290. 290. O homem dos olhos ulcerados.A permanência na “fonte dos cameleiros”.Ainda sobre a recordação das almas.


29 de setembro de 1945.

290.1A caravana está saindo do grande pátio de Alexandre. Vai indo em ordem, como em um desfile militar. Na retaguarda vai Jesus com todos os seus. Os camelos, com seu andar balançante, vão, em passos cadenciados, transportando grandes cargas, com suas cabeças sobre os pescoços encurvados e parecem estar perguntando, a cada passo: “Por quê? Por quê?”, naquele movimento mudo, mas muito peculiar, como o dos pombos que, a cada momento, parecem estar dizendo: “sim, sim”, diante de tudo o que veem. A caravana vai ter que atravessar a cidade. E o vai fazendo, rodeada pelo ar claro desta manhã. Todos vão bem agasalhados, porque está fazendo frio. Os chocalhos dos camelos e os gritos dos cameleiros, a careta de um dos camelos, que já está com saudade da vida ociosa em que estava no estábulo, tudo isso está dizendo aos gerasenos que Jesus está partindo de Gerasa.

A notícia se espalha rapidamente, como um relâmpago, e alguns gerasenos vêm saudá-lo, e trazer-lhe ofertas de frutas e de outros comestíveis. Também um homem chega correndo, com um pequenino doente.

 Abençoa-o para que ele fique bom. Tem piedade!

Jesus levanta a mão, e abençoa, acrescentando:

 Vai seguro. Tem fé.

E o homem responde com um “sim” tão cheio de confiança, que uma mulher pergunta:

 Meu marido está doente com úlcera nos olhos. Tu o curarias?

 Se fordes capazes de crer.

 Então, eu vou buscá-lo. Espera-me, Senhor –e ela sai dali voando como uma andorinha.

Esperar? Isso é o que ela pensa! Os camelos já arrancaram para a frente. Alexandre, à testa da coluna, não está sabendo o que é que estão querendo lá na retaguarda. É preciso mandar um aviso ao homem.

 Vai correndo, Marziam. Vai dizer ao mercador que pare, antes de sair dos muros –diz Jesus.

E Marziam sai como uma flecha, para ir cumprir sua missão. A caravana para, enquanto o mercador vai indo a Jesus.

 Que acontece?

 Fica e verás.

290.2Logo já está de volta a mulher de Gerasa com o marido doente dos olhos. É uma coisa bem diferente de úlceras! São dois buracos cheios de podridão, abertos no meio do rosto. Os olhos aparecem lá no meio, embaçados, avermelhados, meio cegos, por entre o escorrimento de lágrimas repugnantes. Mal o homem levanta a venda escura, que lhe está servindo de anteparo contra a luz, o choro aumenta, porque a luz aumenta a dor dos olhos doentes.

O homem geme:

 Tem dó de mim! Estou sofrendo muito!

 Também pecaste muito. E, disso não te queixas? Somente te afliges, porque podes perder a pobre vista do mundo? Não tens medo da escuridão eterna? Por que fizeste o mal?

O homem chora, e se inclina, sem falar. A mulher também está chorando, e geme:

 Eu lhe perdoei…

 E Eu também lhe perdoarei, se ele aqui me jura que não recairá mais em seu pecado.

 Sim, sim. Perdão! Agora eu sei o que é que o pecado traz consigo. Perdoa-me. Como a mulher me perdoa. Tu és o Bom.

 Eu te perdôo. Vai àquele rio, lava o rosto na água, e ficarás são.

 A água fria o faz ficar pior, Senhor –geme a mulher.

Mas o homem não pensa em nada mais, a não ser em ir andando, e lá se vai, tateando, até que o apóstolo João, sempre bondoso, o pega pela mão e o vai guiando sozinho, até a mulher chegar, para pegá-lo pela outra mão. O homem desce até à beira da água gelada, que vem borbulhando por entre as pedras e se inclina, apanha água com a concha feita por suas mãos, e lava e torna a lavar aquele rosto. O doente não dá sinal de sentir dor. Mas, com aquilo, parece estar sentindo alívio.

