396. 396. Em Juta, com as crianças.A mão restauradora de Jesus.
7 de fevereiro de 1944, 18 horas.
396.1 A minha alegria de hoje.
Vejo um lugar de montanha. Onde é, não sei1. Há uma garganta de montes que entram e saem com os seus aprofundamentos de um vale, em cujo leito escorre um riozinho torrencial, todo cheio de saltos e espuma. É apertado, mas, como todos os cursos de água da montanha, é rápido, cheio de cascatas ressonantes. Vai em direção ao sul, com respeito a mim. Outros montes distantes estão além de uma outra descida de costa, além de um outro vale.
Compreendo que é um grupo de montes, não excessivamente altos, mas já montes, não colinas. Assim como é o nosso Apenino em tantos lugares, como, por exemplo, no vale de Magra ou em direção a Porreta. A vegetação é mais adaptada ao pastoreio, que às outras culturas. Vejo prados verdes descendo ou subindo pelos penhascos que, na hora que me parece volvendo ao pôr-do-sol, parecem fazer-se, nas partes mais baixas, de um lilás cinzento. A estação deve ser de um princípio de verão, porque a erva é bela. Já alta, mas não ainda queimada de sol.
Vejo, do ponto em que me encontro, uma estrada de mulas, subindo em direção a uma cidade e penetrar entre as casas da mesma. Uma característica estrada de montanha, pedregosa e de desníveis contínuos. Sobe do sul ao norte (sempre com respeito a mim), de modo que eu a vejo entrar naquela direção da cidade e correr ao encontro ao riozinho que vai em direção oposta, mas não na cidade: já no vale.
Há também uma estradinha que, do vale sobe sobre esta montanha onde está aninhada a cidade. Uma estradinha que é mais um caminho que uma estrada, e que costeia o lado do monte. Embaixo, além dela, a montanha desce rispidamente, com pastos verdes até a torrente espumejante, além da qual estão outros pastos que dão para outros montes que se agrupam a leste.
396.2 Do caminho sobe Jesus junto com os apóstolos. Não todos. Vejo Pedro e André, João e Judas Iscariotes. Não vejo os outros. Jesus está vestido de branco e envolvido com um manto azul escuro, mais azul marinho que azul. Tem a cabeça descoberta e sobe agilmente, sozinho. Atrás, em grupo, os quatro apóstolos que falam entre. Jesus, que os precede alguns metros, não fala. Pensa. Olha em torno de si, mas não fala nunca.
A um certo ponto, a estradinha costeia um muro que delimita (ao menos em parte) uma propriedade, como para impedir que a terra deslize para o vale. Jesus entra nessa propriedade, de pastos muito bem cultivados, sobre os quais estão esparsas árvores de maçã, nozes e figos. Todos muito bem cuidados e já plenos de frutos.
Jesus para um instante exatamente no ponto onde a descida do monte forma como um triângulo pontudo, semelhante à proa de um navio. Apoia-se ao muro e olha para baixo, em torno de Si. Espera os apóstolos que sobem, especialmente Pedro, sempre lento. Depois, quando estão juntos, diz algumas palavras que não compreendo. Vejo-o curvar-se levemente para falar, porque Ele está muito mais alto que eles. Não compreendo as palavras, mas intuo o seu significado, porque vejo Iscariotes dirigir-se apressadamente para uma casa que surge ao término do muro.
É uma casa muito diferente daquela de Caná. Não tem terraço sobre o teto, mas coberta por uma espécie de cúpula, talvez para impedir às neves invernais de estagnarem sobre o teto, porque, dada a localização, o inverno deve ser certamente de neve, ou pelo menos muito chuvoso. Em troca do terraço que falta, há uma ala vistosa de um lado, ala na qual desemboca a escada, externa sempre, mas reparada como por um teto exposto. Esta ala é, no terreno, um pórtico, e em cima, uma varanda coberta. A casa é toda branca e brilha sobre o verde que a circunda. Tem diante de si um largo espaço de erva, tendo ao centro um poço circundado de árvores de frutos, colocada já com a pretensão de fazer um jardim, porque flores estão semeadas em torno delas, formando belos canteiros. Tenho a impressão que seja casa de pessoas ricas e muito refinadas, que não aquelas da casa de Caná.
