108. 108. Discurso aos vindimadores e cura de um meninoparalítico pela intercessão da mãe de Jesus.
14 de fevereiro de 1945.
108.1 Todas os campos da Galileia estão no alegre trabalho da vindima. Os homens, trepados em altas escadas, colhem uvas nas parreiras e nas videiras. As mulheres, com cestos na cabeça, levam cachos cor de ouro e de rubi, até o lugar onde os pisadores os esperam. Cantos, risadas, brincadeiras se ouvem de uma colina a outra, de uma horta a outra, junto com o cheiro do mosto e um forte zumbido de abelhas, que parecem ébrias, de tão velozes que vão, dançantes, dos sarmentos que sobraram ainda cheios de cachos, aos cestos e às tinas, onde caiu algum bago que elas gostam de procurar, na caldaça turva dos mostos. Os meninos, tingidos pelo suco da uva, uns faunos, fazem uma gritaria tal como andorinhas correndo sobre a erva, pátios e estradas.
Jesus dirigiu-se para uma cidade a pouca distância do lago. É uma cidade de planície; parece um plano amplo, entre duas distantes cadeias de montanhas, que vão em direção do norte. A planície é bem irrigada, porque um rio (acho que é o Jordão) a atravessa. Jesus passa pela estrada mestra e é saudado por muitos com o grito: “Rabi! Rabi!” Ele passa e abençoa.
Antes da cidade há uma rica propriedade, e no começo dela, está um casal de idosos à espera do Mestre.
– Entra. Quando acabar o trabalho, todos virão aqui para te ouvir. Quanta alegria Tu nos trazes! Ela jorra de Ti como a linfa nos sarmentos e torna-se um vinho de alegria para os corações. 108.2Aquela é a tua Mãe? –pergunta o dono da casa.
– É Ela. Eu a trouxe até vós, porque agora Ela está na fileira dos meus discípulos. O último na ordem de acolhida, o primeiro na ordem de fidelidade. É o Apóstolo. Ela me anunciou, ainda antes que Eu tivesse nascido… Mãe, vem. Um dia em que Eu estava evangelizando — eram ainda os primeiros tempos — esta mãe não me deixou ficar com saudade de ti, pelo modo tão carinhoso com que tratou o teu Filho cansado.
– O Senhor te dê sua graça, ó mulher piedosa.
– Tenho graça, porque tenho o Messias e a ti. Vem. A casa está fresca, e nela há uma mansa claridade. Poderás repousar. Deves estar cansada.
– O que me causa canseira, outra coisa não é, senão o ódio do mundo. Mas segui-lo e ouvi-lo, tem sido o meu desejo, desde a minha mais longínqua infância.
– Sabias tu que eras a futura Mãe do Messias?
– Oh! Não. Mas eu esperava viver tanto até poder ouvi-lo e servi-lo, última entre os seus evangelizados, mas fiel! Oh! Fiel!
– Tu o ouves e o serves. E és a primeira. Eu também sou mãe, e tenho filhos sábios. Quando os ouço falar, meu coração pula de orgulho. E tu, que sentes, ao ouvires o teu Filho?
– Um êxtase suave. Precipito-me no meu nada, e a Bondade, que é Ele mesmo, igualmente me eleva Consigo. Vejo então, com um simples olhar, a Verdade eterna, que se faz carne e sangue do meu espírito.
– Bendito seja o teu coração! É puro e por isso, assim compreende o Verbo. Nós somos mais duros, porque cheios de culpas…
– Queria dar a todos o meu coração para isso, para que o amor fôsse para vós uma luz, que vos ajudasse a compreender. Porque, podes crer, é o amor — e eu sou a Mãe e por isso em mim o amor é natural — aquele que torna fácil qualquer empreendimento.
As duas falam ainda entre si. A velha junto a jovem sempre tão jovem, Mãe do meu Senhor, enquanto Jesus fala com o dono da casa perto das tinas, nas quais fileiras e fileiras de vindimadores despejam cachos e mais cachos. Os apóstolos, sentados à sombra de uma pérgula de jasmineiros, com bom apetite, comem uva e pão.
108.3 O dia já vai caminhando para o fim, e o trabalho cessa lentamente. Os colonos já estão todos no amplo pátio rústico, onde há um forte cheiro de uvas pisadas. Também outros colonos vêm das casas vizinhas.
