568. 568. Início da viagem na Samaria,partindo de Efraim em direção a Silo.
24 de fevereiro de 1947.
568.1– Deixa que te acompanhemos, Mestre. Não te aborreceremos
–suplicam muitos de Efraim, reunidos diante da casa de Maria de Tiago, que está chorando todas as suas lágrimas apoiada na soleira da porta escancarada.
Jesus está no meio dos seus doze apóstolos. Mais adiante está um grupo ao redor de sua Mãe e nele estão Joana, Nique, Susana, Elisa, Marta e Maria, Salomé e Maria de Alfeu. Tanto os homens como as mulheres estão preparados para a viagem, com as vestes sungadas e um pouco arregaçadas, para deixarem mais livres os pés; e com sandálias novas e muito bem atadas, não somente no peito dos pés, mas também na parte mais baixa das pernas, com tirinhas de couro trançadas, como se faz para viajar por estradas de trânsito não muito fácil. Os homens transportam também as bolsas das discípulas.
O povo suplica para conseguir de Jesus a licença de acompanhá-lo, enquanto os pequeninos gritam, com seus rostinhos levantados e os braços erguidos:
– Um beijo! Pega-me nos braços! Volta, Jesus! Volta logo e vem contar-nos muitas belas parábolas! Conservarei para Ti as rosas do meu jardim! Eu não comerei as frutas, a fim de conservá-las para Ti! Volta, Jesus. A minha ovelhinha vai parir e eu te presentearei com o cordeirinho, com sua lã farás uma veste como a minha!… Se vieres logo, eu te darei as fogaças que minha mãe faz com o primeiro trigo…
Ficam pipilando como uns passarinhos ao redor do seu grande Amigo, e lhe puxam a veste, penduram-se à cintura dele, procurando subir até entre seus braços, amorosamente atrevidos, a tal ponto que Jesus fica impedido de responder aos adulto, porque sempre há uma nova carinha para beijar.
– Mas, fora! Basta! Deixai o Mestre em paz, mulheres! Repreendei os vossos meninos –gritam os apóstolos, aos quais toca abrir o caminho naquelas primeiras horas do dia.
E eles dão até, como se estivessem brincando, algum pescoção aos que não querem fazer caso deles.
– Não. Deixai-os. Para mim esta doçura é melhor do que a da aurora. Deixai-os fazer e deixai-me aceitar. Deixai que neste amor Eu me conforte, pois é um amor livre de cálculos e perturbações –diz
Jesus, defendendo os seus pequeninos amigos, sobre os quais, ao abrir Seus braços, cai o amplo manto, que os acolhe debaixo de suas asas azuis e protetoras.
Os pequenos se comprimem, envolvidos por aquele ar morno naquela penumbra azulada, e se calam felizes como uns pintinhos por baixo das asas de sua mãe.
568.2Finalmente, Jesus pode falar aos adultos:
– Vinde agora, se achais que podeis fazê-lo!
– E quem o proíbe, Mestre? Estamos em nossa região!
– Os campos com cereais, com videiras e os pomares exigem todo o vosso esforço, e as ovelhas estão em tempo de tosa e de acasalamento, e as que nele estiveram na outra vez já estão a ponto de parir e, além disso, já é tempo de cuidar do feno…
– Não importa, Mestre. Para a tosa e o acasalamento das ovelhas bastam os velhos e os meninos, e as mulheres cuidam da parte delas, e também do feno… Os pomares e os campos podem esperar. Porque o trigo já começa a endurecer dentro da espiga, para a foice ainda há tempo, mas já vinhedos, olivais e pomares não têm outra coisa a fazer a não ser deixarem intumescendo ao sol os frutos em suas diversas fases de formação. Nós nada podemos fazer por eles, senão no tempo da colheita, como faz a mãe de família que não pode fazer o pão enquanto o fermento não fez a farinha crescer em volume. O sol é o fermento dos frutos. É ele que faz agora, como antes o fez o vento, o trabalho de casar as flores por entre os ramos. E depois… Se perdesse até algum cacho ou alguma fruta, ou o cipó e o joio sufocassem alguma espiga, seria sempre um prejuízo pequeno em comparação com a perda de uma só das tuas palavras! –diz um velho, que eu sempre vi como é honrado na cidade.
– Falaste bem. Então, vamos. 568.3Maria de Tiago, Eu te agradeço e abençoo, porque foste para mim uma boa mãe. Não chores! Não deve chorar quem fez uma boa obra.
– Ah! Eu te perco e não te verei mais!
– Nós certamente nos veremos ainda.
– Voltas aqui, Senhor? Quando? –pergunta, com um sorriso entre lágrimas, a mulher.
