646. 646. Sepultura de Estêvão e início da perseguição.


8 de agosto de 1951.

646.1A noite já vai alta, e também já está escura, porque a lua já se pôs, quando Maria sai da casinha do Getsêmani com Pedro, Tiago de Alfeu, Nicodemos e Zelotes.

Por causa da noite escura, Lázaro, que os foi esperar diante da casa, à altura do ponto onde inicia o caminho que vai até a cancela mais baixa, acende uma candeia a óleo munida de um anteparo de leves lâminas de alabastro ou outro material transparente. A luz é fraca, mas, mantida a uma baixa altura do chão, como agora, a lamparina ajuda a ver as pedras e outros obstáculos que podem encontrar-se pelo caminho. Lázaro se põe ao lado de Maria, para que principalmente Ela enxergue bem. João está do outro lado, segurando a Mãe por um braço. Os outros vêm atrás em grupo.

Eles vão até o Cedron, e depois continuam indo pela beira dele, de tal modo, que fiquem semiescondidos nas moitas selvagens que se erguem perto das margens. Também o barulho das águas serve para esconder e confundir o das sandálias dos caminhantes.

Seguindo sempre pelo lado externo dos muros, até à porta do Templo, por uma parte desabitada e árida, chegam ao lugar onde Estêvão foi apedrejado Eles se dirigem a um monte de pedras, sob o qual ele foi sepultado, e as vão removendo até que o pobre corpo aparece. Ele já está lívido, tanto pela morte como pelas pancadas e pedradas recebidas. Está duro, rígido, todo encolhido sobre si mesmo, do modo como o apanhou a morte.

646.2Maria, que havia sido mantida piedosamente distante alguns passos, por João, separa-se dele e corre para aquele pobre corpo ferido e ensanguentado. Sem tomar cuidado com as manchas que o sangue coagulado imprimem em suas vestes, Maria ajudada por Tiago de Alfeu e João, de põe o corpo sobre um lençol estendido no chão poeirento, num lugar sem pedras, e com um linho, que Ela umedece numa ânfora que Zelotes lhe oferece, limpa, como pode, o rosto de Estêvão, arruma-lhe os cabelos, procurando ajeitá-los sobre as têmporas e sobre as faces feridas, para cobrir as horrendas marcas deixadas pelas pedras. Limpa também os outros membros e gostaria de recompô-los numa posição menos trágica. Mas o gelo da morte, acontecida há muitas horas, permite isso só parcialmente.

Tentam também os homens, que são mais fortes física e moralmente do que Maria, que parece de novo ser a Mãe Dolorosa no Gólgota e no Sepulcro. Mas também eles devem resignar-se a deixá-lo no ponto a que conseguiram chegar depois de tantos esforços. Eles o revestem com uma longa veste limpa, porque a dele ficou perdida ou foi roubada, pelo desprezo dos apedrejadores, e a túnica pequena, que lhe haviam deixado, virou um pedaço de trapo velho, todo rasgado e manchado de sangue.

Tendo feito isso, trabalhando sob a luz fraca da candeia que Lázaro segura bem perto do pobre corpo, eles o levantam e o colocam sobre um outro tecido bem limpo. Nicodemos recolhe o primeiro tecido, que está todo molhado da água que eles usaram para lavar o mártir, também do seu sangue já coagulado, e o põe debaixo de um manto. João e Tiago vão para o lado da cabeça, Pedro e Zelotes para o lado dos pés e levantam o tecido (que está enrolando o corpo), e começam o caminho de volta, com Lázaro e Maria à frente deles. Mas eles não voltam pelo caminho por onde vieram, e sim, vão indo pelo campo adentro, contornando o olival, até alcançar a estrada que vai para Jericó e Betânia.

646.3Ali eles se detêm, para repousar e para conversar. E Nicodemos — que por estar presente, embora de forma passiva, na condenação de Estêvão, e por ser um dos chefes dos judeus sabia melhor do que os outros sobre as decisões do Sinédrio, adverte os presentes que se desencadeou e foi ordenada a perseguição contra os cristãos, e que Estêvão é somente o primeiro de uma longa lista de nomes já designados, por serem seguidores de Cristo.

O primeiro grito de todos os apóstolos é este:

– Façam o que quiserem! Nós não mudaremos, nem com ameaças nem por prudência!

