564. 564. O homem de Jabnia e o fim de Hermasteu.Reprovação aos samaritanos que faltam à caridade.
7 fevereiro de 1947.
564.1Já devem ter passado alguns dias. Eu falo assim porque estou vendo os trigais, que nas últimas visões tinham apenas a altura de um palmo, depois das últimas chuvas e do belo sol que veio em seguida a elas, já estão altos e dando sinais de que as espigas vêm chegando. Um vento suave está fazendo ondulações com os cereais, que ainda estão flexíveis em seus cálamos. E a brisa fica brincando com a folhagem nova das mais precoces entre as árvores frutíferas que, mal tenha caído a flor ou enquanto ela vai-se despetalando e caindo, já abriram suas folhinhas de esmeralda clara, tenras, luzidias, belas como tudo aquilo que é virgem e novo. Mais renitentes são as videiras, ainda nuas e nodosas, mas que, sobre os cordões contorcidos dos sarmentos, entrançam-se uns nos outros e passam de um caule nativo para outro; os brotos já romperam a casca escura que as ocultava e, ainda ocultas, mostram já a penugem cinzenta, que é o ninho dos futuros pampanos e das gavinhas novas, e os lenhosos e serpentiformes festões dos vinhedos parecem revestirem-se de uma graça nova.
O sol, que já está quente, começa sua obra de colorista e de destilador de aromas vegetais e, enquanto pincela com tintas mais vivas o que ainda ontem era bem pálido, esquenta os terrões e assim extrai deles, dos prados em flor, dos campos de cereais, dos jardins e dos mares, dos bosques, das paredes, dos tecidos estendidos para se enxugarem, as diversas notas dos odores, para fazer com tudo isso uma sinfonia olfativa, até se exalar em alguma violenta fermentação de mostos nas tinas, nas quais as uvas espremidas se transformam em vinho.
Ouve-se um belo canto de pássaros por entre os ramos e um insistente balido de carneiros por entre os rebanhos. E também o canto de homens que estão trabalhando pelas encostas e as vozes de meninos sorridentes. E o sorriso das mulheres. É a primavera. A natureza ama. E o homem se deleita com o amor da natureza, que amanhã o tornará mais rico; e se alegra em seus amores, que se tornam mais vivos em seu despertar sereno; e mais amável lhe parece sua esposa, mais protetor parece também o homem à sua consorte e aos dois mais queridos, os filhos, que agora sorriem e trabalham, e amanhã, na velhice dos pais já adiantada, serão o sorriso e proteção para eles.
564.2Jesus caminha pelos campos, subindo e descendo, conforme os desníveis do monte. Está sozinho. Está com sua veste de linho, porque sua última veste de lã Ele a deu a Samuel, mas leva também um pequeno manto, de um azul um tanto vivo, posto sobre um dos ombros e enrolado no corpo, mas pouco apertado, e seguro por um braço sobre o peito. A parte colocada sobre o braço flutua levemente ao vento agradável, que está passando sobre a terra, e seus cabelos ondulados, sobre a cabeça descoberta, cintilam ao sol. Ele vai indo, e nos lugares em que há meninos pequeninos Ele se inclina sobre eles, para acariciar as cabecinhas inocentes, ouvir as suas pequenas confidências e admirar o que eles correm para lhe mostrar, como se fosse um tesouro.
Uma meninazinha, que ainda tropeça ao correr de tão pequenina que é, fica embaraçada quando quer correr, pois a pequena saia ainda é comprida demais para ela e talvez a tenha herdado do irmãozinho que nasceu antes dela. Mas, afinal, ela chega toda sorridente, com uns olhos vivos, e lhe mostrando seus incisivos por entre os labiozinhos rosados, e segurando um maço de margaridinhas, um maço grosso seguro nas duas mãos, com tantas margaridinhas quantas possam segurar aquelas mãozinhas tão delicadas e pequenas, e ela levanta o seu troféu, dizendo:
– Para ti! É teu. Para a mamãe, depois. Um beijo aqui!
