534. 534. Ensinamentos e curas na sinagogados libertos romanos. Um mandato para os Gentios.


26 de novembro de 1946.

534.1A sinagoga dos romanos fica exatamente do lado oposto ao Templo, perto do Hípico. As pessoas estão à espera de Jesus. E quando o vêm no começo da rua, as mulheres são as primeiras a irem ao seu encontro. Jesus está com Pedro e Tadeu.

– Salve, Mestre. Eu te agradeço por me teres atendido. Estás entrando agora na cidade?

– Não. Estou aí desde a hora de prima. Estive no Templo.

– No Templo? E não te insultaram?

– Não. Eram as horas da manhã e eles não sabiam da minha vinda.

– Eu te havia mandado chamar por isso… e também porque aqui há uns gentios que gostariam de ouvi-te falar. Há muitos dias que eles iam ao Templo esperar-te. Mas eram burlados e até ameaçados. Ontem estava eu também lá e percebi que te esperam para te insultarem. Mandei homens que ficassem em todas as portas. Com o ouro tudo se consegue.

– Eu te fico reconhecido. Mas não posso deixar de ir ao Templo, Eu, o Rabi de Israel. Estas mulheres, quem são?

– A minha liberta Tusnilde. É bárbara duas vezes, Senhor. Ela é das florestas de Teotuburgo. Foi uma presa daquelas imprudentes expedições que tanto sangue custaram”. Meu pai a deu de presente à minha mãe, e ela a mim, quando me casei. Dos deuses dela aos nossos. Dos nossos a Ti, porque ela faz o que eu faço. É muito boa. As outras são mulheres dos gentios que te estão esperando. São de todas as regiões. Na maior parte, são umas sofredoras. Vieram com os navios dos maridos.

– Entremos na sinagoga…

O sinagogo, de pé na soleira, inclina-se e se apresenta:

– Matatias Sículo, Mestre. A Ti louvor e bênção.

– A paz esteja contigo.

– Entra. Vou fechar a porta para ficarmos sossegados. Tão grande é o ódio, que os tijolos têm olhos e as paredes têm ouvidos para te observarem e te denunciarem, Mestre. Talvez sejam melhores estes que, contanto que não fiquem prejudicados os interesses deles, deixam-nos agir –diz o velho sinagogo, caminhando ao lado de Jesus a fim de conduzi-lo para lá de um pequeno pátio, a uma vasta sala que é a sinagoga.

534.2– Curemos primeiro os doentes, Matatias. A fé que eles têm merece um prêmio –diz Jesus.

E vai passando de uma para outra das mulheres, impondo-lhes as mãos. Algumas delas estão sãs, mas o filhinho que elas têm nos braços está sofrendo, e Jesus lhes cura o filhinho.

Uma é uma menina completamente paralisada e, tendo ficado curada, grita:

– Sitaré te beija as mãos, Senhor!

Jesus, que já havia ido para diante, volta-se, sorridente e lhe pergunta:

– És síria?

A mãe explica:

– É fenícia, Senhor. E de além de Sidon. Somos das margens do Tamiri. E tenho outros dez filhos e outras duas filhas, uma chamada Sira e a outra Tamira. Sira é viúva, ainda que seja pouco mais do que uma menina. Tanto assim é, que, ficando livre, foi estabelecer-se perto do irmão que, na cidade, é um dos teus seguidores. Ele nos disse que podes tudo.

– Ela não está contigo?

– Sim, Senhor. Lá está ela, atrás daquelas mulheres.

– Vem para frente –ordena Jesus.

A mulher vai à frente, mas com medo.

– Não deves ter medo de mim, se me amas, Jesus a encoraja.

– Eu te amo. Por isso é que eu vim de Alexandrocene. Porque eu pensava que ainda te teria ouvido e… teria aprendido a suportar meus sofrimentos –e ela chora.

– Quando foi que ficaste viúva?

– No fim do vosso mês de Adar. Se Tu tivesses estado aqui, Zeno não teria morrido. Ele assim dizia… porque ele tinha ouvido a tua palavra e acreditava em Ti.

