231. 231. Em Cafarnaum, Jesus e Marta falamda crise que atormenta Maria de Magdala.
27 de julho de 1945.
231.1Cheio de calor e coberto de poeira, Jesus, com Pedro e João, tornam a entrar na casa de Cafarnaum.
Ele, mal pôs o pé na horta, indo para a cozinha, quando o dono da casa o chama familiarmente, para dizer-lhe:
– Jesus, voltou aquela dama de que eu te falei em Betsaida, voltou para Te procurar. Eu disse a ela que Te esperasse, e a levei lá para cima, para o quarto alto.
– Obrigado, Tomé, Eu vou logo. Se os outros vierem, procura entretê-los aqui.
E Jesus sobe rapidamente pela escada, mesmo sem ter tirado a capa. No terraço ao qual está apoiada a escada, está Marcela, criada de Marta.
– Oh! nosso Mestre! Minha patroa está lá dentro. Há muitos dias que Te está esperando –diz a mulher, ajoelhando-se para venerar a Jesus.
– Eu já estava pensando nisso. Vou logo estar com ela. Deus te abençoe, Marcela.
Jesus levanta o toldo, colocado como abrigo contra a luz, que ainda está forte, por mais que o pôr do Sol se tenha adiantado hoje em suas cores, transformando o ar em um fogo, que parece estar incendiando as casas brancas de Cafarnaum, com a reverberação vermelha de um enorme braseiro. No quarto, toda velada e envolta em uma capa, sentada perto de uma janela, está Marta. Talvez esteja olhando uma parte do lago, no ponto em que mergulha o focinho de uma colina cheia de bosques. Talvez ela não esteja olhando senão para os seus pensamentos. Com certeza ela está muito absorta, a tal ponto que nem ouviu o leve rumor dos passos de Jesus que se aproxima. E leva um susto, quando Ele a chama.
– Oh! Mestre! –grita ela. E cai de joelhos, com os braços estendidos, como quem está pedindo ajuda, e depois se inclina, até tocar com a fronte no pavimento, e chora.
231.2– Mas, por que isso? Vamos, levanta-te! Por que este grande pranto? Tens alguma desventura para contar-me? Sim? Então, qual é? Eu estive em Betânia, sabes? E lá fiquei sabendo que havia boas notícias. Agora, tu estás chorando… Que terá acontecido? –e a obriga a levantar-se, fazendo que ela se assente na cadeira colocada perto da parede, sentando-se Ele à frente dela–. Vamos, tira o véu e a capa, como Eu estou fazendo. Debaixo disso, deves ficar sufocada. E depois, Eu quero ver o rosto desta Marta perturbada, para expulsar todas as nuvens que o escurecem.
Marta obedece, chorando sempre, e aparece o seu rosto avermelhado, e com olhos inchados.
– E, então? Eu vou te ajudar. Maria mandou-te chamar. Ela chorou muito, quis saber muitas coisas de Mim, e tu pensaste que isso fosse um bom sinal, tanto assim que para completar o milagre, desejaste que Eu viesse. E Eu vim. E agora?
– Agora, nada mais, Mestre! Eu me enganei. É a esperança muito viva que nos faz ver o que não existe. Eu te fiz vir à toa…. Maria está pior do que antes… Não! Que direi? Eu estou caluniando, mentindo. Não está pior, porque não está querendo mais homens ao seu redor. Está diferente, mas continua muito má. Parece-me que está doida… Eu não a entendo mais. Antes, pelo menos a entendia. Mas, agora! Agora, quem é que a compreende mais? –e Marta chora desconsoladamente.
– Eia, fica mais calma, e dize-me o que ela está fazendo. Por que é má? Portanto, homens ela não quer mais ao seu redor. Suponho, pois, que ela viva retirada em casa. É isso? Sim? Isso é muito bom. Ter-te desejado perto de si, para ser defendida da tentação — são as tuas palavras — e fugir da tentação para evitar as relações culposas, ou até simplesmente o que poderia levá-la a relações culposas, já é sinal de boa vontade.
– Dizes que sim, Mestre? Achas mesmo que é assim?
– Mas, com certeza. Então em que ela te parece má? 231.3Conta-me o que ela está fazendo…
– Vamos ao assunto.
Marta, um pouco mais encorajada pela certeza de Jesus, fala agora de modo mais ordenado.
