548. 548. A ressurreição de Lázaro.


26 de dezembro de 1946.

548.1Jesus vai indo de Ensemes para Betânia. Devem ter feito uma marcha bem cansativa, passando pelos caminhos íngremes e escorregadios dos montes de Adamim. Os apóstolos, já quase sem fôlego, esforçam-se para acompanhar Jesus, que vai com passos rápidos, como se o amor o estivesse transportando sobre suas asas de fogo. Jesus está com um sorriso radiante, enquanto vai indo à frente de todos, de cabeça alta, sob os raios mornos do sol do meio dia.

Antes de chegarem às primeiras casas de Betânia, Jesus é visto por um rapazinho descalço, que está indo para a fonte perto do povoado com uma vasilha de cobre vazia. Ele dá um grito. Descansa a vasilha no chão e sai correndo com toda a velocidade de que são capazes as suas perninhas, e entra para o interior do povoado.

– Certamente vai avisar que Tu estás chegando –observa Judas Tadeu, depois de ter sorrido como os outros, por causa da resolução… corajosa do rapazinho, que abandonou até sua vasilha, exposta para o primeiro que passar.

548.2A pequena cidade, olhada assim de perto da fonte, que fica em um ponto pouco mais alto do que ela, parece estar tranquila e até deserta. Somente a fumaça cinzenta, que se levanta das chaminés, nos diz que lá dentro das casas estão as mulheres, ocupadas em preparar a refeição do meio-dia; e uma ou outra voz grossa de homem se deixa ouvir por entre as oliveiras e os vastos e silenciosos pomares, nos dá a entender que os homens já estão trabalhando.

Mesmo assim, Jesus prefere tomar um pequeno caminho que passa por de trás do povoado, a fim de poder chegar à casa de Lázaro sem chamar a atenção dos cidadãos.

Já estão quase no meio do caminho escolhido por Jesus, quando todos ouvem por detrás deles a voz do rapazinho de antes, que passa correndo e os deixa para trás, e depois para no meio do caminho e, pensativo, fica olhando para Jesus…

– A paz esteja contigo, pequeno Marcos. Ficaste com medo de Mim, por isso fugiste? –pergunta-lhe Jesus, acariciando-o.

– Eu não, Senhor. Eu não tive medo, mas como há muitos dias que Marta e Maria têm mandado seus servos para as estradas que vêm para cá a fim de verem se estás chegando, agora que eu te vi, me pus a correr a fim de ir dizer que já estavas vindo…

– Fizeste bem. As irmãs prepararão seus corações para me verem.

– Não, Senhor. As irmãs não se prepararão nada, pois de nada estão sabendo. Não quiseram que eu o dissesse. Eles me detiveram quando eu disse, ao entrar no jardim: “O rabi está aí”, e me tocaram para fora, dizendo: “Ou és um mentiroso ou um estulto. Ele já não vem mais, porque com certeza não pode mais fazer o milagre.” E como eu dizia que eras Tu mesmo, eles me deram duas bofetadas que iguais a elas eu nunca havia recebido. Olha como estou com as bochechas vermelhas. Ainda estão ardendo! E me expulsaram de lá, dizendo: “Isto é para purificar-te por teres ficado olhando para um demônio.” E eu ficava te olhando para ver se te tinhas transformado em demônio. Mas não vejo nada disso… Tu és sempre o meu Jesus, belo como os anjos de que minha mãe fala.

Jesus se inclina para beijá-lo sobre as faces esbofeteadas, e lhe diz:

– Assim vai-te passar o comichão. Eu sinto muito que por causa de mim tu tenhas sofrido…

– Eu não, Senhor, porque aquelas duas bofetadas fizeram que eu ganhasse dois beijos de Ti –e se agarra nas pernas de Jesus, esperando outros.

– Dize-me uma coisa, Marcos. Quem foi que te expulsou. Terão sido os de Lázaro? –pergunta Tadeu.

– Não. Foram os judeus. Eles vão para lá todos os dias, guardar o luto. E são muitos. Ficam na casa e no jardim. Eles vêm cedo e voltam de tarde. Parecem ser os patrões. Maltratam a todos. Não estás vendo como não há nenhum deles pelas estradas? Nos primeiros dias ainda se viam… Depois… Agora, só nós, os meninos, é que estamos por aí… Oh! A minha vasilha. A mamãe está esperando a água… Agora ela também vai me bater!

Todos sorriem, vendo a desolação do rapazinho, diante da perspectiva de outras bofetadas, e Jesus lhe diz:

– Vai, então, depressa.

– É que… eu queria entrar contigo e ver-te fazer o milagre…

E termina, dizendo:

– E ver os rostos deles… para vingar-me das bofetadas.

– Isto, não. Não deves desejar vingar-te. Ser bom e perdoar é o que deves… Mas a mamãe está esperando a água…

– Eu vou, Mestre. Eu sei onde mora Marcos. Explicarei à mulher e depois estarei contigo… –diz Tiago de Zebedeu, que sai correndo.

Põem-se a caminho lentamente e Jesus segura pela mão o rapazinho, que vai muito alegre…

548.3Chegam à cancela do jardim. E a rodeiam, pois muitos animais de sela estão amarrados nela, e ela está sendo vigiada pelos servos de cada um dos donos. O murmúrio que se levanta do meio deles chama a atenção de qualquer judeu, que se vira para a cancela aberta, justamente no momento em que Jesus põe o pé no limiar do jardim.

– O Mestre! –dizem os primeiros que o veem, e esta palavra escapa como um sopro de vento de um grupo para outro, e vai-se propagando como uma onda que veio lá de longe para se esparramar na margem, e indo até às paredes das casas, e nelas penetrando, certamente levada por muitos dos judeus presentes, ou por algum fariseu, ou rabi, ou escriba, ou saduceu, que estão espalhados por toda parte.

Jesus vai entrando muito devagar, enquanto todos, vindos de todos os lados, se afastam da alameda pela qual Ele vai caminhando. E visto que ninguém o saúda, Ele não saúda a ninguém, como se nem conhecesse a muitos que estão ali juntos, a fim de olharem para Ele com ira e ódio nos olhos, menos alguns poucos que, sendo discípulos ocultos dele, ou, pelo menos, sendo de reto coração, mesmo que não o amem como Messias, o respeitam como a um justo. E esses tais são José, Nicodemos, João, Eleazar, o outro João, o escriba, que foi visto quando se fez a multiplicação dos pães; o outro João também, que matou a fome dos que desceram do monte das Bem-aventuranças; Gamaliel com o seu filho; Josué, Joaquim, Manaém, o escriba Joel de Abias, encontrado na margem do Jordão no episódio da Sabeia; José Barnabé, discípulo do Gamaliel; Cusa, que fica olhando Jesus de longe, um pouco intimidado por vê-lo, depois do erro que fez, ou talvez tomado pelo respeito humano, que o impede de ir pôr-se lá na frente como amigo. O certo é que nem os amigos, ou os que o observam sem ódio, nem os inimigos o saúdam. Também Jesus não os saúda. Ele limitou-se a uma inclinação para todos quando pôs o pé na alameda. Depois Ele foi andando para frente como se fosse um estranho para a grande multidão que está ao seu redor. O rapazinho vai sempre ao seu lado, com suas vestes de camponês e com seus pezinhos descalços de menino pobre, mas com um olhar alegre de quem está em festa, uns olhinhos negros, vivos, bem abertos para verem tudo… e para desconfiarem de todos…