– Pois, então, ele não está morto, mulher. Porque quem crê em mim está vivo. 534.3Não é este dia em que a carne vive a verdadeira vida. A vida é aquela que se obtém crendo, acompanhando o Caminho, a Verdade e a Vida, e agindo conforme a sua palavra. Ainda que tivesse sido a fé e um seguimento por pouco tempo, e trabalho por pouco tempo, interrompido pela morte do corpo, ainda que tivesse vivido por um só dia, por uma só hora, Eu em verdade te digo que aquela criatura jamais conhecerá o que é e morte. Porque o meu Pai e Pai de todos os homens não irá calcular quanto tempo transcorreu em minha Lei e na Fé, mas sim a vontade do homem de viver até à morte naquela Lei e naquela Fé. Eu prometo a Vida eterna a quem crê em mim e age segundo o que Eu digo, amando o Salvador, propagando esse amor, praticando, no tempo que lhe é concedido, os meus ensinamentos. Os operários da minha vinha são todos aqueles que vêm e dizem: “Senhor, acolhe-me entre os teus operários”, e nessa vontade permanecem enquanto o meu Pai não julgar terminado o seu dia de trabalho. Em verdade, em verdade, Eu vos digo que haverá operários que terão trabalhado apenas uma hora, a sua última hora, e que terão o prêmio preparado mais do que aqueles que terão trabalhado desde a primeira hora do dia, mas que trabalharam sempre com tibieza, empurrados para o trabalho somente pela ideia de não irem para o Inferno, isto é, por medo do castigo. Não é este o modo de trabalhar que meu Pai premia logo em seguida com a glória. Pelo contrário, a esses calculadores egoístas, que têm pressa de fazer o bem, mas somente aquele tanto de bem que for suficiente para que não se lhes dê o castigo eterno, o Juiz eterno lhes dará uma longa expiação. Eles deverão aprender, às próprias custas, com a expiação, a formar em si um espírito alegre no amor, em verdadeiro amor, todo voltado para a glória de Deus. E vos direi ainda que no futuro haverá muitos, especialmente entre os gentios, que terão sido operários por uma hora, e até por menos de uma hora, e que se tornarão gloriosos em meu Reino, porque, naquela única hora em que corresponderam à Graça, que os terá convidado a entrar na Vinha de Deus, eles terão atingido a perfeição heroica da Caridade! Portanto, cria coragem, mulher. Teu marido não está morto, mas está vivo. Não está perdido para ti, mas somente separado por algum tempo de ti. Agora tu, como uma esposa que ainda não entrou na casa do esposo, deves preparar-te para as verdadeiras núpcias imortais com aquele pelo qual choras. Oh! Felizes núpcias de dois espíritos que se santificaram e que se unem de novo e para sempre lá onde não há mais separação, nem medo de desamor, nem sofrimento, lá onde os espíritos se rejubilarão no amor de Deus e em seu amor recíproco! A morte para os justos é verdadeira vida, porque nada mais pode ameaçar as vitalidades do espírito, isto é, a sua permanência na justiça. Não chores e não tenhas saudade do que é passageiro, ó Sira. Levanta o teu espírito e vê, com justiça e verdade. Deus te amou, salvando o teu consorte do perigo de que as obras do mundo arruinassem sua fé em Mim.

– Tu me consolaste, Senhor. Eu viverei como Tu dizes. Que Tu sejas bendito e contigo o teu Pai para sempre.

534.4O sinagogo, enquanto Jesus está tentando passar para a frente, diz:

– Posso fazer uma objeção, sem que isso te pareça uma ofensa?

– Fala. Eu estou aqui como Mestre, a fim de dar Sabedoria a quem me interroga.

– Tu disseste que alguns se tornarão imediatamente gloriosos no Céu. O Céu está fechado? Não estão os justos no Limbo, à espera, para lá entrarem?

