98. 98. Encontro com Madalena no lagoe lição aos discípulos perto de Tiberíades.
5 de fevereiro de 1945.
98.1 Jesus com todos os seus — já são em treze, e mais Ele — estão, sete em cada barco sobre o lago da Galileia. Jesus está no barco de Pedro, e é o primeiro, junto a Pedro, André, Simão, José e os dois primos. No outro estão os dois filhos de Zebedeu com os restantes, ou seja, Iscariotes, Filipe, Tomé, Natanael e Mateus.
Os barcos velejam ligeiros, impelidos por um vento norte fresco, que mal encrespa a água com tantas pequeninas rugas, sublinhadas por um fio de espuma, que forma um tule sobre o azul turquesa do belo lago sereno. Vão, deixando atrás de si dois sulcos, que nas bases se beijam, confundindo suas alegres espumas em um único riso de águas, porque vão quase juntos, o de Pedro está somente a uns dois metros na frente.
De um barco ao outro, distantes poucos metros entre si, trocam-se palavras e comentários. Por estes eu deduzo que os galileus ilustram e explicam aos judeus os pontos do lago, o comércio que aí fazem, as personalidades que ali habitam, as distâncias do lugar de partida e de chegada, ou seja, Cafarnaum e Tiberíades. Os barcos não estão indo para a pesca, mas estão sendo usados agora somente para o transporte das pessoas.
Jesus está sentado à proa e goza visivelmente da beleza que o circunda, do silêncio, de todo aquele azul puro do céu e das águas as quais formam uma espiral às margens verdes, pontilhadas de povoados inteiramente brancos entre o verde. Ele se aparta das conversações dos discípulos, pois está muito à frente, na proa, quase deitado sobre uma pilha de velas, com a cabeça frequentemente inclinada sobre aquele espelho de safira, que é o lago, como se estudasse o fundo e se interessasse por tudo o que vive naquelas águas tão límpidas. Mas quem sabe o que estará pensando…
Pedro o interroga por duas vezes para saber se o sol — que já se levantou do oriente e atinge em cheio o barco com seus raios, não ainda ardentes mas já quentes — o incomoda; uma outra vez lhe pergunta se não quer pão e queijo como os outros. Mas Jesus não quer nada, nem toldo, nem pão. E Pedro o deixa em paz.
98.2 Um grupinho de pequenos barcos de passeio, parecidos com umas chalupas, mas todos cheios de baldaquinos cor de púrpura e de macias almofadas, atravessa o caminho por onde vão indo os barcos dos pescadores. Com eles passam sons, risadas e perfumes.
Estão cheios de belas mulheres e de alegres romanos e palestinos, mas mais de romanos, ou pelo menos não palestinos, porque alguns deles devem ser gregos; isso é o que deduzo pelas palavras de um jovem magro, elegante, moreno como uma azeitona quase madura, todo enfeitado em uma curta veste vermelha, limitada em baixo por um pesado galão, e presa à cintura por uma cinta que é uma obra-prima do ourives. Ele está dizendo:
– A Grécia é bela! Mas nem mesmo a minha olímpica pátria tem este azul e estas flores. E, na verdade, não é de admirar-se que as deusas a tenham abandonado, para virem aqui. Desfolhemos sobre as deusas, não mais gregas mas judias, as flores, as rosas e as homenagens…
E joga sobre as mulheres de seu barco as pétalas de esplêndidas rosas, e joga outras no barco vizinho.
Um romano responde:
– Desfolha, desfolha, grego! Mas Vênus está comigo. Eu não desfolho, eu colho as rosas nesta bela boca. É mais doce!
E se inclina para beijar Maria de Magdala, sobre a boca aberta pelo riso, que está meio deitada sobre almofadas e com a cabeça loira no colo do romano.
Já os barquinhos estão bem na frente dos barcos pesados, e, ou por imperícia dos remadores, ou por alguma lufada de vento, por pouco não se chocam.
– Fiquem atentos, se dão valor à vida –grita Pedro enfurecido, enquanto vira, dando um tranco com a barra, para evitar o choque. Insultos de homens e gritos de susto das mulheres vão de um barco ao outro.
Os romanos insultam os galileus, dizendo:
– Afastai-vos, cães de hebreus que sois!
