163. 163. À mesa na casa do fariseuEli de Cafarnaum falam sobre impostos.
14 de maio de 1945.
163.1 Há muito que fazer hoje na casa de Eli. Os servos e as servas vão e vêm, e, entre eles, como um menino buliçoso, está o pequeno Eliseu. Depois aparecem duas, e a seguir mais duas personagens pomposas, das quais as duas primeiras reconheço serem aquelas que foram com Eli à casa de Mateus, e as outras duas, não conheço. Mas estou ouvindo que são chamadas de Samuel e Joaquim. Por último, vem Jesus, e Iscariotes.
Há grandes saudações recíprocas e depois é feita esta pergunta:
– Só este? E os outros?
– Os outros estão pelas campinas. Voltarão à tarde.
– Oh! Isto me desagrada. Eu pensava que seria… Olha, ontem à tarde, só convidei a Ti, mas pensava a todos os teus. Agora estou com medo de que eles possam sentir-se ofendidos ou que sintam desinteresse de virem à minha casa, por causa de aborrecimentos passados… ah! ah!
E o velho dá uma risada…
– Oh! não! Os meus discípulos não tem susceptibilidades orgulhosas, nem rancores incuráveis.
– Bom. Está bem. Muito bem. 163.2Então, vamos entrar.
O cerimonial é o de costume, com as purificações, e depois se dirigem para a sala do banquete, aberta para um grande pátio, onde as primeiras rosas já estão dando uma nota de alegria.
Jesus acaricia o pequeno Eliseu, que está brincando no pátio e que do perigo que passou não guarda nada mais do que os quatro sinaizinhos vermelhos na pequena mão. Ele já não se lembra mais do antigo medo, mas se lembra de Jesus, e quer beijá-lo e ser beijado, com aquela espontaneidade própria das crianças. Com os braços estendidos para o pescoço de Jesus, fala-lhe em segredo, através dos cabelos, e lhe diz que, quando ficar grande, irá com Ele, perguntando-lhe:
– Tu me queres?
– Eu quero todos. Sê bom, e virás comigo.
O menino sai dali dando seus pulinhos.
Assentam-se à mesa, e Eli quer fazer tudo tão bem feito, que põe Jesus ao seu lado, e do outro lado Judas, ficando este, então, entre Eli e Simão, enquanto Jesus fica entre Eli e Urias.
163.3 A refeição começa. No princípio a conversação ainda não tem um rumo determinado. Mas depois vai-se tornando mais interessante. E, como as feridas doem e as correntes pesam, logo se apresenta o antigo assunto da escravidão imposta por Roma à Palestina. Tudo isso, não sei se foi feito de propósito, ou se com má intenção. Só sei que os cinco fariseus estão a lamentar-se das novas opressões romanas, como se elas fossem um sacrilégio, e querem que Jesus participe da discussão.
– Compreendes! Eles querem perscrutar até o fim a nossa receita! E, visto que já compreenderam que nós nos reunimos nas sinagogas para tratar disso e falar deles, eles nos estão ameaçando, dizendo que vão entrar nelas, sem respeito algum. Eu temo que um dia destes, ainda vão entrar nas casas dos sacerdotes! –grita Joaquim.
– E Tu, que dizes? Não ficas aborrecido com isto? –pergunta Eli.
Jesus, assim diretamente interpelado, responde:
– Como israelita, sim; como homem, não.
– Por que esta distinção? Eu não entendo. És tu dois em um?
– Não. Mas em Mim há a carne e há o sangue; que é o animal. Mas há também o espírito. O espírito de israelita que obedece à Lei, sofre com essas profanações. Mas a carne e o sangue não, porque a Mim falta o ferrão, que a vós vos fere.
– Qual é?
– O interesse. Vós dizeis que nas sinagogas vos reunis para tratar também de negócios, sem o temor de ouvidos indiscretos. E estais com medo de não poderdes fazer mais assim, e por isso tendes medo de não poderdes esconder nem mesmo um centavo do fisco e de receberdes dele uma taxação na proporção exata do que possuis. Eu não tenho nada. Vivo da bondade do próximo, e amando o próximo. Não tenho ouro, nem campos, não tenho vinhedos nem casas, a não ser a pequena casa materna de Nazaré, tão pequena e pobre, que dela o fisco nem toma conhecimento. Por isso é que não me preocupa o medo de ser apanhado em mentira de denúncia, nem taxado, nem punido. Tudo o que Eu tenho é a Palavra de Deus, que a Mim foi dada, e que Eu dou. Mas ela é uma coisa tão alta, que o homem não pode atacar de modo algum.
163.4 – Mas, se estivesses em nosso lugar, como agirias?
– Aí está: não me leveis a mal por isso, se Eu vos disser meu pensamento, que está tão em contraste com o vosso. Em verdade, Eu vos digo que agiria de modo diferente.
– E como agirias?
– Não ofendendo a santa verdade. Ela é sempre uma virtude sublime, mesmo quando aplicada às coisas humanas, como são os impostos.
