363. 363. Em Ramá, na casa da irmã de Tomé.Discurso sobre a salvação e apóstrofe a Jerusalém.


17 de dezembro de 1945.

363.1 Tomé, que ia ao fim da comitiva e que estava conversando com Manaém e com Bartolomeu, afasta-se dos companheiros e vai até o Mestre que está à frente com Marziam e Isaque:

– Mestre, daqui a pouco estaremos perto de Ramá. Não quererias abençoar o menino de minha irmã? Ela deseja muito te ver. Poderíamos permanecer ali. Há lugar para todos. Dá-me esta alegria, Senhor!

– Eu a darei. E com muito gosto. Assim, amanhã entraremos em Jerusalém bem descansados.

– Oh! Então eu vou adiante para avisá-los. Tu me deixas ir?

– Vai. Mas lembra-te de que Eu não sou um amigo como o mundo aprecia. Não deixes que os teus façam muita despesa. Trata-me por “Mestre.” Entendeste?

– Sim meu Senhor. Eu direi isso aos parentes. Queres vir comigo Marziam?

– Se Jesus assim quiser.

– Vai, vai, meu filho.

Os outros, ao verem Tomé e Marziam indo na direção de Ramá, situada um pouco à esquerda da estrada que vai, pelo que me parece, da Samaria para Jerusalém, apressam o passo para perguntarem o que está acontecendo.

– Nós estamos indo à casa da irmã de Tomé. Em todas as casas dos vossos pais Eu tenho parado. É justo que Eu vá também à casa dele. E o mandei à frente por isso.

– Então, se me permites, hoje eu também irei à frente. Para ver um pouco se não há novidades. Quando estiveres entrando pela Porta de Davi lá eu estarei se houver alguma má notícia. Senão, eu te verei… onde, Senhor? –pergunta Manaém.

– Em Betânia, Manaém. Eu irei logo ver Lázaro. Mas as mulheres, deixá-las-ei em Jerusalém. Eu irei sozinho. Ou melhor, eu te faço um pedido: depois da parada de hoje, tu escolta as mulheres até às casas delas.

– Como quiseres, Senhor.

– Avisai ao condutor que nos acompanhe até Ramá.

De fato, o carro vem subindo lentamente porque vem atrás da comitiva dos apóstolos. Isaque e o Zelotes ficam parados a fim de esperá-lo, enquanto todos os outros tomam a estrada secundária que, com um suave declive, vai para a pequena colina, de pouca altura, sobre a qual está Ramá.

363.2 Tomé, que parece não estar cabendo em si mesmo de tão contente, dá mostra de uma alegria que lhe brilha no rosto e já está na entrada do povoado esperando. Ele corre ao encontro de Jesus:

– Que felicidade Mestre! Aqui está toda a minha família! Meu pai, que tanto desejava conhecer-te, minha mãe e meus irmãos! Como estou contente!

E se põe ao lado de Jesus, passando através do povoado tão empertigado, que parece ser um conquistador na hora do triunfo.

A casa da irmã de Tomé fica perto de uma encruzilhada, a leste do povoado. É uma casa característica de israelitas abastados, com uma fachada quase sem janelas, um portão de ferro com uma espreitadeira, o terraço servindo de telhado e os muros do jardim altos e escuros, que se prolongam por detrás da casa, ultrapassados em sua altura pelas árvores frutíferas.

Mas hoje a criada não precisa ir ficar olhando pela espreitadeira. O portão está completamente aberto e todos os moradores da casa estão enfileirados junto à entrada, podendo ver-se um contínuo espichar de mãos adultas que seguram um menino ou uma menina da bem nutrida fileira de crianças, as quais, excitadas pelas notícias, atravessam continuamente as fileiras das outras classes e das hierarquias e pulam para diante das famílias, para os lugares de honra onde, na primeira fila, estão os pais de Tomé e a irmã com o seu marido.

Mas, quando Jesus já está chegando à soleira, quem segura mais aqueles buliçosos? Eles parecem uma ninhada que vai saindo do ninho após uma noite de descanso. E Jesus recebe os esbarros de todo esse grupo que vem bater contra os seus joelhos e os abraça, levantando os seus rostinhos que estão à procura de beijos e que não cessam nem depois dos chamados maternos ou paternos e nem mesmo depois que Tomé andou distribuindo uns tapas para restabelecer a ordem.