548.4Marta está saindo de casa, no meio de um grupo de judeus visitantes, entre os quais estão Elquias e Sadoque. Ela está fazendo um anteparo com as mãos a fim de ajudar os olhos cansados de tanto chorar, para os quais a luz dificulta a vista, a ver onde está Jesus. Ela o vê. Afasta-se dos que a acompanham e vai correndo para Jesus, que está a poucos passos do tanque, cujas águas estão brilhando e espalhando seus reflexos, assim atingido pelo sol. Ela se joga aos pés de Jesus, depois de uma primeira inclinação, e os beija, enquanto vai dizendo com um grande processo de choro:

– A paz esteja contigo, Mestre.

Também Jesus lhe diz, logo que a vê perto de Si:

– A paz esteja contigo! –e levanta a mão para abençoar, deixando solta a mão do menino, que fica seguro pela mão de Bartolomeu e puxado um pouco para trás.

Marta prossegue:

– Mas paz para tua serva não há mais!

Ela levanta o rosto para Jesus, ficando ainda de joelhos, e com um grito de dor que pode ser ouvido bem naquele silêncio que se fez, ela exclama:

– Lázaro morreu. Se tivesses estado aqui ele não teria morrido. Porque não vieste antes, Mestre?

Ao fazer esta pergunta ela tem o tom de uma voluntária censura. Depois, volta ao tom abatido de quem já não tem mais força para censurar e acha seu único conforto em poder recordar-se dos últimos atos e desejos de um parente ao qual se procurou dar o que ele desejava, e por isso não há remorso em seu coração:

– Chamou-te tanto, Lázaro, o nosso irmão!… Agora vês. Eu estou desolada e Maria chora e não tem paz. E ele não está mais aqui. Tu sabes se nós o amávamos! Esperávamos tudo de Ti!…

Um murmúrio de compaixão pela mulher e de reprovação para Jesus, um assentimento ao pensamento subentendido — “e poderíeis ouvir-nos porque nós merecemos pelo amor que temos por Ti, e Tu, ao invés, nos desiludiste” — brota de grupo a grupo entre acenos de cabeça ou olhares zombeteiros. Somente os poucos ocultos discípulos espalhados entre a multidão presente têm olhares de compaixão por Jesus, que escuta muito pálido e triste, a sofredora que lhe fala. Gamaliel, com os braços junto ao corpo, em sua rica veste de lã finíssima ornada com flocos azuis, um pouco afastado no meio de um grupo de jovens, entre os quais estão seu filho e José Barnabé, olha fixamente para Jesus, sem ódio e sem amor.

Marta, depois de ter enxugado o rosto, continua a falar:

– Mas mesmo agora eu ainda espero, porque sei que qualquer coisa que pedires ao Pai te será concedida.

É uma dolorosa e heroica profissão de fé, dita com uma voz que treme pelo pranto, com a ansiedade que treme no olhar, com a íntima esperança que ainda treme no coração.

– O teu irmão ressurgirá. Levanta-te, Marta.

Marta se levanta, ficando inclinada em veneração diante de Jesus, ao qual ela responde:

– Eu sei, Mestre. Ele ressurgirá no último dia.

– Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá. E quem crê e vive em Mim não morrerá para sempre. Crês em tudo isso?

Jesus, que antes havia falado com voz um tanto baixa somente a Marta, para dizer estas frases nas quais Ele proclama o seu poder de Deus, levanta a voz. E o perfeito timbre dela ecoa como um sino de ouro por todo o vasto jardim. Um frêmito de espanto sacode os presentes. Mas depois alguns zombam dele, sacudindo a cabeça.

Marta, à qual Jesus parece querer transfundir uma esperança cada vez mais forte, segurando-lhe a mão apoiada sobre o ombro, levanta o rosto que conservava inclinado. Ela o levanta para Jesus e, fixando os seus olhos cheios de dor nas luminosas pupilas de Cristo e, apertando as mãos sobre o peito com uma ânsia diferente, responde:

– Sim, Senhor. Eu creio nisto. E creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo que veio ao mundo. E que podes tudo o que queres. Eu creio. 548.5Agora eu vou avisar Maria, e sai apressada, desaparecendo ao entrar na casa.

Jesus fica onde está. Ou melhor, Ele dá alguns passos para diante e se aproxima do canteiro que circunda o tanque, canteiro todo abrilhantado daquele lado pela água vaporizada por um esguicho e que um leve vento faz inclinar-se, como se fosse um penachinho de prata achado daquele lado; e Jesus parece perder-se na contemplação dos pulos dos peixes sob o véu da água limpa, os movimentos deles que põem vírgulas de prata e reflexos de ouro no cristal das águas atingidas pelo sol.

Os judeus o observam. Sem querer, eles se separam em grupos bem distintos. De um lado, à frente de Jesus, todos os que são seus inimigos, divididos entre si, como de costume, pelo espírito sectário, mas que agora estão todos de acordo para hostilizar Jesus. Ao seu lado, atrás dos apóstolos, aos quais se reuniram Tiago de Zebedeu, José, Nicodemos e outros de espírito mais benévolo. Mais para lá está Gamaliel, sempre em seu lugar e com aquela pose, sozinho, porque o seu filho e seus discípulos se separaram dele e se dividiram entre os dois grupos principais, para ficarem mais perto de Jesus.

548.6Com o seu grito habitual: “Raboni!”, Maria sai da casa, correndo para Jesus, com os braços estendidos e jogando-se aos pés dele, que ela beija soluçando alto. Diversos judeus, que estavam na casa com ela, e que a acompanharam, unem os seus prantos, que são de uma duvidosa sinceridade, aos prantos dela. Até Maximino, Marcela, Sara, Noemi acompanharam Maria, e também todos os servos, e os lamentos são fortes, em voz alta. Eu creio que na casa não ficou ninguém. Marta, vendo Maria chorar assim, chora alto também ela.

– A paz esteja contigo, Maria. Levanta-te! Olha para mim. Por que esse choro parecido com o de quem não tem mais esperança?

Jesus se inclina para dizer em voz baixa estas palavras, tendo os seus olhos nos olhos de Maria que, estando de joelhos, descansando sobre os calcanhares, estende a Ele suas mãos em um gesto de imolação, e nem pode falar por causa de seus soluços:

– Eu não te disse que esperasses até além do que se pode crer, para veres a glória de Deus? Será que o teu Mestre mudou, para teres razão de angustiar-te assim?