E bate as mãos, que agora estão livres do macinho que Jesus recebeu com palavras de admiração e agradecimento, sobre a boquinha, e está com a cabeça virada para trás, de pé sobre os pezinhos descalços, quase perdendo o equilíbrio, com a inútil tentativa de espichar sua pequenina pessoa até o rosto de Jesus, que se ri, tomando-a nos braços e indo com ela, acocorada lá em cima, como se fosse um passarinho sobre uma árvore alta, enquanto Ele vai indo em direção a um grupo de mulheres que está lavando uns tecidos novos nas águas límpidas de um rio, para estendê-los depois e alvejá-los ao sol.
As mulheres, inclinadas sobre a água, levantam-se para saudá-lo, e uma delas diz, sorrindo:
– Tamar te foi perturbar… Mas ela está desde o raiar do dia aqui, colhendo flores, com a secreta esperança de ver-te passar. Nem me deu nenhuma delas, porque antes queria dá-las a Ti.
– Eu as considero mais caras do que os tesouros do rei. Porque são inocentes como os pequeninos, e dadas por uma inocente, tão inocente como as flores.
Jesus beija a menina e a põe no chão, saudando-a:
– Venha a ti a graça do Senhor.
Saúda as mulheres e prossegue por seu caminho, saudando os agricultores ou os pastores, que o saúdam dos campos e dos prados.
564.3Parece que Ele se dirige para baixo, para o lado de Jericó. Mas depois Ele volta atrás e toma um outro caminho, que sobe de novo para os montes, ao norte de Efraim. Aqui o solo, bem exposto, mas ao abrigo dos ventos do norte, tem também messes muito bonitas. A trilhazinha entre os dois campos tem, de um lado, árvores frutíferas, a distâncias quase regulares, e os botões dos próximos frutos já estão parecendo pérolas ao longo dos ramos.
Uma estrada, que desce do norte para o sul, atravessa a trilhazinha. Deve ser uma estrada muito importante, porque no ponto da encruzilhada está um dos marcos miliários usados pelos romanos, com um letreiro escrito na face setentrional: “Neápolis.” E por baixo desse nome, esculpidas com letras bem grandes, em moldes lapidares latinos, fortes como eles mesmos, mas em letras menores, está apenas escrito no granito: “Siquém.” E na face ocidental: “Silo-Jerusalém”! E na face do sul: “Jericó.” Na face leste não há nome algum.
Mas poder-se-ia dizer que, se não há nome de cidade, lá está o nome de uma desventura humana. Porque no chão, entre a lápide miliária e a vala que margeia a estrada, como em todas as estradas sob os cuidados dos romanos, escavada para o escoamento das águas pluviais, há um homem encolhido, como um monte de trapos e de ossos, parecendo morto.
564.4Jesus se inclina sobre ele, quando o descobre entre as ervas da beira da estrada e que as águas da primavera tornaram viçosas, e toca nele, chamando-o:
– Homem, que é que tens?
Um gemido é a resposta. Mas o vulto se move e se descobre, e um rosto emagrecido da cor de um morto, aparece; e dois olhos cansados, cheios de sofrimento e languidez, olham estupefato para Aquele que está inclinado sobre suas misérias. Ele procura sentar-se, apoiando-se no chão com suas mãos esqueléticas, mas está tão fraco que, sem a ajuda de Jesus, não poderia.
Jesus o ajuda, fazendo que ele se apoie com as costas no marco miliário. E lhe pergunta:
– Que é que tens? Estás doente?
– Sim.
Mas é um sim dito com voz muito fraca.
– Mas como pôr-se em viagem sozinho, e nesse estado? Não tens ninguém?
O homem faz sinal que sim. Mas está muito fraco para responder.
