223. 223. Um sermão de Jesus evita o assaltodos salteadores a uma caravana nupcial.


19 de julho de 1945.

223.1 – No lugar, ao qual estamos indo, falarei Eu, diz o Senhor, enquanto a comitiva cada vez mais vai penetrando pelos vales, que agridem o monte com os seus caminhos difíceis, pedregosos, estreitos, subindo e descendo, perdendo de vista os horizontes aqui, para torná-los a ver mais adiante, chegando a um vale mais profundo, por uma descida muito íngreme, na qual somente o bode se sente à vontade, como disse Pedro. A comitiva toma um descanso para tomar a sua refeição, perto de uma fonte muito rica de águas.

Outras pessoas estão espalhadas pelos prados e pelos pequenos bosques, também tomando suas refeições, como Jesus e os seus. Este deve ser um lugar preferido para permanências, por estar ao abrigo dos ventos, com prados macios e águas. São peregrinos, que vão para Jerusalém, viajantes que talvez se dirijam ao Jordão, mercadores de cordeiros destinados ao Templo, pastores com os seus rebanhos. Alguns fazem a viagem em suas cavalgaduras, mas a maior parte a pé.

223.2 Chega também uma caravana nupcial, toda enfeitada festivamente. Os ouros transluzem por debaixo do véu que envolve a noiva, que é pouco mais do que uma menina, e vem acompanhada por duas matronas, que estão cintilantes por seus braceletes e colares, e por um homem, talvez o padrinho, além de dois outros servos. Eles chegaram em jumentos cheios de franjas e de guizos, e se afastam para um canto onde vão comer, como se tivessem medo de que os olhos dos presentes violassem a pequena noiva. O padrinho, ou parente que seja, monta guarda, ameaçador, enquanto as mulheres comem.

Na verdade, há uma grande curiosidade e, com a desculpa de ir pedir um pouco de sal, ou uma faca, um pouquinho de vinagre, sempre há alguém que vá a este ou àquele para perguntar se a noiva é conhecida, e para onde está indo, e tantas outras coisas bonitas desse gênero…

E há um que, de fato, sabe de onde ela vem e para onde vai, e se sente muito feliz em contar tudo o que sabe, estimulado por um outro, que lhe refresca sempre a garganta, derramando dentro dela um vinho generoso. Em alguns minutos, chegam a ser contados até os mais secretos particulares das duas famílias, do enxoval, que a noiva traz naqueles caixotes, das riquezas que a esperam na casa do noivo, e assim por diante. Chega-se também a saber que a noiva é filha de um rico mercador de Jope, e que vai ser esposa do filho de um rico mercador de Jerusalém, e que o esposo já foi na frente dela, para ornar a casa das núpcias, na iminência de sua chegada, e que aquele que a acompanha é o amigo do noivo, sendo ele também filho de um mercador, chamado Abraão, que é quem lapida os diamantes e as pedras preciosas, enquanto que o noivo é ourives, o pai da noiva é mercador de lã, telas, tapetes, tendas…

223.3 E, como o falador está perto do grupo dos apóstolos, Tomé escuta, e pergunta:

– Será talvez Natanael de Levi o noivo?

– É ele mesmo. Tu o conheces?

– Conheço bem o pai através de assuntos de negócios, Natanael conheço um pouco menos. É um matrimônio rico!

– Feliz noiva! Está coberta de ouro. Abraão, parente da mãe da noiva e pai do amigo do noivo, foi generoso, assim como o noivo e o pai dele. Dizem que naquelas caixas há um valor de muitos talentos de ouro.

– Saúde! –exclama Pedro, e dá um curto assobio.

Depois, acrescenta:

– Vou ver de perto se a mercadoria principal corresponde ao resto –e se levanta, junto com Tomé, e vão dar uma volta ao redor do grupo nupcial, olhando bem para as três mulheres, um montão de tecidos e de véus, do meio dos quais emergem as mãos e os pulsos cheio de jóias e escapam umas cintilações das orelhas e dos pescoços, olham para o fanfarrão do padrinho, que parece querer repelir algum assalto de corsários contra a virgenzinha, de tanto que ele está bancando o valentão.