Jesus sobe por uma pequena escada, que leva à ala de um pórtico extenso sob o qual estão armazenados sacos de provisão e ferramentas agrícolas. Como sorri Jesus, ao subir aqueles poucos degraus! Vejo-o sorrir, entre o ondular de seus cabelos macios, movidos pela brisa noturna. E queria saber por que sorri tão luminosamente. A alegria desse sorriso entra, como aquele vinho de que falava o dono da casa, em meu coração, que hoje está muito triste, e o consola.
(Não é a primeira coisa que me consola hoje. Já desde esta manhã — e o senhor me tinha visto chorar com uma dor espiritual sempre viva — Ele, na comunhão me apareceu como sempre, quando o senhor diz: “Eis o Cordeiro de Deus.” Mas não se limitou a olhá-lo com amor de Pai, e a sorrir para mim. Ele tinha deixado o seu lado, à esquerda da cama, e tinha passado para a direita com aquele seu passo longo e levemente ondulado, para a frente, e tinha vindo para a direita, acariciando-me sensivelmente, com suas longas mãos e dizendo-me: “Não chores!”… Mas agora o seu sorriso me inunda de paz).
Ele se vira. Senta-se no último degrau, no topo da escada, que se transforma num púlpito para os mais felizes ouvintes, ou seja, para os donos da casa, para os apóstolos e para Maria, a qual, humilde como sempre, não tinha nem procurado subir para aquele lugar de honra, mas para lá foi conduzida pela dona da casa. Está exatamente sentada um degrau abaixo de Jesus, de modo que a sua cabeça loira está à altura dos joelhos do Filho e, estando sentada de lado, Ela pode olhá-lo no rosto, com aquele seu olhar de pomba enamorada. O perfil suave de Maria se destaca com nitidez, como se fôsse em mármore, projetando-se contra a parede escura do rústico pórtico.
Mais abaixo estão os apóstolos e os donos da casa. No pátio estão todos os camponeses, uns de pé, outros sentados no chão, outros que subiram nas tinas ou nos pés de figueira, que estão nos quatro cantos do pátio.
108.4 Jesus fala lentamente, afundando a mão em um grande saco de trigo, que foi posto atrás das costas de Maria; parece brincar com aqueles grãos, ou acariciá-los com prazer, enquanto com a direita, gesticula calmamente.
– Disseram-me: “Vem, ó Jesus, abençoar o trabalho do homem.” E Eu vim. Em nome de Deus o abençoo. Porque todo trabalho, se honesto, merece a bênção do Senhor eterno. Mas o disse: A primeira força para obter a bênção de Deus é ser honestos em todas as ações.
Agora vamos olhar juntos como e quando é que as ações são honestas. Assim são quando são realizadas tendo presente no espírito o eterno Deus. Poderá alguém pecar, se ele disser: “Deus me vê. Deus tem os seus olhos sobre mim, e não perde nem um particular das minhas ações”? Não. Não pode. Porque o pensamento de Deus é um pensamento salutar, e afasta o homem do pecado, mais do que qualquer outra ameaça humana.
Mas só se deve temer o eterno Deus? Não. Escutai. Foi-vos dito1: “Teme o Senhor teu Deus.” E os Patriarcas tremiam e os Profetas tremiam, quando a face de Deus ou um anjo do Senhor aparecia para seus justos espíritos. E, na verdade, no tempo da ira divina, a aparição do sobrenatural deve fazer tremer o coração. Quem, ainda que seja puro como uma criança, não tremerá diante do Poderoso, diante de cujo fulgor estão os anjos em adoração, prostrados no aleluia paradisíaco? O insustentável fulgor de um anjo, Deus o tempera com o véu piedoso, para conceder ao olho humano olhá-lo, sem ficar com a pupila e a mente queimadas. Que será então ter a visão de Deus?