Contudo, os mais ajuizados dos presentes, isto é, Lázaro e Nicodemos, fazem com que Pedro e Tiago de Alfeu observem que a Igreja tem ainda bem poucos sacerdotes de Cristo e que, se os mais potentes deles fossem mortos, isto é, o Pontífice Pedro e o Bispo de Jerusalém, Tiago, dificilmente a Igreja se salvaria. Fazem também que Pedro se lembre de que o Fundador e Mestre deles havia deixado a Judeia, indo para a Samaria, para não ser morto antes de havê-los formado bem, e depois de ter aconselhado aos seus servos de imitarem o seu exemplo, até que os pastores fossem tão numerosos que não fosse preciso temer a dispersão dos fiéis por causa da morte dos pastores. E terminam, dizendo:

– Espalhai-vos, pois, pela Judeia e pela Samaria. E lá, fazei prosélitos, dos outros, numerosos pastores, e de lá espalhai-vos sobre a Terra, para que, como Ele disse que se faça, todas as gentes conheçam o Evangelho.

646.4Os apóstolos estão perplexos. Olham para Maria, como para saber o seu pensamento sobre isso.

E Maria, que já entendeu aqueles olhares, lhes diz:

– O conselho é justo. Escutai-o. Não é covardia, mas é prudência. Ele vos ensinou o seguinte: “Sede simples como as pombas e prudentes como as serpentes. Eu vos mando como ovelhas ao meio de lobos. Guardai-vos dos homens…”

Tiago a interrompe:

– Sim, Mãe. Mas Ele disse também: “Quando fordes colocados nas mãos deles e levados para diante dos governadores, não vos perturbeis por aquilo que deveis responder. Não sereis vós que falareis, mas falará por vós e em vós o Espírito do vosso Pai.” E eu fico aqui. O discípulo deve ser como o Mestre. E Ele morreu para dar vida à Igreja. Cada morte de um de nós será mais uma pedra colocada no grande novo Templo, um aumento de vida para o grande e imortal corpo da Igreja Universal. Que eles me matem, se assim quiserem. Vivendo no Céu, serei feliz, porque estarei ao lado de meu Irmão, e mais poderoso ainda. Eu não tenho medo da morte, mas do pecado. Abandonar o meu lugar parece-me imitar o gesto do Judas, o perfeito traidor. Aquele pecado Tiago de Alfeu não cometerá nunca. Se eu devo cair, cairei como herói no meu posto de luta, naquele posto em que Ele me quis pôr.

Maria lhe responde:

– Nos teus segredos com o Homem-Deus eu não penetro. Se Ele assim te inspira, faze-o. Somente Ele, que é Deus, pode ter o direito de ordenar. A nós todos só compete obedecer-lhe sempre, em tudo, para fazer a vontade Dele.

646.5Pedro, menos heroico, confabula com Zelotes para ouvir o seu parecer a respeito.

Lázaro, que está perto dos dois e ouve, faz esta proposta:

– Vinde para Betânia. Ela fica perto de Jerusalém e próximo do caminho para a Samaria. Dali partia Cristo tantas vezes para fugir de seus inimigos…

Nicodemos, por sua vez, propõe:

– Vinde à minha casa de campo. É segura e próxima tanto de Betânia como de Jerusalém, e também perto da estrada que passa por Jericó e vai para Efraim.

– Não. É melhor a minha, protegida por Roma –insiste Lázaro.

– Tu já és odiado demais, desde que Jesus te ressuscitou, afirmando assim, com todo o poder, sua Natureza Divina. Pensa bem, que a morte dele foi decidida por esse motivo. Que tu não tenhas que decidir sobre a tua –responde-lhe Nicodemos.

– E a minha casa? Na realidade, ela é de Lázaro. Mas ainda pelo nome é minha –diz Simão, o Zelotes.

Maria intervém, dizendo:

– Deixai que eu reflita, que eu pense e julgue o que é melhor fazer. Deus não me deixará sem a sua luz. Quando eu ficar sabendo, vo-lo direi. Por enquanto, vinde comigo para o Getsêmani.

– Sede de toda a Sabedoria, Mãe da Palavra e da Luz, és sempre para nós a Estrela que guia com segurança. Nós te obedecemos –dizem todos juntos, como se verdadeiramente o Espírito Santo houvesse falado aos corações e aos lábios deles.

646.6Levantam-se da relva sobre a qual se haviam sentado, às margens da estrada. E enquanto Pedro, Tiago, Simão e João vão com Maria em direção ao Getsêmani, Lázaro e Nicodemos levantam o lençol que envolve o corpo de Estêvão e, nas primeiras horas da aurora, dirigem-se para o caminho de Betânia e Jericó.

Para onde estarão levando o mártir? É um mistério.