– Deixa que o façam! Deixa que o façam! Antes todo o mundo fosse assim! exclama Jesus, que ficou inclinado para contentar a todos aqueles arteiros.

363.3 Finalmente Ele pode entrar por entre as saudações cheias de reverência dos adultos. Mas as que me agradam de modo especial são as saudações do pai de Tomé, um velho caracteristicamente judeu, o qual é posto em pé por Jesus que o quer beijar “por seu reconhecimento para com a generosidade que ele teve, ao dar-lhe um apóstolo.”

– Oh! Deus me amou mais do que a qualquer outro em Israel porque, enquanto cada hebreu tem um filho homem, que é o primogênito consagrado ao Senhor, eu tenho dois: o primeiro e o último. E o último é ainda mais consagrado, porque sem ser levita nem sacerdote faz o que nem o Sumo Sacerdote faz: vê constantemente a Deus e recebe as suas ordens –diz, com aquela voz um pouco trêmula dos velhos, tornada ainda mais trêmula pela emoção.

E termina:

– Este meu filho, pelo modo como te vai seguindo, está sendo digno de servir-te e de merecer a Vida eterna?

– Descansa em paz, ó pai. O teu Tomé tem um grande lugar no coração de Deus pelo modo como vai vivendo e terá um grande lugar no Céu pelo modo como terá servido a Deus até o seu último suspiro.

Tomé fica arquejante como um peixe fora d’água pela emoção por tudo o que ouviu dizer. O velho levanta as mãos trêmulas, enquanto duas lágrimas lhe vão descendo por entre suas profundas rugas até desaparecerem por entre os fios de sua grande barba patriarcal e ele diz:

– Venha sobre ti a bênção de Jacó1. A bênção do patriarca ao justo dentre seus filhos: “O Onipotente te abençoe com as bênçãos do céu de cima, com a bênção dos abismos que jazem embaixo, com a bênção das mamas e do seio. Que as bênçãos do teu pai sobrepujem as dos pais dele e, enquanto não chegar o desejo das colinas eternas, pousem sobre a cabeça de Tomé, sobre a cabeça do que é nazareno entre os seus irmãos.”

E todos respondem:

– Assim seja.

– E agora abençoa Tu, ó Senhor, esta casa e sobretudo estes que são sangue do meu sangue –diz o velho, mostrando as crianças.

E Jesus, abrindo os braços, entoa a bênção mosaica e a prolonga, dizendo:

– Deus, em cuja presença caminharam os vossos pais, Deus que me apascenta desde de a minha adolescência até este dia como o anjo que me livrou de todo mal, abençoe estas crianças, que elas tragam o meu nome e também os nomes de meus pais e se multipliquem abundantemente sobre a terra.

E termina tomando o último nascido dos braços da mãe para beijá-lo na fronte, dizendo:

– E sobre ti desçam, como mel e manteiga as virtudes seletas que habitaram no Justo cujo nome te foi dado, fazendo-o digno dos céus e ornado como a palmeira cheia de louras tâmaras e como cedro de copa real.

Todos estão comovidos e extáticos. Mas depois uma exclamação de alegria explode de todas as bocas e vai acompanhando Jesus que entra na casa e não pára, a não ser já no pátio, onde Ele apresenta aos hospedeiros sua Mãe, as discípulas, os apóstolos e os discípulos.

363.4Já não é mais manhã, mas também não é mais meio dia. Os raios desanimados de um sol que com dificuldade penetram através das nuvens desgrenhadas de um tempo que está tardando a acalmar-se, dizem-nos que o sol vai caminhando para o fim do dia e o dia para o seu crepúsculo.

As mulheres não estão mais aqui e com elas não estão mais Isaque e Manaém, enquanto que Marziam ficou e se sente feliz ao lado de Jesus, que sai da casa para ir andar com os apóstolos e com todos os homens parentes de Tomé para verem algumas vinhas que parece-me que sejam de uma qualidade especial. Tanto o velho como o cunhado de Tomé dão explicações sobre a posição do vinhedo e sobre a raridade das plantas que, por enquanto, têm apenas folhinhas tenras.

E Jesus, com benevolência, vai escutando estas explicações interessantes a respeito da poda e das sachaduras, como as coisas mais úteis do mundo. No fim, Ele diz sorrindo a Tomé:

– Deverei abençoar este dote de tua irmã gêmea?