Mas isto é enquanto dura a ira. Quando tudo isso dá lugar à paz, e o Deus de Israel diz: “Eu prometi. E mantenho o meu pacto. Eis Aquele que mando, e sou Eu, ainda não sendo Eu, mas a minha Palavra, que se faz Carne para ser Redenção”, então ao temor deve suceder o amor, e só amor ao eterno Deus há de ser dado, em alegria, visto que o tempo da paz entre Deus e o homem chegou para a terra. Quando os primeiros ventos da primavera espalham o pólen da flor da vinha, o agricultor ainda deve temer que muitas insídias possam ser armadas contra os frutos, pelas intempéries e pelos insetos. Mas quando chega a hora alegre do vindimar, eis que então cessam todos os temores e o coração jubila na certeza da colheita.
Prenunciado2 pelas palavras dos profetas, o Rebento da estirpe de Jessé chegou. Agora Ele está entre vós. Cacho abundante, que vos traz o suco da Sabedoria eterna e não pede senão que seja cultivado e espremido, para se tornar Vinho aos homens. Vinho de alegria sem fim para aqueles que Dele se nutrirem. Mas, ai daqueles que, tendo tido este Vinho ao seu alcance, o tiverem rejeitado, e três vezes ai àqueles que depois de se terem alimentado com ele, o tiverem rejeitado ou misturado, em suas entranhas, com os alimentos de Mamon.
108.5 E eis que agora Eu volto ao primeiro conceito. A primeira força para voltar a bênção de Deus, seja nas obras do espírito, como nas obras do homem, é a honestidade das intenções.
É honesto aquele que diz: “Eu sigo a Lei, não para ter por isso o elogio dos homens, mas por fidelidade a Deus.” É honesto aquele que diz: “Eu sigo a Cristo não pelos milagres que Ele faz, mas pelos conselhos de vida eterna que me dá.” É honesto aquele que diz: “Eu trabalho, não pela avidez de lucro, mas porque o trabalho também foi colocado por Deus como um meio de santificação, por seu valor formativo, mortificativo, preservativo e elevatório. Eu trabalho para poder ajudar o meu próximo. Eu trabalho para poder fazer resplandecer os prodígios de Deus que, de um grãozinho minúsculo, faz um feixe de espigas, de uma semente de uva faz uma grande vinha, de um caroço faz uma planta, e de mim, homem, um pobre nada que fui tirado do nada por sua vontade, faz um seu ajudante, na obra contínua de perpetuar as searas, videiras e pomares, bem como de povoar a terra de homens.”
Há pessoas que trabalham como animais de carga. Mas que não têm outra religião, senão esta: aumentar as suas riquezas. Morre ao lado delas, de trabalho e de cansaço, o mais infeliz dos seus companheiros? Os filhos desse coitado estão morrendo de fome? E que importa para o ávido acumulador de riquezas? Há outros ainda mais duros, que não trabalham mas fazem que outros trabalhem, e acumulam riquezas com o suor alheio. Outros ainda que esbanjam aquilo que com avareza extorquiram da canseira alheia. Em verdade, o trabalho desses não é honesto. E não digais: “Ainda assim Deus os protege.” Não. Não os protege. Hoje terão uma hora de triunfo. Mas logo serão golpeados por um rigor divino, que no tempo e na eternidade, fará que eles se lembrem do preceito: “Eu sou o Senhor teu Deus. Ama-me acima de todas as coisas e ama ao teu próximo como a ti mesmo.” Oh! se aquelas palavras ressoarem em eterno, serão mais tremendas do que os raios do Sinai!
108.6 Muitas, demasiadas são as palavras que vos são ditas. Eu vos digo só estas: “Amai a Deus. Amai ao próximo.” Elas são como o trabalho que torna fecundo o sarmento, feito ao redor da videira, na primavera. O amor a Deus e ao próximo é como um arado3, que limpa o solo das ervas nocivas do egoísmo e das más paixões; é como uma enxada que escava um anel ao redor da cepa, para que ela fique isolada do contágio das ervas parasitas e nutridas pelas frescas águas da irrigação; é como a podadeira, que tira o que é supérfluo para aumentar o vigor e dirigi-lo aos pontos em que dará fruto; é como o laço que aperta o sarmento, e o segura unido à forte estaca, é enfim o sol que amadurece os frutos da boa vontade e os transforma em frutos de vida eterna.