– Assim é. O Céu está fechado. E só será aberto pelo Redentor. Mas a hora deste chegou. Em verdade, Eu te digo que o dia da Redenção já vem chegando no oriente, e logo já terá chegado. Em verdade eu te digo que não virá outra festa depois desta, antes daquele dia. Em verdade Eu te digo que já estou abrindo as portas, estando já no alto do monte do meu sacrifício… O meu sacrifício já está empurrando as portas dos Céus, pois já entrou em ação. Quando ele se completar, lembra-te dele, ó homem, abrir-se-ão as sagradas cortinas e as portas celestes. Porque Javé não estará mais presente com sua glória no Santo dos Santos, e inútil será colocar um véu entre o Incognoscível e os mortais e a Humanidade que nos precedeu e que foi justa voltará lá para onde fora destinada, com seu Primogênito à frente, já completo na carne e no espírito, e com os seus irmãos vestidos de luz, que eles terão até que também as suas carnes sejam chamadas a participar do júbilo.

534.5Jesus toma o tom de quem canta, e que é o tom que o próprio sinagogo toma quando repete palavras bíblicas ou os salmos, e diz1:

– E Ele me disse: “Profetiza a estes ossos, e dize-lhes: ‘Ossos áridos, escutai a palavra do Senhor… Eis que Eu infundirei em vós o espírito e vivereis. Porei sobre vós os nervos, farei crescer sobre vós as carnes, estenderei vossa pele, dar-vos-ei o espírito e vivereis, e sabereis que Eu sou o Senhor… Eis! Eu abrirei as vossas tumbas… e vos tirarei dos sepulcros… Quando Eu tiver infundido em vós o meu espírito, tereis vida e vos farei repousar na terra que é vossa’.”

Depois Ele retoma o seu modo habitual de falar, torna a baixar os braços, que estavam estendidos para frente, e diz:

– Duas são estas ressurreições do que é árido e morto para a vida. Duas meio veladas nas palavras do Profeta. A primeira é a ressurreição para a Vida e na Vida, isto é, na Graça que é Vida para todos os que acolhem a palavra do Senhor, o espírito gerado pelo Pai, que é Deus como o Pai, do qual é Filho, e que se chama Verbo, o Verbo que é vida e dá vida. Aquela vida da qual todos têm necessidade, e da qual estão privados Israel e os gentios. Porque, se para Israel até agora ela era suficiente para obter a vida eterna, para esperar e receber a vida que vem do Céu, de agora em diante, para ter Vida, Israel deverá acolher a Vida. Em verdade, Eu vos digo que aqueles do meu povo que não me acolhem a Mim-Vida, não terão a Vida, e a minha vida será para eles uma ocasião de morte, porque terão rejeitado a Vida que veio comunicar-se a eles. Chegou a hora em que Israel vai-se dividir em vivos e mortos. É a hora de escolher: ou viver ou morrer. A Palavra falou, mostrou sua origem e seu Poder, curou, ensinou, ressuscitou, e brevemente terá cumprido a sua missão. Não há mais desculpas para aqueles que não vêm à Vida. O Senhor passa. E, tendo passado, Ele não volta. Ele não voltou ao Egito para dar de novo a vida aos filhos primogênitos2 daqueles que haviam escarnecido dele e oprimido os seus filhos. Também desta vez Ele não voltará depois que a imolação do Cordeiro houver decidido as sortes. Aqueles que não me acolhem antes da passagem, que me odeiam e me odiarão, não terão o meu Sangue para a santificação de seus espíritos, e não viverão, e não terão o seu Deus com eles, por todo o resto de sua peregrinação sobre a Terra. Ficarão sem o Divino Maná, sem a nuvem protetora e luminosa, sem a água que vem do Céu, privados de Deus, andarão vagando por esse vasto deserto que é a terra, pela terra toda, pelo deserto todo, pois aos que a percorrem falta a união com o céu, a vizinhança com seu Pai e Amigo, que é Deus. E haverá a segunda ressurreição: a universal, na qual os ossos calcinados e espalhados durante muitos séculos voltarão a viver, cobertos com seus nervos, suas carnes e a pele. E, então, se fará o julgamento. A carne e o sangue dos justos se alegrarão como seu espírito no Reino eterno, enquanto a carne e o sangue dos condenados sofrerão com o seu espírito no eterno castigo. Eu te amo, ó Israel. Eu te amo, ó Gentilismo. Eu te amo, ó Humanidade! E por esse amor Eu vos convido à Vida e à Ressurreição feliz.

Os que estão reunidos na vasta sala ficam como que fascinados. Não há diferença entre o espanto dos hebreus e os dos outros, de outros lugares e religiões. Eu até diria que os mais reverentemente assombrados são os estrangeiros.