– Vamos ao assunto. Maria, desde que eu vim embora, não saiu mais de casa e do jardim, nem mesmo para ir pelo lago com a barca. Sua ama de leite me disse que antes quase já não saía. Parece que essa mudança tenha tido começo desde a Páscoa. Mas, antes da minha vinda, ainda vinham pessoas procurá-la, e ela nem sempre as repelia. Algumas vezes dava ordem para que não se deixasse passar ninguém. E parecia uma ordem para sempre. Depois chegava a bater nos criados, tomada por uma ira injusta, se, ao ir até o vestíbulo, por ter ouvido as vozes dos visitantes, via que já haviam ido embora. Desde quando eu vim, ela não fez mais isso. Ela me disse na primeira noite, e por isso eu fiquei com muita esperança: “Segura-me, amarra-me, se for o caso. Mas não me deixes mais sair, não deixes mais que eu veja ninguém, senão a ti e à ama de leite. Porque eu estou doente e quero curar-me. Mas aqueles que vêm a mim, ou querem que eu vá a eles, são uns brejos de febre. Eles me fazem ficar cada vez mais doente. Mas, são tão bonitos na aparência, tão cheios de flores e canções, trazendo frutas de aspecto agradável, às quais eu não sei resistir, porque sou uma infeliz, uma infeliz eu sou. A tua irmã é fraca, Marta. E há quem se aproveite de sua fraqueza para fazê-la praticar coisas infames, coisas que alguma coisa que ainda há em mim não consente. É a única coisa que eu ainda tenho da mamãe, da minha pobre mamãe…”, e chorava, chorava.
E eu lhe fiz isso. Com doçura, nas horas em que ela estava mais razoável; com firmeza, nas horas em que ela me parecia uma fera engaiolada. Mas ela, nos momentos de pior tentação, ela vinha chorar a meus pés, com a cabeça em meu colo, e dizer-me: “Perdoa-me, perdoa-me!” E, quando eu lhe perguntava: “Mas de que, minha irmã? Tu não me causaste nenhuma dor”, ela me respondia: “Porque, há pouco, ou ontem à tarde, quando tu me disseste: ‘Tu não vais sair daqui’, eu, no meu coração, te odiei, te amaldiçoei, e te desejei a morte.”
Não dá pena, Senhor? Está louca, talvez? O seu vício a enlouqueceu? Acho que algum dos seus amantes lhe tenha dado um filtro para ela tornar-se sua escrava nas práticas luxuriosas, e que aquilo lhe tenha atingido o cérebro…
– Não. Nada de filtro. Nada de loucura. É uma outra coisa. 231.4Mas, continua.
– Comigo ela está ainda respeitosa e obediente. Até aos criados ela não maltratou mais. Contudo, depois da primeira tarde, ela não perguntou mais nada sobre Ti. Ao contrário, se eu falava de Ti, ela mudava de assunto. A não ser nos dias em que ficava horas e horas sobre o penhasco, onde está o mirante, olhando para o lago, e me perguntava, ao ver cada barca que passava: “Aquela será a dos pescadores galileus?” Ela não fala nunca em teu Nome, nem dos apóstolos. Mas eu sei que ela está pensando neles, e em Ti na barca de Pedro. E também compreendo que ela está pensando em Ti, porque algumas vezes à tarde, enquanto passeamos pelo jardim ou esperamos a hora do descanso, eu costurando, e ela sem fazer nada, ela me diz: “Então, é preciso viver de acordo com a doutrina que segues?” E às vezes chora, outras vezes ri, com umas risadas sarcásticas de louca, ou de demônio.
Outras vezes solta os cabelos, sempre caprichosamente arrumados, faz com eles duas tranças pelas costas abaixo, ou para a frente, com a roupa toda fechada, toda pudica, transformada pela roupa em uma jovenzinha, como também pelas tranças, pelas expressões do rosto, e aí ela diz: “É assim, então, que deve ficar Maria?”, e, mesmo assim, por vezes ela chora, beijando as suas próprias e esplêndidas tranças, da grossura de braços, compridas até os joelhos, todo aquele ouro vivo, que era a glória de minha mãe e, de vez em quando, solta aquela horrível risada, ou então me diz: “Mas é melhor, olha: que eu faça assim, e me mate”, e dá um nó com as tranças na garganta, e aperta até ficar roxa, como se quisesse estrangular-se. Outras vezes, compreende-se que é quando mais forte ela sente a sua… a sua carne, ela se compadece de si mesma, ou então se maltrata. Eu a encontrei, quando ela estava batendo ferozmente em seu próprio seio, no peito, e arranhava o próprio rosto, batia a cabeça contra a parede e, se eu lhe perguntava: “Mas por que fazes isso?”, ela se virava para mim, feroz, e me dizia: “Para despedaçar-me a mim, as minhas vísceras e minha cabeça. As coisas nocivas, malditas, devem ser destruídas. E eu me destruo”.
