473. 473. Cura de um menino cego de Sidone uma lição para as famílias.


15 de agosto de 1946.

[…]

473.1 Estou vendo Jesus rodeado pelos apóstolos e pelo povo, que vai saindo de uma sinagoga. Eu sei que é uma sinagoga, porque, através da porta escancarada, estou vendo uma mobília semelhante àquela que eu vi em Nazaré em uma das visões preparatórias para a Paixão.

A sinagoga está na praça central do povoado. É uma praça vazia, sem mais do que algumas casas ao redor e um tanque no centro, servido por uma fonte que derrama uma bela água, muito clara, por uma única bica feita em uma pedra que foi escavada em forma de telha. O tanque serve para dar de beber aos quadrúpedes e a muitos pombos, que esvoaçam de casa em em casa. A fonte serve também para encher os cântaros das mulheres, belos cãntaros de cobre, uns trabalhados a martelo, outros lisos e que resplendem ao sol. Porque aqui também há sol, e quente! A terra da praça está enxuta e amarelenta, como quando o calor do sol a secou. Não há nenhuma árvore na praça. Mas há moitas de figueiras e sarmentos de videiras que passam por cima dos muros dos pomares e se prolongam aos lados das quatro ruas que vêm desembocar na praça. Devemos estar no fim de um verão, e também no fim de um dia. Porque nas pérgulas já não há uvas maduras e o sol não nos manda raios perpendiculares, mas oblíquos, ao chegar ao seu ocaso.

Na praça há doentes que estão esperando por Jesus. Mas não vejo entre eles nenhum milagre. Jesus vai passando, inclina-se sobre eles, os abençoa e conforta, mas não lhes devolve a saúde, pelo menos por enquanto. Há também mulheres com seus meninos e homens de todas as idades. Parecem ser conhecidos do Salvador, pois eles se aglomeram ao redor dele cheios de confiança. Jesus acaricia as crianças, inclinando-se amorosamente sobre elas.

473.2 Em um dos ângulos da praça está uma mulher com um menino ou menina (todos estão vestidos com uma pequena túnica igual, de cores claras). Ela não parece ser do lugar. Eu diria que é de uma condição social mais elevada do que os outros. Sua veste é mais trabalhada, com galões e dobras. Sua túnica não é a túnica simples das mulheres do meio do povo, que têm só um cordão na cintura, o único ornato desse modelo de veste. Esta mulher, ao contrário, tem uma roupa mais complicada que, sem chegar a ser uma obra-prima, como eram aquelas de Madalena, já é bastante graciosa. Na cabeça ela leva um véu leve, muito mais leve do que o que usam as outras e que não é de um linho pouco espesso, pois mais parece musselina, de tão leve que é. O dela é ajustado à metade da testa, com muita graça, e deixa ver e entrever uma cabeleira castanha bem penteada, com madeixas trançadas de modo simples, mas com um cuidado mais experiente do que o das outras mulheres, que têm suas tranças formando um emaranhado sobre a nuca, ou passadas em círculo sobre a cabeça. Sobre os ombros ela traz um manto apropriado, isto é, um pano que eu não sei se é costurado, ou se foi tecido assim arredondado e que, do lado do pescoço tem um galão, que termina em um fecho de prata. O pano do manto cai solto até o calcanhar com belas dobras.

A mulher segura pela mão o menino, ou menina de que eu falei. É um belo menino de uns sete anos. Ele também é robusto, mas sem nenhuma vivacidade. Está muito quieto, de cabeça inclinada, seguro pela mão da mãe, sem preocupar-se com nada do que acontece.

A mulher fica olhando, mas não tem coragem de aproximar-se do grupo que se formou ao redor de Jesus. Ela parece estar indecisa, numa dúvida entre o desejo de ir e o medo de ir para a frente. Mas depois ela se decide a fazer uma coisa para consegui-lo: chamar a atenção de Jesus. Ela vê que Ele pegou em seus braços um meninão, todo rosado e sorridente, que uma mãe lhe apresentou, e que Ele, falando a um velhinho, o aperta ao coração, fazendo um movimento como o que se faz com um berço. Ela se inclina sobre o menino, e lhe diz qualquer coisa.

O menino levanta a cabeça. É, então, que eu vejo um rostinho triste, com os olhos fechados. Ele é cego.

