641. 641. Pedro celebra a Eucaristiaem uma reunião dos primeiros cristãos.
3 de junho de 1944.
641.1É uma das primeiríssimas reuniões dos cristãos, nos dias imediatamente seguintes ao Pentecostes.
Os doze apóstolos são de novo doze, porque Matias, já eleito para o lugar do traidor, está entre eles. E o fato que aí estejam todos os doze mostra que eles ainda não se haviam separado para irem evangelizar, conforme a ordem do Mestre. Portanto, o Pentecostes deve ter passado há pouco, e ainda não devem ter começado as perseguições do Sinédrio contra os servos de Jesus Cristo. Porque, se assim fosse, eles não estariam celebrando com tanta calma, sem tomarem nenhuma precaução, em uma casa muito conhecida por aqueles do Templo, isto é, na casa do Cenáculo, na sala onde foi consumada a Última Ceia, instituída a Eucaristia, iniciada a traição verdadeira e total, e a Redenção.
Mas a vasta sala passou por uma modificação, que foi necessária para que ela pudesse começar a funcionar como igreja, e devido ao número de fiéis. A mesa grande não está mais perto da parede da escadinha, mas está perto, ou melhor, está virada para a que está de frente, de tal modo que aqueles que não podem entrar no Cenáculo, que já está cheio de gente — o Cenáculo, primeira igreja do mundo cristão — podem ver o que acontece lá dentro, só mesmo apertando-se, aglomerando-se no corredor da entrada, lá perto da portinha, que está completamente aberta a fim de dar acesso para a sala.
Na sala há homens e mulheres de todas as idades. Em um grupo de mulheres, perto da mesa grande, mas num canto, está Maria, a Mãe, rodeada por Marta e Maria de Lázaro, Nique, Elisa, Maria de Alfeu, Salomé, Joana de Cusa, enfim, por muitas mulheres discípulas hebreias, e também não hebreias, que Jesus havia curado, consolado, evangelizado e feito delas as ovelhinhas do seu rebanho. Entre os homens estão Nicodemos, Lázaro, José de Arimateia e muitíssimos discípulos, entre os quais estão Estêvão, Hermes, os pastores, Eliseu, filho do sinagogo de Engadi, e muitíssimos outros. Aí está também Longino, não em veste militar, mas como se fosse um cidadão qualquer, com uma longa e simples veste acinzentada. Depois outros, que certamente entraram para o rebanho de Cristo depois do Pentecostes e das primeiras evangelizações dos Doze.
641.2Pedro está falando agora, evangelizando, instruindo os presentes. Está falando outra vez da Última Ceia. Outra vez, porque das suas palavras dá para entender que ele já falou disso outras vezes.
Ele está dizendo:
– Eu vos digo ainda outra vez — e ele frisa muito essas palavras — daquela Ceia na qual, antes de ser imolado pelos homens, Jesus Nazareno, como era chamado, Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador nosso, como deve ser chamado e em quem cremos com todo o nosso coração e nossa mente, porque crer nisso é a nossa salvação, se imolou por sua própria e espontânea vontade e, por um excesso de amor, deu-se em Alimento e Bebida aos homens, e dizendo a nós, seus servos e continuadores: “Fazei isto em memória de Mim.” E isso nós fazemos. Mas, ó homens, como nós, suas testemunhas, cremos que Ele está no Pão e no Vinho, oferecidos e abençoados, como Ele fez, em sua memória e por obediência à sua divina ordem, o seu Corpo Santíssimo e o seu Sangue Santíssimo, aquele Corpo e aquele Sangue que são de um Deus, Filho de Deus Altíssimo, e que foram espalhados e crucificados por amor e pela vida dos homens, assim vós também, todos vós, que viestes fazer parte da verdadeira, nova, imortal Igreja, predita pelos profetas e fundada por Cristo, deveis crer. Crede e bendizei ao Senhor, que a nós que somos seus, como eu dizia. Crede, e bendizei ao Senhor, que a nós — que somos os seus crucificadores, senão materialmente, certamente morais e espirituais crucificadores pela nossa fraqueza ao servi-lo, pela nossa obtusidade em compreendê-lo, pela nossa vileza em abandoná-lo, fugindo na sua última hora, na nossa, não, na minha traição pessoal de homem medroso e vil até o ponto de renegá-lo, e negá-lo, e negar que fosse seu discípulo, o primeiro dos seus servos (e grossas lágrimas descem a escorrer pelo rosto do Pedro), pouco antes da primeira hor,a lá, no pátio do Templo — crede e bendizei, como eu ia dizendo, o Senhor, que a nós deixa este eterno sinal de perdão. Crede e bendizei o Senhor que, para aqueles que não o conheceram quando Ele era o Nazareno, Ele permite que o conheçam agora que é o Verbo Encarnado que foi unir-se a seu Pai. Vinde e tomai. Ele assim o disse: ‘Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue terá a Vida Eterna’. E nós naquela hora não compreendemos (e Pedro chora de novo). Não compreendemos porque estávamos obtusos em nossa inteligência. Mas agora o Espírito Santo iluminou nossa inteligência, fortaleceu a nossa fé, infundiu em nós a caridade, e agora nós compreendemos. E em Nome do Deus Altíssimo, do Deus de Abraão, de Jacó, de Moisés, no Nome do Altíssimo, do Deus que falou a Isaías, a Jeremias, a Ezequiel, a Daniel e a outros profetas, nós vos juramos que esta é a verdade, e vos rogamos que creiais, a fim de poderdes ter a Vida Eterna.