Mas Maria não presta atenção nas palavras, que são para já prepará-la para a alegria forte demais, depois de tanta angústia, e grita forte, mas finalmente podendo dominar sua voz:

– Oh! Por que não vieste antes? Por que foste para longe de nós? Tu sabias que Lázaro estava doente. Se Tu tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido. Por que é que não vieste? Eu devia mostrar-lhe ainda que o amava. Ele devia viver. Eu devia mostrar-lhe que estava perseverando no bem. Eu entristeci tanto o meu irmão! E agora. Agora que eu podia fazê-lo feliz ele me foi tirado. Tu o podias ter deixado para mim. Podia ter dado à pobre Maria a alegria de consolá-lo, depois de lhe ter dado tantos desgostos. Oh! Jesus! Jesus! Mestre meu! Salvador meu! Esperança minha!

E se prostra de novo com a fronte sobre os pés de Jesus, que são de novo lavados pelo pranto de Maria, e diz gemendo:

– Para que fizeste isso, Senhor?! Também para aqueles que te odeiam e que se alegram com tudo o que acontece… Por que fizeste isso, Jesus?

Mas o tom em que Maria fala não é de censura, como foi o de Marta. Ele revela apenas aquela angústia de quem, além de sua dor de irmã, tem também a de discípula, que sente como está diminuindo em muitos o conceito sobre o seu Mestre.

Jesus, muito inclinado para poder ouvir aquelas palavras, murmuradas com a face no chão, se levanta e diz em voz alta:

– Maria, não chores! Também o teu Mestre está sofrendo pela morte do amigo fiel… por ter devido deixá-lo morrer

Oh! Que sorriso de escárnio e que olhar de lívido júbilo está naqueles rostos dos inimigos de Cristo! Eles o consideram um vencido e se alegram, enquanto que os amigos dele vão-se tornando cada vez mais tristes.

Jesus fala ainda com voz mais alta:

– Mas Eu te digo: Não chores. Levanta-te! Olha para Mim! Crês que Eu, que te amei muito, tenha feito isso sem motivo? Podes crer que Eu tenha dado esta dor inutilmente? Vem. 548.7Vamos a Lázaro. Onde foi que o colocastes?

Jesus, mais do que Maria e Marta, que não falam, tomadas como estão por um choro mais forte, faz a pergunta a todos os outros, especialmente àqueles que, tendo saído da casa com Maria, parecem estar mais perturbados. Talvez sejam parentes mais velhos, não sei.

E eles responderam a Jesus, que está visivelmente aflito:

– Vem ver! –e se encaminham para o lugar do sepulcro que está lá no fim do pomar, lá onde o chão tem ondulações e onde veios de uma rocha calcária afloram do chão.

Marta, ao lado de Jesus, que ajudou Maria a levantar-se e a guia, porque ela ficou meio cega pelo muito choro, mostra com a mão a Jesus onde é que está Lázaro. E, quando chegam perto do lugar, diz ainda:

– É ali, Mestre, que o teu amigo está sepultado –e mostra a pedra colocada obliquamente sobre a boca do sepulcro.

Jesus, para ir até lá acompanhado por todos, teve que passar pela frente de Gamaliel. Mas nem Ele nem Gamaliel se saudaram. Gamaliel depois foi-se unir aos outros, indo parar, como todos os mais rígidos fariseus, a alguns metros do sepulcro, enquanto Jesus vai na frente, bem perto dele, em companhia das irmãs, de Maximino e daqueles que talvez sejam os parentes. Jesus olha para a pesada pedra que serve de porta ao sepulcro e de obstáculo pesado entre Ele e seu amigo falecido, e chora. O pranto das irmãs aumenta, assim como o dos íntimos e familiares.

548.8– Levantai essa pedra –diz Jesus de repente, depois de ter enxugado suas lágrimas.

Todos fazem um movimento de espanto, e um murmúrio se espalha através da multidão, que aumentou agora, pois alguns de Betânia, que haviam entrado no jardim, se enfileiraram com os hóspedes. Eu estou vendo uns fariseus, que tocam em suas frontes e balançam a cabeça, como para dizerem: “Ele está doido!”

Ninguém executa a ordem. Até os mais fiéis titubeiam e se rejeitam a fazê-lo. Jesus repete sua ordem, em voz mais alta, fazendo que o povo fique ainda mais apavorado, pois todos estão tomados por sentimentos opostos, e já estão fazendo um movimento como quem quer fugir dali; e logo depois outro movimento de quem quer aproximar-se mais para poder ver, enfrentando o fedor do sepulcro que Jesus quer que seja aberto.

– Mestre, não é possível –diz Marta, fazendo esforço para deter o pranto e poder falar–. Há já quatro dias que ele está aí embaixo. E Tu sabes de que doença ele morreu! Somente o nosso amor é que podia cuidar dele… Com toda a certeza já estará cheirando mal e fortemente, mesmo com os unguentos… Que queres ver? A sua podridão?… Não se pode… Também pela impureza da corrupção e…

– Eu já não te disse que, se creres, verás a glória de Deus? Levantai essa pedra. Eu quero!

É um grito do querer divino… Um “oh!” imperceptível sai de todas as bocas. Os rostos empalidecem. Cada um treme como se tivesse passado, sobre todos, um vento gelado como a morte.

Marta faz um sinal a Maximino e este ordena aos servos que apanhem as ferramentas próprias para remover a pesada pedra.

Os servos saem dali e vão apressados, para voltarem com picaretas e alavancas fortes. Põem-se a trabalhar, enfiando as pontas das picaretas, que brilham por entre as pedras do sepulcro, e em seguida vão enfiando as alavancas no lugar em que haviam posto as picaretas. E, por fim, já vão com cuidado levantando a pedra, fazendo-a deslizar para um lado, e a arrastam depois cuidadosamente, encostando-a ao paredão rochoso. Um mau cheiro doentio sai do fundo daquela cova, fazendo com que todos recuem.

Marta pergunta em voz baixa:

– Mestre queres descer lá dentro? Se queres, vamos precisar de umas tochas…

Mas ela fica lívida, só ao pensar em fazer isso.

548.9Jesus não lhe responde. Ele eleva os olhos para o Céu, abre os braços em cruz e reza com uma voz muito forte, destacando bem as sílabas das palavras:

– Pai! Eu te agradeço por me teres ouvido. Eu sabia que tu me ouves sempre. Mas Eu o disse por estes que estão aqui presentes, pelo povo que me rodeia, para que creiam em Ti, em Mim, e que tu Me mandaste.

Fica ainda assim por alguns momentos e parece ter sido arrebatado em êxtase, ter-se transfigurado, enquanto, sem produzir nenhum som, diz outras palavras secretas de oração e adoração. Não sei. O que eu sei é que Ele está tão transumanado, que não se pode nem olhar para Ele sem que se sinta o coração tremer dentro do peito. Parece que Ele se torna, em seu corpo, uma luz; parece espiritualizar-se, cresçer em estatura e até elevar-se do chão. Conserva, porém, as cores dos cabelos, dos olhos, da pele, das vestes, não como durante a sua Transfiguração no monte Tabor, durante a qual tudo se tornou luz e candor ofuscante; parece emanar luz e tudo Nele se transforma em luz. A luz parece fazer um halo ao redor dele, especialmente ao redor do seu rosto, levantado para o Céu, certamente arrebatado, extasiado em contemplação do Pai.

