500. 500. Reflexões de Bartolomeu e Joãodepois de um retiro sobre o monte Nebo.
23 de setembro de 1946.
500.1 – Terei sempre saudades deste monte e deste repouso no Senhor
–diz Pedro, enquanto se preparam para descer ao vale por uma encosta muito selvagem.
Encontram-se em uma cadeia de montes bem altos. Ao oriente, para além do vale, outros montes; montes ao sul e ao norte, ainda mais altos. A noroeste o verde vale do Jordão, que termina no Mar Morto. A oeste, primeiro está o mar escuro e depois, mais ao longe, a pedrenta aridez do deserto, interrompida apenas pelo esplêndido oásis de Engadi, e mais adiante estão os montes da Judeia. É um panorama admirável e vasto. Nossos olhos se divertem olhando para as direções que quiserem. É para esquecer-se, ao ver-se tanta vida vegetal que é, ou se supõe que seja habitada, da vista horrenda do lago Asfaltite, sem velas e sem vida, escuro, mesmo estando sob os raios do sol, triste até na baixa e alongada península que, do lado oriental, quase à altura da metade do lago, se estende por ele adentro. Mas, que caminhos para se descer ao vale! Só os animais selvagens podem sentir-se à vontade naqueles caminhos. Se não pudessem agarrar-se às varas e às moitas, não seria possível descer do cume, o que faz que Iscariotes vá dizendo seus motejos.
– Mesmo assim, eu gostaria de voltar aqui –replica Pedro.
– Tu tens uns gostos singulares. Aqui é pior ainda do que o primeiro lugar e do que o segundo.
– Mas não é pior do que o lugar onde o nosso Mestre se prepara para a pregação –objeta João.
– Ora, para ti tudo sempre é bonito…
– Sim. Tudo o que está ao redor do meu Mestre é bonito e bom. Eu o amo.
– Olha que nesse “tudo” estamos também eu… e muitas vezes até os fariseus e os saduceus, os herodianos… Amas também a esses?
– Ele os ama.
– E tu, ah! ah! ah! Fazes como Ele, não? Mas Ele é Ele, e tu és tu. Não sei se poderás amar sempre, tu que ficas pálido, quando ouves falar de traição e morte, ou de quem deseja tais coisas.
– Isto é sinal de que eu não sou outra coisa, sendo muito imperfeito, quando me perturbo, temendo por Ele, e de raiva para com os culpados.
– Ah! Então te perturbas também por raiva? Eu não sabia… Então tu, se por acaso visses um dia a alguém que realmente fizesse mal ao Mestre, que farias?
– Eu?! E tu me perguntas isso? A Lei diz: “Olho por olho, dente por dente.” As minhas mãos se tornariam umas tenazes ao redor da garganta do agressor.
– Oh! Oh! Oh! Ele diz que se deve perdoar! Foi assim que Ele te ensinou a meditar?
– Deixa-me, ó perturbador! Por que me tentas e perturbas? Que é que tens no coração? Eu gostaria de poder ler nele…
500.2 – A quem perscruta as águas do Mar Morto o mistério do fundo não aparece. Aquelas águas são uma pedra de sepulcro sobre a podridão que elas cobriram –diz, atrás deles Bartolomeu, que havia ficado atrás de todos.
Os outros, bem ou mal, estão lá na frente e não ouviram. Mas Bartolomeu, sim. Ele se intromete na coversação dos dois e seus olhos são uma advertência.
– Oh! O sábio filho de Tolmai! Mas certamente não estarás querendo dizer que eu sou como o Mar Salgado!
– Eu não estava falando contigo, mas com João. Vem comigo, filho de Zebedeu. Eu não te perturbarei –e pega João por um braço, como quem procura um apoio, ele um ancião sobre o ágil e jovem companheiro.
Judas fica por último e às costas deles faz um gesto feio de ira. Parece estar jurando a si mesmo alguma coisa, ou ameçando.
– Que Judas queria dizer? E tu, que querias dizer? –pergunta João ao velhinho Natanael.
– Não penses nisso, meu amigo. 500.3Ao contrário, vamos pensar em tudo que o Mestre nos explicou nestes dias. Israel, como foi que o entendeu!
– É verdade. Eu não entendo como é que o mundo não o compreende!”
– Nem nós o compreendemos completamente, João. Não o queremos compreender. Não vês que dificuldade nós temos para aceitar a ideia messiânica dele?
– Sim. Em tudo mais nós cremos nele cegamente, menos neste ponto. Tu, que és douto, não sabes dizer-me o porquê disso? Nós que taxamos de obtusos todos os rabis, em comparação com o Cristo, por que é que nós também não aceitamos a ideia perfeita de uma realeza espiritual do Messias?
