416. 416. Um mendigo samaritano no caminho para Jericó.


17 de maio de 1944.

416.1 Vejo Jesus numa estrada mestra muito poeirenta e ensolarada. Não há um fio de sombra, nada se vê de verde. O que se vê é só poeira na estrada e poeira sobre a campina, ainda não semeada, que margeia a estrada. Certamente não são estas as doces colinas da Galileia, nem os montes chei-os de vegetação da Judeia, tão ricos em águas e pastagens. Aqui é um terreno que não chega a ser desértico, por ser assim sua própria natureza, mas que o homem fez ficar assim, ao não cultivá-lo. É uma planície, e eu não vejo nenhuma colina, nem mesmo a grandes distâncias. Não conhecendo bem a Palestina, não sei dizer que região é esta. Certamente é uma que eu nunca vi nas visões precedentes1. Montões de cascalhos estão a um dos lados da estrada. Talvez aí tenham sido colocados para consertos da estrada, que está em péssimas condições. Por enquanto, ela vai ficando com suas camadas de poeira cada vez mais altas. Quando chove, deve transformar-se num rio de lama. Não vejo nenhuma casa nem por perto, nem ao longe.

Jesus vai caminhando a alguns metros à frente dos apóstolos, que o acompanham em grupo, escaldados pelo calor, e cansados. Para se resguardarem do Sol, eles puxaram seus mantos por sobre as cabeças, e ficam parecendo uma irmandade vestida com hábitos de várias cores. Jesus, ao contrário, vai com a cabeça descoberta. Está vestido com uma só túnica, de linho branco, com mangas curtas, até o cotovelo. Mas ela é bem larga e solta. Não tem nem mesmo a costumeira cinta de cordões. É bem uma roupa adaptada para lugares tórridos. Também o seu manto deve ser de linho, tingido de azul, e é muito cômodo, caindo levemente ao redor do corpo, e ele o usa muito menos que o de uso diário. De tal modo, ele cobre os ombros, mas deixa livres os braços. Eu nem sei como é que pode ser feito assim.

416.2 Sentado, ou melhor, meio deitado sobre um dos montes de cascalho, está um homem. É um pobre, com certeza um mendigo. Está vestido, por assim dizer, com uma túnica suja e esfarrapada, que talvez algum dia tenha sido branca, mas que agora é da cor do barro. Está com duas pobres sandálias, muito desgastadas, com as duas solas quase furadas e amarradas com pedaços de barbante. Nas mãos ele leva um bastão, feito de um galho de árvore. Na fronte tem uma venda suja, e, na perna esquerda, entre o joelho e o quadril, um outro rasgão sujo e ensanguentado. Está macilento, feito um montão de ossos, envilecido, repelente, com os cabelos crescidos, e despenteado.

Antes que ele invoque a Jesus, Jesus já vai a ele. Aproxima-se do infeliz, e lhe pergunta:

– Quem és tu?

– Sou um pobre que pede pão.

– E ao longo desta estrada?

– Estou indo para Jericó.

– A estrada é longa, e esta região é despovoada.

– Eu sei, mas é muito mais fácil que me deem um pão e uma moeda os gentios, que passam por esta estrada, do que os judeus, do meio dos quais eu estou vindo.

– Estás vindo da Judeia?

– Sim. De Jerusalém. Mas eu tive que fazer longas voltas para passar por certas pessoas boas das campinas, que sempre me dão alguma ajuda. Na cidade, não. Lá não há piedade.

– Disseste bem. Não há piedade.

– Tu a tens. És judeu?

– Não. Sou de Nazaré.

– Há tempo, os nazarenos tinham um nome feio. Mas agora, é preciso que se diga que eles são melhores que os de Judá. Na própria Jerusalém, os que acompanham aquele Nazareno, que chamam de Profeta, são bons. Tu o conheces?

– E tu, o conheces?

– Não. Eu tinha saído de lá, vê bem, porque eu tenho uma perna morta e encolhida, e me vou arrastando com dificuldade. Eu não posso trabalhar, e fico morrendo de fome e das pauladas que levo. Eu esperava encontrá-lo, porque me dizem que Ele cura aqueles em que toca. É verdade que eu não sou do povo eleito… mas dizem que Ele é bom com todos. Haviam-me dito que Ele estava em Jerusalém para a Festa das Semanas. Mas eu caminho devagar… e tenho levado pancadas, tenho até ficado doente pelo caminho… Quando eu cheguei a Jerusalém, Ele já havia partido porque, como me disseram, os judeus o maltrataram também.