Ele fica assim por algum tempo, depois volta a Si, o Homem, mas de uma poderosa majestade. Ele vai para frente até à beira do sepulcro. Muda a posição dos braços — que até agora estavam abertos em cruz, com as palmas viradas para o Céu — para a frente, com as palmas viradas para o chão, e por isso as mãos já estão dentro da cova do sepulcro e se embranquecem dentro da escuridão que enche a cova. Ele solta um fogo azul de seus olhos, cujo brilho miraculoso é insuportável dentro daquela escuridão muda. E, com uma voz poderosa, com um grito mais forte do que quando mandou ao vento que cessasse, com uma voz que em nenhum outro milagre eu ouvi, Ele grita:

– Lázaro! Vem para fora!

A voz repercute, produzindo um eco naquela cavidade sepulcral e se expande, saindo dela e indo por todo o jardim. Repercute, tendo ido por sobre os desníveis das ondulações de Betânia e eu creio que chegou até às primeiras ondulações das colinas que estão para lá dos campos e de lá volte repetida e tênue, como uma ordem que não pode cair em vão. E certamente, de muitíssimos lados se ouve a sua repetição: “fora! fora! fora!”

Todos sentem um arrepio mais intenso e, se a curiosidade parece fincar a todos naquele lugar, os rostos perdem a cor, os olhos se arregalam, enquanto as bocas se entrefecham involuntariamente, com o urro de espanto já na garganta.

Marta, que vai um pouco atrás e meio ao lado, está fascinada olhando para Jesus. Maria cai de joelhos, pois ela nunca se afastou de seu Mestre. Cai de joelhos na entrada do sepulcro com uma mão sobre o peito, a frear as palpitações do coração, e a outra, que inconsciente e convulsivamente segura um pedaço do manto de Jesus; compreende-se que ela esteja tremendo porque o manto tem umas leves sacudidas, transmitidas pela mão que o segura.

548.10Uma coisa branca parece vir saindo do ponto mais fundo da cova. No começo apenas uma pequena linha convexa, depois se transforma em uma espécie de oval, depois ao oval dominam umas linhas mais amplas, mais longas, sempre mais longas. E o que tinha estado morto, apertado em suas faixas, vem vindo lentamente para frente, cada vez mais visível, parecendo um fantasma, impressionante.

Jesus recua, vai recuando, insensível mas continuamente, quanto mais ele avança. Por isso, a distância entre os dois é sempre a mesma.

Maria se vê obrigada a deixar o pedaço do manto, mas não sai de onde está. A alegria, a emoção, tudo a prende ao lugar onde estava.

Um “oh!” cada vez mais claro sai das gargantas, antes fechadas por um espasmo de espera; e de um sussurro que mal se notava se muda em voz, e de voz em um grito alto.

Lázaro já está na entrada e lá fica parado rígido, mudo, semelhante a uma estátua de gesso que está apenas esboçada e, portanto, ainda informe, uma coisa comprida, sutil na cabeça, sutil nas pernas, mais larga no tronco, macabra como a própria morte, espectral na brancura das faixas colocadas sobre o fundo escuro do sepulcro. Ao sol, cujos raios o atingem, as faixas parecem deixar escorrer, por aqui e por ali, os corrimentos da podridão.

Jesus grita em voz alta:

– Livrai-o das faixas e deixai-o andar. Dai-lhe roupas e alimento.

– Mestre!… –diz Marta.

E quereria talvez dizer mais alguma coisa, mas Jesus olha fixamente para ela, subjugando-a com aquele seu fúlgido olhar, e diz:

– Aqui! Depressa! Trazei uma veste. Vesti-o na presença de todos e dai-lhe o que comer.

Ele dá a ordem, mas não se vira nunca para olhar quem é que está atrás dele, nem dos lados. Seus olhos olham somente para Lázaro, para Maria que está perto do ressuscitado, sem se preocupar com o nojo que todos sentem ao verem as faixas cheias de pus; e para Marta, que está arquejante, como se alguém lhe estivesse estourando o coração, e não sabe se deve gritar de alegria ou chorar…

548.11Os servos se apressam em fazer o seu trabalho. Noemi corre, indo-se embora por primeira, e é a primeira que vai voltar com as vestes, que traz penduradas no braço. Alguns desatam os laços das faixas, depois de terem arregaçado as mangas e erguido suas vestes, para que não toquem na podridão que está escorrendo. Marcela e Sara voltam com ânforas de perfume, acompanhadas pelos servos, uns com bacias e vasilhas soltando vapores de água quente, outros com bandejas, tigelas cheias de leite, vinho, fruta, fogaças cobertas de mel.

As bandagens baixas e muito compridas, de linho, eu creio, com debrum dos dois lados, e que certamente foram tecidas para aquele uso, são desenroladas como uns rolos de fitas de uma grande bobina, e vão-se amontoando no chão, pesadas porque cheias de aromas e podridão. Os servos vão afastando tudo isso, fazendo uso de uns bastões. Eles começaram pela cabeça, pois até nela há podridão, que certamente desceu do nariz, dos ouvidos, da boca. O sudário que foi colocado sobre o rosto está todo impregnado com o que estava gotejando, e o rosto de Lázaro, que aparece muito pálido e magro, está com os olhos ainda fechados pelas pomadas postas sobre as órbitas, com os cabelos grudados, e também a barbicha rala sobre o queixo, que com tudo isso ficou suja. Vai caindo lentamente o lençol, o sudário posto ao redor do corpo, e pouco a pouco as bandas vão caindo, vão descendo, descendo, deixando livre o tronco, que elas haviam apertado por dias seguidos, e restituindo a forma humana àquilo que antes tinham feito ficar parecendo uma grande crisálida. As costas ossudas, os braços emagrecidos, as costas mal cobertas de pele e o ventre afundado, tudo isso vai aparecendo lentamente. E à medida que as bandagens vão caindo, as irmãs, Maximino e os servos se esforçam para tirar a primeira camada de sujeira e de bálsamos, insistindo até que, com águas cada vez mais mudadas e transformadas em detergentes pelos aromas que lhe foram acrescentados, a pele aparece completamente limpa.

548.12Lázaro, logo que deixaram livre o seu rosto e ele pôde olhar, dirigiu os seus olhos para Jesus antes de fazê-lo para as irmãs, e se esqueceu e se abstraiu de tudo o que vai acontecendo, olhando sempre, com um sorriso de amor sobre seus lábios pálidos e um brilho de pranto nas órbitas profundas, para o seu Jesus. Também Jesus lhe sorri e tem um brilho de pranto no canto dos olhos, mas sem falar dirige os olhares de Lázaro para o Céu, e Lázaro o compreende e move os seus lábios em uma silenciosa oração.

Marta achou que ele queria dizer alguma coisa, e que ainda não tinha voz, e perguntou:

– Que me dizes, Lázaro meu?

– Nada, Marta. Eu estou dando graças ao Altíssimo.