E, se eu lhe falo da misericórdia divina, de Ti — porque eu lhe falo igualmente de Ti, como se ela fosse a mais fiel de tuas discípulas, e eu Te juro que algumas vezes eu sinto um arrepio em falar disso diante dela —, pois ela me responde: “Para mim não pode haver misericórdia. Eu passei da medida.” E aí uma fúria de desespero toma conta dela, e ela grita, ferindo-se até derramar sangue: “Mas, por quê? Por que a mim é que este monstro dilacera? Ele não me dá paz. Ele me leva ao mal com vozes de canções, depois me une às vozes de maldições ao pai, à mãe, a vós, porque tu e Lázaro me maldizeis, e Israel me maldiz, me traz isto, para fazer-me enlouquecer…”
E então, quando ela diz isso, eu lhe respondo: “Por que é que pensas em Israel, que não passa de um povo, e não pensas em Deus? Mas visto que não pensaste antes em pisar em cima de tudo, pensa agora em superar tudo, e a não te preocupares senão com aquilo que não é o mundo, isto é, com Deus, com o pai, com a mãe. Eles não te maldizem, se mudas de vida, mas te abrem os braços…” E ela me fica escutando, pensativa, espantada, como se eu lhe estivesse contando uma história impossível, e depois se põe a chorar… Mas não responde nada. Por vezes, ao contrário, manda aos seus criados servirem vinho e especiarias aromáticas, e bebe e come esses alimentos artificiosos, e explica: “É para não ficar pensando.”
Agora, desde que ficou sabendo que Tu estás no lago, ela me diz, todas as vezes que fica sabendo que vou vir a Ti: “Qualquer hora, eu também vou”, e se ri com aquele riso, que é um insulto a si mesma, e termina: “Pelo menos, assim os olhos de Deus se baixarão também sobre o estrume.” Mas eu não quero que ela venha. E agora eu espero poder vir, quando ela, cansada da ira, de vinhos, de chorar e de tudo, estiver dormindo, esgotada. Hoje mesmo, eu tive que escapar assim, para poder voltar à noite, antes que ela desperte. Esta é a minha vida… e eu não espero mais…
E o pranto, não mais refreado pelo pensamento de dizer tudo em ordem, recomeça mais forte do que antes.
231.5– Tu te lembras, Marta, do que Eu te disse uma vez? “Maria é uma doente.” Tu não querias crer. Agora estás vendo. Tu a chamas louca. Ela mesma se diz doente de febres pecaminosas. Eu digo: enferma de possessão do demônio. É sempre uma doença. E essas incoerências, essas fúrias, esses choros, e desconsolações e desejos de Mim são as fases do seu mal que, quando chega o momento da cura, tem suas crises mais violentas. Tu fazes bem em ser boa com ela. Fazes bem em ter paciência com ela. Fazes bem em falar-lhe de Mim. Não sintas arrepios por falar o meu Nome na presença dela. Pobre alma a da minha Maria. Ela também saiu do Pai Criador, não é diferente das outras, nem da tua, nem da de Lázaro, nem da dos apóstolos e discípulos. Ela também foi incluída e contemplada entre as almas pelas quais Eu me fiz carne para ser Redentor. Antes, mais para ela do que para ti, para Lázaro, para os apóstolos e discípulos, é que Eu vim. Pobre, querida alma que sofre, a da minha Maria. Da minha Maria, envenenada com sete venenos, além de com o veneno primogênito e universal! Da minha Maria prisioneira! Mas, deixa que ela venha a Mim! Deixa que ela respire o meu respiro, que ouça a minha voz, que encontre o meu olhar!… Ela se diz: “Um estrume”… Oh! Pobre querida que dos sete demônios o menos forte é o da soberba! Mas só por isso ela se salvará!