– Ora! Mas, ora então! Como iríamos ser depenados! Mas Tu não refletes que temos muito, e deveríamos pagar muito!
– Vós o dissestes: Deus vos deu muito. E, em proporção, deveis pagar muito Por que agir tão mal, como infelizmente acontece, que o pobre tenha que ser cobrado desproporcionalmente? Entre nós isso é praticado. Quantos impostos há em Israel, impostos nossos, e injustos! Eles são bons para os grandes, que já possuem muito. Mas eles são o desespero dos pobrezinhos, que devem pagá-los, apertando seus cintos até à fome. A caridade para com o próximo não aconselha isto. O nosso cuidado de israelitas deveria ser o de pôr os nossos ombros debaixo do peso que oprime o pobre!
– Falas assim, porque Tu também és pobre!
– Não, Urias. Falo assim, porque essa é a justiça. Por que é que até Roma pôde, e continua ainda oprimir assim? Porque pecamos, e estamos separados por ódio uns dos outros. O rico odeia ao pobre, o pobre odeia o rico. Porque não há justiça, é que o inimigo se aproveita, fazendo de nós seus escravos.
– Tu te referiste a outros motivos… Quais outros?
– Eu não faltaria à verdade, desfigurando o caráter sagrado do lugar destinado ao culto, para fazer dele um refúgio seguro, onde tratar de coisas humanas.
– Estarás fazendo uma censura a nós?
– Não. Estou dando uma resposta. E vós, escutai a vossa consciência. Sois Mestres? Então…
163.5 – Eu diria que está na hora de nos sublevarmos, de punirmos o invasor e restabelecer o nosso reino.
– Bravo! É verdade. Tens razão, Simão. Mas aqui está o Messias. Ele é que deve fazer isso –responde Eli.
– Mas o Messias até agora — perdoa, Jesus — tem sido só Bondade. Ele aconselha tudo, menos uma revolta. Nós a faremos, e…
– Simão, escuta. Lembra-te do livro dos Reis?1 Saul estava em Gálgala, e os filisteus em Macmas. O povo estava com medo, e já ia debandando, e o profeta Samuel não chegava. Saul quis, então, tomar o lugar do Servo de Deus, e fazer por si mesmo o sacrifício. Lembra-te da resposta dada por Samuel, que estava acabando de chegar, ao imprudente rei Saul: “Agiste como um estulto, e não observaste as ordens que o Senhor te havia dado. Se não tivesses feito isso, a esta hora o Senhor já teria estabelecido para sempre o teu reino sobre Israel. Mas agora não subsistirá nunca mais o teu reino.” Uma ação intempestiva e orgulhosa não ajudou nem ao rei nem ao povo. Deus sabe a hora. Não o homem. Deus sabe os meios, não o homem. Deixai que Deus aja, procurai merecer a sua ajuda com um procedimento santo. O meu Reino não é de rebelião e ferocidade. Mas ele se estabelecerá. Não será reservado a uns poucos. Mas será universal. Felizes os que vierem para ele, não induzidos ao erro por minha aparência de fraqueza, conforme o modo de ver da terra, e reconhecerem em Mim o Salvador. Não tenhais medo. Eu serei Rei. O Rei que veio de Israel, o rei que estenderá o seu Reino sobre a humanidade toda. Mas vós, Mestres de Israel, não interpreteis mal as minhas palavras nem a dos profetas que anunciavam a minha vinda. Nenhum reino humano, por poderoso que seja, é universal e eterno. Os profetas no entanto dizem que o meu reino será assim. Que isto vos ilumine quanto à verdade e espiritualidade do meu reino. 163.6Eu vou deixar-vos. Mas tenho um pedido a fazer a Eli. Aqui está a tua bolsa. Em um abrigo de Simão de Jonas estão alguns pobres vindos de toda parte. Vem comigo dar-lhes o óbulo do amor. A paz esteja com todos vós.
– Por favor fique mais! –pedem-lhe os fariseus.
– Não posso. Há doentes da carne e do coração que me esperam para serem consolados. Amanhã irei para longe. Quero que todos me vejam partir, sem ficarem decepcionados.
– Mestre,… estou velho e cansado. Vai Tu em meu nome. Tens contigo Judas de Simão, que nós conhecemos bem… Faze-o por Ti mesmo. Deus esteja contigo.
Jesus sai com Judas que, ao chegar à praça, disse:
– Velha víbora! Que terá ele querido dizer?
– Não penses assim. Ou melhor, pensa que ele tenha querido elogiar-te.
– E impossível, Mestre! Bocas como aquela não louvam nunca a quem faz o bem. Quero dizer,não louvam nunca com sinceridade. Quanto ao ir!…É porque ele tem nojo dos pobres e medo da maldição deles. Ele torturou tantas vezes os pobres daqui. Isto eu posso jurar sem medo. Portanto…
– Bom, Judas. Bom. Deixa o julgamento para Deus.
1 do livro dos Reis, a citação é tirada de: 1 Samuel 13,1-14.