A pronuncia é firme e a voz está forte. O povo solta um novo “oh!” de espanto.

Ele já está livre até nos flancos, livre e limpo. Já o podem revestir com a túnica curta, uma espécie de camisola, que cobre a virilha e desce por sobre as coxas.

Fazem-no sentar-se para lhe desligarem as pernas e lavá-las. Quando elas aparecem, Marta e Maria dão altos gritos, mostrando as pernas e as faixas. E se por cima das faixas apertadas sobre as pernas e sobre o sudário colocado sob as faixas os escoamentos da podridão são tão numerosos, que se transformam em pequenos rios sobre os tecidos, as pernas, ao aparecerem, já estão cicatrizadas. Somente as cicatrizes vermelho-cianóticas ficaram para mostrar onde estavam as gangrenas.

O povo todo grita ainda mais alto, estupefato.

Jesus sorri e sorri Lázaro, que olha por um instante suas pernas já curadas e depois torna a ficar abstraído, olhando para Jesus. Parece que não pode saciar-se de olhar para Jesus. Os judeus, os saduceus, os escribas, os rabis vão para frente, tomando cuidado para não contaminar suas vestes. Olham Lázaro bem de perto. Olham Jesus bem de perto. Mas nem Lázaro nem Jesus lhes dão atenção. Eles olham um para o outro. E nada mais lhes interessa.

548.13Chegaram as sandálias e foram colocadas em Lázaro. Ele se põe de pé, ágil e com firmeza. Pega a veste que Marta lhe entrega, veste-se com ela sozinho, aperta a cintura e alisa as dobras da roupa. E ei-lo aí, magro e pálido, mas igual a todos. Ele lava as mãos e os braços até os cotovelos, tendo antes arregaçado as mangas. Depois, com nova água, lava o rosto e a cabeça, até ver que de fato está todo limpo. Enxuga os cabelos e o rosto, entrega a toalha ao servo e vai diretamente a Jesus. Prostra-se diante dele e lhe beija os pés.

Jesus se inclina, o faz levantar-se e o aperta sobre o coração, dizendo-lhe:

– Boas vindas, meu amigo. A paz esteja contigo e a alegria. Que vivas para cumprir a tua feliz sorte. Levanta o teu rosto para que Eu te dê o beijo de saudação.

E o beija, recebendo de Lázaro, em troca, um beijo nas faces.

Somente depois de ter venerado e beijado o Mestre é que Lázaro fala com suas irmãs e as beija, depois beija Maximino e Noemi, que estão chorando de alegria, e alguns daqueles que eu acho que tenham parentesco com os da casa ou que sejam amigos muito íntimos. Depois beija José, Nicodemos, Simão Zelotes e alguns outros.

Jesus se dirige pessoalmente a um dos servos que tem em seus braços uma bandeja com alimentos e apanha uma fogaça com mel, uma maçã, um copo de vinho e os oferece a Lázaro, depois de ter oferecido e abençoado tudo, para que ele se reconstitua com os alimentos. E Lázaro come com o bom apetite de uma pessoa sã. E todos soltam de novo um “oh!” de espanto.

548.14Jesus age como se estivesse vendo somente Lázaro. Mas, na verdade, está observando tudo e todos; e vendo que, com gestos de ira, Sadoque e Elquias, Cananias, Félix, Doras e Cornélio e outros, estão para se afastarem, diz em voz alta:

– Espera um momento, ó Sadoque. Preciso dizer-te uma palavra. A ti e aos teus.

Eles param ali com umas caras de delinquentes. José de Arimateia faz um gesto de assustado e faz sinal ao Zelotes para que refreie Jesus. Mas Jesus já está indo para o grupo dos que o odeiam e já está dizendo em voz alta:

– Será que já te basta, ó Sadoque, o que viste até agora? Disseste-me um dia que para crer, precisáveis, tu e os teus iguais, ver um corpo desfeito recompor-se, e com saúde. Não estás saciado com a podridão que viste? Serás capaz de admitir que Lázaro estava morto e que agora está vivo e são, como havia muitos anos que ele não estava? Eu sei disso. Vós viestes aqui para tentar essas pessoas e pô-las na maior dor e em dúvidas. Vós viestes aqui para procurar-me, esperando encontrar-me escondido no quarto do moribundo. Vós viestes aqui, não por um sentimento de amor e desejo de honrar o extinto, mas para terdes a certeza de que Lázaro estava realmente morto, e continuastes a vir, sempre mais cheios de júbilo, quanto mais o tempo ia passando. Se as coisas tivessem acontecido como vós esperáveis, como pensáveis que elas iam indo, teríeis tido razão de alegrar-vos. O Amigo, que a todos cura, mas não é capaz de curar o seu amigo. O Mestre, que premia toda fé, mas não a de seus amigos de Betânia. É o Messias impotente diante da realidade de uma morte. Isto é o que vos dava razão para alegrar-vos. Mas eis! Deus vos deu a resposta. Nenhum profeta jamais pôde reunir o que estava desfeito, além de estar morto. Mas Deus fez isso. E aí está o testemunho vivo do que é que Eu sou. Houve um dia em que Deus tomou um tanto de barro e com ele formou uma estátua, soprou nela o sopro da vida e assim foi feito o homem. Era eu que dizia: “Faça-se o homem à nossa imagem e semelhança.” Porque Eu sou o Verbo do Pai. Hoje, Eu, o Verbo, disse àquilo que é menos do que o barro: à corrupção: “Vive!”, e a corrupção voltou a transformar-se em carne, e em carne perfeita, viva, palpitante. E ela está ali, olhando para vós. E à carne Eu reuni o espírito, que jazia, há dias, no seio de Abraão. Eu o chamei e fiz voltar por minha vontade, porque eu tudo posso, Eu, o Vivente, Eu, o Rei dos reis, ao qual estão sujeitas todas as criaturas, todas as coisas. E agora, que é que tendes a responder-me?

E Jesus está diante deles, alto, fulgurante em sua majestade, verdadeiramente Juiz e Deus. Eles nada respondem.

Mas Ele insiste.

– Tudo isso não vos basta ainda para crerdes, para aceitardes o indiscutível?

– Só mantiveste uma parte da promessa. Isto não é o sinal de Jonas –diz asperamente Sadoque.

– Tereis também aquele sinal –diz o Senhor–. E alguém que aqui está presente, e que está esperando outro sinal, o terá. E, como ele é um justo, o aceitará. Vós, não. Vós ficareis como sois.

548.15Jesus dá uma meia volta sobre si mesmo e vê Simão, o sinedrita, filho de Eliana. E fixa os olhos nele. E continua a fitá-lo. Abandona aqueles de antes e, aproximando seu rosto do rosto dele, lhe diz, em voz baixa, mas decidida:

– Bom para ti é que Lázaro não se recorde de ter permanecido entre os mortos! Que é que fizeste de teu pai, ó Caim?

Simão sai dali fugindo, com um grito de medo, que depois se transforma em um urro de maldição:

– Que Tu sejas maldito, ó Nazareno! –ao qual Jesus responde:– A tua maldição sobe até o Céu e do Céu o Altíssimo a devolve a ti. Tu estás assinalado com a marca, ó infeliz!