– Aqui Eu não voltarei, como agora voltei…
– E, então, onde é que nos veremos ainda, se eu, que sou pobre e velha, e não posso sair pelas estradas do mundo a procurar-te?
– No Céu, Maria. Na Casa de nosso Pai. Lá, onde há lugar para judeus e samaritanos, onde há um lugar para aqueles que me amarem em espírito e verdade. Tu já o estás fazendo, porque crês que eu sou o Filho do Deus verdadeiro…
– Oh! Se eu creio! Mas para nós não há esperança, porque só Tu é que nos amas sem fazer distinções.
– Quando Eu já tiver ido, estes (e mostra os apóstolos) virão em meu lugar. E lembrando-se de Mim eles não ficarão perguntando quem é que pede para entrar no rebanho do verdadeiro e único Pastor.
– Eu já estou velha, Senhor. Não viverei tanto para chegar a ver isso. Tu és jovem e forte e por muito tempo ainda te terá a tua Mãe, e ainda te terão aqueles que te amam e são do teu povo… 568.4Por que choras, ó mãe do Bendito? –pergunta, espantada, ao ver correrem lágrimas dos olhos da Virgem Mãe.
– Nada eu tenho, a não ser a minha dor… Adeus, Maria. Deus te abençoe por tudo o que fizeste ao meu Filho. E lembra-te de que, se a dor é grande, dor maior do que a minha não há nem haverá sobre a terra1. Nunca. Lembra-te da dolorosa Maria de Nazaré… Adeus!
E Maria fica parada, chorando, depois de ter beijado a velhinha na porta da casa, pondo-se a caminho por entre as mulheres, com João ao seu lado.
E João lhe diz, com aquele seu costumeiro gesto de ficar um pouco encurvado, com o rosto erguido para olhar na direção daquela que está falando, e à qual ele diz:
– Não chores assim, Maria. Se muitos o odeiam, também muitos amam o teu Jesus. Alivia o teu espírito, ó Mãe, ao olhar para estes que agora e pelos séculos amarão ao teu Filho com todo o seu ser.
E termina em voz baixa, como que sussurrando só para Maria, à qual ele vai guiando e ajudando a andar, segurando-a pelo cotovelo para que ela não tropece nas pedras do caminho estreito, às cegas, como ela vai, por causa das lágrimas:
– Nem todas as mães poderão ver suas criaturas serem amadas… Entre elas haverá algumas que gritarão angustiadas: “Para que foi que eu a concebi?”
568.5Jesus os alcança, tendo João e Maria ficado sós, um pouco atrás das discípulas. Fica com Jesus Tiago de Alfeu. Os outros vão atrás em grupo, pensativos e tristes, como também o estão as discípulas, que vão à frente de todos. Por últimos, aglomerados, muitos homens de Efraim, que vão conversando uns com os outros.
– Um adeus é sempre triste, minha Mãe. Sobretudo quando não se sabe que um fim é um começo de uma coisa perfeita. É uma triste consequência do pecado. E continuará até depois do perdão. Mas com mais coragem os homens a suportarão tendo Deus como seu amigo.
– Tens razão, Jesus. Mas existe uma dor que Deus deixa que experimentemos, mesmo sendo o mais paternal Amigo que possa existir. Para mim Ele é assim. Oh! Deus é bom! Muito bom. Eu não quereria que Tiago e João, nem qualquer outro se escandalizasse com o meu pranto. Deus é bom. Foi sempre bom com a pobre Maria. Eu disse isso a mim mesma desde que aprendi a pensar. E agora… agora eu o digo a cada momento, a cada instante de hora. Sempre eu o digo a mim mesma e quanto mais a dor se acentua… Deus é bom. Ele te deu a mim. Filho amoroso e santo, e de tal modo que somente em sua natureza criada já pode compensar toda a dor de uma mulher. Ele te deu a mim, pobre menina, elevada a Mãe do Verbo encarnado… E esta alegria de poder chamar-te Filho, ó meu adorado Senhor, é tão grande, que não deveria o pranto cair dos meus cílios por martírio algum, se eu fosse perfeita como Tu ensinas. Mas eu sou uma pobre mulher, meu Filho! E Tu és o meu Filho… E qual é a mãe que não há de chorar quando sabe que seu Filho é odiado, e sabe… Meu Filho, socorre à tua serva… Certamente ainda havia soberba em mim quando eu pensava ser forte… Isso era naquele tempo… Mas o tempo ainda estava longe… Agora aqui… Eu o percebo… Socorre-me, Jesus, meu Deus. Se Deus me deixa sofrer assim, certamente será por causa da bondade que Ele tem para comigo. Porque, se Ele quisesse, poderia não fazer-me sofrer por tudo o que está acontecendo… Ele te formou em meu seio assim!… Como… Não há comparação para dizer como é que Tu foste formado… Mas Ele quer que eu sofra… e que Ele seja bendito por isso… para sempre. Mas ajuda-me, Jesus. Ajudai-me todos… todos… porque é um mar tão amargo este no qual eu procuro me saciar…
– Vamos rezar a oração. Nós quatro. Nós que te amamos com todo o coração, Mamãe. Aqui Eu,o teu Filho, e João e Tiago, que te amam como se fosses mãe deles… “Pai nosso, que estás nos céus…”
E Jesus, regendo o pequeno coro de vozes que o seguem baixinho, diz toda a oração dominical, salientando muito algumas frase, como: “seja feita a tua vontade”… “não nos deixeis cair em tentação.” Depois diz:
– Eis. O Pai nos ajudará a fazer a vontade dele, ainda se esta é tal que a nossa debilidade de homens fique pensando que não pode cumpri-la, e não nos deixará cair na tentação de pensar que Ele é menos bom, porque, quando estivermos bebendo o cálice amarguíssimo, o seu anjo nos dará um conforto celeste para limpar o amargor de nossos lábios.