– Oh! Meu Senhor! Eu não sou Doras nem Ismael. Sei que o teu hálito, a tua presença em um lugar já é uma bênção. Mas, se queres levantar a tua destra sobre estas plantas, faze-o e certamente santos serão os seus frutos.

– E abundantes, não? Que dizes a isso, pai?

– Basta que eles sejam santos. Que sejam santos, basta. E eu os esmagarei e os mandarei pela próxima Páscoa e Tu os usarás no cálice ritual.

– Está dito. Conto com isso. Eu quero na próxima Páscoa consumir o vinho de um verdadeiro israelita.

Saem da vinha para voltarem ao povoado.

363.5A notícia da presença de Jesus de Nazaré no povoado se espalhou e os habitantes de Ramá estão todos nas estradas, muito desejosos de se aproximarem dele.

Jesus está vendo tudo isso e diz a Tomé:

– Por que eles não se aproximam? Será que estão com medo de Mim? Dize-lhes que Eu os amo.

Oh! Tomé não fica esperando ser mandado uma segunda vez. Mas vai indo de um grupo de pessoas para outro e tão rápido que mais fica parecendo uma grande borboleta que voa de flor em flor. Mas também aqueles a quem Tomé vai convidando não ficam esperando ser convidados outra vez. Mas todos vão correndo, transmitindo uns aos outros o que Tomé disse e vão-se aglomerando ao redor de Jesus, de tal modo que, ao chegarem à encruzilhada onde fica a casa de Tomé, já se vai formando uma maior aglomeração e todos estão conversando respeitosamente com os apóstolos e com os familiares de Tomé, perguntando-lhes uns isto e outros aquilo.

Compreendo que Tomé trabalhou muito nos meses do inverno e por isso muitas coisas da doutrinação evangélica já são conhecidas no povoado. Mas eles desejam ter da doutrina alguma explicação em particular e um deles que ficou muito impressionado com a bênção que Jesus deu aos pequeninos da casa hospedeira e com tudo o que Tomé disse, pergunta:

– Ficaram sendo todos justos por meio dessa tua bênção?

– Não por meio dela. Mas pelas suas ações. Eu dei a eles a força da bênção para fortalecê-los em suas boas ações. Mas hão de ser eles que devem fazer as ações e praticar somente as ações justas para terem o céu. Eu abençôo a todos… mas nem todos se salvarão em Israel.

– Até, pelo contrário, muito poucos deles se salvarão se continuarem a agir como estão agindo –resmunga Tomé.

– Que estás dizendo?

– A verdade. Quem persegue Cristo e o calunia, quem não pratica o que Ele ensina, não terá parte em seu Reino –diz Tomé, com seu vozeirão.

363.6 Alguém o puxa pela manga:

– Ele é muito severo? –pergunta o homem, mostrando Jesus.

– Não. Ele é até muito bom.

– Eu, dizes, me salvarei? Eu não estou entre os discípulos. Mas, tu sabes como eu sou e como sempre acreditei no que me dizias. Mas, mais do que isso eu não sei fazer. Que devo eu fazer, precisamente, para me salvar, além do que eu já estou fazendo?

– Pergunta isso a Ele. Ele tem uma mão firme e um julgamento mais perfeito do que o meu.

O homem anda para frente. E diz:

– Mestre, eu pratico a Lei e, desde que Tomé me repetiu as tuas palavras, eu procuro fazê-lo sempre melhor. Mas eu sou pouco generoso. Faço somente o que devo fazer. Abstenho-me de fazer o que não é bom porque tenho medo do inferno. Mas eu gosto também de ter as minhas comodidades e… eu o confesso, esforço-me para fazer tudo de tal maneira que eu não peque, mas não gosto de ficar preocupando-me demais. Fazendo assim, eu me salvarei?

– Tu te salvarás. Mas por que queres ser avarento com Deus que é tão generoso contigo? Por que queres pretender somente a tua salvação, uma salvação conseguida com dificuldade e não a grande santidade que dá direito imediatamente a uma paz eterna? Vamos, homem. Sê generoso para com a tua alma!

O homem diz com humildade:

– Vou pensar nisso, Senhor. Vou pensar nisso. Acho que Tu tens razão e que eu sou injusto para com a minha alma obrigando-a a passar por uma longa purificação antes de ter a paz.

