.3Mas depois, de repente, muda de tom, para dirigir-se a alguém que ele está vendo, e lhe diz, cheio de ira:
– Ainda estás aqui? Vai-te embora. Aqui não há nada para ti. Vai-te! Entendeste? Aqui não há lugar para vagabundos…
E resmunga por entre dentes.
– … E talvez até ladrões como tu.
Uma vozinha chorosa responde:
– Tem piedade, senhor. Um pão, pelos menos, para o meu irmãozinho. Nós estamos com fome…
Jesus, que tinha entrado na ampla cozinha, muito vistosa, por causa da grande lareira, que serve também de fogão para alumiá-la, vai até a entrada. Já mudou o seu rosto. Severo e triste agora, ele pergunta, não ao hospedeiro, mas em geral, parecendo estar falando à eira silenciosa, ou à figueira despojada de folhas, ou ao poço escuro:
– Quem é que está com fome?
– Eu, Senhor. Eu e o meu irmão. Um pão somente, e nós iremos embora.
Jesus está do lado de fora, na eira, que vai ficando mais sombria, por causa do crepúsculo e de uma chuva que está para cair.
– Vêm cá –diz Ele.
– Tenho medo, Senhor.
– Vem, te digo. Não tenhas medo de Mim.
Da parte detrás da casa, aponta a pobre menina. À pequena e miserável túnica com que ela está vestida, vem agarrado o seu irmãozinho. Eles vêm vindo cheios de medo. Lançam um olhar tímido para Jesus, outro olhar espavorido para o dono da casa, que está olhando para eles de soslaio, e dizendo:
– São uns vagabundos, Mestre. E ladrões. Há pouco, eu encontrei este esgaravatando perto do lagar. Certamente queria roubar. Ninguém sabe de onde eles vêm. Não são deste lugar.
Jesus lhe presta atenção, por assim dizer. Olha, com um olhar muito fixo para a menina, que está com um rosto macilento e com as trancinhas despenteadas, com dois rabichos por detrás das orelhas, amarrados sobre a nuca com uma tirinha de trapo. Mas o rosto de Jesus não está severo ao olhar para a menina. Ele está triste, mas sorri para encorajá-la.
– É verdade que querias roubar? Dize a verdade.
– Não, Senhor. Eu tinha pedido um pouco de pão, porque estou com fome. Mas não me deram. Então, eu vi uma crosta de pão, untada com óleo, lá no chão, perto do lagar, e fui apanhá-la. Eu estou com fome, Senhor. Ontem me foi dado somente um pão, e eu o guardei para Matias… Por que não nos colocaram juntos com a mamãe no sepulcro?
A menina chora desconsoladamente, e o irmãozinho faz como ela.
– Não chores.
Jesus a consola, acariciando-a, e puxando-a para Si:
– Responde-me: de onde és?
– Da planície de Esdrelon.
– E vieste até aqui?
– Sim, Senhor.
– Faz muito tempo que morreu a tua mãe? E pai, tu não tens?
– Meu pai foi morto pelo sol, no tempo da colheita, e a mamãe na lua passada… ela e o menino que ia nascer morreram…
E o choro aumentou.
– Não tens nenhum parente?
– Nós viemos de muito longe! Não éramos pobres… Depois o pai precisou pôr-se a serviço de outros. Agora ele está morto, e minha mãe com ele.
– Quem era o patrão dele?
– O fariseu Ismael.
– O fariseu Ismael!… –(não se pode reproduzir o modo como Jesus repetiu esse nome)–. Vieste embora por tua vontade, ou foi ele que te mandou?
– Ele me mandou, Senhor. Ele disse: “Que vão para a estrada os cães esfaimados.”
298.4– E tu, Jacó, por que não deste pão a estas crianças? Um pão, um pouco de leite e um punhado de feno para se deitarem nele, nessa canseira em que estão?
