496. 496. Perturbação imprevista de Judas Iscariotesdurante uma permanência na casinha de Salomão.
18 de setembro de 1946.
496.1 Para não serem vistos pelas pessoas, eles entram no povoado, onde está a casinha de Salomão, indo rio acima pela margem. É esta uma precaução que eu diria inútil, porque já está chegando uma dessas tardes de novembro, ou do fim de outubro, e todas as pessoas já estão em suas casas. A estrada está vazia e, se não fosse algum balido, dir-se-ia que o lugar está deserto.
Eles sacodem uma cancela. Está fechada. Está bem fechada acima da pequena horta que, na penumbra, parece estar toda em ordem.
– Chamai! Ele deve estar na cozinha. Um fio de luz está escapando dos batentes –diz Jesus.
Tomé, com sua voz forte, se encarrega de chamar o velho, que logo abre a porta, e põe-se a olhar para o lado da estrada. Mas ele está incerto, porque do lado de fora há pouca luz, e na cozinha o fogo está aceso e a luz está dando uma boa claridade. Quando Jesus diz: “Somos nós”, o velho reconhece imediatamente a voz, e grita:
– O Mestre! –e desce pelo rústico degrau, correndo para ir abrir.
– O meu Senhor! Entra, entra em tua casa, e que seja bendito este dia, que está terminando com a tua vinda! diz ele, passando a mão ao redor dos fechos da cancela, e explica: – Eu estou só, por isso fecho bem… Os ladrões são capazes de tudo: Há alguns que dão prejuízo ora aqui, ora ali, vindo do vale dos montes de Galaad. Não é que eu tema pela minha vida. Mas eu tinha preparado tudo para Ti e… Eis, Mestre. Vem. A tarde está úmida. Os teus cabelos estão molhados pelo orvalho1…
– Tu estás mais sagaz do que a esposa dos Cânticos, pai. Pois não te é pesado o incômodo de acolher ao Peregrino –diz Jesus, sorrindo.
– Incômodo? Como estava longo este tempo de espera! Um dia depois do outro, um depois do outro. Eu tinha semeado as vossas sementes, estava vendo crescer bem as verduras. Eu dizia: “Se Ele viesse, certamente isto lhe agradaria.” Mas tudo foi crescendo, chegando ao ponto, e Tu não vieste… Eu via como os frutos iam mudando de cor e com dor eu comia deles, porque Tu não estavas comendo. Aquela ovelha me deu um cordeiro todo branco. Eu o reservei para isso, para comê-lo contigo. Eu esperava ver-te, antes da festa dos Tabernáculos. Depois… um cordeiro todo só para mim. É demais. Então o troquei por uma ovelhinha, e os donos da ovelhinha foram bons para comigo, não exigindo de mim a diferença. Dos frutos e dos queijos procurei conservar o mais que eu pude para ti, também peixe seco e legumes, e ainda tenho algum melão. E um pouco de vinho… eu não bebo vinho, mas o preparei para Ti, no inverno.
496.2 Fala enquanto vai limpando a mesa, inclina-se sobre as louças, atiça o fogo, põe mais água no caldeirão, e começa a trabalhar todo feliz. Nem parece mais aquele pobre velho de poucos meses atrás.
O homem sai, volta trazendo o leite, e se desculpa:
– É pouco, porque é uma ovelha só que está dando leite. Mas daqui a pouco já serão duas. Mas para Ti basta.
É paternal. Devoto e paternal, ao mesmo tempo. Ele apanhou os mantos úmidos, as sandálias enlameadas, e levou tudo para outro lugar. De lá voltou, trazendo mel, romãs, uvas e também algum figo, já meio seco, e explica:
– Eu os fiz secar assim, somente para que Tu provasses deles. Eu estava pensando como o meu pobre Ananias gostava tanto deles preparados assim!…
A voz dele antes tão clara, abaixa-se, tomando um tom de tristeza, enquanto ele vai dizendo estas palavras, e ele termina:
– E… e eu estava pensando que te teriam agradado, pensava, enquanto as preparava, que… os estivesse preparando também para o filho do meu filho.
O velho sacode a cabeça, esforça-se para sorrir, já com um brilho das lágrimas nos olhos.