Ele olha com maus olhos até para os dois apóstolos. Mas Tomé lhe pede que saúde, em nome de Tomé, chamado Dídimo, a Natanael de Levi. E assim se fez a paz, e tanto se fez, que, enquanto ele está falando, a noivinha encontra um modo de fazer-se admirar, levantando-se para que o seu manto e o seu véu caiam, e ela possa aparecer em toda a sua beleza de corpo e de vestes, e na sua riqueza de ídolo. Terá ela uns quinze anos, quando muito, e um par de olhos muito sabidos.

Ela se move, muito afetada, apesar da recomendação das matronas, corta as pontas das tranças, e as arruma de novo, com a ajuda de grampos de alto preço, aperta a cintura embelezada com pedras preciosas, se desata, se desfia, desata e coloca de novo as sandálias cuja forma é de sapatinhos, bem fechados no peito do pé com fivelas de ouro e, nesse ínterim, procura mostrar sua magnífica cabeleira cor de amora, suas belas mãos e delicados braços, a cintura gentil, o peito e os quadris bem feitos, o pezinho sem defeitos, e todas as jóias, que tilintam, e mostram suas facetas às ultimas horas do dia e às chamas das primeiras fogueiras.

223.4 Pedro e Tomé voltam para trás. E Tomé diz:

– É uma bela moça.

– É uma perfeita namoradeira. Será… mas o teu amigo Natanael logo ficará sabendo que há alguém esquentando-lhe a cama, enquanto ele esquenta o ouro para trabalhá-lo. E o amigo dele é um grande bobo. E ele lhe confiou bem a sua noivinha! –termina Pedro, indo sentar-se entre os companheiros.

– A mim não me agradou aquele homem, que fazia falar àquele outro bobo. Quando ele chegou a saber tudo o que queria saber, foi-se embora pelo morro acima… Estes lugares são maus. E este é o tempo bom para os golpes dos malandros. As noites agora são de luar. O calor cansa. As árvores estão copadas. Hum! Este lugar não me agrada –resmunga Bartolomeu–. Seria melhor prosseguir.

– E aquele imbecil que falou de tantas riquezas! E aquele outro que se faz de herói, é o guardião das sombras, e não vê os verdadeiros corpos!… Pois bem, eu vou cuidar da fogueira. Quem vem comigo? –diz Pedro.

– Eu, Simão –responde Zelotes–. Eu resisto bem ao sono.

Muitos do campo, especialmente os viajantes que andam sozinhos, já se levantaram e foram-se embora, pouco a pouco. Ficaram os pastores de rebanhos, a comitiva dos noivos, o grupo dos apóstolos e três mercadores de cordeiros, que já estão dormindo. Também a noivinha está dormindo, com as matronas, debaixo de uma tenda que os servos montaram. Os apóstolos estão procurando um lugar, Jesus fica sozinho em oração, os pastores fazem um grande fogo no centro do descampado onde estão. Pedro e Simão fazem um outro perto do caminho que vai para um despenhadeiro, onde foi-se encafuar aquele homem que fez Bartolomeu suspeitar.

223.5 Passam as horas e, quem não está roncando, está cabeceando. Jesus reza. O silêncio é total. Parece que está calada até a fonte, que brilha ao luar, estando a Lua já alta no céu, iluminando muito bem o descampado, enquanto os declives ficam na sombra da ramagem espessa.

Um cão dos pastores começa a rosnar. Um dos guardas do rebanho levanta a cabeça. O cão se põe de pé e levanta o pelo sobre o dorso, colocando-se em posição de defesa e de escuta. Ele está até tremendo, enquanto seu rosnar surdo, que está fervendo dentro dele, vai-se tornando sempre mais forte. Simão também levanta a cabeça e sacode Pedro, que está cochilando. Um sussurro cauteloso vem vindo do lado do bosque.