– Mas… Mestre… o pão que eu tenho é a conta para mim… o leite é pouco… e tê-los em casa… Esses aí são como animais vadios. Se fizermos cara boa para eles, eles não se vão embora…
– Então, estão te faltando lugar e alimento para estes dois infelizes? Podes dizer isso sem mentir, Jacó? A colheita grande, o vinho em quantidade, o óleo em abundância, as frutas que tornam famosa a tua propriedade este ano, para que foi que tudo isso veio? Tu ainda te lembras? No ano passado, a chuva de pedras havia arruinado os teus bens, e tu estavas pensativo, pensando em tua vida… Eu vim1, e te pedi um pão… Tu me havias ouvido falar um dia e me tinhas permanecido fiel… e, em teu sofrimento, me abriste o coração e a casa, e me deste um pão e um abrigo. E Eu, ao sair, que te disse, na manhã seguinte? Jacó, tu compreendeste a Verdade. Sê sempre misericordioso, e acharás misericórdia. Pelo pão que deste ao Filho, do homem, estes campos te darão riquezas de cereais e, carregados, como se sobre eles estivessem os grãos da areia do mar, assim serão os teus olivais, carregados de azeitonas. E ficarão inclinadas até o chão, pelo peso das maçãs, as tuas macieiras. Tudo isso tu tiveste, e és o mais rico desta região, neste ano. E tu estás negando um pão a duas crianças!…
– Mas, Tu eras o Rabi…
– Justamente porque Eu o era é que Eu podia fazer das pedras pães. Mas estes, não. Eu te digo: verás um novo milagre, e te virá um castigo, um grande castigo. Mas, então, batendo no peito, dize: “Eu o mereci.”
298.5 Jesus volta-se para as crianças:
– Não choreis. Ide àquela planta, e colhei.
– Senhor, mas ela não tem nada –objeta a menina.
– Vai.
A menina vai e volta com umas maçãs vermelhas e bonitas, que ela recolheu em suas vestes.
– Comei, e vinde comigo.
E diz aos apóstolos:
– Vamos levar estes dois pequeninos à Joana de Cusa. Ela sabe lembrar-se dos benefícios recebidos, e é misericordiosa, por amor a quem foi misericordioso. Vamos.
O homem, espantado e humilhado, tenta fazer-se perdoar:
– Já é noite, Mestre, a chuva pode cair, enquanto vais pelo caminho. Entra de novo em minha casa. A serva já vai desenfornar o pão… Ela dará também para estes…
– Não é preciso. Tu o darias, não por amor, mas por medo do castigo prometido.
– Não é então este (e mostra as maçãs apanhadas na árvore, que antes estava nua, e que os esfaimados comem avidamente), não é, então, este o milagre?
– Não.
Jesus está muito severo.
– Oh! Senhor, Senhor, tem piedade de mim. Já compreendi. Tu me queres punir nas colheitas! Tem piedade, Senhor!…
– Nem todos aqueles que me chamam Senhor me terão, porque não é na palavra, e sim no ato, que se dá testemunho de amor e respeito. Terá piedade, quem a tiver tido.
– Eu te amo, Senhor.
– Não é verdade. Ama-me quem ama, porque assim Eu ensinei. Tu não amas senão a ti mesmo. Quando me amares como Eu ensinei, o Senhor voltará. 298.6Agora Eu me vou. A minha parada é para fazer o bem, para consolar os aflitos e enxugar as lágrimas dos órfãos. Como uma galinha estende as asas sobre os seus pintinhos indefesos, assim Eu estendo o meu poder sobre aqueles que sofrem e que estão sendo atormentados. Vinde, crianças. Logo tereis casa e pão. Adeus, Jacó.
E, não contente só por ir, faz ainda que alguém tome nos braços a menina cansada. É André que a pega e a envolve em seu manto. E Jesus pega o menino e vão indo pelo caminhozinho, já no escuro, com as suas cargas, que eles vão levando por piedade e que não choram mais.
Pedro diz:
– Mestre! Grande felicidade foi para estes, que Tu tenhas chegado. Mas, para Jacó!… Que lhe farás, Mestre?
– Justiça. Ele conhecerá, não a fome, porque está com seus celeiros cheios para muito tempo ainda. Mas a restrição, pois não darão semente os grãos semeados, e as macieiras e as oliveiras ficarão cobertas só de folhas. Estes inocentes, não de Mim, mas do Pai, receberam pão e casa. Porque o meu Pai é Pai também dos órfãos. É Ele que dá ninho e comida aos passarinhos dos bosques. Eles podem dizer, e todos os miseráveis com eles, os miseráveis que sabem permanecer como “filhos inocentes e amorosos” que em sua pequena mão foi posto por Deus o alimento, e que com sua guia paterna Ele os conduz para uma casa hospitaleira.
A visão cessa assim, e eu fico numa grande paz.
298.7Diz Jesus:
– Esta é mesmo para ti, ó alma que choras, olhando para as cruzes do passado e as nuvens do futuro. O Pai terá sempre pão para pôr na tua mão e ninho para recolher sua pomba chorosa.
