255. 255. Partida das irmãs Marta e Mariacom Síntique. Uma lição a Judas Iscariotes.


17 de agosto de 1945.

255.1De novo estão a caminho, virando-se para o oriente, e dirigindo-se para as campinas.

Agora os apóstolos e os dois discípulos estão com Maria Cléofas e Susana, poucos metros atrás de Jesus, que está com sua Mãe e as duas irmãs de Lázaro. Jesus fala continuamente. Os apóstolos, ao contrário, não falam. Parecem estar cansados e desanimados. Não os atrai nem mesmo a beleza das campinas, que estão realmente esplêndidas, com suas leves ondulações, que estão em movimento através da planície, como se fossem almofadas verdes por baixo dos pés de algum rei gigante, com suas colinas de poucos metros de altura, colocadas aqui e ali, como uns prelúdios das cordilheiras do Carmelo e da Samaria. Tanto nas planícies, que são o que predomina nesta região, como nas decorações destas pequenas colinas e ondas do terreno, é tudo um florescer de ervas e um maturar de frutas. Deve ser um lugar molhado não obstante a região e a estação, pois é muito florido para ser assim sem fartura de águas. Compreendo agora por que é que a planície de Saron é tantas vezes citada com entusiasmo nas Sagradas Escrituras. Mas esse entusiasmo não é nada partilhado pelos apóstolos, que vão andando um pouco amuados, eles, os únicos que vão indo de mau humor neste dia tão sereno, e através de uma tão risonha região.

A estrada consular, muito bem conservada, atravessa com sua fita branca esta campina fertilíssima e, dada a hora matutina, ainda é fácil encontrar camponeses carregados de provisões ou viajantes que estão indo para Cesareia. Um, que chega com uma fila de asnos carregados de sacas, alcança os apóstolos e os obriga a se afastarem para dar lugar à caravana de asnos, pergunta-lhes com arrogância:

 Quison é aqui?

 É mais atrás –responde Tomé, resmungando por entre dentes–. Que grande grosseirão!

 É um samaritano, e basta dizer isso, que tudo fica explicado! –responde Filipe.

255.2Depois, voltam ao silêncio. Alguns metros adiante, como se estivesse terminando um longo raciocínio, Pedro diz:

 Foi para isso que serviu! Para isso teria valido a pena fazer tão longa viagem?

 Mas, é isso mesmo. Para que fomos a Cesareia, se Ele não disse nem uma palavra sobre isso? Eu pensava que Ele quisesse fazer algum espantoso milagre, para persuadir os romanos. Mas, ao contrário… –diz Tiago de Zebedeu.

 Ele nos colocou na berlinda, e basta –comenta Tomé.

E Iscariotes ainda cobra mais:

 Ele nos fez sofrer. Mas, como a Ele as ofensas agradam, Ele pensa que agradem a nós também.

 Na realidade, quem mais sofreu neste caso foi Maria de Teófilo –observa, pacato, Zelotes.

 Maria! Maria! Será que Maria se tornou o centro do universo? Só ela sofre, só ela é heroica, só ela é que precisa formar-se. Se eu soubesse, iria virar ladrão e homicida, para ser depois feito objeto de tantos cuidados –dispara Iscariotes.

 Na verdade, na outra vez que viemos a Cesareia e Ele lá fez um milagre e evangelizou, nós o afligimos com o nosso descontentamento pelo que Ele fez –observa o primo do Senhor.

 É que nós não sabemos o que queremos. Ele faz assim, e nós ficamos resmungando. Ele faz o contrário e continuamos a resmungar. Nós é que somos os defeituosos –diz, sério, João.

 Oh! Aí está o outro sábio que fala! Mas o que é certo é que há tempo que não se faz nada de bom.

 Nada, Judas? Mas, e aquela grega, Hermasteu, Abel, Maria, mas…

 Não será com essas nulidades que Ele irá fundar o seu Reino –replica Iscariotes, obsessivo pela ideia de um triunfo terreno.

 Judas, eu te peço que não fiques julgando as obras do meu Irmão. Essa é uma pretensão ridícula. Um menino que quer julgar o Mestre. Para não dizer uma nulidade, que se quer elevar –diz Tadeu que, se tem o mesmo nome que o outro, tem, contudo, uma profunda antipatia pelo seu homônimo.

 Eu te agradeço, porque te limitaste a chamar-me de menino. Na verdade, depois de ter vivido tanto tempo no Templo, eu achava que devia ser considerado pelo menos maior de idade –responde, sarcástico, Iscariotes.

255.3 Ah! Como são pesadas essas discussões! –suspira André.

 É verdade! Em vez de nos unirmos mais, nós nos separamos. E, ainda mais, se pensarmos que Ele disse em Sicaminon que precisamos estar unidos ao rebanho. Como é que o estaremos, se até entre nós pastores, não estamos unidos? –observa Mateus.

