302. 302. Em Magdala, antes de enviartodos à família para as Encênias.


14 de outubro de 1945.

302.1 Chuva e mais chuva.Os apóstolos, pouco satisfeitos com isso de estarem sempre tomando chuva, perguntam a Jesus se não seria melhor irem abrigar-se em Nazaré, que não ficava longe… e Pedro diz:

– Depois se poderia partir de lá com as crianças…

O “não” de Jesus é tão terminante, que ninguém mais ousa insistir

Jesus vai à frente, sozinho. Os outros vão atrás, em dois grupos, amuados.

Depois, Pedro não agüenta mais e vai para perto de Jesus.

– Mestre, queres-me perto de Ti?

– Tu me és sempre querido, Simão. Vem.

Pedro então se tranqüiliza. Ele põe-se a trotear ao lado de Jesus que, com os seus longos passos, transpõe grandes distâncias com facilidade. Dali a pouco ele diz:

– Mestre, teria sido bom se tivéssemos o menino durante a festa…

Jesus não responde.

– Mestre, por que não me fazes feliz?

– Simão, tu estás correndo o risco de Eu ter que tirar-te o menino.

– Não! Senhor! Por quê?

E Pedro fica espantado com essa ameaça e entristecido.

– Porque Eu não quero que tu fiques ligado a coisa alguma. Eu te disse quando Eu te concedi Marziam. Mas tu te estás encalhando na areia com esta tua afeição.

– Não é pecado amar. E amar Marziam. Tu também o amas,

– Mas esse amor não me impede de entregar-me todo à minha missão. Não te lembras das minhas palavras sobre os afetos humanos? Os meus conselhos tão claros, tão claros que são até ordens, para quem quiser pôr as mãos ao arado? Será que estás ficando cansado, Simão de Jonas, de ser heroicamente meu discípulo?

A voz de Pedro já está enrouquecida pelo pranto, quando ele responde:

– Não Senhor. Eu me lembro de tudo e não estou cansado. Mas eu tenho a impressão de que seja o oposto… És Tu que estás cansado de mim, do pobre Simão, que deixou tudo para te acompanhar…

– Que achou tudo ao acompanhar-me, é o que queres dizer.

– Não… Sim… Mestre… Sou um pobre homem, eu…

– Eu sei. E é justamente por isso que Eu te estou aperfeiçoando. É para fazer de um pobre homem um homem, e deste homem um santo, o meu Apóstolo, a minha Pedra. Eu sou duro para tornar-te duro. Eu não quero te ver mole, como esta lama. Eu quero te ver como um bloco esquadrejado, perfeito. Não te lembras do Sábio1? Ele diz que quem ama é severo. 302.2Mas compreende-me. Compreende-me, pelo menos tu. Não estás vendo como estou sendo oprimido, entristecido por tantas incompreensões, com tantos e tantos fingimentos demais com tantos desamores e as ainda mais numerosas desilusões?

– Está sendo assim, Mestre? Oh! Divina Misericórdia! E eu nem me dava conta disso! Que grande animal eu sou!… Mas, desde quando? Por quem te estão sendo feitas essas coisas? Dize-o a mim…

– Não adianta. Nada poderias fazer. Nem Eu posso fazer nada…

– Deveras, eu não poderia fazer nada para aliviar-te?

– Eu já te disse: compreender que a minha severidade é amor. Ver em cada ato meu a teu respeito o amor.

– Sim, sim. Não falo mais. Caro Mestre meu! Não falo mais. E Tu, perdoa a este grande animal que eu sou. Dá-me uma prova de que me perdoas mesmo…

– Uma prova! Na verdade, deveria bastar-te o meu sim. Mas Eu te darei a prova. Escuta: Eu não posso ir a Nazaré, porque em Nazaré estão João de Endor e Síntique, além de Marziam. E Eu não quero que se saiba disso.

– Nem nós? Por quê?… Ah!… Mestre?! Mestre?! Estarás temendo de algum de nós?

– A prudência ensina que, quando se quer manter uma coisa em segredo, já é demais que duas pessoas saibam dela. Pode-se fazer mal até com uma palavra descuidada. E nem todos, e nem sempre vós sois ponderados.

– É verdade. Eu também não sou. Mas, quando eu quero, sei calar-me. E agora vou calar-me. Oh! Se vou… Não serei mais o Simão de Jonas, se eu não souber calar-me. Obrigado, Mestre, pela tua estima. Esta, sim, que é uma grande prova de amor… 302.3Então, agora vamos para Tariquéia?