534.6Um velhinho honrado murmura por entre dentes.

– Que foi que disseste, ó homem? –pergunta-lhe Jesus, voltando-se para ele.

– Eu disse que… Eu estava repetindo as palavras que eu ouvi na minha juventude da boca do meu pedagogo: “É concedido ao homem conhecer o Ente, por meio da virtude subir à perfeição divina. Na criatura está o esplendor do Criador, que tanto mais se revela quanto mais o homem se enobrece a si mesmo com a virtude, como que consumindo a matéria no fogo da virtude. E é concedido ao homem conhecer aquele Ente, o qual, pelo menos uma vez na vida de um homem, com um severo ou paternal afeto, se mostra à criatura para que ela possa dizer: Eu devo ser bom. Infeliz de mim, se assim eu não for!… Pois que um poder imenso brilhou à minha frente para fazer-me compreender que a virtude é um dever e é sinal da nobre natureza do homem. Encontrareis esse brilho da Divindade às vezes nas belezas da natureza, outras vezes na palavra de um moribundo, e até no olhar de um infeliz que olha para vós e vos julga, ou no silêncio da pessoa amada que, ao calar-se, reprova uma vossa ação desonrosa, e também no espanto de um menino diante de vossa violência, ou no silêncio das noites, às vezes, enquanto estais sozinhos convosco mesmos e na sala mais fechada e solitária, percebeis em vós um outro Eu, bem mais forte do que o vosso, que fala com um som que não é como os outros sons. E esse será o Deus, esse Deus que deve existir, esse Deus que a Criação adora, mesmo sem ainda saberem como isso há de ser feito, esse Deus que, sendo Único, verdadeiramente satisfaz os desejos dos homens virtuosos, que não se sentem saciados nem consolados com as nossas cerimônias e as nossas doutrinas, nem diante de altares vazios, por mais que acima deles esteja uma estátua.” Sei muito bem estas palavras porque há muitos lustros que as repito como meu código e minha esperança. Eu vivi, trabalhei, e também sofri e chorei. Mas tudo suportei e espero com firmeza, espero encontrar antes da morte esse Deus que Hermógenes me havia prometido que eu haveria de conhecer. Agora mesmo eu me dizia tê-lo verdadeiramente visto. E não como um relâmpago, e não como um som sem som, eu ouvi a palavra dele. Mas em uma muito serena e muito bela forma de homem é que me apareceu o Divino, e eu o ouvi, e estou tomado por um sagrado espanto. A alma, esta coisa que os verdadeiros homens admitem, a minha alma te acolhe, ó Perfeição, e te diz: “Ensina-me o teu Caminho, a tua Vida e a tua Verdade, para que um dia eu, um homem solitário, me una contigo, ó Suprema Beleza.”

– Nós nos uniremos. E ainda te digo que, mais tarde, estarás junto também com Hermógenes.

– Mas ele morreu sem conhecer-te!

– Não é o conhecimento material o único necessário para possuir-me. O homem que, por sua virtude, chega a perceber o Deus desconhecido e a ser virtuoso em homenagem a Deus, porque Deus a ele se revelou, terá um prêmio por sua vida virtuosa. Pobre dele se lhe fosse necessário conhecer-me pessoalmente! Bem depressa ninguém mais teria um modo de unir-se a Mim. Porque, Eu vo-lo digo, logo o Vivente deixará o Reino dos mortos para voltar ao Reino da Vida, e não mais os homens terão outro modo de conhecer-me senão pela fé e pelo espírito. Mas em vez de ficar parado, o conhecimento de Mim se propagará e será perfeito, pois estará livre de todas as dificuldades que nossos sentidos têm. Deus falará, Deus agirá, Deus viverá, Deus se revelará aos espíritos de seus fiéis, em sua incognoscível e perfeita Natureza. E os homens amarão o Deus-Homem. E o Deus-Homem amará os homens com meios novos, com os inefáveis meios que o seu infinito amor tiver deixado sobre a Terra antes de voltar para o Pai, depois de ter cumprido tudo.

534.7– Oh! Senhor! Senhor! Dize-nos, então, como é que poderemos encontrar-te e conhecer que és Tu quem nos está falando, e onde é que estarás depois que tiveres ido embora daqui! –exclamam diversos.