A trilha para os mulos passa na frente da casa, de modo que se pode ter acesso a esta tanto do atalho que da trilha. A sebe de espinheiros não é uma barreira intransponivel, muito mais que as duas rusticas cancelas que se abrem nela estão encostadas.
396.3Judas entra livremente em casa, como se conhecesse muito bem quem a habita. Desce logo uma florescente mãe circundada de três crianças e com um pequenino no braço. Ela vem sorrindo ao encontro de Jesus, que neste ínterim, veio até perto do poço.
Noto que esta mulher é muito morena e formosa. Tem os cabelos negros e encaracolados, amarrados em duas tranças que lhe circundam a cabeça. Também os olhos são negros e grandes, nariz aquilino, boca de lábios grossos e muito vermelhos. É bem alta e bem feita. Noto também que está vestida diferentemente de como vestem Maria e as outras mulheres vistas em Caná. Ela tem também uma longa veste de um azul quase branco, mas depois está toda envolvida numa espécie de xale azul escuro, que lhe desce abaixo, modelando-a. Este passa sob as axilas, das duas partes, aquela superior, vai depois atrás das costas, ao lado esquerdo, e sobe pela cabeça, que vela com a ponta franjada até sobre a fronte. O conjunto me faz pensar que não seja galileia, porque os caracteres somáticos e as vestes são diferentes daqueles notados nas mulheres galileias.
O pequenino que traz nos braços, um moreninho como ela, terá um ou dois anos no máximo. É um belo menino vestido com uma espécie de camisinha branca. As outras crianças são uma menininha de uns seis anos, toda encaracolada, de um moreno castanho, vestida de um rosa pálido, e dois meninos menores, também eles com túnicas de lã azul como a mãe. Devem conhecer muito bem Jesus, porque se agrupam em torno, sorridentes.
396.4 A jovem mãe o saúda:
– Entra, Mestre, que a minha casa é tua! –e sorri.
Jesus responde:
– O Senhor te recompense!
E depois alonga o braço direito — o esquerdo está junto ao peito e sustenta com a mão uma orla do manto — para acariciar o pequeno. Vejo a bela mão de meu Jesus tocar a fronte do pequenino, que fica tímido e esconde a cabeça, rindo, contra o colo da mãe, e daquele ninho olha para Jesus e ri, ri para convidá-lo a repetir a carícia.
Perto do poço, sob uma macieira, carregada de frutas que começam a amadurecer, há um banco de pedra, um assento. Jesus se senta ali, enquanto a mulher entra em casa e volta com um cântaro. Jesus lhe diz para alcançar-lhe o pequenino e o senta no colo, enquanto a mulher tira água e depois retorna com um copo cheio de água e um de leite e os dá a Jesus, e lhe escolhe maçãs, maduras, entre as outras verdes, e lhe oferece também estas, colocando tudo em uma bandeja posta sobre o banco, ao lado de Jesus. Compreende-se que já outras vezes fez assim.
Os apóstolos seguiram Judas e bebem eles também sob os pórticos.
Jesus bebe antes a água; tem sempre o pequeno no colo e ri porque este lhe puxa os cabelos e a barba. Os outros três estão em torno de Jesus. Ele pega maçãs e dá uma aos três maiores, e por último pega e come uma Ele também. Ao pequeno dá de beber o leite que está no copo e depois bebe também Ele. Jesus está contente. Ri como nunca o vi rir antes.
A menina vai junto aos seus joelhos e confidencialmente coloca-lhe a cabecinha no colo. Jesus acaricia os seus caracóis de cabelo. Os dois meninos, que se afastaram correndo, retornam, um com um pombinho no colo, e o outro trazendo pelas orelhas um cordeirinho de poucos dias, que bale desesperadamente. Mostram a Jesus os seus tesouros.
Jesus se interessa, mas apiedado da condição dos dois pobres animais, faz com que lhe dê o pombinho, e depois de tê-lo admirado, deixa-o voar ao seu ninho; e levanta o cordeirinho sobre o banco, o acaricia e segurando-o firmemente, até que a mãe dos meninos retorne e o leve ao seu lugar.
A menina, que não possui outra coisa, se curva sobre um ramalhete de flores e o dá a Jesus.