Jesus, que se havia sentado à mesa, levanta-se, passa-lhe um braço sobre o ombro, puxa para Si o velhinho, e diz:
– Eles me agradam muito. É uma coisa que faz me lembrar de minha infância… e de meu pai. Mas tu não devias privar-te de tantas coisas por causa de Mim. Aos velhos elas fazem bem. Deves tu estar forte e com saúde para que possas acolher-me sempre assim. É tão doce encontrar uma casa assim, com um pai que nos atende. Não é verdade, meus amigos?
– É certo que é verdade. É tão bonito, que a gente fica até com preguiça ao vermos Ananias trabalhar e não o estarmos ajudando –diz Pedro.
E se levanta, dando suas ordens:
– Vamos logo preparar as nossas camas, enquanto Jesus fica falando com o homem.
– Oh! Não é preciso. Elas estão sempre prontas. E tudo está limpo… Só que não bastam. Vós sois mais de doze. Mas eu irei para cima do feno, e…
– Isso não, pai… Para lá vou eu, então –diz João.
– Não, vou eu –dizem André e outros.
– Não é necessário. Eu durmo bem sobre esta mesa. Ela não pode ser mais dura do que o fundo da minha barca, e Marziam… –diz Pedro.
– Vem dormir comigo –interrompe-o Jesus.
– Ou comigo, se quiseres… como fazia o pequeno Ananias –diz o velho, e os olhos dele estão suplicantes.
– Sim, Mestre. Eu ainda posso estar contigo. Ele… Eu vou com ele –diz Marziam.
Jesus o acaricia, compreendendo o que ele disse.
496.3 – Eles vieram muitas vezes procurar-te, depois de Pentecostes. Mas não vieram mais –diz o velhinho.
– Quem é que o estava procurando?
– Ora, os fariseus! E outros como eles. Queriam fazer-te perguntas. Mas eu lhes disse: “Ide à terra dele. Não está aqui, nem sei quando virá…” Era verdade. Então, eles se cansaram de vir. Estavam procurando também um outro, um certo João, que diziam estar contigo, e que talvez pensassem que estivesse escondido aqui. Mas eu lhes disse: “Ora, é o apóstolo dele, e está com Ele.” Eles disseram: “Por acaso esse apóstolo dele é vesgo? Está já velho, doente e para morrer?” Então eu compreendi que não eras tu, e respondi: “Eu conheço somente o apóstolo João, um jovem bom, mais do que uma criança, sadio de coração e de carne.” Eles me ameaçaram. Mas o que eu podia dizer de diferente? Esta é a verdade…
– Sim. Esta é a verdade… E tu, sê sempre veraz, ainda que isso me prejudicasse, não mintas nunca, pai.
– Senhor, os meus cabelos brancos embranqueceram, procurando eu sempre obedecer ao Senhor. Entre as obediências está também a de não dizer coisas falsas. Mas… Por que estão te procurando, Senhor? Eu estava cego. Por isso a Jerusalém eu não ia. Mas de lá eu voltei agora. Fui somente para cumprir o rito. Pois eu queria estar aqui para esperar-te… Percebi que há ódio e amor ao redor de Ti. Percebi que há mais ódio do que amor entre os chefes do povo. Eu estava no Templo naquela manhã em que queriam ofender-te… e eu fugi, desolado, para esperar-te e chorar aqui… Por que será que o homem é tão mau?
– Porque ele matou o seu espírito. E, com o espírito, matou sua capacidade de sentir o remorso de ser injusto.
– É verdade! E eles te procuram para fazer-te mal?
– Sim.
– Sim? Israel quer fazer mal ao seu Rei? Que horror! Israel se condena aos castigos previstos pelos profetas! Oh! Eu estou contente agora, por meu filho estar morto… e quereria também morrer para não ver o pecado de Israel…
496.4 Fazem um grande silêncio. Só a lenha é que está estalando no fogão.
– Mas vamos falar de outras coisas! Sempre falando de morte, de ódio, de traição! Basta! Basta! Eu não posso ficar ouvindo essas coisas! –diz Iscariotes, transtornado, sombrio, agitado, andando pela cozinha, movendo as pernas, os braços e todo seu ser.
– Judas está com a razão –dizem muitos.
– Mas, não querer ouvir, não adianta. O que adianta é não consentir –diz Jesus, com aquele seu gesto de abrir as mãos, com as palmas abertas para cima, sobre a rústica mesa.