Pedro e os outros galileus não deixam passar o insulto e Pedro especialmente, vermelho como um frango, em pé justamente sobre a beira do barco, que balança fortemente, com as mãos nas ilhargas, responde no mesmo tom, não poupando nem romanos nem gregos, nem hebreus, nem hebreias. Ao contrário, a estas dedica um colar de títulos tão honrosos, que minha caneta se recusa a escrever.
O bate-boca durou enquanto o emaranhado das quilhas e dos remos não se desembaraçou e cada um pôde continuar o seu caminho.
98.3 Jesus não mudou de posição. Permaneceu sentado, ausente, sem olhares nem palavras a respeito dos barcos e dos seus ocupantes. Apoiado sobre um cotovelo, continuou a olhar para a praia longínqua, como se nada acontecesse. Também Nele foi jogada uma flor. Não sei por quem, certamente por uma mulher, porque ouvi uma risadinha feminina acompanhar o ato. Mas Ele… nada. A flor quase que lhe atinge no rosto, e cai sobre as tábuas, terminando aos pés do impetuoso Pedro.
Quando os barquinhos estão para se afastarem, vejo Madalena ficar em pé, e, seguindo o rumo indicado por uma companheira de vício, dirige seus olhos brilhantes para o rosto sereno e distante de Jesus. Como está distante do mundo aquele rosto!!
98.4 – Diz, Simão! –interpela Iscariotes–. Tu, que és judeu como eu, responde-me: Aquela belíssima loira que estava no colo do romano, aquela que agora mesmo se tinha posto em pé, não é a irmã de Lázaro de Betânia?
– Eu não sei de nada –responde seco Simão, o cananeu–. Eu voltei para o meio dos vivos faz pouco tempo e aquela mulher é jovem…
– Espero que não me vás dizer que não conheces a Lázaro de Betânia! Sei bem que és amigo dele e que estiveste em sua casa com o Mestre.
– E se assim fosse?
– E posto que assim é, tu deves conhecer também a pecadora, que é irmã de Lázaro. Até os sepulcros a conhecem! Há dez anos que ela dá de falar de si. Desde a puberdade começou a ser leviana. Mas, de quatro anos para cá! Não podes ignorar o escândalo, mesmo que estavas no “vale dos mortos.” Toda Jerusalém falou dele. E então Lázaro se encerrou em Betânia… Afinal, ele faz bem. Ninguém mais teria posto o pé em seu magnífico palácio de Sião, onde ela também ia e vinha. Eu quero dizer: ninguém que fôsse santo. No campo… já se sabe!! E além disso, ela está por toda parte, exceto em sua casa… Agora certamente está em Magdala… estará com qualquer novo amor… Não respondes? Podes desmentir-me?
– Não desminto. Eu me calo.
– Então é ela? Então, tu também a reconheceste!
– Eu a vi, quando era menina e pura. Revejo-a agora… Mas a reconheço. Impudicamente ela reproduz a figura de sua mãe, que era uma santa.
– E então por que estavas quase negando que o teu amigo a tivesse por irmã?
– As nossas chagas e as daqueles que amamos, nós procuramos conservá-las cobertas. Especialmente se formos honestos.
Judas dá um sorriso amarelo.
98.5 – Dizes bem, Simão. E tu és um honesto –observa Pedro.
– E tu a tinhas reconhecido? Certamente vais a Magdala vender o teu peixe, e quem sabe quantas vezes a tens visto!!
– Rapaz, saibas que quando se tem os rins cansados por um trabalho honesto, as mulheres não nos causam mais desejos. Ama-se somente o leito honesto da nossa esposa.
– É. Mas uma mercadoria bonita agrada a todos! Ao menos, se não fôsse para outra coisa, se olha.
– Para que? Para dizer: “Não é alimento para a tua mesa?” Não, de certo. Do lago e do ofício eu aprendi muitas coisas, e uma é esta: que os peixes da água doce e das águas profundas não foram feitos para a água salgada nem para rio turbilhonante.
– Que queres dizer?
– Quero dizer que cada um deve ficar no seu lugar, para não morrer de maneira má.
– A Madalena estava te fazendo morrer?
– Não. Eu tenho o couro duro. Mas… diz-me uma coisa: tu te sentes mal, talvez?