Jesus volta atrás, por entre os grupos espantados, quase assombrados. Ele se encontra com Gamaliel, que está indo para a estrada. Ele olha para Gamaliel e Gamaliel olha para Ele. E Jesus lhe diz, sem parar:

– Estás pronto, rabi? O sinal logo virá. Eu nunca minto.

548.16O jardim vai-se esvaziando lentamente. Os judeus estão atordoados, mas, em sua maior parte, eles transpiram ira por todos os poros. Se os olhares pudessem reduzir alguém a cinzas, há muito tempo Ele já devia estar pulverizado. Falam, discutem entre si, e lá se vão tão transtornados pela desfeita recebida, que nem sabem mais como esconder, sob uma hipócrita aparência, qual era a intenção, qual a razão de sua presença ali. E lá se vão, sem saudar nem Lázaro nem as irmãs dele.

Ficam para trás alguns que são conquistados pelo Senhor. Entre estes está José Barnabé, que se põe de joelhos diante de Jesus e o adora. Um outro é o escriba Joel de Abias, que faz a mesma coisa antes de partir por sua vez. E outros ainda, que não conheço, mas que devem ser influentes.

Lázaro, entretanto, circundado pelos seus mais íntimos, retirou-se para casa. José, Nicodemos e os outros bons saúdam Jesus e se vão. Partem, com profundas saudações, os judeus que estavam junto a Marta e Maria. Os servos fecham a cancela. A casa retorna à sua paz.

548.17Jesus olha ao redor de Si. Vê esfumaçar-se e ficar roxo o céu no fundo do jardim, lá, além do sepulcro. Jesus, sozinho, ereto em meio a um caminho, diz:

– A podridão que é anulada pelo fogo… A podridão da morte… Mas aquela dos corações… daqueles corações nenhum fogo anulará… Nem mesmo o fogo do Inferno. Será eterna… Que horror!… Mais que a morte… Mais que a corrupção… E… Mas quem te salvará, ó Humanidade, se tanto gostas de ser corrompida? Queres ser corrupta. E Eu… Eu arranquei do sepulcro um homem com uma palavra… E com um mar de palavras… e um mar de dores não poderei arrancar o pecado do homem, dos homens, milhões de homens.

Senta-se e cobre o rosto com as mãos, angustiado…

Um servo que passa o vê. Vai para casa. Depois de pouco tempo desce de casa Maria. Vai até Jesus, ligeira como se não tocasse o solo. Aproxima-se e diz baixinho:

– Raboni! Estás cansado… Vem, ó meu Senhor. Os teus apóstolos cansados foram para a outra casa, todos, menos Simão Zelotes… Choras, Mestre? Por quê?

Ajoelha-se aos pés de Jesus… Observa-o… Jesus olha para ela. Não responde. Levanta-se e dirige-se para casa, seguido por Maria.

548.18Entram numa sala. Lázaro não está, e não está Zelotes. Mas Marta está, feliz, transfigurada de alegria. Volta-se a Jesus explicando:

– Lázaro foi ao banho. Para purificar-se ainda. Oh! Mestre! Mestre! Que dizer-te!

Adora-o com toda a sua pessoa. Nota a tristeza de Jesus e diz:

– Estás triste, Senhor? Não estás feliz que Lázaro…

Vem-lhe uma suspeita:

– Oh! Tu estás sério comigo. Pequei. É verdade.

– Pecamos, irmã, diz Maria.

– Não. Tu não. Oh! Mestre, Maria não pecou. Maria soube obedecer. Eu sozinha desobedeci. Eu te mandei chamar porque… porque não podia mais ouvir que esses insinuassem que Tu não eras o Messias, o Senhor… e não podia mais ver aquele sofrimento… Lázaro te queria tanto. Chamava-te tanto… Perdoa-me, Jesus.

– E tu não falas, Maria? –interroga Jesus.

– Mestre, eu… Eu não sofri então senão como mulher. Sofri porque… Marta, jura, jura aqui, diante do Mestre, que jamais dirás a Lázaro o seu delírio… Meu Mestre… eu te conheci totalmente, ó divina Misericórdia, nas últimas horas de Lázaro. Oh! Meu Deus! Mas como me amaste Tu, Tu que me perdoaste, Tu, Deus, Tu, Puro, Tu… Se meu irmão, que no entanto me ama, mas que é um homem, somente um homem, não perdoou no fundo do coração tudo?! Não. Digo mal. Não esqueceu o meu passado e, quando a debilidade da morte tornou obtusa nele a sua bondade, que eu acreditava esquecimento do passado, ele gritou a sua dor, o seu desprezo por mim… Oh!…

Maria chora.

– Não chores, Maria. Deus te perdoou e esqueceu. A alma de Lázaro também te perdoou e esqueceu, quis esquecer. O homem não pôde esquecer. E quando a carne dominou com o seu espasmo extremo a vontade lânguida, o homem falou.

– Não sinto rancor, Senhor. Serviu-me para mais amar-te e para amar ainda mais Lázaro. Foi desde aquele momento, porém, que eu também te desejei aqui… porque era muito angustiante pensar em Lázaro morto sem paz por minha causa… e depois, depois, quando te vi desprezado pelos judeus… quando vi que Tu não vinhas nem mesmo depois da morte, nem mesmo depois que eu havia obedecido, esperando além do que era crível, esperando até quando o sepulcro se abriu para recebê-lo, então o meu espírito sofreu. Senhor, se eu tinha de expiar, e certamente tinha, eu expiei, Senhor.

– Pobre Maria! Conheço o teu coração. Tu mereceste o milagre, e isso te firme em saber esperar e crer.

– Meu Mestre, eu esperarei e crerei sempre, de agora em diante. Eu não duvidarei jamais, jamais, Senhor. Eu viverei de fé. Tu me deste a capacidade de crer no impossível.

– E tu, Marta? Também tu aprendeste? Não. Ainda não. Tu és a minha Marta. Mas não és ainda a minha perfeita adoradora. Por que queres trabalhar e não contemplar? Isto é mais santo. Tu estás vendo? A tua força, que se inclina demais para as coisas terrenas, cedeu à constatação dos fatos terrenos, que muitas vezes parecem não ter solução. Em verdade, as coisas terrenas não têm solução se Deus não intervém. Por isso, a criatura tem necessidade de crer e de contemplar. De amar até o extremo de sua capacidade humana, com o pensamento, a alma a carne, o sangue. Eu repito: com todas as forças humanas. Eu te quero forte, Marta. Eu te quero perfeita. Não soubeste obedecer porque não soubeste crer e esperar até o fim, porque não soubeste amar totalmente. Mas Eu te absolvo disso. Eu te perdoo, Marta. Hoje Eu ressuscitei Lázaro. Agora Eu te dou um coração mais forte. A ele Eu dei a vida. Em ti infundo a força de amar, crer e esperar com perfeição. Agora sede felizes e ficai em paz. Perdoai aos que nos ofenderam nestes dias…

– Senhor, nisso eu pequei. Agora pouco, ao velho Cananias, que de Ti havia escarnecido nos outros dias, eu disse: “Quem foi que triunfou? Tu ou Deus? O teu escárnio ou a minha fé? Cristo é o Vivente, é a Verdade. Eu bem sabia que a glória dele resplandeceria ainda mais. E tu, velho, constrói de novo a tua alma se não queres conhecer a morte.”