231.6– Mas, se depois, ao sair, ela encontra algum que a desvia de novo para o vício? Ela mesma tem medo disso…
– E sempre terá esse medo, agora que ela chegou a sentir náusea do vício. Mas não tenhas medo. Quando uma alma já tem este desejo de ir para o Bem, e só é detida pelo Inimigo diabólico, que sabe que vai perder sua presa, e pelo inimigo pessoal do eu, que ainda raciocina humanamente, aplicando a Deus o seu modo de julgar para impedir ao espírito de dominar o eu humano, então aquela alma já está forte contra os assaltos do vício e dos viciados. Ela encontrou a Estrela Polar, e não se desvia mais.
E igualmente não lhe digas mais “Não pensaste em Deus e, em vez disso, pensas em Israel?” É uma reprovação implícita. Não a faças. Ela está saindo das chamas. É uma chaga completa. Não lhe apliques senão os bálsamos da doçura, do perdão, da esperança… Deixa-a livre para vir. Deves até perguntar-lhe quando espera vir, mas não dizer-lhe: “Vem comigo”. Pelo contrário, se consegues ficar sabendo que ela vem, tu não venhas. Volta para trás. Fica esperando em casa. Ela irá a ti, quando esmagada pela Misericórdia. Porque Eu devo tirar dela a força maligna que a detém, e por algumas horas ela ficará como uma que se esvaiu em sangue, uma a quem o médico tirou os ossos. Mas depois ficará melhor. Ficará atordoada. Terá uma grande necessidade de carícias e de silêncio. Assiste-a, como se fosses o seu segundo anjo da guarda, sem te fazeres perceber. E, se a vires chorar, deixa-a chorar. E, se a ouvires fazer pedidos, deixa que os faça. E, se a vires sorrir, e sorrir depois com um sorriso diferente, não lhe faças perguntas, não a humilhes. Ela sofre mais agora, que está subindo, do que quando desceu. E ela deve agir por si mesma, como por si mesma, como por si mesma agiu quando desceu. Não suportou, então, os vossos olhares sobre sua descida, porque nos vossos olhares estava a reprovação. Mas agora ela não pode, em sua vergonha que finalmente despertou de novo, suportar o vosso olhar. Como ela estava, sentia-se forte, porque tinha em si satanás, que era seu dono, e uma força maligna que a dominava, e podia desafiar o mundo e, no entanto, não pôde ser vista por vós em sua vida de pecado. Agora ela não tem mais satanás como seu dono. Ele ainda é hóspede nela, mas já está preso pela garganta, sob a vontade de Maria. Mas ela ainda não Me tem. Por isso está ainda muito fraca. Não pode suportar nem mesmo a carícia dos teus olhares de irmã, na sua confissão ao seu Salvador. Toda a sua energia está voltada e está empregada em segurar pela garganta o demônio de sete cabeças. Para tudo mais ela está indefesa, nua. Eu a revestirei e fortalecerei. 231.7Vai em paz, Marta. E amanhã, com muito jeito, dize a ela que Eu irei pregar perto da torrente da Fonte, aqui em Cafarnaum, no fim da tarde. Vai em paz! Vai em paz! Te abençôo.
Marta ainda está perplexa.
– Não caias na incredulidade, Marta –diz Jesus, que a está observando.
– Não, Senhor. Mas eu fico pensando…Oh! dá-me alguma coisa que eu possa dar à Maria, para dar-lhe um pouco de força… Ela está sofrendo muito… e eu estou com muito medo de que ela não consiga triunfar sobre o demônio!
– Tu és uma menina! Maria tem a Mim e a Ti . Poderia deixar de conseguir resultados? Mas, vem cá, e toma. Dá-me esta mão, que nunca pecou, que soube ser doce, misericordiosa, ativa, piedosa, que sempre fez gestos de amor e de oração, que não se tornou preguiçosa na ociosidade. Que não se deixou corromper nunca. Eis, a tenho entre as minhas para fazê-la mais santa ainda. Levanta-a contra o demônio, e ele não a suportará. Toma esta minha cinta. Não te separes mais dela. E, todas as vezes que a vires, dize a ti mesma: “Mais forte do que esta cinta de Jesus é o poder de Jesus, e com ele tudo se vence: os demônios e os monstros. Eu não devo temer.” Estás contente agora? A minha paz esteja contigo. Vai tranquila.
Marta faz uma reverência e sai.
Jesus sorri, enquanto a vê retomar o lugar no carro, que Marcela fez chegar até à porta, e ir em direção a Magdala.