– Eu? Oh! Nem mesmo a olhei!!
– Mentiroso! Aposto que estavas consumido por não estar neste primeiro barco e tê-la mais perto… Terias suportado até a mim para estares mais próximo… Tanto é verdade aquilo que digo, que me estás honrando com a tua palavra, por causa dela, depois de tantos dias de silêncio.
– Eu? Mas não teria nem sido visto! Ela olhava continuamente para o Mestre!
– Ah! Ah! Ah! e diz que não a olhava! Como fizeste para ver onde ela estava olhando, se não a olhavas?
Todos riem, menos Judas, Jesus e o Zelote, diante da observação de Pedro.
98.6 Jesus põe um fim à discussão, que demonstrou não ter ouvido, perguntando a Pedro:
– Aquela é Tiberíades?
– Sim, Mestre. Agora vou fazer a acostagem.
– Espera. Podes levar o barco para aquela enseada tranquila? Eu gostaria de falar a vós somente.
– Eu vou medir a profundidade e saberei dizer a Ti.
E Pedro baixa na água uma vara comprida, e vai devagar em direção à margem:
– Pode-se, Mestre. Devo ir ainda mais para a margem?
– O mais que puderes. Lá há sombra e solidão. Isto me agrada.
Pedro vai até perto do pé do barranco. A terra fica à distância de uns quinze metros, no máximo.
– Agora, eu ancoraria.
– Para. E vós, vinde o mais perto que puderdes, e ouvi.
Jesus deixa o seu lugar e vai sentar-se no centro do barco, sobre um pequeno banco, que vai de uma extremidade a outra. Em sua frente está o outro barco, com os seus ao redor Dele.
– Ouvi. Parecer-vos-á que Eu me abstraía às vezes das vossas conversações, e seja por isso um mestre negligente, que não vigia os seus próprios alunos. Ficai sabendo que a minha alma não vos deixa um só momento. Tereis já visto um médico que estuda um que adoeceu de um mal ainda desconhecido e de sintomas contraditórios? Ele traz o doente sob sua constante observação, depois de cada vez que o visita, e o observa, tanto quando está dormindo, como quando está acordado, de manhã e à noite, quando está calado e quando está falando, porque tudo pode ser sintoma e guia para decifrar qual é a doença escondida, e para indicar o caminho da cura. A mesma coisa faço Eu convosco. Eu vos seguro com fios invisíveis, mas muito sensíveis, que estão enxertados em Mim, e que me transmitem até as mais leves vibrações do vosso eu. Deixo-vos crer que sois livres, para que vos manifesteis sempre mais naquilo que sois, coisa esta que acontece quando um aluno ou um maníaco pensa que o vigilante o perdeu de vista.
98.7 Vós sois um grupo de pessoas, mas formais um núcleo, ou seja, uma só coisa. Por isso, sois um complexo, que toma a forma de um ente, e que é estudado em cada uma das suas características, melhores ou piores, para formá-lo, amalgamá-lo, quebrar-lhe as arestas, aumentá-lo em seus lados poliédricos e fazer dele uma só coisa perfeita. Por isso, Eu vos estudo. E vos estudo até enquanto estais dormindo.
Que é que vós sois? Que é que deveis tornar-vos? Vós sois sal da terra. Isto é o que deveis tornar-vos: sal da terra. Com o sal se preservam as carnes da corrupção e, com a carne, muitas outras mercadorias. Mas poderia o sal salgar, se não fôsse salgado? Convosco Eu quero salgar o mundo, para torná-lo cheio de um sabor celeste. Mas, como podereis salgar, se perderdes vosso sabor?
Que é que vos faz perder o sabor celeste? O que é humano. A água do mar, do verdadeiro mar, não é boa para se beber, de tão salgada que é, não é verdade? No entanto, se alguém pega um copo de água do mar e o despeja em uma bilha de água doce, eis que pode-se bebê-la, porque a água do mar ficou tão diluída, que perdeu a sua acridez. A humanidade é como a água doce, que se mistura com o vosso sal celeste. Ainda que, por uma suposição, se pudesse derivar um rio do mar, e introduzi-lo na água deste lago, poderíeis vós depois reencontrar aquele fio de água salgada? Não. Ele se teria perdido no meio de tanta água doce. Assim acontece convosco, quando imergis a vossa missão, ou melhor, quando a submergis em tanta humanidade.