 Então, não se deve falar? Nem dizer nunca o nosso pensamento? Creio que nós não somos escravos.

 Não, Judas. Não somos escravos. Mas somos indignos de acompanhá-lo, porque não o compreendemos –diz, calmo, Zelotes.

 Eu o compreendo muito bem.

 Não. Tu não o compreendes, e contigo também não o compreendem, uns mais, outros menos, todos aqueles que o criticam. Compreender é obedecer sem discutir, porque estamos persuadidos da santidade de quem nos guia –diz ainda Zelotes.

 Ah! Mas tu falas em compreender a sua santidade! Eu me referia às palavras dele. Sua santidade é indiscutida e indiscutível –apressa-se a dizer Iscariotes.

 E podes separar esta daquelas? Um santo terá sempre a posse da Sabedoria e as palavras dele serão sábias.

 É verdade. Mas Ele faz atos prejudiciais. Certamente por ter santidade demais. Isto eu concedo. Mas o mundo não é santo e Ele cria para Si aborrecimentos. 255.4Agora, por exemplo, este filisteu e esta grega. Crês tu que eles nos ajudam?

 Mas, se estiver perturbando, eu me retiro –diz, humilhado, Hermasteu–. Eu tinha vindo com a ideia de dar-lhe honra e fazer uma coisa justa.

 Tu lhe causarias tristeza, se fosses embora por esse motivo –responde-lhe Tiago de Alfeu.

 Eu lhe farei crer que mudei de ideia. Agora mesmo vou saudá-lo, e… irei embora.

 Tu não vais mesmo! Tu não te irás daqui. Não é justo que, pelos nervosismos de um outro, o Mestre perca um discípulo bom –dispara Pedro.

 Mas, se ele quer ir-se embora assim por pouca coisa, é sinal de que nem sabe bem o que quer. Deixa-o, pois, ir-se embora –responde Iscariotes.

Pedro perde a paciência:

 Eu prometi a Ele, quando me deu Marziam, que me tornaria paternal para com todos, e me desagrada faltar com o prometido. Mas tu me queres levar a fazê-lo. Hermasteu, é aqui que vais ficar. Sabes o que é que eu tenho a dizer-te? Que és tu que perturbas a vontade dos outros e as tornas cheias de dúvidas. Tu és o que gosta de separar, e pôr em desordem. Eis aí o que és. E envergonha-te disso.

 E tu, quem és? O protetor dos…

 Sim senhor. Disseste bem. Eu sei o que queres dizer. Protetor da Velada, protetor de João de Endor, protetor de Hermasteu, protetor daquela escrava, protetor de tantos outros, que foram encontrados por Jesus, e que não são os esplêndidos exemplares, que se pavoneiam, dizendo-se do Templo, os fabricados com a cal sagrada e as teias de aranha do Templo, com os pavios cheirando a borra de azeite das lâmpadas do Templo, os que, para tornar mais clara a parábola, são como tu. Porque, se o Templo é importante, a não ser que eu me tenha tornado um idiota, o mestre é mais importante do que o Templo, e tu lhe faltas…

255.5E Pedro começa a gritar tão alto, que Jesus para e se vira, como se quisesse voltar para trás, afastando-se das mulheres.

 Ele ouviu. E deve estar aflito –diz o apóstolo João.

 Não, Mestre. Não venhas. Nós estávamos discutindo para disfarçar os aborrecimentos da viagem –diz prontamente Tomé.

Mas Jesus ficou parado, como quem espera ser alcançado pelos outros.

 Sobre o que é que estáveis discutindo? Será que mais uma vez vos deverei dizer que as mulheres vos estão superando?

Essa doce repreensão toca os corações de todos. E eles se calam e abaixam a cabeça.

 Amigos, amigos. Não sejais objeto de escândalo para aqueles que somente agora é que estão nascendo para a Luz! Não sabeis que faz mais mal uma imperfeição em vós do que todos os erros que há no paganismo para a redenção de um pagão ou de um pecador?

Ninguém responde, porque não sabem o que dizer para se justificarem, ou para não se acusarem.

255.6Junto a uma fonte, no fundo de uma torrente seca está parado o carro das irmãs de Lázaro. Os dois cavalos estão pastando a erva viçosa das margens da torrente, que parece ter secado faz pouco tempo e por isso ainda tem erva abundante em suas margens. O servo de Marta e um outro, que talvez seja o condutor, estão também sobre a areia, enquanto que as mulheres já estão no carro fechado, todo coberto com uma coberta pesada, feita de peles curtidas, que descem, como cortinas, até o chão, onde está o carro.