– E eles te maltrataram?

– Sempre me maltratam. Somente os soldados romanos é que me dão um pão.

416.3 – E que falam em Jerusalém, no meio do povo, desse Nazareno?

– Que Ele é o Filho de Deus, um grande Profeta, um Santo, um Justo.

– E tu, que achas que Ele é?

– Eu sou um idólatra. Mas creio que Ele é o Filho de Deus.

– Como é que podes crer nisso, se tu nem o conheces?

– Conheço as suas obras. Somente um Deus pode ser bom e ter palavras como as que Ele tem.

– Quem foi que te disse as palavras dele?

– Outros pobres, alguns doentes curados, meninos que me trazem pão. Os meninos são bons, e nada sabem do que é ter fé nem ser idólatras.

– E de onde és tu?

– …

– Dize-o. Eu sou como os meninos. Não tenhas medo. Basta que sejas sincero.

– Eu sou… um samaritano. Não me batas…

– Eu nunca bato em ninguém. Não desprezo a ninguém. Tenho piedade de todos.

– Então… Então, Tu és o Rabi da Galileia!

O mendigo se prostra, precipita-se como um corpo morto, com o rosto no pó, abaixo do seu montão de pedras, diante de Jesus.

– Levanta-te. Sou Eu. Não tenhas medo. Levanta-te, e olha para mim.

O mendigo levanta o rosto, permanecendo sempre de joelhos, todo desequilibrado, por causa de sua deformidade.

– Dai um pão e de beber a este homem –ordena Jesus aos discípulos que acabaram de chegar.

E é João quem lhe dá água e pão.

– Fazei-o sentar-se para que coma mais comodamente. Come, irmão.

O pobre homem chora. Ele não come. Olha para Jesus com uns olhos de um pobre cão vadio, que está vendo que o acariciam e que está matando sua fome, pela primeira vez, alguém que tem dó dele.

– Come –ordena Jesus, sorrindo.

O pobrezinho come entre um soluço e outro, e as lágrimas é que molham o seu pão, mas em seu pranto há também um sorriso. Ele vai-se retemperando pouco a pouco.

416.4– Quem foi que te fez esta ferida? pergunta-lhe Jesus, tocando com os seus dedos a venda suja da fronte.

– Um rico fariseu, de propósito atropelou-me com sua carruagem… Eu me havia colocado em uma encruzilhada, para pedir um pão. Ele guiou seus cavalos para cima de mim, e tão depressa, que eu nem pude desviar-me. Por isso eu estive quase para morrer. Tenho ainda na cabeça um buraco, de onde sai muito pus.

– E nesse ponto aí, quem foi que te feriu?

– Eu me havia aproximado da casa de um saduceu, onde havia um banquete, para pedir as sobras das mesas, depois que haviam sido escolhidas as melhores para os cães. Ele me viu, e açulou os cães contra mim. Um deles me dilacerou a coxa.

– E esta grande cicatriz que te aleijou a mão?

– Foi uma paulada que me deu um escriba, há três anos. Ele reconheceu que eu era samaritano, e me feriu, decepando-me os dedos. É por isso que eu não posso trabalhar. Aleijada a minha mão direita, morta a minha perna, como que eu posso trabalhar, e ganhar para viver?

– Mas, por que é que tu sais da Samaria?

– A necessidade é uma coisa feia, Mestre. Somos muito infelizes, e não há pão para todos. Se Tu nos ajudasses.

– Que queres que Eu te faça?

– Que me cures para que eu possa trabalhar.

– Crês que eu possa fazer isso?

– Sim, eu o creio, porque Tu és o Filho de Deus.

– Crês nisto?

– Eu o creio.

– Tu, sendo samaritano, o crês? Por quê?

– Por que é, eu não sei. Só sei que creio em Ti e em quem te enviou. Agora que tu vieste, não há mais diferença de adoração. Basta adorar a Ti para adorar a Teu Pai, Senhor eterno. Onde Tu estás, aí está o teu Pai.