– Vamos ao Mestre. Vamos trazê-lo para a nossa companhia –dizem os dois.

Nesse ínterim, o guarda desperta os companheiros. Todos estão à escuta, e sem fazer barulho. Jesus também se levantou, antes mesmo de ser chamado, e vai de encontro aos dois apóstolos. Reúnem-se eles com os companheiros e, por isto, perto dos pastores, cujo cão dá sinais cada vez mais claros de agitação.

– Chamai os que estão dormindo. Todos. Dizei-lhes que venham, sem fazerem barulho, e especialmente as mulheres e os servos com os cofres. Dizei-lhes que talvez sejam os malandros. Mas, não o digais às mulheres. Dizei-o a todos os homens.

Os apóstolos se espalham, obedecendo ao Mestre, que diz aos pastores:

– Alimentai o fogo, que ele fique bem forte e faça uma chama bem viva.

Os pastores obedecem e, como parecem estar agitados, Jesus lhes diz:

– Não temais. Não vos será tirado nem um floco de lã.

Sobrevêm os mercadores, e sussurram:

– Lá se foram os nossos ganhos! –e acrescentam um rol de impropérios contra os governadores romanos e judeus que não limpam o mundo dos ladrões.

– Não temais. Não perdereis nem um centavo –conforta-os Jesus.

Chegam as mulheres chorando, espavoridas, porque o corajoso padrinho, por entre os tremores de um medo fenomenal, as aterroriza, dizendo:

– É a morte. A morte pela mão dos salteadores!

– Não temais. Não sereis atingidas nem mesmo com um olhar

–encoraja-as Jesus, levando as mulheres para o centro do pequeno conjunto de homens e animais espantados.

Os asnos zurram, o cão uiva, as ovelhas balem, as mulheres soluçam, os homens dizem imprecações ou desmaiam pior do que as mulheres, em uma cacofonia causada pelo espanto. Jesus está calmo, como se nada houvesse acontecido. O sussurro no bosque nem se pode mais ouvir, no meio desta vozeria. Mas, que no bosque estão os malfeitores, que vêm se aproximando, é o que estão denunciando os galhos, que vão sendo quebrados e as pedras que descem rolando.

– Silêncio! –manda Jesus. E o manda de um modo tal, que logo se faz silêncio.

223.6 Jesus deixa o seu lugar, e vai na direção do bosque, no fim do descampado. Depois Ele se vira para o bosque, e começa a falar.

– A malvada fome do ouro arrasta os homens a sentimentos muito baixos. Por causa do ouro, o homem se desvela mais do que por outras coisas. Vede quanto mal semeia, com o seu fascinante e inútil resplendor, este metal. Eu creio que da cor dele seja o ar do Inferno, pois ele é de natureza infernal, desde quando o homem se tornou pecador.

O Criador o tinha deixado nas vísceras deste enorme lápis-lazuli que é a terra, criada por sua vontade, a fim de que fosse útil ao homem com os seus sais, e servisse para embelezar os seus templos. Mas satanás, tendo beijado os olhos de Eva e mordido o eu do homem, pôs um sabor de malefício no metal inocente. E desde então pelo ouro se mata e se peca. Por ele a mulher se torna namoradeira e facilmente cai no pecado carnal. Por ele o homem se torna ladrão, usurpador, homicida, duro para com o próximo e para com sua alma, que ele despoja de sua verdadeira herança, para dar a si mesmo uma coisa efêmera, a alma por ele depredada em seu tesouro eterno, para dar a si mesmo umas poucas escamas brilhantes que, quando chegar a morte, vão ser abandonadas.

