40. 40. O exame de Jesus maior de idade no Templo.
21 de dezembro de 1944.
40.1 O Templo está como em dias de festa. A multidão, entra e sai, atravessa os pátios, os átrios, e pórticos, desaparece nesta ou naquela construção situada nos diversos patamares, sobre os quais está espalhado o aglomerado do Templo.
As pessoas da comitiva da família de Jesus entram também, cantando salmos em voz baixa. Primeiro, todos os homens, depois, as mulheres. A eles se uniram também outros, que talvez sejam de Nazaré, ou amigos que moram em Jerusalém. Não sei.
José se afasta, depois de ter, junto com os outros, adorado o Altíssimo, daquele ponto de onde os homens podiam ficar (as mulheres pararam no patamar logo abaixo) e com o Filho, José atravessa novamente os pátios, dobra para um lado, entrando numa grande sala, que parece ser uma sinagoga. Não sei como pode ser isso. Haveria sinagogas também no Templo? José fala com um levita e este desaparece atrás de uma cortina listrada, para voltar depois com uns sacerdotes anciãos, penso que são sacerdotes, certamente mestres no conhecimento da Lei, designados para examinar os fiéis.
40.2 José apresenta-lhes Jesus. Primeiramente, os dois se inclinaram
profundamente diante dos dez doutores, que estão sentados com toda a dignidade sobre baixos bancos de madeira.
– Este aqui –diz ele–. É meu filho. Há três luas e doze dias que ele completou o tempo que a Lei exige para ser maior de idade. Mas eu quero que Ele o seja segundo os preceitos de Israel. Peço-vos que observeis que, pela sua compleição, Ele mostra que já saiu da infância e da menoridade. E peço-vos que o examineis com benevolência e assim possais julgar como é verdade tudo o que eu, pai dele, afirmo. Eu o preparei para esta hora e para esta sua dignidade de filho da Lei. Ele sabe os preceitos, as tradições, as decisões, os costumes das fímbrias e dos filactérios, sabe recitar as orações e as bênçãos diárias. Pode, pois, conhecendo a Lei, nos seus três ramos1 da Halacá, do Midraxe e da Hagadá, conduzir-se como um homem. Por isso, eu desejo ficar livre da responsabilidade por suas ações e por seus pecados. De agora em diante, seja Ele sujeito aos preceitos, e pague por suas faltas contra eles. Examinai-o.
– Nós o faremos.40.3Vem para frente, menino. Qual o teu nome?
– Jesus de José, de Nazaré.
– É nazareno. Tu sabes ler?
– Sim, rabi. Sei ler as palavras escritas e as que estão encerradas nas próprias palavras.
– Que estarias querendo dizer?
– Quero dizer que compreendo também o significado da alegoria ou do símbolo, que se oculta debaixo de uma aparência, como a pérola, que não aparece, mas está encerrada numa concha feia e fechada.
– Esta resposta não é comum, e é muito sábia. Raramente se ouve uma coisa destas, saindo dos lábios de pessoas adultas; imaginem saindo da boca de um menino, e, além disso, nazareno!
A atenção dos dez despertou. Seus olhos não perdem de vista, nem por um instante, o belo menino loiro que olha para eles com firmeza, sem arrogância, mas também sem medo.
– Tu estás honrando o teu mestre, que certamente devia ser muito douto.
– A Sabedoria de Deus fez do coração dele sua morada.
– Mas, escutai bem! Feliz de ti, ó pai de um filho como este!
José, que está lá no fundo da sala, sorri, e se inclina.
40.4 Dão a Jesus três rolos diferentes, dizendo:
– Lê aquele que está envolvido com uma fita de ouro.
Jesus abre o rolo e lê. É o Decálogo. Mas, depois das primeiras palavras, um dos juízes tira o rolo de suas mãos, e lhe diz:
– Continua, agora, de memória.
E Jesus continua, com tal segurança, que parece estar lendo. Cada vez que fala no Senhor, inclina-se profundamente.
– Quem te ensinou isso? Por que fazes assim?