Agora vós jubilais, porque o ano foi bom, ricas foram as colheitas e excelente a vindima. Mas em verdade vos digo que este vosso júbilo é menor que um minúsculo grão de areia, em relação ao júbilo sem medida que será o vosso, quando o Pai eterno vos disser: “Vinde, meus fecundos sarmentos, enxertados na verdadeira Videira. Vós vos prestastes a todas as operações, até às penosas, para darem muito fruto, e agora estais vindo a Mim carregados com os sucos doces do amor para Comigo e para com o próximo. Florescei nos meus jardins por toda a eternidade.”
Aspirai a essa eterna alegria. Com fidelidade persegui esse bem, com reconhecimento bendizei ao Eterno que vos ajuda a alcançá-lo. Bendizei-o pela graça da sua Palavra, bendizei-o pela graça da boa colheita. Amai com reconhecimento o Senhor e não temais. Deus dá cem por um a quem o ama.
Jesus teria acabado. Mas todos gritam:
– Abençoa, abençoa! A tua bênção sobre nós!
Jesus então põe-se de pé, abre os braços e brada:
– O Senhor vos abençoe e vos guarde, mostre-vos a sua face e tenha piedade de vós. O Senhor volte para vós o seu rosto e vos dê a sua paz. O nome do Senhor esteja em vossos corações, sobre as vossas casas e sobre os vossos campos.
108.7 A multidão, a pequena multidão reunida, dá um grito de alegria e de aclamações ao Messias. Mas depois se cala e se abre para deixar passar uma mãe, que vem trazendo nos braços um menino de cerca de dez anos, paralítico. Ela o estende aos pés da escada, como se o oferecesse a Jesus.
– É uma serva minha. O menino dela caiu, no ano passado, do alto do terraço, e teve os rins esmagados. Por toda a vida terá que ficar deitado sobre as costas –explica o patrão.
– Esperou em Ti esses meses todos… –acrescenta a patroa.
– Diz-lhe que venha a Mim.
Mas a pobre mãe está tão emocionada, que parece estar ela com paralisia. Treme inteira e tropeça em sua longa veste, ao subir os altos degraus, com o filho nos braços.
Maria se põe de pé, piedosa, e desce ao seu encontro:
– Vem. Não tenhas medo. Meu Filho te ama. Dá-me o teu filho. Subirás melhor. Vem, filha. Eu também sou mãe –e lhe pega o menino, ao qual sorri docemente, subindo em seguida com a sua piedosa carga, que lhe pesa nos braços.
A mãe do menino vai atrás dela chorando.
Maria está agora diante de Jesus. Ajoelha-se e diz:
– Filho, atenda a esta mãe!
Nada mais.
Jesus nem pergunta, como de costume: “Que queres que Eu te faça? Crês que Eu o possa fazer?” Não. Hoje Ele sorri e diz:
– Mulher, vem aqui.
A mulher vai ficar justamente ao lado de Maria. Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça e diz somente: “Sê alegre!” e ainda nem acabou de proferir estas palavras, que o menino, até então estendido pesadamente nos braços de Maria e com as pernas cambaleantes assenta-se num instante e, com um grito de alegria, diz: “Mamãe!”, e corre, indo a refugiar-se no seio materno.
Os gritos de hosana parecem querer penetrar o céu, avermelhado com o pôr-do-sol.
A mulher com o filho apertado contra o coração, não sabe o que dizer, e pergunta:
– Que devo fazer, para dizer-te que estou feliz?
E Jesus, ainda acariciando-a:
– Ser boa, amar a Deus e ao teu próximo, e nesse amor criar o teu filho.
Mas a mulher ainda não está contente. Gostaria… gostaria… e enfim pede:
– Um beijo teu e de tua Mãe para o meu menino.
Jesus se inclina e o beija, e Maria também. E enquanto a mulher vai embora feliz, em meio a um acompanhamento de amigos aclamantes, Jesus explica à patroa:
– Não foi preciso nada mais. Ele estava nos braços de minha Mãe. Mesmo sem dizer nada o teria curado, porque Ela se sente feliz quando pode consolar uma aflição e Eu a quero fazer feliz.
E entre Jesus e Maria, perpassa um daqueles olhares, que só quem os viu os pode compreender, de tão profundos que são de significado.
1 Foi-vos dito, por exemplo em: Levítico 19,14.32; 25,17.36; Deuteronômio 6,13; 10,12.20.
2 Prenunciado, por exemplo em: Isaías 11,1-12.
3 arado: amassador de torrões de terra - N.T.