149. 149. A herança do Batista. A hora damorte para os apóstolos. O amor de Deus em João.


28 de abril de 1945.

149.1 – Senhor, por que não tomas um descanso, de noite? Esta noite, eu me levantei e não te vi. O teu lugar estava vazio –diz Simão Zelote.

– Por que estavas me procurando, Simão?

– Para ceder-te o meu manto. Temia que Tu estivesses com frio na noite, que estava serena, mas muito fresca.

– E tu, não estavas com frio?

– Eu me habituei, em muitos anos de miséria, a ficar mal coberto, mal nutrido e mal alojado… Aquele vale dos mortos!! Que horror! Neste momento não seria oportuno. Mas numa outra vez que tivermos que ir para Jerusalém, pois certamente teremos que ir, vai, meu Senhor, para os lados daqueles lugares de morte. Lá há tantos infelizes… e a miséria corporal não é a mais grave… O que mais rói lá e consome é o desespero… Não achas, meu Senhor, que existe dureza demais para com os leprosos?

É Iscariotes quem responde, antes até de Jesus, ao Zelote, que perora em favor dos seus antigos companheiros. Iscariotes diz:

– E quereria, então, deixá-los no meio do povo? Pior para eles, se são leprosos!

– Não nos faltaria nada mais do que isto, para fazer dos hebreus uns mártires. Até a lepra, tendo o seu espaço nas ruas, junto com as milícias e outras coisas! –exclama Pedro.

– Parece-me que seja uma medida de justa prudência conservá-los separados –observa Tiago do Alfeu.

– Sim. Mas haveria de ser praticada com piedade. Tu não sabes o que é ser leproso. Não podes falar. Se é justo ter cuidado com os nossos corpos, por que não temos a mesma justiça para com as almas dos leprosos? Quem fala a eles de Deus? E só Deus sabe quanto eles têm necessidade de pensar em Deus e em uma paz, naquela sua atroz desolação!

– Simão, tens razão. Eu irei a eles. Porque é justo e para ensinar-vos esta Misericórdia. Até agora, tenho curado os leprosos encontrados por acaso. Até este momento, ou seja, até o dia em que fui expulso de Judá, Eu me dirigi aos grandes de Judá, como aos mais afastados e necessitados de serem redimidos para serem auxiliares do Redentor. Mas agora, convicto da inutilidade dessa minha tentativa, Eu os abandono. Não aos grandes, mas aos mínimos, às misérias de Israel é que Eu vou. E entre elas estarão os leprosos do vale dos mortos. Não decepcionarei a fé que têm em Mim estes evangelizados pelo leproso reconhecido.

– Como sabes, Senhor, que eu fiz isso?

– Como sei o que pensam de Mim amigos ou inimigos, cujos corações perscruto.

149.2 – Misericórdia! Mas Tu sabes mesmo tudo de nós, Mestre? –grita Pedro.

– Sim. Também sei que tu, e não tu somente, querias afastar a Fotinai. Mas não sabes que não te é lícito afastar uma alma do bem? Não sabes que para penetrar numa cidade é preciso ser de uma piedade toda doce, até para com aqueles que a sociedade, que não é santa, porque não está identificada com Deus, chama e julga indignos de piedade? Mas não te perturbes por Eu saber estas coisas. Tem, sim, pena de que o teu coração tenha movimentos, que Deus não aprova e esforça-te para não tê-los mais. Eu vo-lo disse. O primeiro ano terminou. No ano novo, Eu progredirei, e com novas formas, pelo meu caminho. Vós deveis no segundo ano também progredir. Se assim não fosse, seria inútil que Eu me cansasse a evangelizar e a vos superevangelizar, meus futuros sacerdotes.

149.3 – Tinhas ido rezar, Mestre? Tu nos havias prometido ensinar-nos as tuas orações. Irás fazê-lo neste ano?

– Eu o farei. Mas quero ensinar-vos a serdes bons. A bondade já é oração. Mas Eu o farei, João.

– E também a fazer milagres, nos ensinarás neste ano? –pergunta Iscariotes.

– O milagre não se ensina. Não é um jogo de prestidigitador. O milagre vem de Deus. Consegue-o quem tem graça junto a Deus. Se aprenderdes a ser bons, tereis graça e conseguireis milagres.

149.4 – Mas Tu nunca respondes a nossa pergunta. Perguntou Simão, perguntou João, e nunca nos dizes aonde foste esta noite. Sair assim sozinho, numa terra pagã, pode ser perigoso.

– Fui fazer feliz uma alma reta e, como era um moribundo, fui receber a sua herança.

– Sim? Era muita?

– Muita, Pedro, e de muito valor. Era o fruto do trabalho de um verdadeiro justo.

– Mas… eu não vi nada mais na tua sacola. Serão talvez joias que trazes no peito?

– Sim. São joias muito queridas ao meu coração.