Jesus olha ao seu redor. Não há ninguém nos campos. E o lugar é deserto mesmo. Ao norte, quase no alto de um morro, há um grupinho de casas. A oeste, por entre o verde da encosta, que vai mudando à medida que se vai subindo para outros cumes, onde há prados e bosques, há pastores que vão pelo meio de um rebanho de cabras irrequietas. Jesus torna a baixar os olhos sobre o homem. E lhe pergunta:
– Se Eu te ajudasse, achas que poderias ir até aquele lugar?
O homem sacode a cabeça e duas lágrimas escorrem por suas faces, que estão tão murchas como se fossem rugas de velhice, enquanto que sua barba, com reflexos meio azulados, mostra que ele é ainda jovem. Mas ele ajunta todas as suas forças para dizer:
– Expulsaram-me… com medo da lepra… eu não sou leproso… E estou morrendo… de fome.
Está ofegante por causa de sua fraqueza. Ele enfia o dedo na boca e tira dela uma papinha verdoenga:
– Olha… Eu mastiguei trigo… mas ele é ainda apenas uma erva.
– Eu vou falar com aquele pastor. E te trarei leite morno. Volto já.
E sai correndo para lá onde está o rebanho, a uns duzentos metros acima da estrada.
Chega até o pastor e lhe fala, mostrando onde é que está o homem. O pastor torna a olhar, parece titubeante se atender ou não ao pedido de Jesus. Depois ele se decide. Tira da cintura a tigela de madeira, que ele leva pendurada como todos os pastores, e tira leite de uma cabra, dando a tigela cheia a Jesus, que desce com cuidado pela encosta, acompanhado por um menino que estava com o pastor.
564.5Ei-lo de volta ao esfaimado. Pôs-se de joelhos perto dele, passa-lhe um braço por detrás das costas, para sustentá-lo, e aproxima de seus lábios a tigela onde o leite ainda está coberto de espuma. E faz que ele beba em pequenos goles. Depois, descansa a tigela no chão, dizendo:
– Por enquanto, é isso. Tudo de uma vez te faria mal. Deixa primeiro que o teu estômago se reanime, absorvendo o leite que te dei.
O homem não protesta. Ele fecha os olhos e fica calado, sendo observado pelo menino com grande espanto. Depois de algum tempo, oferece de novo a tigela, para ele beber por mais tempo, e assim vai fazendo, com pausas, cada vez mais breves, até o leite acabar. Depois entrega a tigela ao menino e o despacha.
O homem vai se reanimando lentamente. Procura, com uns movimentos ainda incertos, compor-se um pouco. Mostra um sorriso de reconhecimento, ao olhar para Jesus, que está sentado sobre a grama, perto dele. E se desculpa:
– Eu te estou fazendo perder tempo.
– Não te aflijas! Nunca é perdido o tempo usado para amar os irmãos. Quando estiveres melhor, falaremos.
– Já estou melhor. Já me está voltando o calor aos membros, e a vista… Eu pensei que ia morrer aqui… Pobres de meus filhos! Eu havia perdido toda esperança… Mas até aquela hora eu tinha tido tanta!… Se Tu não viesses, eu estaria morto… assim… numa estrada…
– Teria sido uma coisa muito triste. É verdade. Mas o Altíssimo olhou para o seu filho e o socorreu. Descansa um pouco.
O homem obedece por algum tempo. Depois torna a abrir os olhos, e diz:
– Eu me sinto reviver. Oh! Se eu pudesse ir a Efraim.
– Por quê? Tens lá alguém te esperando? Ou és de lá?