Depois, com o rosto ainda molhado, sobe de novo para a margem e volta para Jesus, que lhe pergunta:

 E então? Estás curado?

 Não Senhor. Não agora. Mas tu disseste e eu me curarei.

 Então permanece em tua esperança. Adeus.

A mulher se agacha chorando… Está decepcionada. Jesus faz sinal ao mercador de que já se pode ir embora. O mercador, decepcionado também, faz que passem a ordem adiante. Os camelos recomeçam a marcha, com aquele seu movimento como o de uma barca, que levanta e abaixa a proa e o beque sobre a onda, e já vão saindo para fora dos muros, e pegando a estrada das caravanas, larga e poeirenta, que se estende na direção do sudoeste.

Os últimos dois do grupo dos apóstolos são João de Endor e Simão Zelotes. Eles já passaram uns vinte metros para além dos muros, quando um grito corta os ares silenciosos, e parece querer encher o mundo, e se repete ainda mais alto, cheio de alegria, proclamando:

 Estou enxergando! Jesus! Bendito meu! Eu vejo! Eu vejo! Eu acreditei! Eu vejo! Jesus, Jesus! Bendito meu!

E o homem, com o rosto completamente curado e com os olhos agora bonitos como duas pedras preciosas, cheios de luz e de vida, entra pelo meio das fileiras dos apóstolos, cai aos pés de Jesus, tendo ido parar quase debaixo das patas do camelo do mercador, que mal teve tempo de desviar o animal do homem prostrado.

O homem beija a veste de Jesus e repete:

 Eu tive fé! Eu acreditei e vejo! Bendito meu!

 Levanta-te, e sê feliz. E, principalmente, sê bom. Dize à tua mulher que saiba crer completamente. Adeus.

E Jesus se livra do aperto que o miraculado lhe está dando e recomeça sua caminhada.

290.3O mercador cofia, pensativo, a barba… E, enfim, pergunta:

 E, se ele não tivesse sabido persistir em crer, depois da desilusão, depois de ter-se lavado?

 Teria ficado como estava.

 Por que é que exiges tanta fé para fazer milagre?

 Porque a fé dá testemunho de que há presença de esperança e de amor a Deus.

 E, por que antes quiseste o arrependimento?

 Porque é pelo arrependimento que fazemos a Deus nosso amigo.

 Eu, que não tenho doença, que deveria fazer para dar testemunho de minha fé?

 Vir para a Verdade.

 E poderei vir sem a amizade de Deus?

 Não poderias chegar a isso sem a bondade de Deus. O Senhor permite que aquele que, ainda sem arrependimento, o está procurando, o encontre. Porque o arrependimento geralmente vem, quando o homem, cientemente, ou apenas com uma sombra de consciência daquilo que sua alma quer, conhece a Deus. Antes, ele é como um obtuso, guiado apenas por seu instinto. Tu, não terás sentido nunca a necessidade de crer?

 Muitas vezes. Eu não estava satisfeito com o que eu tinha. Percebia que havia outras coisas. Mais forte do que o dinheiro e os meus filhos eram as minhas esperanças… Mas eu não tomava o cuidado de procurar saber o que sem saber eu estava procurando.

 A tua alma estava procurando a Deus. A bondade de Deus permitiu que tu encontrasses a Deus. O arrependimento pelo teu passado inativo, pois estavas longe de Deus, te dará a amizade de Deus.

 Então, para… para ter o milagre de ver com a alma a Verdade, deveria eu arrepender-me do passado?

 Certamente. Arrependeres-te e decidir-te por uma mudança completa de vida…

O homem torna a cofiar a barba, e parece que está estudando e contando os fios do pelo do camelo, pelo modo com que está com um olhar fixo. Sem querer, ele esbarra o calcanhar no animal, e este toma aquele esbarro como um incitamento para acelerar o passo, e assim o faz, levando mais para diante o mercador, até à frente da caravana.