– Que queres dizer? Consentir? Quem é que consente nisso?
Judas agita as mãos, quase esbarrando-as no rosto, estando ele inclinado, suas mãos estão tão avançadas sobre a mesa, a ponto de, por pouco, quase se chocarem contra o Mestre.
– Quem? Todos aqueles que já estão sonhando ver-me perecer em meu sangue. Sangue! Sangue do teu Messias. Sangue sobre ti, ó terra que não queres ao teu Senhor! Sangue que resplende mais do que aquelas chamas! Sangue, fogo no meio do gelo e das trevas de um mundo cheio de delitos. Estão esperando matar a Luz, tirando-lhe o sangue. Mas a Luz é o espírito, enquanto que o sangue é só matéria. A matéria faz ficar pesado o espírito. O sangue, jogado sobre uma chapa de mica faz que a luz se enfraqueça, não é verdade? Pois bem, em verdade, em verdade Eu vos digo que, assim como aquela lenha não brilhava, enquanto não se transformou em chama, suas resinas não se acenderam para se transformarem em resplendor, e agora já é um clarão incandescente, assim, quando tudo se tiver cumprido e o sangue e a carne tiverem sido consumados pelo sacrifício, eis que, como aquele fogo ali, que agora transformou tudo em luz, o meu espírito, mais do que nunca, se inflamará sobre o mundo e, então, Eu serei Luz. Mais do que nunca. Uma Luz tal, que ofuscará para sempre os odiadores da Luz, os seus matadores. Uma luz tal, que se fundirão as áureas portas dos Céus, fechadas para a humanidade durante tantos séculos, e o céu se abrirá para os justos. Uma luz tal, que perfurará as rochas que estão ao redor do Abismo e o fogo atroz do Inferno se tornará atrocíssimo, sob os fulgores dos meus raios. E ai, ai, ai daqueles que tiverem armado ciladas à Luz! Sangue e luz! Estas duas coisas estarão diante deles até torná-los loucos, e desesperados, uns demônios!
Jesus, que se havia posto em pé, quando dizia “Em verdade”, e tinha causado medo, de tão majestoso que estava naquela cozinha baixa e de paredes escuras, aureolado pelas chamas do fogão, assentou-se e está calado.
496.5 Todos se olham uns aos outros. Todos, menos Judas, que parece estar hipnotizado, ao olhar para a lenha que se queima… Hipnotizado e espantado. É um espanto que o transforma em uma máscara horrível, de uma palidez lívida e verdolenga, sobre a qual o queimar da lenha vai pondo traços avermelhados. Isso me faz lembrar o rosto assombrado dele na Sexta-Feira Santa. Depois ele se vira de repente, e grita:
– Mas, cala-te. Cala! Por que nos atormentas? –e sai, batendo violentamente a porta.
– É o seu modo. É verdade. Mas ele te ama muito… e sofre ao ouvir certas palavras –diz Tomé.
E termina:
– Elas fazem mal a nós também! Só que nós somos menos… estranhos, digamos estranhos…
Nenhum outro fala. E o próprio Jesus se cala…
– As verduras estão cozidas, o leite está quente… –diz em voz baixa o velhinho, que ficou intimidado, e quase não tem coragem de dizer estas palavras tão comuns, depois do incidente…
– Chamai Judas, vamos cear –ordena Jesus.
João sai para chamar o companheiro. Tornam a entrar. Judas está com um rosto contrafeito. Tem um sofrimento sem paz. Vai, porém, sentar-se à mesa, levanta-se com os outros, quando Jesus oferece e abençoa, e o olha de soslaio, quando Jesus distribui as partes, reservando a última para Si.
Todos quereriam desfazer a tristeza que reina no recinto. Mas ninguém o consegue, até que o próprio Jesus se dirige ao velhinho, perguntando-lhe se o povoado e os lugares vizinhos acolheram bem a palavra do Senhor.
– Sim, sim, Mestre. E muito. Muito bem. Eu diria que foi melhor aqui do que na outra margem. Sabes… ainda está muito viva a lembrança do Batista, os seus discípulos, que agora são teus, conservam-se vigilantes, e pelas palavras dele, falam bem de Ti. Depois… aqui… Poucos estão na Pereia e na Decápole os fariseus, e por isso…
1 molhados pelo orvalho, como os cabelos do marido em Cântico dos cânticos 5,2.
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