Jesus segura pela mão sua mãe, que corajosamente tem lutado com seu pranto até chegar ao ponto de o obrigar a ir para o fundo do seu coração. Ao lado deles — perto de Maria, está João; perto de Jesus está Tiago de Alfeu — os dois apóstolos, comovidos, olham para eles.
568.6As discípulas viraram para trás algumas vezes ao ouvirem o pranto de Maria e a oração dos quatro. Mas se abstiveram de se unir a eles. Lá atrás, os apóstolos estão perguntando um ao outro: “Mas por que será que Maria está chorando assim?” Os apóstolos, eu disse, mas eu quero dizer todos. Menos Judas de Keriot, que vai lá na frente um pouco isolado e muito pensativo, meio taciturno, a tal pont, que Tomé o nota e diz aos outros:
– Que será que Judas tem para ficar assim? Parece que ele vai morrer!
– Ora! Deverá estar com medo de voltar para a Judéia –responde-lhe Mateus.
– Eu… Que foi que te disse o Mestre sobre o dinheiro? –pergunta Zelotes.
– Nada de especial. Ele me disse: “Agora voltamos às condições de antes. Judas como tesoureiro e vós os distribuidores das esmolas. Das despesas, as discípulas querem encarregar-se.” Isso nem me pareceu ser verdade. Eu lidei tanto com dinheiro que hoje o odeio.
– E como cuidam bem dele as discípulas! Estas sandálias são tão firmes! Nem parece que estamos caminhando nas montanhas. Quem saberá quanto elas custam? –diz Pedro, olhando para seus pés calçados com aquelas sandálias novas que protegem bem os pés, dos calcanhares até à ponta, e seguram as cavilhas com finas tiras de couro.
– Quem cuidou disso foi Marta. Aí se vê a mão rica e providente dela. Nas outras vezes, nós também as ligávamos assim, mas aquelas cordinhas eram um suplício. Não se perdia a sola, mas o que se perdia era a pele da perna… –diz André.
– E nos machucava o calcanhar e os dedos. Esta é a razão por que aquele ali atrás as trazia sempre daquele jeito –diz Pedro, mostrando Judas de Keriot.
568.7A estrada vai subindo para a crista do monte. Olhando para trás, vê-se Efraim, toda branca ao sol, e parece já estar bem lá embaixo para eles que vão subindo…
Depois os apóstolos se aproximam das discípulas para ajudá-las a passar pelo caminho, que naquele ponto é muito íngreme; e até Bartolomeu, que tinha ficado lá atrás, diz aos de Efraim:
– Vós nos ensinastes um caminho muito difícil, meus amigos.
– Sim. Mas depois de termos atravessado aquele bosque, há uma estrada boa que em pouco tempo nos fará chegar a Silo. Lá podereis descansar mais horas do que chegando de noite por outro caminho
–responde-lhe alguém.
– Tens razão. A estrada, quanto mais cansativa, mais rapidamente conduz até a meta.
– O teu Mestre sabe disso. Por isso Ele não se poupa. Ah! Nós não podemos esquecer-nos!… Especialmente de quanto Ele nos ajudou nestes últimos dias, depois de terem ouvido alguns de nossa região que o insultaram tão injustamente. Só Ele é bom, e por isso é que faz o bem até aos que o odeiam.
– Vós não o odiastes.
– Nós, não. Mas também a muitos outros nós não odiamos e, contudo, somos odiados sem razão.
– Fazei vós também como Ele faz, sem medo, e vereis que…
– E vós, então, por que não fazeis assim? É a mesma coisa. Nós de cá, vós de lá, e no meio existe um monte: o monte levantado por nossos erros comuns. E no alto está o Deus comum. Mas por que, então, nem nós nem vós subimos a ladeira para nos encontrarmos lá em cima, aos pés de Deus e perto uns dos outros?