290.4Jesus não o detém. Pelo contrário, Ele para, deixando que passem à sua frente mulheres e apóstolos, até que eles alcancem Simão Zelotes e João de Endor. E Jesus se une a eles.

 De que faláveis? –pergunta.

 Falávamos do desconforto que deve sentir quem não crê em nada, ou quem perde a fé que antes tinha. Ontem Síntique estava angustiada mesmo, ainda que tenha passado a ter uma fé perfeita –responde Zelotes.

 Eu dizia a Simão que, se é penoso passar do Bem para o Mal, é também uma coisa desorientadora passar do Mal para o Bem. No primeiro caso a pessoa é torturada por sua consciência, que a censura. No segundo, ela fica… dilacerada… como deve ficar alguém que é levado para uma terra estrangeira, totalmente desconhecida… Ou, então, é o susto de quem, sendo miserável e sem instrução, se encontrasse na Corte do rei, entre pessoas doutas e grandes senhores. É um sofrimento… Eu sei… Um grande sofrimento… Não se pode crer que isso seja verdade e que possa durar… que se possa merecer isso… especialmente quando se tem a alma manchada… como estava a minha…

 E agora, João? –pergunta Jesus.

O rosto cansado de João de Endor, cansado e triste, se ilumina com um sorriso, que o torna menos descarnado. Ele diz:

 E agora não é mais assim. Ficou a gratidão, e esta cresce, para com o Senhor, que assim quis. Fica a lembrança do passado, para conservar-me humilde. Mas fica também a segurança. Eu me sinto aclimatado, não mais um estrangeiro neste belo mundo que é o teu, de perdão e de amor. E estou em paz, sereno, feliz.

 Achas que é boa a tua experiência?

 Sim. Se não fosse porque eu me arrependo de ter pecado, e porque com o pecado desagradei a Deus, eu diria que foi bom este meu passado. Ele pode me servir muito para confortar algumas almas cheias de boa vontade, mas perturbadas nos primeiros momentos de sua nova fé.

 Simão, vai dizer ao menino que não fique pulando tanto. Quando chegar a tarde, ele estará esgotado.

Simão olha para Jesus, mas compreende a razão daquela ordem. Mostra um sorriso inteligente e lá se vai, deixando sozinhos os dois.

290.5 Agora que estamos sós, João, escuta este meu desejo. Tu, por muitos motivos, tens uma grande capacidade de julgar e de pensar que, entre os que me acompanham, nenhum outro tem. E tens uma cultura mais vasta do que a que é comum entre os israelitas. Por isso, Eu te peço que me ajudes…

 Eu Te ajudar? Em quê?

 Para Síntique. Tu és um excelente pedagogo! Marziam vai aprendendo depressa, e bem contigo. Tanto assim, que Eu penso em deixar-vos juntos por alguns meses, porque quero que Marziam tenha um conhecimento mais vasto do que o deste pequeno mundo de Israel. Tu sentes alegria em ocupar-te com ele. Também Eu tenho alegria em ver-vos unidos, tu ensinando, e ele aprendendo, tu a rejuvenescer, e ele a amadurecer nesta ocupação. Mas deverias cuidar também de Síntique, como de uma irmã que perdeu o caminho. Tu o disseste: é um descaminho… Ajuda-a a alimentar-se na minha atmosfera. Tu me fazes este favor?

 Mas é uma graça para mim fazer isso, meu Senhor! Eu não me aproximava dela, porque me parecia ser uma coisa desnecessária. Mas, se Tu queres. Ela já lê os meus rolos. Eu tenho rolos sobre assuntos sagrados e rolos somente de cultura: livros de Roma e de Atenas. Eu vejo que ela medita sobre eles e os consulta. Mas eu nunca me pus a ajudá-la. Se Tu queres…

 Sim, Eu quero. Quero-vos amigos. Também ela, como Marziam e como tu, parareis em Nazaré por algum tempo. Será muito bom. Minha Mãe e tu, como mestres de duas almas que se abrem para Deus. Minha Mãe, a angélica Mestra da Ciência de Deus. E tu, o experiente mestre do saber humano, mas que agora já o podes explicar com referências sobrenaturais. Será bonito. E será bom.