– Não. 564.6Eu sou do campos de Jabnia, perto do Mar Grande. Mas eu fui à Galileia, ao longo das beiras, tendo chegado até Cesaréia. Depois, fui a Nazaré. Porque estou doente aqui (e bate sobre o estômago). E de um mal que ninguém sabe curar, e que não me deixa trabalhar a terra. E sou viúvo. E com cinco crianças… Um dos nossos lugares é Gaza, onde eu nasci, filho de um pai filisteu e de mão siro-fenícia. Um dos nossos, que era seguidor do Rabi da Galileia, veio com um outro para o meio de nós para falar-nos desse Rabi. E eu também o ouvi. E, quando eu me vi assim doente, eu disse: “Eu sou sírio e filisteu: para Israel é uma sujeira. Mas Hermasteu dizia que o Rabi da Galileia é tão bom quanto poderoso. E eu creio nisso. E estou indo para Ele.” Logo que chegou o tempo bom, deixei os filhos com a mãe de minha mulher, ajuntei as minhas poucas economias, visto que muitas já haviam sido gastas com a doença, e vim procurar o Rabi. Mas o dinheiro acabou na viagem. E justamente quando não se pode comer qualquer coisa… e tem-se que ficar nos albergues, quando as dores nos impedem de andar. Em Séforis eu vendi o burrinho, porque eu não tinha mais dinheiro para mim e para dar ao Rabi. Eu pensava que, quando eu estivesse são, teria podido comer de tudo pelo caminho e voltar logo para casa. E lá, com o trabalho nos meus campos e nos dos outros, eu me restauraria… Mas o Rabi não está em Nazaré nem em Cafarnaum. A Mãe dele foi quem me disse. Ela me falou assim: “Ele está na Judéia. Vai procurá-lo com José de Séforis, em Bezeta ou no Getsêmani. Eles te saberão dizer onde Ele está.” Então, eu voltei para trás a pé. E o mal ia crescendo… e o dinheiro diminuindo. Em Jerusalém, para onde eu havia sido mandado, encontrei os homens, mas não o rabi. E lá me disseram: “Oh! Já o expulsaram há muito tempo. Está amaldiçoado pelo Sinédrio. Ele fugiu e não sabemos para onde.” E eu… pensei que ia morrer… como hoje. E até mais do que hoje. Andei procurando, perguntando para cem e mais cem, pelas cidades e pelos campos. Mas ninguém sabia. Alguns choravam comigo. Muitos me bateram. Depois, certo dia, eu me tinha posto a pedir esmola fora das muralhas do Templo, quando ouvi dois fariseus que diziam: “Agora se sabe que Jesus de Nazaré está em Efraim…” Não perdi tempo e, fraco como eu estava, vim até aqui, esmolando um pão, cada vez mais esfarrapado e com sinais de doente. E sem experiência, errei o caminho. Hoje estou vindo de lá. Daquele lugar. Já havia dois dias que eu só chupava uns funchos selvagens, mastigava folhas de chicória ou de trigo. Acharam que eu estava leproso, por causa da minha palidez, e me expulsaram a pedradas. Eu não queria nada mais do que um pão e saber qual o caminho para Efraim… Quando eu cheguei aqui, caí… Mas eu queria ir a Efraim. Já estou tão perto da meta! Será possível que eu não a alcance? Eu creio no rabi. E não sou israelita. Mas também Hermasteu não era, e ele o amava assim mesmo. Será possível que o Deus de Israel faça pesar sua mão sobre mim para vingar-se das culpas dos que me geraram?
– O Deus verdadeiro é pai dos homens. É justo, mas é bom. Premia a quem tem fé e não faz que os inocentes paguem por culpas que não são deles. 564.7Mas por que foi que disseste que, quando ouviste dizer que não se sabia onde o Rabi morava, te sentiste morrendo mais do que hoje?
– Eh! Porque eu disse: “Eu o perdi antes mesmo de tê-lo achado.”
– Ah! Para a tua saúde.
– Não. Não foi por causa disso somente. Mas porque Hermasteu falava dele certas coisas que me davam a entender que, se eu o tivesse conhecido, não seria mais imundície.
– Então, tu crês que Ele é o Messias?
– Creio. Eu não sei bem o que é o Messias, mas creio que o Rabi de Nazaré é o Filho de Deus.
Jesus sorri, com um sorriso luminoso, e pergunta:
– E estás certo que, sendo Ele assim, dará ouvido a ti, que és um incircunciso?