Vós sois homens. Sim. Eu sei disso. Mas, e Eu quem sou? Sou Aquele que tem consigo toda força. E, que é que Eu faço? Comunico essa força, depois de vos ter chamado. Mas, que adianta Eu comunicá-la, se vós a dispersais sob uma avalancha de sensualidade e de sentimentos humanos?
Vós sois, deveis ser, a luz do mundo. Eu vos escolhi, Eu, a Luz de Deus, dentre os homens, para continuardes a iluminar o mundo depois que Eu tiver voltado para o Pai. Mas podeis vós dar luz, se sois umas lanternas apagadas ou fumacentas? Não, ao contrário, com a vossa fumaça — pior é a fumaça ambígua do que um pavio já completamente apagado — vós obscureceríeis aquele vislumbre de luz, que os corações ainda possam ter. Oh! Infelizes daqueles que, procurando a Deus, dirigir-se-ão aos apóstolos e, em lugar de luz, terão fumaça! Terão deles escândalo e morte. Mas maldição e castigo terão esses apóstolos indignos.
98.8 Grande sorte a vossa! Mas também grande, tremenda responsabilidade! Recordai-vos de que aquele, a quem mais é dado, mais está obrigado a dar. E a vós é dado o máximo, tanto a instrução, como os dons. Sois instruídos por Mim, Verbo de Deus, e recebeis de Deus o dom de ser “os discípulos”, ou seja, os continuadores do Filho de Deus. Eu queria que meditásseis sempre sobre essa vossa eleição e também que vos examinásseis, e ainda vos pesásseis… e se alguém se sente que está apto para ser fiel — não quero nem dizer: se alguém não se sente pecador e impenitente; Eu só digo: se alguém se sente apto para ser somente um fiel — mas não sente em si o nervo de apóstolo, que se retire.
O mundo, para quem é seu amante, é tão vasto, bonito, suficiente e variegado! Oferece todas as flores e todos os frutos adequados para o ventre e para a sensualidade. Eu não ofereço outra coisa, senão a santidade. Esta, na terra, é o que há de mais estreito, pobre, íngreme, espinhoso e perseguido. No Céu sua estreiteza se muda em imensidão, sua pobreza em riqueza, sua espinhosidade em tapete florido, o seu ser íngreme em caminho liso e suave, sua perseguição em paz e felicidade. Mas aqui exige-se a fadiga de um herói para ser santos. E Eu vos ofereço só isto.
Quereis permanecer Comigo? Não vos sentis de fazê-lo? Oh! Não vos olheis admirados e angustiados! Vós me ouvireis fazer ainda muitas vezes esta pergunta. E, quando a ouvirdes, pensai que o meu coração chora ao fazê-la, porque ele fica ferido pela vossa surdez, diante da vocação. Examinai-vos, então, e depois, julgai com honestidade e sinceridade, e decidi-vos. Para não serdes réprobos, decidí. Dizei: “Mestre, amigos, eu reconheço que não fui feito para seguir este caminho. Dou-vos um beijo de despedida e vos digo: rezai por mim.” Melhor assim do que trair. Melhor assim…
Que dizeis? Trair a quem? A quem? A Mim. A minha causa, ou seja, a causa de Deus — porque Eu sou um com o Pai — e vós. Sim. Vós trairíeis. Trairíeis a vossa alma, dando-a a satanás. Quereis permanecer hebreus? Eu não vos obrigo a mudar. Mas não traiais. Não traiais à vossa alma, ao Cristo e a Deus. Eu vos asseguro que nem Eu, nem os que me são fiéis, vos criticarão nem vos exporão ao desprezo das multidões dos fiéis. Há pouco um dos vossos irmãos disse uma grande palavra: “As nossas chagas e as daqueles que nós amamos, procuramos conservá-las escondidas.” E aquele que se separasse seria uma chaga, uma gangrena que, tendo nascido em nosso organismo apostólico, separar-se-ia por gangrena completa, deixando um sinal doloroso que nós, com todo o cuidado, teríamos escondido.
