393. 393. Na casa de campo de Maria de Keriot.
26 de fevereiro de 1946.
393.1 Chegam à casa de campo de Judas em uma fresca e esplêndida manhã. Os pomares estão cobertos de orvalho, e, aos pés deles, as ervas formam um tapete de flores, sobre as quais zumbem as abelhas. A casa já está com as janelas escancaradas. Aquela que a dirige, a forte mulher, que combina sua autoridade de patroa com uma grande bondade, está agora distribuindo suas ordens aos servos e aos camponeses, e distribui também, com sua própria mão, o alimento a cada um, antes de mandá-los ao seu trabalho. Pela porta ampla e toda aberta da cozinha pode-se vê-la passar para lá e para cá, com sua veste escura, falando com este ou com aquele, dividindo as partes conforme as necessidades de cada trabalhador. Um bando de pombos está esperando, arrulhando diante da porta, e passam eles também a receber a sua parte.
Jesus vai adiante, sorridente, e já está quase junto à porta quando, com um saquinho de grãos na mão, Maria de Simão aparece, dizendo:
– E agora, a vós, pombinhos. Aqui está a primeira refeição, e depois, ide-vos felizes, tomar sol, e louvar o Senhor. Sede bons, bons! Há para todos, sem que haja necessidade de vos ficardes bicando…
E espalha os grãos, jogando-os em todas as direções, a fim de impedir lutas violentas entre os vorazes pombos. Ela não está vendo a Jesus, porque está com a cabeça inclinada, e curvando-se ainda mais para acariciar alguns dos voláteis, que querem bicar os dedos dos seus pés, como um sinal de amizade. Maria pega um deles entre as mãos e o acaricia. Depois o deixa, e suspira.
Jesus dá um passo para frente, dizendo:
– A paz esteja contigo, Maria, e com a tua casa!
– O mestre! –exclama a mulher, deixando cair o saquinho que ela trazia debaixo do braço, e corre ao encontro de Jesus, fazendo fugir os pombos, mas eles voltam logo, a pousar de novo no chão, e passam a trabalhar com todo o esforço, ao redor da cordinha do saquinho, e no tecido dele, tentando desatar a cordinha, ou rasgar o saquinho, a fim de saciarem sua voracidade–. Oh! Senhor! Que dia santo e feliz!
–e procura ajoelhar-se para beijar os pés de Jesus.
Mas Ele lho impede, dizendo:
– As mães dos meus apóstolos, e as israelitas santas, não devem aviltar-se, como umas escravas, em minha presença. Elas já me deram o seu espírito fiel e o seu filho. Eu tenho para com elas um amor de predileção.
A mãe de Judas, comovida, beija-lhe, então, as mãos, murmurando:
– Obrigada, Senhor!
393.2 Depois, ela levanta a cabeça, e olha para o grupinho dos apóstolos, que se deteve à altura das últimas árvores, e, espantada por não ver vindo ao seu encontro o seu filho, passa a observar melhor o grupo. Seu rosto se torna pálido, pela ansiedade. Quase que ela dá um grito para perguntar:
– E o meu filho, onde está? –e olha, com medo e com dó, para Jesus.
– Não tenhas medo, Maria. Eu o mandei, com Simão, o Zelotes, à casa de Lázaro, em uma missão. Se me tivesse sido possível parar em Massada, como Eu havia decidido, Eu o teria encontrado aqui. Mas Eu não pude parar lá. A cidade, hostil, me expulsou. E Eu vim para cá sem demora, para poder achar conforto perto de uma mãe, e para dar a ela o conforto de saber que seu filho está a serviço do Senhor, –diz Jesus, sublinhando suas últimas palavras, para dar a elas um significado mais amplo.