– Sim. Depois, com as barcas, para Magdala. Preciso receber o ouro das jóias.

– Estás vendo que eu sei calar-me? Eu nunca disse nada para Judas, sabes?

Jesus não comenta a interrupção de Pedro. E continua:

– Depois que Eu receber o ouro, vos porei todos em liberdade, até o dia depois das Encênias. Se Eu quiser algum de vós, chamar-vos-ei a Nazaré. Os judeus, menos Simão Zelotes, acompanharão as irmãs de Lázaro e as outras servas, e também Elisa de Betsur, até à casa de Betânia. Depois irão para as Encênias em suas casas. Para Mim, bastará que estejam de volta pelo fim do Shebat, quando voltaremos a peregrinar, Somente tu ficas sabendo isto, não é, Simão Pedro?

– Sim, só eu fico sabendo. Mas… Tu também deverás dizê-lo…

– Eu o direi no momento oportuno. Agora, vai aos teus companheiros e fica certo do meu amor.

Pedro obedece contente e Jesus volta a aprofundar-se em seus pensamentos.

302.4As ondas vão-se quebrando sobre a praiazinha de Magdala, quando as duas barcas lá estão atracando, ao cair de uma tarde de novembro. Não são grandes as ondas. Mas sempre incomodam a quem desembarca, porque suas vestes podem molhar-se. Mas a perspectiva de que logo estejam abrigados na casa de Maria de Mágdala faz que suportem sem reclamações algum banho não desejado.

– Ponde as barcas no abrigo, e reuni-vos –diz Jesus aos empregados.

E Ele põe-se logo a caminhar, ao longo do litoral, pois fizeram a atracação em um encaixe um pouco fora da cidade, onde estão outras barcas de pescadores de Magdala.

– Judas de Simão e Tomé, vinde comigo –chama-os Jesus.

Os dois vão a Ele.

– Eu resolvi dar-vos um encargo de confiança e uma alegria, ao mesmo tempo. O encargo é o seguinte: que acompanheis as irmãs de Lázaro até Betânia. E com elas vai Elisa. Eu vos estimo bastante para confiar-vos as discípulas. E também levareis uma carta minha para Lázaro. Depois, tendo cumprido esse encargo, ireis para as vossas casas para as Encênias… Não interrompas, Judas. Todos faremos as Encênias em nossas casas este ano. O inverno está muito chuvoso para que se possa viajar. Vede que até a freqüência dos doentes diminuiu. Por isso, aproveitemos a ocasião para descansar e dar alegria às nossas famílias. Eu vos espero em Cafarnaum, no fim do Shebat.

– Mas, Tu estarás em Cafarnaum? –pergunta Tomé.

– Por enquanto, não tenho certeza de onde estarei. Aqui ou lá, para Mim é a mesma coisa. Basta que minha Mãe esteja perto de Mim.

– Eu preferia fazer as Encênias contigo –diz Iscariotes.

– Eu creio. Mas, se me queres bem, obedece. Muito mais do que a vossa obediência, isso vos servirá de modo para ajudar os discípulos que tornaram a espalhar-se por toda parte. Deveis ajudar-me bem nisso! Nas famílias são os filhos maiores que ajudam os pais na formação dos filhos menores. Vós sois os irmãos maiores dos discípulos, que são os menores, e deveis ficar alegres, porque Eu confio em vós. Isto mostra que Eu estou contente com o vosso último trabalho.

302.5 Tomé simplesmente diz:

– Muito bem, Mestre. Mas eu, no que depende de mim, agora procurarei fazer ainda melhor. Mas não gosto de deixar-te… Contudo, isso passará logo… E meu velho pai ficará contente por estar comigo na festa… e também minhas irmãs… E a minha gêmea, então!… Ela já deve ter tido, ou está para ter, um menino… É o primeiro sobrinho… Se for homem, e nascer quando eu estiver por lá, que nome lhe porei?

– José.

– E se for mulher?

– Maria. Não há nomes mais doces.