 Sim, meu bendito Senhor. É bonito demais para o pobre João! –e o homem sorri, só de pensar nestes próximos dias de paz junto a Maria, na casa de Jesus…

290.6E a estrada se estende, ao calor do sol, que sempre vai aumentando, por entre a beleza de uma campina já agora toda plana, depois de ter costeado aquelas pequenas elevações, que aparecem logo depois de ter-se saído de Gerasa. É uma estrada até bem conservada, sobre a qual se pode andar comodamente, e também recomeçar a andar, quando se faz alguma parada ao meio-dia.

É quase noite quando eu ouço rir, pela primeira vez e com gosto, Síntique, à qual Marziam contou não sei o quê, mas que fez rir todas as outras mulheres. Vejo que a grega se inclina para acariciar o menino e para tocar de leve na fronte dele com um beijo. Depois o menino recomeça a dar pulos, como se não sentisse cansaço.

Mas todos os outros estão cansados e com alegria é que recebem a decisão de pernoitarem junto à Fonte do Cameleiro. O mercador diz:

 Eu aqui pernoito sempre. É longa demais a etapa de Gerasa até Bozra. Tanto para os homens, como para os animais.

 É humano este mercador –observam entre si os apóstolos, comparando-o com Doras…

A “Fonte do Cameleiro” não é mais do que um punhado de casas, ao redor de muitos poços. É uma espécie de oásis, não no meio da aridez do deserto, porque aqui não há aridez. Mas é uma espécie de oásis no meio da vastidão desabitada dos campos e dos pomares, ao longo de várias milhas, e que, quando vão chegando as tardes de outubro, fazem-nos sentir aquela mesma tristeza que se tem, ao ver o mar na hora do crepúsculo. Porque poder ver casas, ouvir rumores de vozes, choro de crianças, sentir o cheiro das chaminés que soltam fumaça, ver as primeiras luzes que se acendem, tudo isso são coisas tão agradáveis, como se estivéssemos chegando à nossa própria casa.

Enquanto os cameleiros param, a fim de abeberarem aos camelos pela primeira vez, os apóstolos e as mulheres acompanham a Jesus que, com o mercador, entram no… verdadeiramente pré-histórico albergue, que os hospedará naquela noite…

290.7… No fumacento salão, onde tomaram a refeição, onde dormirão os homens, lá, enquanto os servos estão preparando as enxergas de feno amontoado sobre esteiras, reúnem-se todos junto a um grande fogão, que abarca toda a parede do fundo do salão. Já acenderam o fogo, porque, com o cair da tarde, chegou a umidade e o frio.

 Contanto que o tempo não nos traga chuva –suspira Pedro.

O mercador o tranquiliza:

 Deve passar esta primeira fase da lua, antes que venha o mau tempo. Aqui é sempre assim a noite. Mas amanhã teremos sol.

 Eu falo por causa das mulheres, sabes? Não é por mim. Eu sou pescador e na água nós vivemos. E te asseguro que prefiro a água às montanhas e à poeira.

Jesus fala com as mulheres e os dois primos. Escutam-no também João de Endor e Zelotes. Timoneu e Hermasteu, em companhia de Mateus estão lendo um dos rolos de João e os dois israelitas estão explicando a Hermasteu as passagens bíblicas mais difíceis para ele.

Marziam os ouve, encantado, mas com um rostinho que está cheio de sono. Maria de Alfeu o vê, e diz:

 Esse menino está cansado. Vem cá, querido, que nós já vamos dormir. Vem, Elisa, vem, Salomé. Velhos e meninos estão bem é quando já estão na cama. E todos vós faríeis bem em ir também. Estais todos cansados.