98.9 Não. Não choreis, ó vós, que sois melhores. Não choreis. Eu não guardo rancor de vós, nem sou intransigente por ver que sois tão vagarosos. Faz pouco tempo que fostes escolhidos e não posso pretender que sejais perfeitos. Mas não o pretenderei nem mesmo daqui a alguns anos, depois de haver dito cem e duzentas vezes as mesmas coisas inutilmente. Ao contrário, ouvi: daqui a alguns anos sereis, ao menos alguns, menos ardentes, do que agora que sois neófitos. A vida é assim… A humanidade é assim… Ela perde o impulso, depois do primeiro salto. Mas (Jesus se ergue de repente), mas Eu vos asseguro que vencerei. Purificados por uma seleção natural, fortificados por uma mistura sobrenatural, vós, os melhores, tornar-vos-eis os meus heróis. Os heróis de Cristo. Os heróis do Céu. A potência dos Césares será um pó, diante da realeza do vosso sacerdócio. Vós, pobres pescadores da Galileia, vós, judeus desconhecidos, vós, números entre a massa dos homens presentes, sereis mais conhecidos, aclamados, venerados do que César e do que todos os Césares que teve e terá a terra. Vós conhecidos, vós benditos, em um futuro próximo e no mais remoto dos séculos, até o fim do mundo.
98.10 A esta sublime sorte Eu vos escolho. Vós, que sois honestos na vontade. E para que dessa sorte sejais capazes, vos dou as linhas essenciais do vosso caráter de apóstolos.
Ser sempre vigilantes e prontos. Que os vossos lombos sejam cingidos, sempre cingidos, e as vossas lâmpadas acesas, como estão as daqueles que, de um momento para outro, devem partir ou correr ao encontro de alguém que chega. E, de fato, vós sois, vós sereis, até que a morte vos pare, os incansáveis peregrinos, em busca de quem está errante; e até que a morte apague a vossa lâmpada, ela deve ser mantida alta e acesa, para indicar o caminho aos desviados que vêm em direção ao aprisco de Cristo.
Fiéis deveis ser ao Patrão, que vos pôs à frente deste serviço. Será premiado aquele servo que o Patrão encontrar sempre vigilante, e que for surpreendido pela morte em estado de graça. Não podeis, não deveis dizer: “Eu sou jovem. Tenho tempo de fazer isto e aquilo, e depois pensar no Patrão, na morte e na minha alma.” Morrem os novos como os velhos, os fortes como os fracos. E aos assaltos da tentação estão igualmente sujeitos velhos e jovens, fortes e fracos. Olhai que a alma pode morrer antes do corpo, e vós podeis levar, sem saber, andando por aí, uma alma pútrida. Tão insensível é a morte de uma alma! É como a morte de uma flor. Não há grito, não há convulsões… inclina apenas a sua chama, como uma corola cansada, e se apaga. Depois, às vezes muito depois, imediatamente depois outras vezes, o corpo percebe que está levando dentro de si um cadáver cheio de vermes, e torna-se louco de espanto, e se mata para fugir àquele conúbio… Oh! não foge! Cai exatamente com a sua alma cheio de vermes sobre um fervilhamento de serpentes na Geena.
Não sejais desonestos como corretores ou causídicos, que tomam partido por dois clientes opostos. Não sejais falsos como os politiqueiros, que chamam de “amigo” a este e àquele, e depois são inimigos deste e daquele. Não penseis em agir de dois modos. Com Deus não se brinca e nem a Ele se engana. Fazei com os homens como fazeis com Deus, porque uma ofensa feita aos homens é como feita a Deus. Procurai querer que Deus vos veja tais como quereis ser vistos pelos homens.
98.11 Sede humildes. Não podeis censurar o vosso Mestre de não sê-lo. Eu vos dou o exemplo. Fazei como Eu faço. Humildes, doces, pacientes. O mundo se conquista com isto. Não com violência e força. Fortes e violentos sede contra os vossos vícios. Erradicai-os, mesmo à custa de rasgar pedaços do coração. Eu vos disse, há dias, de vigiar os olhares. Mas vós não sabeis fazer isso. Eu vos digo: seria melhor que tornásseis cegos, arrancando-vos os olhos cobiçosos, do que tornar-vos luxuriosos.