As mulheres discípulas se apressam para entrar, e o servo, que as vê por primeiro, dá o aviso à nutriz, enquanto o outro se apressa em conduzir os cavalos para os varais. Enquanto isso, o servo corre para as patroas e se inclina. E até o chão. A idosa nutriz, uma bela mulher de cor azeitonada, mas simpática, desce rápida e se dirige para as suas patroas. Mas Maria de Magdala lhe diz qualquer coisa e ela vai indo em direção da Virgem, e dizendo:

 Perdoa. Mas é tão grande a alegria que eu sinto por ver-te, que não vejo mais ninguém. Vem, bendita. O sol está muito quente. No carro há sombra.

E sobem todos, ficando à espera dos homens, que vinham muito atrás. Enquanto estão esperando e enquanto Síntique, vestida agora com a veste que ontem estava com Madalena, beija os pés de suas duas patroas, como ela teima em tratá-las, apesar de elas dizerem que para elas ela não é nem serva, nem escrava, mas apenas hóspede em nome de Jesus e, nesse ínterim, a Virgem está mostrando o lindo embrulhinho de púrpura e perguntando como é que se pode fiar aquele topetinho tão curto, cuja consistência não tolera nem umidade nem torcedura.

 Não se usa assim, mulher. É reduzido a pó, e usado como qualquer outra tinta. Esta é a baba da cochonilha, não é um cabelo, nem pelo. Estás vendo como é quebradiço, agora que está seco? Tu o reduzes a um pó fino, e o passas pela peneira, a fim de que não fique nenhum pedaço mais comprido, que mancharia o fio ou o tecido. Melhor se tinge o fio em meadas. Quando tiveres certeza de que tudo já está em pó, dissolve-o, como se faz com a cochonilha, ou com o açafrão, ou o pó do anil, ou com outras cascas e frutas, e faze uso delas. Prepara a tinta com vinagre forte para a última enxaguada.

 Obrigada, Noemi. Farei como tu ensinas. Já bordei com fios de púrpura, mas os haviam dado, já preparados para usar… 255.7 Eis que Jesus já vem chegando perto. É hora de despedir-nos, minhas filhas. Eu vos abençôo a todos em nome do Senhor. Ide em paz, levando paz e alegria a Lázaro.

Adeus, Maria. Lembra-te de que choraste sobre o meu peito o teu primeiro e feliz pranto. Por isso eu sou tua mãe, porque um filho chora o seu primeiro pranto é sobre o peito de sua mãe. Eu sou tua mãe e o serei sempre. Aquilo que te é difícil dizer até à mais doce das mães, à mais amorosa das nutrizes, vem dizê-lo a mim. Eu te compreenderei sempre. Aquilo que não ousarias dizer ao meu Jesus, por tratar-se de alguma coisa muito humana e que Ele em ti não quer, vem dizê-lo a mim. Eu me compadecerei de ti sempre. E, se depois quiseres contar-me também os teus triunfos, — mas estes eu prefiro que os contes a Ele, como flores perfumadas, porque Ele é o teu Salvador, e não eu — eu me alegrarei contigo.

Adeus, Marta. Agora tu te vais feliz e, nessa felicidade sobrenatural persistirás. Portanto, não tens outra necessidade, a não ser a de progredir na justiça, em meio da paz, que nada mais perturbará em ti. Faze assim por amor de Jesus que te amou tanto, a ponto de amar a esta a quem dedicas tanto amor.

Adeus, Noemi. Vai com o tesouro que reencontraste. Como com o leite com que lhe matavas a fome, mata agora a tua fome com as palavras que esta e Marta te dirão e procura ver no meu Filho muito mais do que o exorcista que livra do mal os corações.

Adeus, Síntique, flor da Grécia, que soubeste perceber por ti mesma que existe alguma coisa mais do que a carne. Floresce agora em Deus e sê tu a primeira das novas flores da Grécia de Cristo.

Eu me sinto muito contente por deixar-vos unidas assim. Eu vos abençôo com amor.

O barulho dos passos já vem de bem perto. Levantam o pesado toldo e veem que Jesus já está a uns dois metros do carro. Descem, debaixo do sol ardente, que toma conta da estrada.

Maria de Magdala ajoelha-se aos pés de Jesus, dizendo:

 Eu te agradeço por tudo. E também te agradeço por me teres feito participar desta peregrinação. Só Tu tens sabedoria. Agora eu parto já despojada dos restos da Maria de outros tempos. Abençoa-me, Senhor, para que eu me fortaleça sempre mais.

 Sim. Eu te abençôo. Alegra-te com os teus irmãos e com os irmãos que, sempre em maior número, vão-se formando em Mim. Adeus, Maria. Adeus, Marta. Dirás a Lázaro que Eu o abençôo. Eu vos confio esta mulher. Mas não vo-la dou. É minha discípula. Eu quero que vós lhe deis um mínimo de capacidade para entender a minha doutrina. Depois Eu irei. Noemi, Eu te abençôo e também a vós duas.