Mas, além das velhas, com exceção de Marcela e de Joana de Cusa, ninguém mais se move.

Quando, depois de terem sido abençoadas, elas lá se foram, Mateus murmura:

 Quem haveria de dizer que estas mulheres teriam que dormir em cima de palha, tão longe de suas casas, pouco tempo atrás!

 Eu nunca dormi tão bem –diz, em poucas palavras, Maria de Magdala. E Marta confirma o que Maria disse.

Mas Pedro dá razão ao seu companheiro:

 Mateus tem razão. E eu pergunto a mim mesmo, sem chegar a compreender, por que será que o Mestre vos trouxe até aqui.

 Ora, é porque somos as discípulas!

 Então, se Ele fosse… para onde estão os leões, vós iríeis?

 Mas, com certeza, Simão Pedro! Já é uma grande coisa poder dar alguns passos com Ele perto!

 Aí está! Na verdade, são muitos passos. E, para mulheres, que não estão acostumadas com isso…

Mas as mulheres protestam tanto, que Pedro dá de ombros, e se cala.

Tiago de Alfeu, levantando a cabeça, vê um sorriso tão luminoso no rosto de Jesus, que lhe pergunta:

 Queres dizer-nos qual a verdadeira meta desta viagem, no meio de nós, com as mulheres, e… com pouco fruto, apesar de nosso cansaço?

 Poderias tu querer ver agora os frutos da semente que ficou enterrada nos campos por nós atravessados?

 Eu, não. Mas os verei na primavera.

 Pois Eu te digo: “Tu os verás a seu tempo.”

Os apóstolos não contestam nada.

290.8Levanta-se a voz clara e penetrante de Maria:

 Meu Filho, hoje entre nós estávamos falando sobre tudo o que existe em Ramot. E cada uma de nós tinha impressões e reflexões diversas. Quererias dizer-nos o teu pensamento. Eu dizia que era melhor chamar-te logo. Mas Tu estavas conversando com João de Endor.

 Realmente era eu a que suscitava a questão, porque eu sou uma pobre pagã, e não tenho as luzes esplêndidas da vossa fé. É preciso ter dó de mim.

 Pois eu quereria ter a tua alma, minha irmã! –diz, impulsiva, Madalena. E sempre com sua exuberância, a abraça, conservando-a apertada contra si com um braço.

Admirável em sua beleza, ela, sozinha, parece iluminar o pobre salão, e colocar nele a opulência de sua casa suntuosa. Unida estreitamente a ela, a grega está completamente indiferente, e, ainda que singular em sua pessoa, põe uma nota que faz pensar no grito de amor, que parece querer escapar sempre da apaixonada Madalena, enquanto, sentada com seu sereno rosto levantado para o seu Filho, com as mãos juntas, como se estivesse rezando, com seu perfil perfeitamente em realce contra a parede escura, a Virgem é a perpetua Adoradora.

Susana está na penumbra de um canto, e está cochilando, enquanto Marta está aproveitando a luz do fogão para pregar umas fivelas na vestezinha de Marziam, trabalhando ainda, apesar do cansaço e das importunações dos outros.

Jesus diz a Síntique:

 Mas não era um pensamento doloroso. Eu te ouvi, quando estavas rindo.

 Sim, por causa do menino, que resolvia uma questão com habilidade, dizendo: “Eu não quero voltar, se Jesus não volta. Mas, se tu queres saber tudo, vai até lá, e depois vem contar-nos, se te lembrares.”

Todas ainda estão rindo, e dizem que Síntique estava pedindo a Maria esclarecimentos sobre a explicação não bem entendida, a respeito da lembrança que as almas conservam, o que nos explica certa possibilidade que há entre os pagãos, de terem umas vagas recordações da Verdade.