Mas Judas, cheio de orgulho pelo encargo recebido, já se está pavoneando e faz projetos sobre projetos… Ele está completamente esquecido de que vai afastar-se de Jesus e de que, pouco tempo antes, quando da festa dos Tabernáculos, se bem me lembro, ele tinha protestado, como um poldro selvagem, contra a ordem de Jesus de separar-se dele por algum tempo. Ele perde completamente de vista a suspeita que tinha naquela ocasião de que aquilo fosse um desejo de Jesus para afastá-lo. Ele se esquece de tudo… e se sente feliz por ser considerado alguém a quem se pode encarregar de missões delicadas. Ele promete:

– Eu te trarei muito dinheiro para os pobres.

E, assim falando, já vai tirando a bolsa, e diz:

– Aqui está. Toma este dinheiro. É o que nós temos. Não temos mais. Dá-me Tu o necessário para a nossa viagem de Betânia até as nossas casas.

– Mas nós não vamos partir hoje de tarde –objeta Tomé.

– Não faz mal. Não é necessário mais dinheiro na casa de Maria, eu portanto, fico bem… contente por não ter mais para administrar. Quando eu voltar, irei levar à tua Mãe sementes de flores. Eu as arranjarei com minha mãe. Quero levar também um presente para Marziam…

Ele está muito excitado. Jesus olha para ele…

302.6Já chegaram à casa de Maria de Magdala. Fazem-se reconhecer e todos entram. As mulheres vêm correndo ao encontro do Mestre, que veio abrigar-se junto à lareira delas…

E é depois da ceia, quando os apóstolos, cansados, já se retiraram, que Jesus, sentado no centro de uma sala, faz um círculo com as discípulas e as adverte que o seu desejo é que partam quanto antes. Ao contrário dos apóstolos, nenhuma delas protesta. Inclinam a cabeça, dando o seu assentimento, e saem para ir preparar suas bagagens. Mas Jesus chama Madalena, que já está na soleira.

– E então, Maria? Por que foi que me sussurraste, quando Eu cheguei: “Preciso falar-te em segredo?”

– Mestre, eu vendi as pedras preciosas. Em Tiberíades. Quem as vendeu foi Marcela, com a ajuda de Isaque. Estou com o dinheiro no meu quarto. Eu não quis que Judas visse nada… –e fica vivamente corada.

Jesus olha fixamente para ela. Mas nada diz. Madalena sai para voltar com uma bolsa pesada, que ela entrega a Jesus:

– Aqui está –diz ela–. Pagaram bem.

– Obrigado, Maria.

– Obrigada, Rabi, por me teres pedido este favor. Tens outras coisas a pedir-me?

– Não, Maria. E tu, tens outras coisas a dizer-me?

– Não, Senhor. Abençoa-me, Mestre meu.

– Sim. Eu te abençôo… 302.7Maria… estás contente por voltar a ficar com Lázaro? Pensa que não esteja Eu mais na Palestina. E, assim sendo, voltarias contente mesmo para tua casa?

– Sim, Senhor. Mas…

– Acaba, Maria. Não tenhas medo de dizer-me o teu pensamento.

– Mas, eu teria voltado mais contente se, em vez de Judas de Keriot, estivesse Simão Zelotes, grande amigo da família.

– Preciso dele para uma séria missão.

– Então, os teus irmãos. Ou João que tem um coração de pomba. Todos, pois, menos ele… Senhor, não me fiques olhando com severidade… Quem andou comendo luxúria, sente a proximidade dela… Eu não a temo. Eu sei conservar em seu lugar a qualquer um, e muito mais a Judas. Sinto medo de não ser perdoada, temo pelo meu eu, por Satanás, que certamente está ao redor de mim, e pelo mundo… Mas, se Maria de Teófilo não tem medo de ninguém, Maria de Jesus tem repugnância pelo vício que a havia dominado, e a… Senhor, o homem que vive excitado pela sensualidade me causa náuseas…

– Não estás sozinha na viagem, Maria. E contigo Eu estou certo de que ele não voltará atrás… Lembra-te de que Eu devo fazer partir Síntique e João para Antioquia, e que não se deve ficar sabendo disso por meio de alguém que seja imprudente…

– É verdade. Então, irei… Mestre, quando nos veremos de novo?

– Não sei, Maria. Talvez somente pela Páscoa. Vai em paz agora. Eu te abençôo nesta tarde, e em todas as tardes, e contigo também à Lázaro.

Maria se inclina para beijar os pés de Jesus e sai, deixando Jesus sozinho na sala silenciosa.

1 do Sábio é Salomão, que fala da severidade como um sinal de amor: Provérbios 3,12; 13,24.


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