Maria é como uma flor emurchecida, que revive. Volta-lhe, então, a cor ao rosto, e a luz ao seu olhar. Ela pergunta:
– É mesmo, Senhor? Ele está bom? Estás contente com ele? Sim? Oh! Que alegria! Alegria do coração da mãe. Tanto que eu tenho rezado! Tenho dado tantas esmolas, tantas! E penitências… fiz tantas! E que é que eu não faria para fazer de meu filho um santo? Obrigada, Senhor! Obrigada por o teres amado tanto. Pois é o teu amor que o salva, ao meu Judas…
– Sim. É o “nosso” amor que… sustém…
– O nosso amor! Como és bom, Senhor! Pôr o meu pobre amor perto do teu, unido ao teu, que é divino. Oh! Que palavra me disseste! Quanta segurança! Que conforto e que paz me dás com ela! Enquanto era só o meu pobre amor, pouco proveito podia Judas tirar dele. Mas Tu, com o teu perdão… porque Tu conheces as culpas dele. Com o teu infinito amor, que parece crescer mais do que ele precisa dele, depois de cada culpa, oh! Tu… Afinal, o meu Judas se vencerá a si mesmo para sempre. Não é verdade, Mestre?
A mulher olha fixamente para Ele, com seus olhos negros e profundos, e com as mãos postas em oração.
Jesus… Oh! Jesus, que não pode dizer-lhe que sim, e que não lhe quer negar esta hora de paz, de afastamento dos seus temores, acha uma palavra que não é mentira, que não é uma promessa, mas que a mulher pode receber como um alívio. Ele lhe diz:
– A boa vontade dele, unida ao nosso amor, pode fazer verdadeiros milagres, Maria. Tem paz no teu coração, e pensa que Deus te ama. Muito. E te compreende. Muito. E Eu serei sempre teu amigo.
Maria lhe beija de novo as mãos, para agradecer-lhe. Depois diz:
– Entra agora em minha casa, enquanto esperamos Judas. Aqui há amor e paz, Mestre bendito.
E Jesus, tendo chamado os seus, entra na casa para tomar alguma coisa, e depois descansar.
393.3Já chegou a tarde. A noite desce lentamente sobre a campina. Os rumores vão cessando um por um, e só fica o do vento leve, por entre as copas das árvores, fazendo ouvir sua voz, em meio ao silêncio. Depois, já se ouve o primeiro grilo nos campos da messe madura. Depois, um outro… e mais outro. E, por fim, a campina toda, cheia do canto monótono… até que o primeiro rouxinol faz uma interrogação canora às estrelas… e depois se cala para escutar, e torna a cantar. Mas cala-se de novo. Que será que ele está esperando? Será a primeira claridade da lua? Ele murmura baixinho, examina se convém ir pousar no galho da frondosa nogueira, que fica junto à casa, pois talvez nela esteja o seu ninho. Parece que ele balbucia umas palavras com sua companheira, que talvez esteja chocando… Ouve-se um balido insistente, não muito longe. Um rumor de guizos na estrada que vai para Keriot. Depois, silêncio.
Jesus está sentado perto de Maria, numa das cadeiras colocadas à frente da casa. Ele toma um descanso na serenidade da companhia dos seus e dos criados da casa. A hora é plácida e agradável. Com isso, os corpos e os espíritos encontram repouso. Jesus fala pouco e com grandes intervalos. Ele deixa que os apóstolos falem sobre Engadi, sobre o velho sinagogo, sobre o milagre. Maria e os criados os escutam atentamente.
Qualquer coisa se move, por entre os troncos das macieiras. Mas, se aqui, no terreiro que está à frente da casa, ainda se pode ver um pouco com a claridade das estrelas, que se apinham no céu, lá, por baixo de toda aquela folhagem, não há nada de claridade, mas somente o barulho de alguma coisa que se move, e que me chega aos ouvidos.
– Será algum animal noturno? Alguma ovelha desgarrada? –é o que muitos perguntam.
E, ao pensarem numa ovelha, logo vem ao pensamento de muitos a ovelha que se queixa, porque lhe tiraram o cordeirinho para matá-lo.
– Não fica quieto aquele animal! –diz o feitor–. Eu temo que o leite se lhe empedre. Desde a manhã que não come, e fica sempre balindo… Ouvi-a…
– Isso passará… Elas parem, para que nós lhes comamos o cordeirinho –diz filosoficamente um dos criados.