Sede sinceros. Eu sou Verdade. Tanto nas coisas excelsas, como nas humanas. Quero que vós sejais também sinceros. Por que andar com enganos Comigo, ou com os irmãos, ou com o próximo? Por que brincar de enganar? Como? Tão orgulhosos como sois, e não tendes o orgulho de dizer: “Quero não ser apanhado em mentira?” E sede sinceros com Deus. Credes enganá-lo com formas de orações longas e públicas. Oh! Pobres filhos! Deus vê o coração!
Sede castos em fazer o bem. E também em dar esmola. Um publicano soube sê-lo, antes de sua conversão. E vós não o saberíeis? Sim, Eu te louvo, Mateus, pela casta oferta semanal, que só Eu e o Pai sabíamos que era tua, e te estou citando como um exemplo. Esta também é uma castidade, amigos. Não descubrais a vossa bondade, como não descobriríeis uma filha mocinha, aos olhos de uma multidão. Sede virgens em fazer o bem. É virgem o ato bom, quando ele está isento da união de um pensamento de louvor e de estima ou do estímulo da soberba.
Sede esposos fiéis à vossa vocação a Deus. Não podeis servir a dois patrões. O leito conjugal não pode acolher duas esposas, contemporaneamente. Deus e satanás não podem compartilhar de vossos amplexos. O homem não pode, e não o podem nem Deus nem satanás, partilhar de um tríplice abraço, sendo os três contrários um ao outro.
Sede alheios, tanto da fome de ouro como da fome de carne, da fome da carne como da fome do poder. E isso é o que satanás vos oferece. Oh! As suas mentirosas riquezas! Honras, êxito, poder, riquezas: negócios obscenos, que tem como moeda a vossa alma.
Contentai-vos com pouco. Deus vos dá o necessário. Basta. Isto Ele vos garante, como o garante ao pássaro do céu, e vós sois bem mais do que os pássaros. Mas Ele quer de vós confiança e moderação. Se tiverdes confiança, Ele não vos decepcionará. Se tiverdes moderação, o dom que vos dá cada dia será suficiente.
98.12 Não sejais pagãos, mesmo sendo de Deus só de nome. Pagãos são aqueles que amam o poder e o ouro mais que a Deus, a fim de parecer uns semideuses. Sede santos, e sereis semelhantes a Deus na eternidade.
Não sejais intransigentes. Sendo todos pecadores, sejais para com os outros como gostaríeis que os outros fossem convosco, ou seja, cheios de compaixão e perdão.
Não julgueis. Oh! Não julgueis! Faz pouco tempo que estais Comigo e, no entanto, vede quantas vezes, Eu, inocente, já fui sem razão mal julgado e acusado de pecados inexistentes. O mau juízo é ofensa. E só quem é um verdadeiro santo é que não responde a uma ofensa com outra. Por isso, abstende-vos de ofender, para não serdes ofendidos. Não faltareis assim nem com a caridade, nem com a santa, querida e suave humildade, a inimiga de satanás, junto à castidade.
Perdoai, perdoai sempre. Dizei: “Perdoai-me, ó Pai, para que eu seja por Ti perdoado dos meus infinitos pecados.”
Melhorai-vos de hora em hora, com paciência, com firmeza, com heroicidade. E quem é que vos diz que tornar-vos bons não seja penoso? Ao contrário, Eu vos digo: é a maior de todas as fadigas. Mas o prêmio é o Céu, e merecendo por isso consumar-vos em tal fadiga.
98.13 E amai. Oh! Qual, qual palavra devo dizer para persuadir-vos ao amor? Nenhuma é apta para converter-vos a ele, ó pobres homens, que satanás incita! E, então, eis que Eu vos digo: “Pai, apressa a hora da purificação. Esta terra e este teu rebanho estão áridos e doentes. Mas existe um orvalho que os pode abrandar e purificar. Abre a fonte desse orvalho! Abri a Mim. Eis, Pai. Eu ardo por fazer o teu desejo que é o meu e do Amor eterno. Pai, Pai, Pai! Olha o teu Cordeiro, e sê o seu Sacrificador.”
Jesus está realmente inspirado. Posto de pé, com os braços abertos em cruz, o rosto voltado para o céu, tendo atrás de si o azul do lago e vestido com sua veste de linho, parece um arcanjo em oração.
Anula-se a minha visão neste seu ato.