396.5 O Mestre é mestre também com estes pequenos e, sempre tendo no braço o menor, fala aos maiores das flores “tão belas feitas pelo Pai celeste, das maiores às menores, as flores que são aos olhos de Deus, belas como as crianças quando são boas. E para ser bons, é necessário ser como as flores, que não fazem mal a ninguém, mas, pelo contrário, a todos dão perfume e alegria e fazem sempre a vontade do Senhor em nascer onde Ele quer, florir quando Ele quer, em deixar-se colher se a Ele agrada.”
Fala dos pombos “tão fiéis ao seu ninho e tão limpos que não pousam jamais sobre coisas sujas, que recordam sempre a sua casa e que Deus ama porque são fiéis e puros. Também os filhos de Deus devem ser assim: como pombinhas que amam a casa do Senhor e nela fazem o seu ninho de amor, e que, para ser dignos dela, sabem conservar-se puros.”
Fala dos cordeirinhos “tão humildes, tão pacientes, tão resignados, que dão lã e leite e carne, e se deixam imolar para o nosso bem, dando-nos tanto exemplo de amor e de mansidão. Os cordeirinhos são tão amados de Deus, que Ele chamará ‘Cordeiro’ o seu Filho. O bom Deus ama como filhos prediletos aqueles que sabem conservar a alma de cordeiro até à morte.”
Enquanto Jesus fala, outras crianças entram no recinto e se agrupam. E não crianças somente. Mas também adultos que escutam. Há outras mães, que oferecem os mais pequenos e alguns sofredores a Jesus, para que os acaricie, os tome no colo um momento. Os maiores cuidam de si.
396.6 Jesus é circundado por uma ninhada de crianças. Estão em sua frente, aos lados, às costas, entre as pernas. Não pode mover-se. Mas ri em meio àquela sebe irrequieta e também um pouco tumultuosa. Todos desejam o primeiro lugar, e os maiores de casa não querem cedê-lo, o que dá ocasião a Jesus de ser mestre uma vez ainda:
– Não é preciso ser egoístas nem no bem. Eu sou aquele que amais e estou feliz. Também eu vos amo, mas vos amarei mais se deixardes que os outros venham a mim. Um pouco para cada um. Como bons irmãos. Sois todos irmãos e iguais aos olhos de Deus e meus. Todos iguais. Antes, aqueles que são obedientes e amorosos para com os companheiros, são os mais amados por Mim e por Deus.
O enxame, para mostrar que… é obediente e amoroso, se afasta de golpe. São todos bons (!) Jesus ri.
Mas depois retorna o enxame inocente. Retorna a despeito das mães, que não desejam tanta evidência desrespeitosa, e sobretudo dos discípulos. Iscariotes é o mais intransigente, João o menos. Sentou-se sobre a erva e ri também ele, cercado de crianças. Mas Judas lhes faz caretas e resmunga. Também Pedro se lamenta.
Mas as crianças, apertadas em torno de Jesus, não se apercebem. Olham com desconfiança os resmungadores e só o respeito por Jesus os segura de fazer qualquer coisa aos dois. Sentem-se protegidos por Jesus, que abre seus baços e atrai a Si quanto mais crianças pode: um ramalhete vivo de flores.
Há crianças que mostram a Jesus brinquedos… quebrados. E Jesus, com um pedaço de ramo, coloca as rodas de um carrinho e as ajusta, a perna de um cavalinho de madeira que um moreninho lhe mostra. Há pastorzinhos que, deixado um momento o rebanho sobre o caminho — agora a tarde desce — se aproximam de Jesus que os acaricia e bendiz. Um lhe traz uma ovelhinha ferida a Jesus, que não quer que o seu pequeno amigo seja agredido pelo patrão, estagna o sangue da ovelhinha e a cura.
396.7 Entra uma mãe e abre espaço. Tem no braço um menino pálido, doente. Está muito doente. Está todo abandonado sobre o peito da mãe. Jesus, que já tocou outras crianças doentes que as mães haviam apresentado, abre os braços e toma no colo o quase moribundo. A mãe se recomenda chorando.
Jesus escuta e a olha. Depois olha a pobre criaturinha pálida e exangue. Acaricia e beija-a, ninando-a, porque chora. O menino, ou menina — não compreendo o que seja, porque tem cabelos longos até às orelhas — abre os olhos e olha Jesus com um triste sorriso. Jesus lhe fala baixinho. Não compreendo o que Ele lhe diz, porque é sussurrado. O doente sorri ainda.