– Tem piedade de mim, Jesus! –diz ele.

A vozinha infantil atravessa o ar parado da praça e, com seu lamento, chega até o grupo.

473.3 Jesus se volta e vê. Move-se sem demora. Com uma solicitude amorosa. Nem entrega o pequenino que está em seus braços à mãe. Vai, com a beleza de sua estatura, para o rumo do pobre ceguinho que, depois de ter dado aquele grito, baixou a cabeça, e não atende à mãe que lhe está dizendo que repita o grito. Jesus já está à frente da mulher. E olha para ela. Ela também olha para Ele. Depois, timidamente, ela abaixa o olhar. Jesus a ajuda. Ele entrega o menino que estava em seus braços à mulher que lho havia apresentado.

– Mulher, este é teu filho?

– Sim, Mestre, é o meu primogênito.

Jesus faz carícias à cabecinha inclinada. Jesus parece não ter visto a cegueira do pequeno. Mas eu penso que Ele age assim de propósito, a fim de fazer que a mãe fale qual o seu pedido.

– Então, o Altíssimo abençoou a tua casa com uma prole numerosa, dando-te em primeiro lugar o filho do sexo masculino, consagrado ao Senhor.

– Eu tenho um só filho do sexo masculino. As outras três são meninas. E não terei outros filhos…

E soluça.

– Por que choras, mulher?

– Porque o meu menino é cego, Mestre.

– E tu quererias que ele visse. Podes crer?

– Eu creio, Mestre. Já me disseram que Tu já abriste olhos que estavam fechados. Mas o meu filho nasceu com os olhos secos. Olha os olhos dele, Jesus. Debaixo das pálpebras, não há nada…

Jesus levanta para o seu lado aquele rostinho tão precocemente sério, olha para ele, levantando as pálpebras com o polegar. Há um vazio por baixo. Jesus torna a falar, conservando levantado com uma mão o rostinho virado para Si.

– Então, para que vieste, mulher?

– Para que… eu sei que é mais difícil para o meu menino… mas, se é verdade que Tu és o Esperado, Tu o podes fazer. O teu Pai foi quem fez os mundos… E, não poderias Tu dar duas pupilas ao meu filho?

– Crês tu que Eu venho do Pai, do Senhor Altíssimo?

– Eu creio isso, que tudo podes.

473.4 Jesus olha para ela, como para avaliar quanta fé há nela e que grau de pureza tem sua fé. Depois mostra um sorriso. E, em seguida, diz:

– Menino, vem a Mim.

E o leva pela mão para cima de uma mureta com meio metro de altura, que foi levantada entre a estrada e uma casa, uma espécie de parapeito para separar a casa da estrada que neste ponto faz uma curva.

Quando o menino está bem firme sobre aquela elevação, Jesus fica sério, impressionante. O grupo de pessoas se comprime ao redor dele, do menino e da mãe, que está tremendo. Eu estou vendo Jesus de lado, de perfil. Todo empertigado em seu manto azul muito escuro sobre a veste que é somente um pouco mais clara, está com um semblante inspirado. Ele parece mais alto e até mais robusto como sempre, quando Ele libera um poder miraculoso. E esta é uma das vezes em que Ele me parece mais majestoso. Põe as mãos sobre a cabeça do menino, as mãos abertas, mas com os dois polegares apoiados sobre as órbitas vazias. Levanta a cabeça e reza intensamente, mas sem mover os lábios. Certamente está em colóquio com seu Pai. Depois diz:

– Vê! Eu quero! E louva o Senhor!

E à mulher diz:

– Seja premiada a tua fé. Eis aqui para ti o filho que será a tua honra e a tua paz. Mostra-o ao teu marido. Ele voltará ao teu amor e a tua casa conhecerá novos dias felizes.

473.5 A mulher, que já deu um grito muito alto de alegria, ao ver, depois de estarem levantados os polegares divinos, que, das órbitas vazias dois esplêndidos olhos de um azul escuro com os do Mestre, a estão fitando, espantados, mas felizes por baixo da franja dos cabelos cor de amora, dá um outro grito e, mesmo segurando o filho apertado contra o coração, se ajoelha aos pés do Senhor, dizendo:

– Até isto Tu sabes? Tu és verdadeiramente o Filho de Deus.