– Disso eu tenho certeza, porque Hermasteu o dizia. Ele falava assim: “Ele é o Salvador de todos. Para Ele não há hebreus ou idólatras. Mas só há criaturas para salvar, porque o Senhor Deus o mandou para isso.” Muitos se riam. Eu acreditei. Se eu puder dizer-lhe: “Jesus, tem piedade de mim”, Ele me ouvirá. Oh! Se tu és de Efraim, leva-me a Ele. Talvez tu sejas um dos seus discípulos…
564.8Jesus sorri cada vez mais e o aconselha:
– Experimenta pedir a mim que te cure…
– Tu és bom, homem. Perto de Ti se tem tanta paz. Sim, tu és bom como… o próprio Rabi, e certamente Ele te terá dado poder de fazer milagre, porque para ser bom como tu és, só podes ser um dos discípulos dele. Eu achei todos bons aqueles que me diziam ser discípulos dele. Mas que não seja uma ofensa a ti, se eu disser que tu poderás até curar os corpos, mas não as almas. E eu quereria curada ela também, como aconteceu com Hermasteu. Tornar-me um justo… E isso só o Rabi pode fazer isso. Eu sou pecador, além de doente. Não quero ficar são no corpo, para morrer depois, um dia, com a alma também. Eu quero viver. Hermasteu dizia que o Rabi é vida da alma e que a alma que crê nele vive para sempre no Reino de Deus. Leva-me ao Rabi. Sê bom. Por que estás sorrindo? Talvez porque penses que eu sou muito ousado por querer a cura sem poder dar um óbolo? Mas se eu ficar curado, poderei ainda cultivar a terra. Eu tenho frutas muito bonitas. Que o Rabi venha no tempo das frutas maduras e eu lhe pagarei com uma hospitalidade tão longa como Ele quiser.
– Quem foi que te disse que o Rabi quer dinheiro? Foi Hermasteu?
– Não. Pelo contrário, ele dizia que o Rabi tem piedade dos pobres e os socorre em primeiro lugar. Mas é que assim que se costuma fazer com todos os médicos e… afinal com todos.
– Mas não com Ele. Eu te garanto. E te digo que, se tu souberes aumentar a tua fé a ponto de pedires aqui mesmo o milagre, e se creres que isso é possível, tu o terás.
– Estás dizendo a verdade?… Tens certeza disso? Se tu de fato és um discípulo, não podes mentir nem errar. E ainda que me desagrade não poder ver o Rabi… quero obedecer-te… Talvez Ele, perseguido como está sendo… não queira ser visto… e não confie mais em ninguém. Ele tem razão. Mas não haveremos de ser nós que o arruinaremos. Serão os verdadeiros hebreus. Mas, eis aqui! Eu digo aqui (e com dificuldade se põe de joelhos): “Jesus, Filho de Deus, tem piedade de mim!
– E que te seja feito conforme a tua fé merece –diz Jesus com aquele seu gesto de quem tem poder sobre as doenças.
564.9O homem tem como que um deslumbramento, isto é, fica como quem vê uma luz repentina. E compreende — não sei se por uma abertura do intelecto, ou se por alguma sensação física, ou pelas duas coisas juntas — quem é Aquele que está diante dele. E com um grito tão agudo que o pastor, que desceu para a estrada, talvez para ir ver o que está acontecendo, até apressa o passo.
O homem está por terra com o rosto no meio da grama. E o pastor diz, mostrando-o com sua vara de pastor:
– Morreu? É preciso mais do que leite quando alguém está acabado! –e abaixa a cabeça.
O homem escutou e se põe de pé, forte e são. E grita:
– Morto? Curado é que eu estou! Foi Ele que me fez isto. Não tenho mais a fraqueza pela fome nem os espasmos pela doença. Estou como em meus dias de núpcias! Oh! Jesus bendito! E como foi que eu não te conheci antes?! Tua piedade devia dizer-me o teu Nome! A paz que eu sentia ao estar perto de Ti. Como eu fui tolo! Perdoa ao teu pobre servo!