– Muito bem. Esse pensamento já é começo de aperfeiçoamento.

363.7 Um outro de Ramá pergunta:

– Senhor, são poucos os que se salvam?

– Se o homem soubesse levar a sua vida, respeitando-se a si mesmo e com um amor reverencial para com Deus, todos os homens se salvariam como Deus o deseja. Mas o homem não quer proceder assim. E, como um tolo, ele se deixa iludir pelo ouropel em vez de procurar o verdadeiro ouro. Sede generosos em querer o bem. Isto vos é difícil? Mas nisso é que está o merecimento. Esforçai- vos para entrardes pela porta estreita. A outra é bem larga e adornada, mas é sedução de Satanás para desencaminhar-vos. A do Céu é estreita, baixa, nua e escabrosa. Para passardes por ela precisais ser ágeis, rápidos, sem pompa e sem materialidade. É necessário que sejais espirituais para o poderdes fazer. Se não for assim, quando chegar a hora de vossa morte não conseguireis passar por ela. Na verdade, ver-se-ão muitos que irão tentar, sem poderem consegui-lo pelo tanto que eles estarão obesos por sua materialidade, ataviados com pompas humanas, enrijecidos por uma crosta de pecado, incapazes de se dobrarem por causa da soberba que faz deles uns esqueletos. E virá, então, o Dono do Reino para fechar a porta e os que estão do lado de fora, os que não puderam entrar no tempo marcado, continuarão do lado de fora e baterão à porta gritando: “Senhor, abre para nós. Nós também estamos aqui!” Mas Ele dirá: “Em verdade, Eu não vos conheço, nem sei de onde estais vindo.” E eles dirão: “Mas, como? Não te lembras de nós? Nós comemos e bebemos contigo e te ficamos escutando quando Tu ensinavas nas nossas praças.” Mas Ele responderá: “Em verdade, Eu não vos reconheço. Quanto mais olho para vós, mais vós me ficais parecendo umas pessoas que se saciaram com aquilo que Eu havia declarado ser um alimento impuro. Em verdade, por mais que Eu vos perscrute, mais vou descobrindo que vós não sois da minha família. Em verdade, eis, agora estou vendo que vós sois filhos e súditos, mas do outro. Vós tendes por pai Satanás, por mãe a carne, por nutriz a soberba, por servo o ódio, por tesouro tereis vosso pecado e como pedras preciosas tereis os vossos vícios. Sobre o vosso coração está escrito: ‘Egoísmo’. As vossas mãos estão sujas das rapinas que fizestes aos vossos irmãos. Fora daqui! Para longe de Mim, todos vós, fazedores de iniqüidades.” E então, enquanto das profundezas dos Céus virão, fulgindo de glória Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas e justos do Reino de Deus, estes e todos aqueles que não cultivaram o amor mas o egoísmo, não o sacrifício mas a comodidade, serão expulsos para longe e confinados no lugar onde o pranto é eterno e onde só há terror. E os que tiverem ressuscitado para a glória, vindo do Oriente e do Ocidente, do Sêtentrião e do Meio-Dia, se reunirão todos junto à mesa da festa nupcial do Cordeiro, Rei do Reino de Deus. E se verá que muitos dos pobres e dos “mínimos” do exército da terra serão os primeiros na cidadania do Reino. E então se verá que nem todos os poderosos de Israel são poderosos no Céu e que nem todos os escolhidos pelo Cristo para terem a sorte de serem seus servos terão sabido merecer ser escolhidos para a festa nupcial. Igualmente se verá que muitos que eram considerados “os primeiros” serão, não somente os últimos, mas nem últimos eles serão. Porque muitos são os chamados, mas poucos os que terão sabido transformar a sua escolha em uma verdadeira glória.

363.8 Enquanto Jesus fala com uma peregrinação dirigida a Jerusalém ou vinda de Jerusalém que está lotada de gente à procura de alojamento, sobrevêm uns fariseus. Eles viram a grande aglomeração e se aproximam para ver o que há. Logo eles avistam a cabeça loura de Jesus destacando-se contra a parede escura da casa de Tomé.

– Abri caminho que queremos dizer uma palavra ao Nazareno, gritam prepotentes.

Sem nenhum entusiasmo a multidão abre caminho e os apóstolos vêem ir ao encontro deles o grupo dos fariseus.

– Mestre, a paz a ti!

– A paz esteja convosco. Que quereis?