– Disseste bem. Mas não te ponhas em contendas com os maus, Maria. E perdoa. Perdoa, se me queres imitar… 548.19Eis Lázaro. Estou ouvindo a voz dele.

De fato, Lázaro vem entrando, vestido de novo e bem, barbeado, com os cabelos em ordem e cheirosos por causa das essências. Com ele estão Maximino e Zelotes.

– Mestre!

Lázaro se ajoelha para adorar. Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça, e sorri, dizendo:

– A prova chegou ao fim, meu amigo. Para ti e para as irmãs. Agora, sede felizes e fortes para servirdes ao Senhor. De que te lembras, amigo sobre o passado? Eu quero dizer das tuas últimas horas?

– Lembro-me de um grande desejo de ver-te e uma grande paz no amor das irmãs.

– E que te entristecia mais de deixar, ao morrer?

– De deixar a Ti, Senhor, e as irmãs. A Ti, por não poder servir-te, e a elas, porque me deram muita alegria…

– Oh! Eu, meu irmão! –suspira Maria.

– Tu, mais do que Marta. Tu me deste Jesus e a medida do que é Jesus. E Jesus te deu a mim. Tu és o dom de Deus, Maria.

– Tu, ao morrer, também o dizias… –diz Maria, e fica estudando o rosto do irmão.

– Porque é o meu pensamento constante.

– Mas eu te causei tanta dor…

– A doença também me causou dor. Mas por ela eu espero ter expiado as culpas do velho Lázaro e ser ressuscitado, purificado para ser digno de Deus. Tu e eu: os dois ressuscitados para servirem o Senhor, e Marta entre nós, pois ela foi sempre a paz da casa.

– Estás ouvindo, Maria? Lázaro diz palavras de sabedoria e verdade. Agora eu me retiro, e vos deixo em vossa alegria…

– Não, Senhor. Tu ficas. Conosco. Aqui. Ficas em Betânia e em minha casa. Será maravilhoso…

– Ficarei. Eu te quero compensar por tudo o que sofreste. Marta, não fiques triste. Marta pensa que me fez sofrer. Mas o meu sofrimento não é por vós, quanto por aqueles que não querem ser redimidos. Eles odeiam sempre mais. Têm o veneno no coração… Pois bem… perdoemos.

– Perdoemos, Senhor –diz Lázaro, com seu manso sorriso.

E com esta palavra tudo termina.

548.20À margem1 da ressurreição de Lázaro e referindo-se a uma frase de São João. Diz Jesus:

– No Evangelho de João, assim como é lido há séculos, está escrito: “Jesus ainda não tinha entrado na vila de Betânia” (Jo 11,30). Para prevenir possíveis objeções, eu faço notar que entre esta frase e aquela da Obra, que Eu encontrei Marta a poucos passos do tanque no jardim de Lázaro, não há contradições de fatos, mas somente de tradução e descrição. Três quartos de Betânia eram de Lázaro. Assim como Jerusalém era, em grande parte, dele. Mas falemos da Betânia. Sendo ela, em três quartos, de Lázaro, podia dizer-se: Betânia de Lázaro. Por isso não estaria errado o texto, mesmo que eu tivesse encontrado Maria na vila ou na fonte, como alguns querem dizer. Mas, na verdade, Eu não tinha entrado na vila, a fim de evitar a correria dos betanitas, todos eles hostis aos do Sinédrio. Eu havia passado por detrás da Betânia, a fim de chegar a casa de Lázaro, que ficava no extremo oposto, para quem entrava em Betânia, vindo de Ensemes. Justamente por isso é que João diz que Jesus ainda não tinha entrado na vila. E igualmente é justo o que diz o pequeno João, ao afirmar que Eu havia parado perto do tanque (da fonte, segundo os hebreus), já no jardim de Lázaro, mas muito longe ainda da casa. Considerem, além disso, que durante o tempo do luto e da impureza (ainda não era o sétimo dia depois da morte) as irmãs não saíam de casa. Por isso, no recinto da mesma, que era propriedade deles, é que se deu o encontro. Note-se que o pequeno João fala da vinda dos betanitas ao jardim somente quando Eu já estava dando ordem para levantarem a pedra. Antes, Betânia nem sabia que Eu estava em Betânia, e somente quando se espalhou a notícia é que todos se dirigiram a Lázaro.

548.21Diz Jesus:

– Pode ser colocado aqui o ditado de 23 de março de 1944, como comentário da ressurreição de Lázaro.

23 de março de 1944.

548.22Diz Jesus:

– Eu teria podido intervir a tempo para impedir a morte de Lázaro. Mas não o quis fazer. Sabia que esta ressurreição seria uma arma de dois gumes, porque poderia converter os judeus de reto pensamento e tornar sempre mais astuciosos aqueles de pensamento não reto. Destes, e sob este último golpe de meu poder, viria a minha sentença de morte. Mas Eu tinha vindo para isso e a hora já estava madura para que isso se cumprisse. Eu teria também podido ir atendê-los logo. Mas tinha necessidade de persuadir, com a ressurreição de uma podridão já bem adiantada, aos incrédulos mais obstinados. E até aos meus apóstolos que, destinados a levar a minha Fé ao mundo, precisavam possuir uma fé temperada com milagres de primeira grandeza.

Nos apóstolos havia muita humanidade. Eu já disse2 isto. Isto não era um obstáculo insuperável. Era, ao contrário, uma consequência lógica da condição deles, que era a de homens chamados para serem meus, mas já em idade adulta. Não se muda uma mentalidade, uma forma mentis de hoje para amanhã. Nem Eu, na minha Sabedoria, quis escolher e educar meninos, e vê-los crescer segundo o meu pensamento para fazer deles os meus apóstolos. E teria podido fazer isso. Não o quis fazer para que as almas não me reprovassem por ter desprezado aos que já não são inocentes e que levassem, para sua desculpa e escusa, o fato de que Eu também tenha dado a entender, com a minha escolha, que aqueles que já estão formados não podem mais mudar. Não. Tudo se pode mudar, se se quer. E, de fato, Eu, de uns pusilânimes, de uns rixentos, de usurários, de sensuais, de incrédulos fiz mártires e santos, evangelizadores do mundo. Somente não mudou aquele que não quis.

548.23Eu amei e amo as pequenas coisas — tu és um exemplo disso — contanto que nelas haja a vontade de amar-me e de acompanhar-me, e desses “nada” é que Eu faço os meus prediletos, os meus amigos, os meus ministros. Sempre me sirvo deles, e é um milagre contínuo que Eu faço para levar os outros a crerem em Mim e a não destruírem a possibilidade do milagre. Como é fraca agora essa possibilidade! Como uma lâmpada à qual falta o azeite, ela agoniza e morre, morta pela fé, que é pouca ou que falta de todo, no Deus do milagre.