Jesus o devolve à mãe chorosa e a fixa, com os seus olhos dominadores:
– Mulher, tem fé. Amanhã de manhã o teu menino brincará junto com estes. Vai em paz.
E traça ainda um sinal de bênção sobre a face pálida.
396.8 E aqui, ó Pai! E aqui me parece aproximar-me de meu Jesus e de dizer-lhe:
– Mestre, que há em tua mão, que tudo se ajusta ou cura ou muda o aspecto quando a tocas?
Pergunto muito tola, em verdade, mas à qual o meu Jesus responde com divina bondade:
– Nada, filha, afora o fluído do meu imenso amor. Olha a minha mão, observa-a.
E me coloca a sua direita.
Tomo-a com veneração, com a ponta dos dedos, sobre a ponta dos dedos. Não ouso mais, enquanto o meu coração bate forte, forte. Não toquei jamais Jesus. Fui tocada, mas eu não havia jamais ousado. Agora o toco. Sinto o calor de seus dedos. Sinto a epiderme lisa, as unhas muito longas ( longas não em evidência, em forma sobre a última falange). Vejo os longos dedos sutis, a palma fortemente côncava, noto que o metacarpo é muito curto dos dedos, observo ao início do pulso o sinal das veias.
Jesus me deixa a sua mão com benignidade. Agora se levantou em pé e eu estou de joelhos. Não o vejo porém no rosto, mas sinto que sorri porque o seu sorriso está na sua voz:
– Tu o vês, alma que amo, que não há nada. Os meus anos de trabalho me deixaram a capacidade de ajustar os brinquedos das crianças, e uso desta minha capacidade porque também esta serve para atrair a Mim as criaturas que escolho: as crianças. A minha humanidade, que se recorda de ter sido operária, opera nisto. A minha divindade opera neste outro de curar as crianças doentes, assim como curo os brinquedos doentes e os cordeirinhos. Não tenho nada afora o meu amor e o meu poder de Deus. E sobre ninguém tenho tal alegria como sobre estas crianças inocentes, que vos dou como modelo para entrar no Reino dos Céus. Repouso-me em meio a eles. São simples e inquietas. E Eu, que sou o Traído2, e o desprezo de quem trai, encontro paz junto destes que não sabem trair; e Eu serei Aquele do qual tantos duvidarão, mas que encontro alegria junto destes que não sabem duvidar. E Eu, que serei renegado por quem, com reflexão de adulto, pensará em colocar-se seguro em horas de borrascas, encontro conforto junto destes, que creem em mim sem pensar se desta crença pode lhes vir o bem ou o mal. Creem porque me amam. Sê tu também como uma criança. Como uma destas, e terás o Reino dos Céus, que se abre sobre a espera impaciente de Jesus, que arde por ter junto de Si aqueles que mais ama, porque mais o amaram. Vai em paz, agora. Te acaricio como um destes pequeninos para fazer-te feliz. Vai em paz.
396.9Note que a visão veio enquanto, desgostada de uma resposta difícil, não a primeira de hoje, chorava desconsolada e desolada, e plena de dor e de desgosto pelas constatações que faço de outro ânimo. A visão me acalmou desde o início e depois me alegrou. Mas quando depois pude ter a alegria de sentir os dedos de Jesus, eu senti o doce do êxtase sorver a amargura.
Olho a mão que escreve3 e que conserva a sensação de ter tocado
Jesus, e me parece santa como coisa que tocou uma relíquia. Que o meu Jesus seja bendito!
1 Onde é, não sei, já que MV terá em 1945 as visões das duas precedentes visitas de Jesus em Juta, que tinham formado os capítulos 76 (em 76.8 é chamada novamente a presente visão) e 212.
2 sou o Traído: aqui, aquela intuição me fez entender que Jesus disse “sou”, e mais a frente “serei”, porque a traição de Judas já esfervecia desde o início e Cristo sabia. Assim anota MV em rodapé na página manuscrita do caderno.
3 a mão que escreve, a direita, à morte da escritora permanecerá cândida e bela; diferente da esquerda, lívida na extremidade.
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