223.7 Ó vós, que por causa do ouro pecais mais ou menos levemente, mais ou menos gravemente, e tanto mais pecais e tanto mais vos rides de tudo o que vos foi ensinado por vossa mãe e por vossos mestres, isto é, que existe um prêmio e um castigo para as obras praticadas durante esta vida, e assim não refletis que por este pecado perdereis a proteção de Deus, a vida eterna, a alegria, e tereis remorsos, maldição no coração, o medo por companheiro, o medo das punições humanas, que são sempre um nada, em comparação com o medo que deveríeis ter, e não tendes, o santo medo dos castigos de Deus? Não refletis que poderíeis ter um fim terrível para os vossos crimes, se eles chegarem ao delito. E um fim ainda pior, porque eterno, se os vossos crimes por amor do ouro, embora sem chegarem ao derramamento do sangue, mas desprezaram a lei do amor e do respeito ao próximo, negando, por avareza, o socorro a quem tem fome, roubando postos, ou pesos, ou dinheiro, por cobiça? Não. Não pensais nisso. Dizeis “Tudo é loucura! Eu esmaguei estas loucuras sob o peso do meu ouro. E elas não vivem mais.” Não são loucuras. São verdades.

Não digais: “Pois bem, uma vez que eu morra, tudo se acabou.” Não. Aí é que tudo começa. A outra vida não vai ser um abismo sem pensamento e sem recordação do passado vivido e sem aspirações a Deus, que vós credes: será uma pausa para esperar a libertação pelo Redentor. A outra vida é uma espera feliz para os justos, espera paciente para os que estão sofrendo e espera horrível para os condenados. Para os primeiros, no Limbo; para os segundos, no Purgatório e para os últimos, no Inferno. E, enquanto para os primeiros a espera cessará com a entrada nos Céus atrás do Redentor, para os segundos, depois daquela hora, se tornará uma espera confortada pela esperança, enquanto que para os terceiros o que os entristecerá será a terrível certeza de uma condenação eterna. Pensai nisso, vós que pecais. Nunca é tarde para arrepender-vos. Mudai o veredito, que está sendo escrito no Céu, com um verdadeiro arrependimento. A região dos mortos seja para vós não um inferno, mas uma penitente espera, pelo menos esta, seja por vós desejada. Não escuridão, mas crepúsculo de luz. Não tortura, mas saudade. Não um desespero, mas esperança.

223.8 Ide. Não procureis lutar contra Deus. Ele é o Forte e o Bom. Não desonreis o nome dos vossos pais. Ouvi como aquela fonte gemeu, um gemido parecido com aquele que despedaça o coração de vossa mãe, quando ela fica sabendo que sois assassinos. Ouvi como o vento está uivando no desfiladeiro. Parece vos estar ameaçando e amaldiçoando. É assim que vos amaldiçoa o vosso pai pela vida que levais. Ouvi como o remorso uiva em vossos corações. Por que quereis sofrer, se poderíeis ser serenamente pagos com um pouco sobre a terra, e com tudo no Céu? Dai paz aos vossos espíritos. Dai paz aos homens que temem, que devem ter medo de vós, como de feras! Dai a paz a vós mesmos, ó verdadeiros infelizes! Levantai vossos olhares para o Céu, afastai de vossa boca o alimento venenoso, purificai vossas mãos, que estão deixando pingar o sangue de irmãos, purificai os vossos corações.

Eu tenho fé em vós. Por isso é que vos falo. Porque, se todo o mundo vos odeia e vos teme, Eu não vos odeio, nem vos temo. Eu somente vos estendo a mão, para dizer-vos: “Levantai-vos. Vinde. Voltai cheios de mansidão para o meio dos homens, homens entre homens.” Tão pouco Eu vos temo, que agora vou dizer também a todos estes: “Voltai para o vosso descanso. Sem rancor para com os pobres irmãos. Rezai por eles. Eu fico aqui a fim de olhar por eles com olhos de amor, e vos juro que nada mais acontecerá. Porque o amor desarma os violentos, e sacia os ávidos. Seja bendito o Amor, a força verdadeira do mundo. Força desconhecida e poderosa. Força que é Deus.”

E, dirigindo-se a todos:

– Ide, ide. Não temais. Lá não há mais malfeitores, mas homens assustados e homens que choram. Quem chora não faz mal. Deus queira que, como estão agora, eles permanecessem. Seria a redenção deles.