– Mostra-nos, Senhor!

– Eu as receberei, quando aquele moribundo morrer. Por ora, servem a ele, e a Mim, deixando-as onde estão.

– Ele as pôs a juros?

– Mas, pensas tu que o que tem valor é só o dinheiro? Este é a coisa mais inútil e suja que há sobre a terra. E só serve para a matéria, para os delitos e o inferno. Raramente o homem o usa para o bem.

– Então… se não é dinheiro, o que é?

– Três discípulos formados por um santo.

– Estiveste com o Batista? Oh! Mas por que?

– Por que!! Vós me tendes sempre; e todos vós valeis menos do que uma só unha do Profeta. Não era justo que Eu fôsse levar ao santo de Israel a bênção de Deus para fortalecê-lo para o martírio?

– Mas se é santo… não precisa de fortificação. Age por si mesmo!!

– Um dia chegará em que os “meus” santos serão levados aos juízes e à morte. Serão santos, estarão na graça de Deus, serão confortados pela fé, pela esperança e pela caridade. Contudo, Eu já estou ouvindo o grito deles, o grito de seus espíritos: “Senhor, ajuda-nos nesta hora!” Só com a minha ajuda é que os meus santos serão fortes nas perseguições.

149.5 – Mas… estes não seremos nós, não é? Porque eu não tenho mesmo a capacidade de sofrer.

– É verdade. Tu não tens a capacidade de sofrer. Mas tu, Bartolomeu, ainda não foste batizado.

– Eu o fui sim.

– Com a água. Mas falta-te ainda um outro batismo. Só depois é que saberás sofrer.

– Eu já estou velho.

– E quando muito mais velho, serás mais forte do que um jovem.

– Mas Tu nos ajudarás do mesmo modo, não é verdade?

– Eu estarei sempre convosco.

– Procurarei habituar-me a sofrer –diz Bartolomeu.

– Eu rezarei sempre, desde agora, para receber esta graça de Ti –diz Tiago do Alfeu.

– Eu estou velho e não peço senão poder ir à tua frente e entrar Contigo na paz –diz Simão Zelote.

– Eu… nem sei o que quereria: Se ir à tua frente ou estar perto de Ti para morrer Contigo –diz Judas do Alfeu.

– Eu ficarei pesaroso, se sobreviver a Ti. Mas me consolarei pregando o teu nome aos povos –professa Iscariotes.

– Eu penso como o teu primo –diz Tomé.

– Eu, ao invés, como Simão, o Zelote –diz Tiago do Zebedeu.

– E tu, Filipe?

– Mas… eu digo que não quero nem pensar nisso. O Eterno me dará o que for melhor.

– Oh! Calai-vos! Parece que o Mestre vai morrer logo! Não me façais pensar em sua morte! –exclama André.

– Disseste bem, meu irmão. Estás jovem e são, Jesus. Terás que sepultar-nos todos, pois somos mais velhos do que Tu.

– E se me matassem?

– Que isso não te aconteça nunca. Mas eu te vingarei.

– Como? Com vinganças de sangue?

– Eh!! Até com elas, se me dás licença. Mas, se não a deres, irei destruir, com a minha profissão de fé entre os povos as acusações lançadas contra Ti. O mundo te amará, porque serei incansável em pregar o teu Nome –termina Pedro.

– É verdade. Assim será. E tu, João? E tu, Mateus?

– Eu devo sofrer e esperar ter, com muito sofrimento, lavado o meu espírito –diz Mateus.

– E eu… eu não sei. Gostaria de morrer logo, para não te ver sofrer. Gostaria de estar ao teu lado, para consolar-te na agonia. Gostaria de viver por longo tempo para servir-te por longo tempo. Gostaria de morrer Contigo para entrar Contigo no Céu. De tudo isso eu gostaria, porque te amo. E penso que eu, o menor de meus irmãos, poderei tudo isso, se eu souber amar-te com perfeição. 149.6Jesus, aumenta em mim o teu amor! –diz João.

– Quererás dizer: “Aumenta o meu amor” –comenta Iscariotes–. Porque somos nós que devemos amar sempre mais…

– Não. Eu digo: “Aumenta o teu amor.” Porque nós mais amaremos quanto mais Ele nos queimar com seu amor.

Jesus atrai para perto de si o puro e apaixonado João e o beija na fronte, dizendo depois:

– Revelaste um mistério de Deus sobre a santificação dos corações. Deus se derrama sobre os justos e, quanto mais eles se entregam ao seu amor, mais Ele o aumenta e cresce a santidade. É este o misterioso e inefável modo de operar de Deus e dos espíritos. Cumpre-se nos silêncios místicos, e a sua potência, indescritível com palavras humanas, cria indescritíveis obras-primas de santidade. Não é um erro, mas é uma palavra sábia esta de pedir que Deus aumente o seu amor em um coração.