Marta e Maria estão com lágrimas nos olhos. Zelotes se despede delas em particular, entregando-lhes um escrito para o seu servo. Os outros se despedem todos juntos. Em seguida, o carro põe se em movimento.

255.8 E agora, vamos procurar alguma sombra. Deus as acompanhe… É tanto assim que te entristeces, Maria, porque elas se foram embora? –pergunta a Maria de Alfeu, que está chorando calada.

 Sim. Elas eram muito boas.

 Nós as tornaremos a encontrar em breve. E já aumentadas em número. Tu terás muitas irmãs… ou filhas, se assim te agrada mais. Tudo é amor, tanto o materno, como o fraterno –conforta-a Jesus.

 Contanto que com isso não se criem aborrecimentos… –murmura Iscariotes.

 Aborrecimentos por se amarem?

 Não. Aborrecimentos por terem que lidar com pessoas de outra raça e de outros costumes.

 Queres dizer : Síntique?

 Sim, Mestre. Afinal ela era um objeto do romano, e apropriar-se daquele objeto foi um mal. Ele vai inquietar-se contra nós, e atrairemos sobre nós Pôncio Pilatos com os seus rigores.

 Mas, quanto achas que Pilatos vá importar-se, se um dependente dele perder uma escrava? Ele deve conhecê-lo pelo que vale! E, se ele é um pouco honesto, como se diz que é, pelo menos com sua família, então terá que dizer que aquela mulher fez bem em fugir. E, se ele for um desonesto, aí dirá: “Assim está bem para ti. Talvez quem vai encontrá-la sou eu.” Os desonestos são insensíveis às dores dos outros. Além disso, oh! Coitado do Pôncio! Com todos os aborrecimentos que lhe damos, ele tem muitas coisas de que tratar, em vez de ficar ouvindo os queixumes de alguém, cuja escrava fugiu –diz Pedro.

E muitos lhe dão razão, rindo-se das raivas do luxurioso romano.

255.9Mas Jesus leva o assunto para um nível mais alto:

 Judas, conheces o Deuteronômio?

 Certamente, Mestre. E não hesito em dizê-lo: conheço-o como poucos.

 Que pensas dele?

 Que é o porta-voz de Deus.

 Porta-voz de Deus. Portanto, repetidor de palavra de Deus?

 Isto mesmo.

 Julgaste bem. Mas então, por que pensas em não fazer o que ele ordena?

 Eu nunca disse isso. Pelo contrário! Eu até penso que nós o desprezamos muito, para seguir a nova Lei.

 A Nova Lei é fruto da Antiga, ou seja, é a perfeição atingida pela árvore da Fé. Mas ninguém entre nós o despreza, pelo que me consta, porque sou Eu o primeiro a respeitá-lo e a impedir que outros o desprezem.

Jesus é muito incisivo, ao proferir estas palavras. E continua:

 O Deuteronômio é intocável. Mesmo depois que meu Reino triunfar e, com o meu Reino, a Lei Nova com os seus novos códigos e parágrafos, ele será sempre aplicado aos novos ditames, assim como as pedras esquadrejadas de antigas construções, que são usadas para as novas, porque são pedras perfeitas, com que se fazem robustas muralhas. Mas, por enquanto, ainda não existe o meu Reino e Eu, como um fiel israelita, não ofendo, nem desprezo o livro de Moisés. Ele é a base do meu modo de agir e do meu ensinamento. Sobre a base do Homem e do Mestre, o Filho do Pai põe a celeste construção de sua Natureza e Sabedoria. No Deuteronômio está dito1: “Não entregarás ao patrão o escravo, que foi refugiar-se junto a ti. Ele morará contigo no lugar que lhe parecer bom, ficará sossegado em uma das tuas cidades, e tu não o entristecerás.” Isto no caso em que alguém tenha sido obrigado a fugir de uma escravidão desumana. No meu caso, isto é, no caso de Síntique, há uma fuga, não para uma liberdade limitada, mas a liberdade ilimitada do Filho de Deus. E queres que Eu, para esta cotovia, que fugiu do laço do caçador, ainda coloque de novo um fio à frente dela e a faça voltar à sua prisão, para assim tirar-lhe até a última esperança de liberdade? Não. Jamais. Eu bendigo a Deus porque, assim como a ida a Endor trouxe este filho para o Pai, assim também a ida a Cesareia trouxe esta filha até Mim, para que Eu a leve ao Pai. Em Sicaminon Eu vos falei do poder da Fé. Hoje Eu vos falarei da luz da Esperança. Mas agora, neste frondoso pomar, paremos para comer e descansar. Porque o sol está quente, como se o inferno estivesse aberto.

1 está dito em Deuteronômio 23,16-17.


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