Há duas formas de prepotência ao pedir o milagre. Para uma delas Deus se inclina com amor. Para a outra, Ele vira as costas, indignado. A primeira é a que pede, como Eu já ensinei a pedir, sem desconfiança nem cansaço, e que não admite que Deus não a possa atender, porque Deus é bom, e quem é bom atende. Porque Deus é poderoso e tudo pode. Esta é amor, e Deus atende a quem ama. A outra é a prepotência dos rebeldes, que querem que Deus seja seu servo e que se humilhe a Si mesmo diante de suas maldades, e lhes dê o que eles não dão a Ele: o amor e a obediência. Este modo de pedir é uma ofensa que Deus pune negando as suas graças.

Vós vos queixais de que não faço mais os milagres coletivos. Como é que Eu os poderia fazer? Onde estão as coletividades que creem em Mim? Onde estão os verdadeiros crentes? Quantos são os verdadeiros crentes em uma coletividade? Como flores que sobreviveram em um bosque queimado por um incêndio, delas vejo somente alguma, de vez em quando: são os espíritos que têm fé. O resto Satanás queima com as suas doutrinas. E sempre mais o queimará.

548.24Eu vos peço que tenhais essa norma espiritual: que vos lembreis sempre da minha resposta a Tomé3. Não se pode ser meu verdadeiro discípulo, se não se souber dar à vida humana aquele valor que serve de meio para conquistar a vida, e não de fim. Aquele que quiser salvar a sua vida neste mundo perderá a vida eterna. Eu o disse e o repito. Que é que são as provações? São nuvens que passam. O Céu não passa e vos espera depois das provações.

Eu conquistei o Céu para vós com o meu heroísmo. E vós deveis imitar-me. O heroísmo não está reservado somente para aqueles que devem conhecer o martírio. A vida cristã é um perpétuo heroísmo porque é uma perpétua luta contra o mundo, o demônio e a carne. Eu não vos obrigo a servir-me. Eu vos deixo livres. Mas hipócritas é que não vos quero. Ou comigo e como Eu, ou contra Mim. Vós não me podeis enganar. E Eu não admito alianças com o inimigo. Se vós o preferis a Mim, não podeis ficar pensando em ter, ao mesmo tempo, a Mim como Amigo. Ou ele ou Eu. Escolhei.

548.25A dor de Marta é diferente da dor de Maria, pela diferente psique das duas irmãs e pelo modo de proceder das duas. Felizes daqueles que se conduzem de tal modo que não precisem ter o remorso de ter entristecido alguém que agora está morto e que não pode mais ser consolado da dor que lhe foi causada. Mas como é mais feliz quem não teve o remorso de ter entristecido a Deus, a Mim Jesus, e não tem medo de encontrar-se comigo, mas até suspira por isso, como quem espera uma alegria ansiosamente sonhada durante toda uma vida e finalmente conseguida.

Eu sou o vosso Pai, Irmão, Amigo. Por que é, então, que me feris tantas vezes? Sabeis vós quanto é que vos resta de vida? Uma vida em reparação? Vós não o sabeis. E, então, hora por hora, dia por dia, vivei agindo bem. Sempre bem. Vós me fareis sempre feliz. E se o sofrimento vier também para vós, visto que a dor é santificação, é a mirra que nos preserva da podridão da sensualidade, tereis sempre em vós a certeza de que Eu vos amo — e que vos amo também nessa dor — e a paz que nasce do meu amor. Tu, pequeno João, bem que o sabes se Eu sei consolar até na dor.

548.26Na minha oração ao Pai está repetido tudo o que Eu disse a princípio: era necessário um grande milagre para sacudir a opacidade dos judeus e do mundo em geral. E a ressurreição de alguém, já sepultado há quatro dias, e colocado na cova depois de uma longa, crônica, repugnante, conhecida doença, não era algo que deixasse indiferentes e nem mesmo cheios de dúvidas. Se Eu o tivesse curado enquanto ele estava vivo ou tivesse infundido nele o espírito logo que ele tivesse expirado, a malícia dos inimigos teria podido criar dúvidas sobre a existência do milagre. Mas o mau cheiro do cadáver, a sujeira das bandagens, a longa permanência no sepulcro, não deixavam pairar dúvidas. E, um milagre dentro do outro, Eu quis que Lázaro fosse desenfaixado e limpo na presença de todos para que se visse que, não só a vida, mas também a integridade dos membros tinham voltado, lá onde antes a carne ulcerada havia espalhado no sangue os germes da morte. No meu ato de distribuir graças, Eu dou sempre mais do que pedis.

548.27Eu chorei diante da tumba do Lázaro. E àquele choro já deram vários nomes. No entanto, ficai sabendo que as graças se obtêm com a dor misturada com uma firme fé no Eterno. Eu chorei não somente pela perda do amigo e pela dor das irmãs, mas porque, como um fundo que se agita para cima, afloraram naquela hora, mais vivas do que nunca, três ideias que, como três cravos, haviam sempre cravado suas pontas em meu coração.

A constatação de quão grande foi a ruína que Satanás causou ao homem, ao seduzi-lo para o Mal. Ruína, cuja condenação humana consistia na dor e na morte. A morte física, que é o símbolo e a metáfora viva da morte espiritual, que a culpa dá à alma, fazendo-a cair, a essa rainha destinada a viver no reino da Luz, nas trevas infernais.

A persuasão de que nem mesmo este milagre, colocado quase como uma consequência sublime depois de três anos de evangelização, teria convencido o mundo judaico sobre a Verdade da qual Eu tinha sido o Portador. E que nenhum milagre teria feito do mundo futuro um convertido para o Cristo. Oh! Que dor que era estar perto de morrer por tão poucos!

A visão mental da minha próxima morte. Eu era Deus. Mas também era homem. E para ser o Redentor, Eu devia sentir o peso da expiação. E por isso também o horror da morte, e de tal morte. Eu era um vivo, um são que dizia: “Em breve Eu estarei morto num sepulcro, como Lázaro. Em breve a agonia mais atroz será a minha companheira. Eu devo morrer.” A bondade de Deus vos poupa o terdes o conhecimento do futuro. Mas a Mim, não. Eu não fui poupado de ter esse conhecimento.

Oh! Podeis crer! Vós que vos lamentais de vossa sorte. Nenhuma foi mais triste do que a minha, pois Eu tive a constante presciência de tudo o que me devia acontecer, e unida à pobreza, às depreciações, às asperezas, que me acompanharam desde o meu nascimento, até à morte. Por isso, não vos lamenteis. E esperai em Mim.

Eu vos dou a minha paz.

1 À margem… até… dirigiram a Lázaro» foi escrito por MV, sem indicação de data, sobre as duas faces de uma pequena folha, colocada depois entre as páginas manuscritas do caderno.
2 Eu já disse, em 13 de fevereiro de 1944, em 106.12.
3 a minha resposta a Tomé, em 547.6.


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