 Eu estava dizendo: “Talvez isso confirme a teoria da reencarnação na qual creem os pagãos?”, e tua Mãe, Mestre, me explicava que o que estavas dizendo era outra coisa. Agora, queres explicar-me também isso, meu Senhor?

290.9 Escuta. Por terem os espíritos lembranças espontâneas da Verdade, não deves crer que fique demonstrado que nós vivamos outras vidas. Já sabes bastante, ao saberes como foi criado o homem, como o homem pecou e como foi punido. Foi-te explicado como no animal-homem por Deus foi incorporada uma alma só. Esta é criada, uma de cada vez, e nunca mais usada para sucessivas encarnações. Esta certeza deveria anular a minha afirmação sobre as recordações das almas. Deveria, para qualquer outro ser que não fosse o homem, dotado de uma alma feita por Deus. O animal não pode lembrar-se de nada, nascendo uma só vez. Já o homem pode recordar-se, também ele nascendo uma só vez. Ele pode recordar-se por meio de sua parte melhor, que é a alma. De onde vem a alma? E todas as almas dos homens? De Deus. Quem é Deus? É o Espírito inteligentíssimo, poderosíssimo, perfeito. Esta coisa admirável, que é a alma, coisa por Deus criada para dar ao homem a sua imagem e semelhança, como um sinal indiscutível de sua Paternidade Santíssima, dá provas dos dotes que são próprios daquele que a criou. Por isso, ela é inteligente, é espiritual, é livre e imortal, como o Pai que a criou. Ela1 sai perfeita do pensamento divino e, no momento de sua criação, ela é igual, por um milésimo de instante, à do primeiro homem: é uma perfeição que inclui a posse da Verdade, por um dom gratuito de Deus. Um milésimo de um instante. Depois, uma vez que ela foi criada, é atingida pela lesão da culpa original. Para te fazer entender melhor, Eu te direi que é como se Deus estivesse grávido da alma que Ele cria, e que essa criatura, ao nascer, fosse ferida por um sinal indelével. Tu me compreendes?

 Sim. Enquanto a alma é pensada, é perfeita. E, num milésimo de instante, nesse pensamento criador. Depois, o pensamento é transformado em fato, e o fato fica sujeito à Lei, que foi provocada pela Culpa.

 Respondeste bem. A alma se encarna, pois, no corpo humano, levando consigo, como uma pedra preciosa, no mistério do seu ser espiritual, a lembrança do Ser Criador, isto é, da Verdade. Um menino nasce. Ele poderá ser bom, e até ótimo, e poderá ser um pérfido. Tudo ele poderá tornar-se, porque é livre em sua vontade. Sobre as suas “recordações” o ministério dos anjos lança as luzes, enquanto que o insidioso lança trevas. Conforma o homem apetecerem as luzes e, por isso, uma virtude sempre maior, tornando a alma senhora do seu ser, nele aumentará a faculdade de lembrar-se, como se sempre mais a virtude fosse adelgaçando a parede que se interpõe entre a alma e Deus. Aí está o porquê os virtuosos de todas as regiões percebem a Verdade, não perfeitamente, porque foram tornados obtusos por doutrinas contrárias, ou por ignorância mortal, mas o necessário para darem páginas de formação moral aos povos aos quais eles pertencem. Compreendeste? Estás persuadida?

 Sim. Concluindo: a religião das virtudes heroicamente praticadas predispõe a alma para a Religião verdadeira e para o conhecimento de Deus.

 Isto mesmo. E agora vai descansar, e sejas abençoada. E tu também, minha Mãe, e vós, discípulas. Que a paz de Deus abençoe o vosso descanso.

[a alma] toda vez que cada novo homem é concebido. Na obra valtortiana o embrião é considerado pessoa (tanto que será chamado “inocente” em 381.6), porque nele já existe a alma (como se dirá explicitamente em 444.5). As notas inseridas em 118.6 - 127.5 - 204.6 - 348.10 - 428.3 nos conduzem a esta interpretação.


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