Bartolomeu compreende a censura, que é justa, porque ele, em sua inegável virtude, tem bem forte o capricho de ser israelita e inexorável em tudo o que não é como em Israel, e muda o rumo da conversação sem responder diretamente. Ele diz:
– Não há necessidade de subir. Deus desceu ao meio de nós. Basta acompanhá-lo.
– Acompanhá-lo, sim. Disso gostaríamos. Mas se nós entrássemos na Judéia em companhia dele, será que não lhe faríamos mal? Tu bem sabes de que Ele é acusado e de que é que nos acusam: de sermos samaritanos, quer dizer, uns demônios.
Bartolomeu dá um suspiro e depois os deixa no ar, dizendo:
– Estão me fazendo sinal para eu ande mais depressa… –e encomprida o passo.
Os de Efraim olham-no ir adiante e um deles murmura:
– Ah! Não é como Ele! O que perdemos ao perdê-lo! –e faz um gesto de desconforto.
568.8– Tu sabes, Elias, que Ele, ontem de tarde, levou uma boa soma ao sinagogo para que a entregue a Maria de Tiago, a fim de que ela não passe mais fome?
– Eu, não. E por que Ele não a foi entregar a ela?
– Para não receber os agradecimentos da velha. E ela nem sabe disso ainda. Eu cheguei a sabê-lo porque o sinagogo me disse, para aconselhar-se comigo se será bom comprar para ela os terrenos de João, que o irmão quer vender, ou então, passar-lhe o dinheiro pouco a pouco, em diversas vezes. Eu aconselhei a comprar dos lugares de João. Para ela eles produzirão trigo, óleo e vinho, o suficiente para viver sem passar fome. Quanto ao dinheiro… aquele…
– Mas, então, é grande mesmo a soma?! –pergunta um terceiro.
– Sim. E o nosso sinagogo tem recebido muito, até para outros pobres da cidade e dos campos. Para que “também eles possam fazer a festa do Páscoa dos Ázimos, a fim de saudarem os tempos novos”, como disse o Mestre.
– Certamente Ele falou do ano novo.
– Não. Ele disse: “os tempos novos.” E tanto é assim, que o sinagogo não irá usar daquele dinheiro antes da Festa dos Ázimos.
– Oh! Que terá ele querido dizer? –perguntam muitos.
– Que quererá dizer? Eu não sei. Ninguém sabe. Nem João, o seu predileto, nem Simão de Jonas, que é o chefe dos discípulos. Eu perguntei a eles sobre isso e o primeiro ficou pálido, o segundo ficou absorto, como se quisesse adivinhar.
– E Judas de Keriot? Ele está sempre entre eles. Talvez mais do que os outros dois. Ele sabe de tudo, como diz. Então deverá também saber disso. Vamos perguntar a ele. Ele gosta de dizer o que sabe.
568.9Põem-se a procurar Judas, que ainda está isolado, como no começo, sozinho no caminho, porque os outros sumiram numa curva do caminho e parecem ter ficado escondidos pelas vegetações verdes da encosta.
– Judas, escuta-nos. O Mestre diz que quer uma grande festa pela Páscoa dos Ázimos para saudar os tempos novos. Que será que Ele quer dizer?
– Eu não sei. Estarei eu, porventura, no pensamento do Mestre? Perguntai a Ele, que vos ama muito –e apressa o passo deixando-os decepcionados.
– Afinal, ele não é o Mestre. Não há ninguém que tenha piedade, como o Mestre… –dizem eles, balançando a cabeça.
– Pois bem. Para que, então, estamos indo atrás deles? Sigamos a Ele! E faremos bem fazendo assim. Vamos. Talvez de seus lábios não possamos saber o que Ele quer dizer sem que antes Ele vá à Judéia.
Eles apressam o passo até alcançarem os outros, que estão sentados, descansando sob as ramagens dos carvalhos centenários, e tendo diante de seus olhos um dos mais belos panoramas da Palestina.
1 dor maior do que a minha não há nem haverá sobre a terra, como em: Lamentações 1,12. Maria Ss. disse (em 370.17) que Ela une ao próprio sofrimento “o sofrimento de todas as mães infelizes”; e que o seu sofrimento “se dá não pelo ódio de uma pessoa, mas do mundo inteiro”. E Jesus fará contemplar (em 603.2/3) o sofrimento absolutamente grande da Mãe juntamente com o sofrimento absolutamente grande do Filho, que tem de expiar todas as culpas do homem, como foi dito no segundo parágrafo de 317.5 e no capítulo 613. O sofrimento deles, segundo a obra valtortiana, continuaria misteriosamente na glória celeste, como diremos na nota de 634.7.
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