E se joga de novo no chão para adorá-lo.
O pastor deixa suas cabras sozinhas e sai correndo, aos pulos, indo rumo ao povoado.
564.10Jesus se assenta perto do que foi curado e diz:
– Tu me falaste do Hermasteu como de um morto. Portanto, sabes qual o fim dele. Eu só quero uma coisa de ti. Que venhas comigo até Efraim e que tu contes o fim dele aos que estão Comigo. Depois te mandarei a Jericó, à casa de uma discípula, para que ela te ajude na viagem de volta.
– Se Tu assim queres, eu irei. Mas agora que estou são, não tenho mais medo de morrer pela estrada. Até as ervas me podem nutrir, e não é vergonha estender a mão, porque não foi em orgias, mas por um justo fim que eu consumi os meus haveres.
– Eu quero. Tu lhe dirás que me viste e que Eu a espero aqui. E que ela já pode vir. Não será importunada por ninguém. Saberás dizer isso?
– Saberei. Ah! Por que é que te odeiam, a Ti tão bom?
– Porque muitos homens têm em si um espírito que os possui. Vamos.
Jesus se põe a caminho para Efraim e o homem o acompanha confiante. Somente a grande magreza lhe fica como lembrança da doença e dos padecimentos passados.
Do lugarejo, gesticulando e gritando, estão chegando muitas pessoas. Estão chamando Jesus. Estão lhe dizendo que pare. Jesus não lhes dá ouvidos, mas apressa o passo. E eles, atrás dele…
E ei-lo de novo nas vizinhanças de Efraim. Os lavradores que estão se preparando para voltarem para casa, pois que o pôr do sol está começando, o saúdam, e ficam olhando o homem que está com Jesus.
564.11De um atalho, desemboca Judas de Keriot. Ele tem um sobressalto de surpresa ao ver o Mestre. Mas Jesus não mostra nenhuma surpresa. Somente se vira para o homem e diz:
– Este é o meu discípulo. Fala-lhe de Hermasteu1.
– Ah! Isso é logo. Ele era incansável em pregar sobre Cristo, mesmo depois que ele quis separar-se do companheiro para ficar conosco. Dizia que temos necessidade, mais do que todos, de conhecer-te, ó Rabi, mais do que todos os outros, e que ele queria transmitir o conhecimento de Ti à sua Pátria, e que voltaria a Ti quando tivesse sido pregado o teu Nome em todos os lugarejos menores. Vivia como um penitente. Se alguma pessoa lhe dava um pão, ele o abençoava em teu Nome. Se lhe davam pedradas, ele se retirava, abençoando-os do mesmo modo, e se nutria de plantas selvagens ou de moluscos marinhos, que ele apanhava nos recifes ou tirava da areia. Muitos o chamavam de “doido.” Mas, na verdade, ninguém o odiava. Quando muito, o expulsavam como se ele fosse um mau agouro. Um dia, encontraram-no morto na estrada, bem perto da minha terra, na estrada que vai para a Judéia, quase nos limites. Nunca se soube de que foi que ele morreu. Mas se sussurra que ele foi morto por alguém que não queria que o Messias fosse pregado. Tinha uma grande ferida na cabeça, e dizem que foi atropelado por um cavalo. Mas eu não creio nisso. Ele estava sorrindo, estendido na poeira do chão. Sim. Parecia mesmo estar sorrindo, ao piscar das últimas estrelas da mais serena das noites do mês de Elul e aos primeiros raios do sol da manhã. Foi encontrado por uns hortelãos que, às primeiras luzes, iam indo para a cidade, levando suas verduras, e me disseram quando foram apanhar os meus pepinos. Eu corri para ir ver. Ele estava em grande paz.
– Ouviste? –pergunta Jesus a Judas.
– Eu ouvi. Mas Tu não lhe tinhas dito que, se ele te tivesse servido, teria tido uma longa vida?