– Eu me tenho feito esta pergunta muitas vezes. Porque eu gostaria de chegar a isso a que tu dás o nome de ideia perfeita. Eu creio poder ficar em paz, dizendo a mim mesmo que o que luta dentro de nós, cheia da vontade de acompanhá-lo, não só materialmente e doutrinalmente, mas também espiritualmente. Mas, contra essa aceitação se opuseram os séculos que vieram antes de nós… e que estão dentro de nós. Dentro de nós. Estás vendo? Olha para o oriente, para o sul e para o ocidente. Cada pedra evoca uma lembrança e tem um nome. Cada pedra, cada fonte, cada caminho, cada vila ou castelo, cada cidade, cada monte, enfim cada coisa que é que nos lembra? O que ela nos grita? A promessa de um Salvador. A misericórdia de Deus para com o seu povo. Como a gota de óleo que sai de um odre furado, o pequeno grupo do começo será o núcleo do futuro povo de Israel, se expandiu como Abraão pelo mundo até o longínquo Egito, e depois sempre mais numeroso, voltou com Moisés às terras do Pai Abraão, rico pelas sempre mais amplas e mais seguras promessas e pelos sinais da paternidade de Deus, constituído como um verdadeiro Povo, porque munido de uma Lei que mais santa do que ela não há. Mas que foi que aconteceu depois? Que foi que aconteceu àquele cume que há pouco estava refletindo o sol? Olha agora para ele. Está coberto de nuvens que mudam o seu aspecto. Se não se soubesse que é ele mesmo, e, se precisássemos reconhecê-lo para, por meio dele, acharmos o caminho certo, será que o poderíamos fazer, estando ele assim tão mudado pelas capas espessas das nuvens que mais parecem uns dorsos e uns jugos? Conosco aconteceu assim. O Messias é aquilo que Deus disse aos nossos pais, aos patriarcas e aos profetas. Isso é imutável. Mas o que nos acrescentamos de nosso… para podermos explicá-lo, segundo a nossa pobre sabedoria humana, foi um Messias criado por nós, uma figura moral tão falsa do Messias, que nós ao verdadeiro Messias nem o reconhecemos mais. Nós, como os séculos e as gerações que vieram antes de nós, cremos no Messias como nós o imaginamos, um vingador, um Rei humano, muito humano, e não conseguimos, ainda que digamos que sim, que nós cremos, não podemos conceber um Messias e Rei como Ele é realmente, como foi pensado e querido por Deus. Assim é, meu amigo.
500.4 – Mas assim, não chegaremos nunca a ver, a crer, a desejar o Messias verdadeiro?
– Conseguiremos. Se não devêssemos conseguir, Ele não nos teria escolhido. Se a humanidade não tivesse que chegar nunca a receber o benefício do Messias, o Altíssimo não o teria mandado.
– Mas Ele redimirá a Culpa, mesmo sem a ajuda da Humanidade! Somente por seu merecimento.
– Meu amigo, seria uma grande redenção a da Culpa original. Mas não seria completa. Pois em nós há outras culpas individuais, além da de origem. Essas, para serem lavadas, têm necessidade do Redentor e da fé de quem recorre a Ele, como ao seu Salvador. Eu penso que a Redenção esteja em ação até o fim dos séculos. O Cristo não estará inativo nem por um momento, desde quando já for o Redentor, e der à humanidade a vida que está nele, assim como uma fonte se dá continuamente a quem tem sede, dia após dia, mês após mês, ano após ano, século após século. A humanidade estará sempre necessitada de Vida. Ele não pode cessar de dar-lha aos que esperam e creem nele com sabedoria e justiça.
– Tu és douto, Natanael. Eu sou um pobre ignorante.
– Tu fazes por um instinto espiritual o que eu faço penosamente por uma reflexão mental: a nossa transformação de israelitas em cristãos. Mas tu chegarás mais depressa ao término, porque sabes amar mais do que pensar. O amor te transporta e te transforma.
– Tu és bom, Natanael. Se fôssems todos como tu! – João dá um forte suspiro.
– Não penses nisso, João. Rezemos pelo Judas –lhe diz o apóstolo ancião, que compreendeu aquele suspiro de João.
500.5– Oh! Estais aqui vós ainda! Nós vos estávamos esperando. Que é que tínheis para ficardes falando tanto? –perguntou-lhes, sorrindo, Tomé.
– Nós falávamos do antigo Israel. Onde está o Mestre?
– Ele foi com os irmãos e Isaque para a frente, à casa de um pastor doente. Disse-nos que fôssemos para a frente pela estrada até àquela que sobe para o cume.
– Então, vamos.
Vão descendo agora por um caminho menos ingreme até chegarem a uma verdadeira estrada para burros, que sobe pelo Nebo. No meio do bosque há um punhado de casas. Mais abaixo, quase no vale, um povoado de verdade aparece sobre as encostas, que já vão se aplainando. Da estradinha onde estão, já veem as pessoas que entram no povoado.
– Vamos esperar ali aquele de Petra? –pergunta Pedro.
– Sim. Ali é o povoado. Esperamos que ele já tenha chegado lá. Se já tiver chegado, amanhã retomaremos o caminho para o Jordão. Não sei. Não me sinto, nem um pouco, tranquilo aqui –diz Mateus.
– O Mestre havia dito que fôssemos muito mais para a frente –diz Iscariotes.
– Sim. Mas espero que se convença do contrário.
– De que tens medo? De Herodes? Dos seus valentões?
– Os valentões não estão somente perto de Herodes. Oh! Aí vem o Mestre! Os pastores são muitos e estão felizes. Estes foram conquistados. São nômades. Eles estão espalhando a Boa Nova de que o Messias está em sua terra, diz Mateus.
Jesus os reúne com um acompanhamento de pastores e rebanhos.
– Vamos. Façamos o possível para chegarmos logo ao povoado. Eles nos hospedarão. São conhecidos.
Jesus está contente por estar entre os simples que sabem crer no Senhor.