– Mas elas não são todas iguais. Esta é menos tola, e por isso sofre mais. Estás ouvindo? Não parece estar chorando? Não digas que eu sou uma tola, Mestre… Eu tenho pena dela, como se esse fosse um pranto de mulher que perdeu o seu filho…
– Pelo contrário, tu o encontras, ó mãe, ao teu filho! –diz Judas de Keriot, aparecendo às suas costas, junto com Simão, e fazendo sobressaltarem-se todos pela surpresa–. Mestre! A tua bênção na volta, como no-la deste na partida.
– Sim, Judas.
E Jesus abraça os dois, que estão de volta.
– A tua também, minha mãe… –e Maria também beija e abraça o seu filho.
393.4 – Não esperávamos encontrar-te já aqui, Mestre. Caminhamos incansavelmente, quase sempre por atalhos, a fim de evitar que fôssemos detidos. Mas encontramos uns discípulos, e avisamos Joana e Elisa que logo nos verão –explica Simão.
– Sim. E Simão caminhava como um jovem. Mestre, desempenhamos nossa embaixada. Lázaro está muito mal. O calor o faz sofrer mais ainda. Ele te pede que vás logo à casa dele… Eu não fui a nenhum outro lugar a não ser à Fortaleza Antônia, por uma ato de caridade para com Egla que, antes de partir para Jericó, queria ir agradecer à Cláudia. Não é verdade, Simão?
– É verdade. E à Fortaleza Antônia nós fomos à hora sexta, num dia de grande mormaço, o que aconselhava a todos a ficarem em suas casas. Enquanto Judas estava falando com Cláudia, que Álbula Domitila havia chamado para o jardim, eu estava sendo interrogado pelas outras mulheres. Creio não ter feito mal em explicar-lhes, como eu podia, aquilo que elas queriam saber.
– Fizeste bem. Nelas há uma verdadeira vontade de conhecer a verdade.
– E em Cláudia há uma verdadeira vontade de ajudar-te. Eu me despedi de Egla, que foi saudar a Plautina e as outras, e me fez muitas perguntas. Se é que eu entendi bem, ela quer persuadir a Pôncio que não deve crer nas calúnias dos fariseus, dos saduceus, e assim por diante. Pôncio se fia, até um certo ponto, nos seus centuriões, bons para as batalhas, mas menos bons para embaixadas. E muito ele se serve de sua mulher, que deve ser inteligente e astuta, para saber muitas coisas com segurança. Na verdade, o Procônsul é a Cláudia. Ele mesmo deve ser uma nulidade, que ainda está de pé, porque ela é ela como poder e como conselheira. Quiseram dar-nos dinheiro para os teus pobres. Ei-lo aqui.
– Quando foi que chegastes? Não pareceis estar cansados, nem empoeirados –pergunta Tiago de Zebedeu.
– Entre a hora terceira e a sexta. Fomos a Keriot, para ver se lá estava a minha mãe, e para dar notícia da tua chegada. Mas eu procedi como Tu queres, Mestre. Não me deixei levar pelos desejos humanos. Não é verdade, Simão?
– É verdade.
– Fizeste bem. Obedece sempre, e te salvarás.
– Sim, Mestre. Oh! Agora eu vi que Cláudia está conosco, não tenho mais aquelas tolas pressas! Agora todas elas são amor. Nisto deves estar de acordo. Um desordenado amor. Desordenado, porque se sentia desprotegido, sem ajuda para atingir o seu escopo, que é de fazer-te amado, respeitado como mereces, e como deve ser. Agora eu estou mais calmo. Não tenho mais medo. E para mim, ficar esperando é até agradável…
Judas está sonhando, de olhos abertos.
– Não te entregues aos sonhos, Judas. Apoia-te na verdade. Eu sou a Luz do mundo, e a luz será sempre mal vista pelas trevas…
–adverte-o Jesus.
A lua já se levantou. Sua brancura cobre a campina, torna pálidos os rostos, prateia as casas e as árvores. A nogueira, do lado do oriente, está toda enfaixada com a luz dela. O rouxinol aceita o convite da lua, e solta seu canto, longo, melodioso, que ele estava guardando de reserva, para saudar a noite e a lua.