– Não foi precisamente isso que Eu disse. O tempo que já passou está ofuscando o teu pensamento. Mas será que ele não me serviu, evangelizando nos lugares de missão, e não tem a vida longa? Que vida há mais longa do que aquela conquistada por quem morre no serviço de Deus? Vida longa e gloriosa.
Judas dá aquela risadinha estranha, que me intriga tanto, e não responde nada.
564.12Enquanto isso, os do povoado se reuniram com muitos de Efraim, estão falando uns com os outros e acenando para Jesus.
Jesus dá esta ordem a Judas:
– Acompanha o homem até a casa dele e conclui o seu restabelecimento. Ele partirá depois do sábado que está para começar.
Judas obedece e Jesus fica caminhando lentamente, e inclinando-se para observar as hastes do trigal, que já começa a dar alguns sinais de espiga.
Uns homens de Efraim o interrogam:
– Está bonito este trigal, não é mesmo!
– Bonito. Mas não está diferente dos das outras regiões.
– Certamente, Mestre, É tudo trigo! É forçoso que saia igual.
– Vós dizeis isso? Então o trigo é melhor do que os homens. Porque, contanto que seja semeado com arte, produz o mesmo fruto aqui como na Judéia ou na Galileia, ou até, digamos, nas planícies do Mar Grande. Mas os homens não produzem o mesmo fruto. E até a terra é melhor do que os homens. Porque, quando se lhe confia uma semente, ela a acolhe bem, sem fazer diferenças se a semente é da Samaria ou da Judéia.
– Assim é. Mas, e por que é que dizes ser a terra e o trigo melhores do que os homens?
– Por quê?… 564.13Há pouco um homem pedia um pão por piedade às portas de um lugarejo e ele foi expulso porque o povo daquele lugar pensava que ele fosse judeu. Foi expulso com pedradas e com gritos de “leproso”, que ele achava que era por causa de sua magreza, mas que para eles era por causa do lugar de onde ele vinha, da Judéia. E aquele homem saiu de lá para ir morrer de fome à beira de uma estrada. Por isso, o povo daquele lugarejo, aquele povo lá que vos mandou interrogar-me, e que quereria aproximar-se da casa onde estou para ver o miraculado, é pior do que o trigo e os torrões, tendo repelido o homem por ele ser de outra semente. Agora ele quereria vir satisfazer a fome de curiosidade do povo, um povo que não soube satisfazer a fome de um enfraquecido. Dizei a essa gente que o Mestre não lhe satisfará essa curiosidade inútil. E aprendei todos a grande lei do amor, sem a qual não podereis nunca ser meus seguidores. Não é o amor por Mim, não é ele somente que salvará as vossas almas. Mas também o amor à minha doutrina. E a minha doutrina ensina o amor aos irmãos, sem distinção de raça e de renda. Vão, pois, aqueles duros de coração, que encheram de dor o meu Coração, e se arrependam, se quiserem que Eu os ame. Porque, lembrai-vos todos, se Eu sou bom, sou também justo; e se Eu não faço distinções e vos amo como aos outros da Galileia e da Judéia, isso não deve dar-vos um orgulho estulto de serdes os preferidos e a licença de fazerdes o mal sem temerdes ter a minha reprovação. Eu louvo ou reprovo, como a justiça exige, os meus parentes e apóstolos, assim como todas as outras criaturas, e na minha reprovação existe amor. E Eu faço assim porque quero a justiça nos corações, para poder um dia dar o prêmio a quem a praticou. Ide e dizei tudo isso. E que esta lição dê frutos em todos.
Jesus se envolve no manto e sai caminhando para Efraim, deixando suspensos os seus interlocutores, que vão um tanto desgostosos, a repetirem as palavras do Mestre ao lugarejo que não teve piedade.
1 Ermasteu, cujo desaparecimento era interpretado por Judas Iscariotes (em 556.3) come deserção.
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