Para todos é o ensinamento de que Eu sei ser o “Senhor” com justiça. Mas não se me engana, nem se me adula, com uma saudação mentirosa.
Aquele que fecha o coração para o irmão, fecha o coração para Deus, e Deus para ele.
É o primeiro dos mandamentos, ó homem: Amor e amor. Quem não ama, mente ao dizer-se cristão. É inútil a freqüência aos sacramentos e aos ritos, inútil é a oração, se falta a caridade. Tornam-se fórmulas e até sacrilégios. Como podeis ir ao Pão eterno e matar com ele vossa fome, quando negastes pão ao faminto? Será mais precioso o vosso pão do que o meu? Será mais santo? hipócritas! Eu não uso de uma medida, ao entregar-me à vossa miséria, e vós, que sois miséria, não tendes piedade das misérias que são, aos olhos de Deus, não odiosas, como as vossas. Porque aquelas são desventuras, e as vossas são pecado. Muitas e muitas vezes me dizeis: “Senhor, Senhor”, a fim de me tornardes benigno para com os vossos interesses. Mas, não dizeis por amor ao próximo. Vós não fazeis nada em nome do Senhor pelo próximo.
Olhai: na coletividade e na individualidade, que é que vos deu a vossa religião mentirosa e vossa verdadeira falta de caridade? O abandono de Deus. E o Senhor voltará, quando souberdes amar como Eu ensinei. Mas para vós, pequeno rebanho dos que sofrem sendo bons, Eu digo: “Nunca sois órfãos. Nunca sois abandonados. Antes deveria não existir Deus, do que faltar com a Providência para com os seus filhos. Estendei a mão: o Pai vos dá tudo como ‘pai’, isto é, com um amor que não avilta. Enxugai vossas lágrimas. Eu vos tomo e vos levo, porque tenho piedade da vossa fraqueza.” O mais amado das criaturas é o homem. Quereis duvidar se o Pai será mais piedoso para com um passarinho, do que para com o homem? Ele o será mais para com o homem fiel, Ele, que é longânime também para com o pecador, e lhe dá tempo e modo de ir a Ele? Oh! Se o homem compreendesse quem é Deus!
Vai em paz, Maria. Tu me és querida como os dois orfãozinhos que viste, e mais ainda. Vai em paz. Eu estou contigo.
[…]
21 de agosto de 1944.
298.8 Diz Maria:
– Maria, fala a Mãe. O meu Jesus falou da infância do espírito2, um dos requisitos necessários para a conquista do Reino. Ontem eu te mostrei uma página da sua vida de Mestre. Tu viste meninos. Uns pobres meninos. Não havia outras coisas a dizer? Sim. E eu as vou dizer. A ti, que eu quero tornar sempre mais querida para Jesus. É um detalhe, no quadro que falou ao teu espírito, para o espírito de muitos. Mas os detalhes, é que fazem ficar bonito um quadro, são eles que revelam a capacidade do pintor e a sabedoria do observador. Eu quero fazer-te notar a humildade do meu Jesus.
Aquela pobre menina, em sua ignorante simplicidade, não trata de modo diferente o pecador, que tem um coração de pedra, e o meu Filho. Ela não entende o que é Rabi, nem o que é Messias. É pouco menos do que uma selvagem, que viveu nos campos, em uma casa onde desprezavam o Mestre, porque o fariseu Ismael desprezava o meu Jesus e, por isso, ela nunca ouviu falar dele, e nunca o tinha visto.
O pai e a mãe dela, alquebrados por um trabalho duro, que o cruel patrão exigia deles, não tinham tido tempo nem modo de levantar a cabeça dos torrões das glebas, que eles esboroavam. Talvez já tivessem ouvido, enquanto estavam ceifando o feno ou as messes, ou colhendo frutas e cachos de uvas, ou quebrando azeitonas no duro trabalho das moendas, algum clamor de hosanas e, então, terão levantado por um momento a cabeça cansada. Mas o medo e o cansaço terão feito abaixarem-se de novo aquelas cabeças, como sob um jugo. Eles tinham morrido, pensando que o mundo fosse somente ódio e dor. Enquanto que, pelo contrário, o mundo era amor e bem, desde quando os santíssimos pés do meu Jesus o passaram a calcar. Pobres servos de um desapiedado patrão, eles morreram, sem terem encontrado, nem uma vez, o olhar e o sorriso do meu Jesus, nem ouviram a sua palavra, que dava uma tal riqueza ao espírito que, por ela, os indigentes se sentiam como que enriquecidos os esfaimados saciados, os doentes sãos os que sofriam consolados.