E beija a veste e as sandálias dele, depois se levanta, transfigurada de alegria, e diz:

– Ouvi todos. Eu venho das longínquas terras de Sidon. Vim porque uma outra mãe me falou do Rabi de Nazaré. Meu marido, judeu e mercador, tem naquela cidade os seus empórios, para o comércio com Roma. Rico e fiel à Lei, não me amou mais, desde quando eu, depois de ter-lhe dado um filho-homem infeliz, dei-lhe depois três fêmeas, tornando-me depois estéril. Ele se afastou de casa, e eu, sem chegar a ser repudiada, fiquei nas mesmas condições de uma repudiada, e já sabia que ele queria desfazer-se de mim para ter de outra mulher um herdeiro capaz de continuar o comércio e gozar das riquezas paternas. Antes de partir, eu fui ao meu esposo e lhe disse: “Espera, senhor. Se eu voltar com o filho ainda cego, repudia-me. Mas, se não for assim, não firas de morte o meu coração, negando um pai aos teus filhos.” E ele me jurou: “Pela glória do Senhor, mulher, eu te juro que, se me troxeres o filho são, não sei como poderás fazer isso, pois o teu ventre não soube nem dar-lhe olhos, eu voltarei a ti, como nos dias do primeiro amor.” O Mestre não podia saber nada de minha dor de esposa, e, contudo me consolou também neste ponto. Glória a Ti, Mestre e Rei.

A mulher cai novamente de joelhos e chora de alegria.

473.6 – Vai. Dize ao Daniel, teu marido, que Aquele que criou os mundos deu duas pupilas claras ao pequeno consagrado ao Senhor. Porque Deus é fiel às suas promessas e jurou que quem crê nele verá toda especie de prodígios. Que ele também seja fiel ao juramento que fez, e não cometa pecado de adultério. Dize isto ao Daniel. Vai. Sê feliz. Eu te abençoo e a este menino e contigo aos que te são caros.

A multidão forma um coro de louvores e de felicitações, e Jesus entra em uma casa vizinha para repousar.

A visão cessa aqui. E eu lhes garanto que ela me deixou profundamente chocada.

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17 de agosto de 1944.

473.7 Diz Jesus:

– Deus, para aqueles que têm fé nele, atende sempre bem aos pedidos de seus filhos e lhes dá mais do que eles pediram. Acredita nisto e crede todos assim. Aquela mulher, que de Sidon tinha ido a Mim, com duas espadas fincadas no segredo do seu coração, e, como ter que revelar certas desventuras íntimas é mais penoso do que dizer “Estou doente.” Ela só teve coragem de dizer-me uma das suas desventuras, Eu faço para ela um segundo milagre.

Aos olhos do mundo, terá parecido e parecerá, ainda que seja muito mais fácil restabelecer a concórdia entre dois esposos por um motivo que já cessou de existir, e felizmente assim foi, do que não dar duas pupilas a dois olhos que nasceram sem pupilas. Não é assim. Fazer duas pupilas para o Senhor e Criador é uma coisa muito simples, assim como o é o restabelecer em um cadáver o sopro da vida. O Senhor da vida e da morte certamente não sente falta de sopros de vida para introduzi-los de novo nos mortos, nem de duas gotas de humor para pingar em um olho seco. Basta-lhe querer que Ele pode. Porque isso depende somente do poder dele. Mas, quando se trata da concórdia entre os homens, é necessária a “vontade” dos homens, unida ao desejo de Deus. Deus, a não ser raramente, não trata com violência a liberdade humana. Por via de regra, Ele vos deixa livres para agirdes como quiserdes.

Aquela mulher, vivendo em uma terra de idólatras, mas conservando, como o seu esposo, a fé no Deus de seus pais, já merece a benignidade de Deus. E, fazendo a sua fé avançar até para lá do limite das medidas humanas, não fazendo caso das dúvidas e negações da maioria dos crentes judeus, e o provam estas suas palavras ao seu esposo: “Aguarda a minha volta”, pois ela estava certa de que voltaria com o seu filho curado: assim ela mereceu um duplo milagre. Mereceu ainda o difícil milagre de abrir os olhos do espírito do seu consorte, olhos para os quais a luz se tinha apagado e não podiam ver o amor e a dor de sua esposa, e atribuíam a ela a culpa de uma coisa que culpa não é.