E alguns ainda continuam:

– Nós somos gentios e não conhecemos a tua Lei. Não temos tempo para ficar aqui e acompanhar-te. Como faremos para termos aquela virtude que nos torne merecedores de conhecer a Deus?

Jesus sorri radiante de beleza em sua felicidade por estas conquistas no meio dos gentios. E, com doçura, explica:

– Não vos preocupeis em saber muitas leis. Irão estes –(e põe a mão sobre os ombros de Pedro e de Tadeu)– levar minha lei pelo mundo. Mas enquanto eles não chegam lá, tende por norma de lei as seguintes e poucas frases nas quais está resumida a minha lei de Salvação. Amai a Deus com todo o vosso coração. Amai as autoridades, os parentes, os amigos, os servos, o povo e até os inimigos, como vos amais a vós mesmos. E para estardes seguros de não pecardes, antes de fazer qualquer ação, tanto se ela for mandada como se for espontânea, perguntai a vós mesmos: “Gostaria eu que o que estou querendo fazer a este fosse feito a mim?” E se percebeis que não gostaríeis, não o façais. Com estas simples linhas podeis traçar para vós o caminho pelo qual Deus virá a vós e vós ireis a Deus. Porque ninguém quereria que um filho lhe fosse ingrato, que alguém o matasse, que algum outro lhe roubasse, ou lhe levasse a esposa, ou lhe desonrasse a irmã, ou a filha, ou lhe usurpasse a casa, os campos ou os servos fiéis. Com esta regra sereis bons filhos e bons pais, bons maridos, irmãos negociantes e amigos. Portanto sereis virtuosos, e Deus virá a vós.

534.8Eu tenho ao meu redor não somente hebreus e prosélitos, nos quais não há malícia, quero dizer, que vêm a Mim não para apanhar-me em faltas, como fazem aqueles que vos expulsaram do Templo para que não viésseis à Vida. Mas também aos gentios de todas as partes do mundo. Eu vejo os cretenses, os fenícios misturados com os habitantes do Ponto e da Frígia, e há um daquelas praias até onde chegam as águas do mar desconhecido e que é a passagem para outras terras, onde também serei amado. E vejo gregos com sicilianos, cirenaicos com asiáticos. Pois bem. Eu vos digo: Ide! Dizei em vossas cidades que a Luz está no mundo, e que venham à Luz. Dizei que a Sabedoria deixou os Céus, a fim de fazer-se pão para os homens e água para os homens doentios. Dizei que a Vida veio para tornar sãos de novo e ressuscitar o que está doente e morto. E dizei… dizei que o tempo passa rápido como um relâmpago de verão. Quem tem desejo de Deus, venha. Seu espírito conhecerá a Deus. Quem tem desejo de cura venha. A minha mão, enquanto estiver livre, dará cura àqueles que a invocam com fé.

Dizei, sim!… Ide, e ide solícitos, e dizei que o Salvador está esperando por aqueles que o esperam e desejam uma ajuda do alto, pela Páscoa, na Cidade Santa. Dizei-o àqueles que têm necessidade e também àqueles que são simplesmente uns curiosos. Daquele movimento impuro da curiosidade pode brotar para eles a centelha da fé em Mim, da Fé que salva. Ide! Jesus de Nazaré, o Rei de Israel, o Rei do mundo, convoca os representantes do mundo para dar-lhes os tesouros de suas graças, e tê-los como testemunhas de sua elevação, que o consagrará como triunfador pelos séculos dos séculos, Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ide! Ide!

Na aurora de minha vida terrena, de muitos lugares vieram os representantes do meu Povo para adorar o Pequeno, no qual o Imenso se ocultava. A vontade de um homem, que se julgava muito poderoso, mas que era um servo da Vontade de Deus, havia ordenado que se fizesse um recenseamento do Império. Obedecendo a uma desconhecida e imutável ordem do Altíssimo, aquele homem pagão devia fazer-se o pregoeiro de Deus, que queria ver todos os homens de Israel espalhados por todas as partes da terra, nas terra deste povo, perto de Belém de Éfrata, assombrados com os sinais vindos do céu ao primeiro vagido de um Menino. E, não bastando isso, outros sinais falaram aos gentios, e os representantes deles vieram adorar o Rei dos reis, ainda pequenino, pobre, ainda longe de sua coroação na Terra, mas já,oh! já rei, na presença dos anjos.