Pedro está cheio de majestade ao falar. Já não tem nada mais do rústico pescador de pouco tempo antes. Ele subiu sobre um escabelo para falar a fim de ser visto e ouvido melhor, porque de baixa estatura como ele é, se ficasse com os pés no chão da sala, não teria podido ser visto pelos que estão mais longe, e ele pretende ser ouvido pela multidão. Ele fala medindo as palavras com uma voz em tom adequado e gestos de um verdadeiro orador. Seus olhos também parecem falar, e agora mais do que nunca. O amor, a fé, a autoridade, a contrição, tudo transparece em seu olhar, antecipando e reforçando suas palavras.
641.3Agora ele parou de falar. Desce do escabelo e passa por trás da mesa, no espaço entre a parede e a mesa, e espera.
Tiago e Judas, isto é, os dois filhos de Alfeu, que são primos de Cristo, estendem agora sobre a mesa uma toalha branca. Para poderem fazer isso, eles tiveram que levantar o baú, que é largo e baixo, e que foi colocado no centro da mesa, e também sobre a tampa dele estendem uma toalha de linho finíssimo.
O apóstolo João vai agora até Maria e lhe pergunta alguma coisa. Maria tira do pescoço uma espécie de chavinha e a entrega a João. Este a pega, volta até o baú e o abre, levantando a parte que estava na frente, e que fica apoiada sobre a toalha e recoberta por uma terceira toalha de linho.
No interior do baú há uma separação horizontal, que o divide em dois planos. No plano inferior há um cálice e um prato de metal. No plano superior, no centro, está o cálice usado por Jesus na Última Ceia e na primeira Eucaristia, os restos do pão partido por Ele, colocados sobre um pratinho precioso como o cálice. Aos lados do cálice e do pratinho posto sobre ele, de um lado está a coroa de espinhos, os cravos e a esponja. Do outro lado está um dos Lençóis enrolados, o véu com que Nique enxugou o rosto de Jesus e o outro, que Maria deu ao seu Filho para que Ele enfaixasse os próprios lados. No fundo há outras coisas, mas, como estão em sua maior parte escondidas e ninguém fala nelas, ninguém as mostra, não se sabe que coisas são. As outras, pelo contrário, são visíveis, e podem ser mostradas aos presentes por João e Judas de Alfeu, e a multidão se ajoelha diante delas. Mas o cálice e o pratinho do pão não são mostrados nem tocados, e o Sudário não é estendido todo, mas somente mostrado enrolado, dizendo-se o que é. Talvez João e Judas não o estendam para não despertar em Maria a lembrança dolorosa dos atrozes tormentos padecidos por seu Filho.
Tendo terminado esta parte da cerimônia, os apóstolos, em coro, entoam seus cantos, isto é, os salmos, pois eles são cantados como fazem os hebreus em suas sinagogas, ou em suas peregrinações a Jerusalém para as solenidades prescritas pela Lei. A multidão se une ao coro dos apóstolos, e assim vai ficando sempre mais imponente.
641.4Por fim, são trazidos alguns pães que são colocados no prato de metal, que estava no plano inferior do baú, e também algumas ânforas de metal.
Pedro recebe de João, que está ajoelhado do outro lado da mesa — enquanto Pedro está sempre entre a mesa e a parede, sempre voltado para a multidão — o tabuleiro com os pães, que ele levanta e oferece. Depois o abençoa e o põe sobre o baú.
Judas de Alfeu, estando também ele ajoelhado ao lado de João, por sua vez estende a Pedro o cálice que está na parte inferior, e as duas ânforas que antes estavam perto dos pratinhos com pães; e Pedro mistura o conteúdo delas no cálice, que depois é levantado e oferecido, como ele já fez com o pão. Abençoa também o cálice e o apoia sobre o baú, ao lado dos pães.
Fazem ainda a oração. Pedro parte os pães em muitos pedaços pequenos, enquanto a multidão se prostra mais ainda, e diz:
– Este é o meu Corpo. Fazei isto em memória de Mim.
Sai de trás da mesa, levando consigo o tabuleiro cheios de pedaços de pão e, em primeiro lugar, vai até Maria e lhe dá um dos pedaços. Depois, vai para a frente da mesa e distribui o Pão sagrado a todos os que se aproximam para recebê-lo. Sobram poucos pedaços, que estão sempre na travessa e que são colocados sobre o baú.
Depois ele pega o cálice e o oferece aos presentes, sempre começando por Maria. João e Judas o acompanham, com as pequenas ânforas, e põem os líquidos quando o cálice está vazio, enquanto Pedro repete a elevação, a oferta e a bênção, para consagrar o líquido.
Depois que todos os que pediam para serem alimentados com a Eucaristia tinham sido atendidos, os apóstolos consumiram o pão e o vinho que sobraram. Em seguida, eles cantam um outro salmo ou hino, e logo depois disso Pedro abençoa a multidão, que, depois de sua bênção, pouco a pouco vai indo embora.
641.5Maria, a Mãe, que ficou sempre de joelhos durante toda a cerimônia da consagração e da distribuição das espécies de Pão e de Vinho, levanta-se e vai até o baú. Curva-se sobre a mesa e toca com a testa a parte do baú onde estão o cálice e o pratinho usado por Jesus na Última Ceia, e dá um beijo na borda deles. Um beijo que é também para todas as relíquias ali guardadas.
Depois, João fecha o baú e entrega a chave a Maria, que a pendura de novo em seu pescoço.