473.8 Eu quero também, e isto sirva para as esposas, que se reflita sobre a humildade respeitosa desta irmã delas. “Eu fui ao meu esposo e lhe disse: ‘Espera, senhor’.”

Ela estava com a razão, porque pôr a culpa em uma mãe por um defeito de nascimento é uma estultice e uma crueldade. O coração dela já está ferido, só ao ver seu infeliz filho. De dois modos ela está com a razão porque, mesmo tendo sido deixada pelo marido por ter-se tornado estéril, conhecendo a intenção dele de divorciar-se, contudo, ela continua sendo sua “mulher”, isto é, companheira fiel e submissa, como é da vontade de Deus e ensinado na Escritura. Nada de rebelião nem sede de vingança ou intenção de achar outro homem para não ser a “mulher sozinha.”

“Se eu não voltar com o filho curado, repudia-me. Mas, se eu voltar, não fiques ferindo de morte o meu coração e não negues um pai aos teus filhos.”

Não está até parecendo ouvirmos falar Sara e as antigas mulheres hebreias?

Como é diferente, ó mulheres, a vossa linguagem de agora! Mas também como é diferente o que obtendes de Deus e do esposo. As famílias vão-se destruindo sempre mais.

473.9 Como sempre, ao realizar o milagre, tive que dar um sinal que o tornasse ainda mais incontestável. Eu devia persuadir um grande número de pessoas, fechadas atrás das barreiras de uma antiga maneira de pensar, e guiadas por uma flecha que era minha inimiga. Eis que chegou a necessidade de fazer brilhar com toda a claridade o meu poder sobrenatural. Mas o ensinamento da visão não é este. Ele está na fé, na humildade, na fidelidade ao cônjuge, na humildade, na tomada do caminho certo, ó mulheres e mães, que tendes encontrado espinhos, onde esperáveis encontrar rosas, para verdes nascerem, sobre os açúleos que vos picam, novos ramos floridos.

Voltai-vos para o Senhor vosso Deus, que instituiu o matrimônio para que o homem e a mulher não ficassem sozinhos, mas se amassem, formando uma só carne, inseparáveis, tendo sido unidos por Ele, que vos deu o Sacramento, a fim de que sobre as núpcias descesse a sua bênção e, pelos meus merecimentos, tivésseis tudo o que vos é necessário em vossa vida de cônjuges e procriadores. A fim de voltar-vos para Ele, com um rosto e disposições firmes, sede honestas, boas, respeitosas, fiéis, verdadeiras companheiras de vosso esposo, não umas simples hóspedas da casa. Ou, pior ainda, umas estranhas, que um acaso fez que estejam reunidas debaixo de um telhado, e outro acaso fez que se encontrem em algum albergue de peregrinos.

Muitas vezes isso está acontecendo agora. O homem cai em falta? Mas isso não justifica a maneira de agir de muitas mulheres. E ainda menos a justifica, quando a um bom companheiro vós não sabeís retribuir bem com bem e amor com amor. Eu não quero nem ver o que infelizmente é tão comum, o caso de vossas infidelidades carnais, que não vos tornam diferentes das meretrizes, com o agravante de praticar o vício hipocritamente e o de sujar o altar da família, ao redor do qual estão as almas angelicais dos vossos inocentes. Eu falo da vossa infidelidade moral, sendo infiéis ao pacto de amor, jurado diante do meu altar.

Pois bem. Eu disse1: “Aquele que olha para uma mulher, para desejá-la, já cometeu adultério em seu coração.” Eu disse: “Aquele que manda embora a mulher com o libelo de repúdio, a expõe ao adultério.” Mas agora, agora que muitíssimas mulheres são umas estranhas para o marido, Eu digo: “Essas não amam com sua alma, sua mente e seu coração ao seu companheiro, o empurram para o adultério, e, se a esse homem Eu perguntar a causa do seu pecado, não o farei menos com aquela que não o comete, mas que o faz existir.” A Lei de Deus é necessário compreendê-la em toda a sua extensão e profundidade, é preciso saber vivê-la em sua plena verdade.

Fica com a minha paz, tu a quem este assunto não interessa, e conserva o teu coração fixo em Mim.

1 disse, em 174.13.18.19.


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