Chegou a hora na qual serei rei na presença dos povos. Rei antes de voltar para o lugar de onde vim. Ao pôr do sol do meu dia terreno, à tarde de minha vida de homem, é justo que aqui estejam homens de todos os povos para verem aquele que vai ser adorado, e no qual se encerra toda a Misericórdia. E que fruam dela os bons, as primícias desta messe nova, desta Misericórdia, que se abrirá como uma nuvem de Nisã para encher os rios de águas salutares, a fim de que fiquem aptos para tornar frutíferas as árvores plantadas em suas margens, como se lê3 em Ezequiel.

534.9E Jesus começa de novo a curar os doentes e as doentes, e a recolher os nomes deles, pois agora cada um quer dizer o seu:

– Eu, Zila… Eu, Zabdi… Eu, André… Eu, Teófanes… Eu, Selima… Eu, Olinto… Eu, Filipe… Eu, Elissa… Eu… Eu… Eu…

Acabou. Ele quereria ir-se. Mas eles pedem e insistem com Ele para que fique e fale ainda.

Um deles, talvez seja um zarolho, pois está com um olho coberto por uma bandagem, também diz, para continuar a retê-lo:

– Senhor, eu fui ferido por um homem que tinha inveja de meus bons negócios. Salvei ainda minha vida, com dificuldade. Mas um olho eu perdi, vazado por um dos golpes. Agora o meu rival ficou pobre e malvisto, e fugiu para um lugar perto de Corinto. Eu sou de Corinto. Que eu deveria fazer por aquele homem que quase me matou? Não fazer aos outros o que jamais eu não gostaria que me fizessem, está bem. Mas desse homem eu já recebi o mal, muito mal…

E o rosto dele está com uma expressão na qual se pode ler o que ele não disse: “… e por isso eu deveria dar-lhe o troco…”

Mas Jesus olha para ele, com um ar de sorriso em seus olhos de safira, sim, mas com uma dignidade de Mestre em todo o seu rosto, e diz:

– E tu, que és da Grécia, ainda me perguntas? Por acaso não disseram os vossos grandes que os mortais se tornam semelhantes a Deus quando correspondem aos dois dons que Deus lhes deu, e que são: poder estar na verdade e fazer o bem ao próximo?

– Ah! Sim. Pitágoras!

– E não disseram que o homem se aproxima de Deus não com a ciência e o poder, ou outra coisa e, sim, fazendo o bem?

– Ah! Sim. Demóstenes. Mas desculpa, Mestre, se eu te pergunto. Tu não deixas de ser um hebreu e os hebreus não amam os nossos filósofos… Como sabes estas coisas?

– Homem, porque era Eu, a Sabedoria, quem inspirava as inteligências para pensarem aquelas palavras. Eu estou onde o Bem está sendo feito. Tu, um grego, escuta os conselhos dos sábios, de cujos conselhos Eu ainda estou falando. Faze o bem a quem te fez mal e serás chamado santo de Deus. E agora, deixa-me ir. Há outros que me estão esperando. Adeus, Valéria4. E não temas por Mim. Ainda não é a minha hora. Quando chegar a hora, nem mesmo todos os exércitos do César poderão pôr obstáculos aos meus adversários.

– Salve, Mestre. E reza por mim.

– Para que a paz te possua. Adeus. A paz esteja contigo, sinagogo. A paz esteja com os que creem e com os que se inclinam para a paz.

E com um gesto, que é de saudação e de bênção, sai da sala, atravessa o pátio e vai para a rua.

1 diz, citando de Ezequiel 37,4-6.12-14.
2 filhos primogênitos, dos quais se narra em Êxodo 11,4-8; 12,29-30.
3 se lê, em Ezequiel 17,5-8; 19,10-11.
4 Valéria é a romana nominada que o acolheu e saudou ao início. Já na nota, é nominada ao final do capítulo anterior (533.5).


1
2
3
4
5
6
7
8