416.5 – Ouvi, meus amigos? –(Jesus se vira para os discípulos)–. Este homem fala pelo Espírito Santo, que lhe mostra a luz da Verdade. Ele, em verdade vos digo, é superior aos escribas e fariseus, aos saduceus cruéis, a todos esses idólatras, que mentirosamente se dizem filhos da Lei. A Lei manda amar ao próximo, depois de Deus. E eles ao próximo, que sofre e pede pão, só lhe dão pancadas, e, contra o próximo, que suplica, eles açulam seus cavalos e cães, e ao próximo que se humilha, pondo-se abaixo dos cães do rico, eles lançam os seus próprios cães para fazê-lo ficar ainda mais infeliz do que a enfermidade já o faz. São uns desprezadores, cruéis, hipócritas, não querem que Deus seja conhecido e amado. Se o quisessem, o fariam conhecer através de suas obras, como este homem disse. São as obras, e não certas práticas que fazem ver o Deus vivo no coração dos homens, e levam os homens para Deus. E não deverei Eu, ó Judas, que me censuras como imprudente, não deverei Eu feri-los com a minha reprovação? Calar-me, fingir que os aprovo, seria aprovar a conduta deles. Não. Pela glória de Deus, não posso Eu, que sou seu Filho, permitir que as pessoas humildes e boas creiam que Eu aprovo os pecados deles. Eu vim para fazer dos gentios filhos de Deus. Mas Eu não posso fazer isso, se eles estiverem vendo como os filhos da Lei — e assim são eles mesmos que se chamam, mas uns bastardos é que eles são — praticam um paganismo mais culpável dos que o dos gentios, porque eles, sendo hebreus, conheceram a Lei de Deus, e agora cospem sobre o vômito das suas paixões imundas, que eles satisfizeram como uns animais imundos. Será que Eu devo crer, ó Judas, que tu és como eles? Tu, que me censuras pelas verdades que Eu digo? Ou será que Eu devo pensar que estás preocupado pela tua vida? Quem me segue, não deve ter preocupações humanas. Eu o disse. Estás em tempo ainda, ó Judas, de escolher entre a minha vida e a dos judeus que tu aprovas. Mas, pensa bem: o meu caminho vai para Deus. O outro vai para o Inimigo de Deus. Pensa bem, e decide-te. Mas faze-o com sinceridade. 416.6E tu, meu amigo, levanta-te, e caminha. Tira essas vendas. Volta para tua casa. Estás curado pela tua fé.

O mendigo olha, espantado, para Ele. Não tem coragem de estender a mão… mas depois experimenta. Ela está intacta, igual à esquerda. Ele deixa o bastão, apoia as mãos sobre umas pedras e faz força. Levanta-se. Ergue-se direito. A paralisia, que o fazia arrastar uma perna, ficou curada. Agora ele move a perna, e a dobra… e dá um passo, dois, três… Já está caminhando. Olha para Jesus, com um grito e com lágrimas de alegria. Ele tira a venda da cabeça, onde estava o buraco que supurava. Nada mais. Tudo está curado. Ele arranca o pano ensanguentado do quadril: a pele está como se nunca tivesse sido ferida.

– Mestre, meu Mestre e meu Deus! –grita ele, levantando os braços, e depois joga-se de joelhos para beijar os pés de Jesus.

– Vai agora para tua casa, e crê sempre no Senhor.

– E para onde eu hei de ir, Mestre e Deus, senão atrás de Ti, que és santo e bom? Não me rejeites, Mestre…

– Vai à Samaria. E lá fala de Jesus de Nazaré. A hora da Redenção está perto. Sê o meu discípulo junto aos teus irmãos. Vai em paz.

Jesus o abençoa, e depois se separam. O curado vai às pressas para o norte virando-se de vez em quando, para olhar de novo. Jesus, com os seus apóstolos, deixam a estrada, e entram pelos campos não cultivados, tomando o rumo do oriente, e indo por uma pequena estrada mestra, que se vai tornando mais larga somente bem mais adiante. Talvez seja a estrada para Jericó. Eu não sei.

[…]

1 visões precedentes, isto é, as escritas antes de 17 de maio de 1944.


1
2