Pois bem. Jesus não diz: “Eu, que sou o Senhor, te digo: Faze isto.” Ele se conserva anônimo.
E aquela pequena, tão ignorante que não compreendia nada, nem mesmo diante do milagre da macieira despojada até de folhas, mas que enche um dos seus ramos de maçãs para matar a fome deles, ela o continua a chamar “Senhor”, como chamava a Ismael de patrão e a Jacó de cruel. Ela se sente atraída pelo bom Senhor, pois a bondade sempre atrai. E mais nada. Ela o acompanha com confiança. E passa a amá-lo de repente, como por um instinto, pobre pequeno ser, perdido neste mundo, e numa ignorância desejada pelo mundo, do grande mundo dos poderosos e gozadores, que querem deter nas trevas os inferiores, a fim de poderem torturá-los à vontade e tirar deles o maior proveito.
298.9Saberá, pois, quem era aquele “Senhor” que, pobre como ela, sem casa nem alimento, sem mãe, pois tudo havia deixado por amor aos homens, até daquela migalha de homem que era ela, pobre criatura ainda pequena, aquele Senhor que lhe havia dado frutos miraculosos, querendo tirar-lhe dos lábios e do coração o amargor da maldade humana, que cria o ódio dos miseráveis contra os poderosos, por meio de um fruto do Pai, não com um pedaço de pão oferecido tardiamente e que para ela teria tido sempre um sabor de dureza e de pranto.
Verdadeiramente aquelas maçãs recordavam a do Paraíso Terrestre. Um fruto que apareceu no ramo para o Bem e para o Mal, teria significado a redenção de todas as misérias e, antes de todas, a da ignorância de Deus, para os dois orfãozinhos, e significado o castigo para aquele que, conhecendo já a Palavra, tinha agido como se não a conhecesse. Saberá pois da boa mulher que a acolheu em nome de Jesus, quem era Jesus, que para ela foi muitas vezes Salvador. Salvador da fome, das intempéries, dos perigos do mundo e da culpa original.
Mas para ela Jesus sempre teve a luz daquele dia, e naquela luz sempre lhe apareceu: o Senhor bom, de uma bondade incrível, o Senhor que tinha carícias e dons, o Senhor que a tinha feito esquecer de que não tinha pai nem mãe, que estava sem casa e sem roupa, porque Ele é doce como uma mãe, e lhes havia dado um ninho em seu cansaço e uma coberta para a sua nudez, com a veste do seu peito e o seu manto e os de outras pessoas boas que estavam com Ele.
Uma luz paternal e suave, que não pereceu sob as ondas das lágrimas, nem mesmo quando ela ficou sabendo que Ele estava sendo atormentado sobre uma cruz, nem mesmo quando, como uma das pequenas fiéis da primitiva Igreja, ela viu em que se havia transformado o rosto do seu “Senhor”, debaixo das pancadas e dos espinhos, e quando pensou como estava Ele agora no Céu, à direita do Pai. Uma luz que lhe sorriu, em sua última hora na terra, conduzindo-a sem temor para o seu Salvador, uma luz que lhe sorriu de novo, e tão inefavelmente doce, no fulgor do Paraíso.
298.10Jesus olha assim também para ti. Procura vê-lo sempre, como a tua longínqua homônima, e sê feliz por este amor dela. Sê simples, humilde, fiel como a pobre pequena Maria, que ficaste conhecendo. Vê até onde ela chegou, apesar de ser uma pobre e pequena ignorante de Israel: chegou ao Coração de Deus. O amor se lhe revelou, como a ti, e ela se tornou douta na verdadeira Sabedoria.
Tem fé, fica em paz. Não há miséria que o meu Filho não possa transformar em riqueza e não há solidão que Ele não possa preencher, como não há falta que Ele não possa cancelar. O passado não existe, quando o amor o anula. Mesmo que tenha sido um passado horrendo. Queres tu temer, se não teve medo Dimas, o ladrão3? Ama,ama, e não tenhas medo de nada.
A Mãe te deixa a sua bênção.
1 Eu vim, en 110.5.
2 falou da infância do espírito em um “ditado” no mesmo dia, o que é relatado no livro “I quaderni del 1944” (Os Cadernos de 1944).
3 Dimas, o ladrão 609.11/14.
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