– Vais a Jerusalém?

– Como todos os fiéis israelitas.

– Não vás lá. Lá um perigo te espera. Nós o sabemos porque estamos vindo de lá ao encontro com nossas famílias. E viemos prevenir-te porque ficamos sabendo que estavas em Ramá.

– Por quem foi que ficastes sabendo, se é lícito perguntá-lo? –pergunta Pedro, meio desconfiado e pronto para começar uma discussão.

– Tu não tens nada com isto, homem. Fica somente sabendo, tu que nos chamas de serpentes, que junto ao Mestre as serpentes são muitas e faríeis bem em desconfiar dos muitos, dos muitos discípulos poderosos demais.

– Não o digas! Estarás querendo insinuar que Manaém ou…

– Silêncio, Pedro. E tu, fariseu, fica sabendo que nenhum perigo pode afastar um fiel do seu dever. Se perder a vida, isso nada é. O que é grave é perder sua própria alma, indo contra a Lei. Mas tu sabes disso. E sabes também que Eu o sei. Por que, então, me vens tentar? Não sabes talvez que Eu sei por que o fazes?

– Eu não te estou tentando. É verdade. Muitos do meio de nós podem ser teus inimigos. Mas não todos. Nós não te odiamos. 363.9Sabemos que Herodes está à tua procura e te dizemos. Vai-te daqui. Vai-te embora daqui, porque se Herodes te captura, com certeza vai matar-te. É isso que ele deseja.

– Isso é o que ele deseja mas não o fará. Isto Eu sei. Afinal, ide dizer àquela velha raposa que Aquele que ele está procurando está em Jerusalém. De fato, Eu venho expulsando demônios, fazendo curas, sem me esconder. E o faço e o farei hoje, amanhã e depois, enquanto o meu tempo não findar. Mas é necessário que Eu caminhe até chegar ao fim. E é necessário que hoje e depois, e outra, e outra, e mais outra vez, Eu entre em Jerusalém, porque não é possível que o meu caminho termine antes. Porque deve cumprir-se a justiça e isso há de ser em Jerusalém.

– Mas o Batista morreu em outro lugar.

– Ele morreu em santidade e santidade quer dizer: “Jerusalém.” Porque, se agora Jerusalém quer dizer “Pecado”, isto é somente por causa daquilo que é apenas terrestre e que em breve não existirá mais. Mas Eu falo do que é eterno e espiritual, isto é, da Jerusalém dos Céus. Nela, em sua santidade, morrem todos os justos e profetas. Nela Eu morrerei e vós inutilmente quereis induzir-me ao pecado. Eu morrerei também por entre as colinas de Jerusalém, mas não pelas mãos de Herodes, ainda que pela vontade de quem me odeia mais do que ele, porque vedes em Mim o usurpador do ambicionado Sacerdócio e o Purificador de Israel de todas as doenças que o corrompem. Não ponhais, pois, nas costas de Herodes todo este desejo louco de matar, mas tomai cada um de vós a sua parte porque, na verdade, o Cordeiro está sobre um monte ao qual sobem de todos os lados os lobos e os chacais para estrangulá-lo e…

Os fariseus fogem por baixo da saraivada dessas escaldantes verdades…

363.10 Jesus olha como vão fugindo. Vira-se depois para o sul, para o rumo de uma claridade que talvez já seja a região de Jerusalém e, com tristeza, diz:

– Jerusalém, Jerusalém, que matas os teus profetas e apedrejas os que te são mandados, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a ave em seu ninho reúne os seus filhotes sob suas asas, e tu não quiseste! Eis que te vai ser deixada deserta a Casa do teu verdadeiro Dono. Ele virá, fará como o quer o rito, como deve fazer o primeiro e o último de Israel, e depois ir-se-á embora. Não parará mais sobre os teus muros para purificar-te com a sua presença. Eu te asseguro que tu e os teus habitantes não me vereis mais em minha verdadeira figura enquanto não chegar o dia em que digais: “Bendito o que vem em nome do Senhor.” E vós, de Ramá, lembrai-vos destas palavras e de todas as outras para não terdes parte no castigo de Deus. Sede fiéis… Ide. A paz esteja convosco.

E Jesus se retira para a casa de Tomé com todos os familiares dele e os seus apóstolos.

1 benção de Jacó, que está em: Genesis 49,25-26.


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