– Porque santo é esse Nome, e deve ser pronunciado com sinal interno e externo de respeito. Ao rei, que é rei por breve tempo, seus súditos se inclinam, mesmo não sendo este mais do que pó. Ao Rei dos reis, ao Altíssimo Senhor de Israel, presente, ainda que não visível senão ao nosso espírito, não se deverá inclinar toda criatura, que Dele depende com sujeição eterna?
– Muito bem! Homem, nós te aconselhamos a fazer que teu filho seja instruído por Hilel ou Gamaliel. É nazareno… mas as suas respostas nos fazem esperar que Ele será um novo grande doutor.
– O filho já é maior de idade. Ele fará como quiser. Eu, se ele quiser uma coisa honesta, não me oporei.
40.5 – Rapaz, escuta. Disseste: “Lembra-te de santificar as festas. Mas não só por ti, mas pelo teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, e até pelo jumento, pois está dito que ele não fará trabalho no sábado.” Então, diz-me uma coisa: se uma galinha põe um ovo em dia de sábado, ou se uma ovelha dá cria, será lícito usar do fruto do ventre delas, ou será isso considerado uma coisa má?
– Sei que muitos rabinos, o último deles Shamai, que ainda está vivo, dizem que o ovo posto no sábado está contra o preceito. Mas Eu penso que uma coisa é o homem, e outra é o animal, e também o que o animal faz, como parir. Se eu obrigo o jumento a trabalhar, eu é que cometo o pecado pelo que ele faz, porque eu o chicoteio e obrigo a trabalhar. Mas, se uma galinha põe um ovo que amadureceu em seu ovário, ou uma ovelha gera um filhote no sábado, porque ele já está maduro para nascer, isso não é pecado, nem o ovo é pecado aos olhos de Deus, nem o cordeiro, que vieram à luz no sábado.
– E por que não? Se todo e qualquer trabalho no sábado é pecado?
– Porque o conceber e o gerar correspondem à vontade do Criador, e estão regulados pelas leis dadas por Ele a toda criatura. Ora, a galinha não faz mais que obedecer a esta lei que diz que, depois de tantas horas para a sua formação, o ovo está completo, e é posto. E a ovelha também não faz mais do que obedecer às leis dadas por Aquele que tudo fez, o qual estabeleceu que, duas vezes por ano, quando a primavera sorri para os prados em flor, e quando os bosques estão despojados de suas folhas e o gelo atormenta o peito do homem, que as ovelhas se acasalem, para dar-nos depois, no tempo determinado, o leite, a carne e os queijos tão nutritivos, justamente nos meses, em que os homens se cansam no trabalho da colheita, ou sofrem mais pelo rigor das geadas. Portanto, se uma ovelha, quando chega o seu tempo, dá cria, oh! isso bem pode ser uma coisa sagrada, até diante do altar, pois é fruto da obediência ao Criador.
40.6 – Eu não continuo a examinar mais. A sabedoria dele supera a dos adultos. E nos assombra.
– Não. Ele diz que é capaz de compreender até os símbolos. Ouçamo-lo.
– Primeiro, diz um salmo, as bênçãos e as orações.
– E também os preceitos.
– Sim. Diz os midrashot.
Jesus diz, então, com segurança, uma ladainha de “Não fazer isso, não fazer aquilo…” Se nós tivéssemos de ter ainda todas aquelas limitações, rebeldes como somos, Eu vos garanto que ninguém se salvaria…
– Basta. Abre o rolo da fita verde.
Jesus abre e começa a ler.
– Mais adiante, um pouco mais.
Jesus obedece.
– Basta. Lê agora, e nos explica que é que te parece que é um símbolo.
– Na Palavra santa raramente faltam os símbolos. Nós é que não os sabemos ver e aplicar. Eu leio2: 4° livro dos Reis, cap. 22,vers. 10: “Safã, escriba, continuando a referir-se ao rei, disse: ‘O sumo sacerdote Helcias me deu um livro.’ E, tendo Safã lido o mesmo na presença do rei, este, depois de ouvir as palavras da Lei do Senhor, rasgou as vestes e, em seguida, deu…”
– Continua depois dos nomes.
– “… esta ordem: ‘Ide consultar o Senhor por mim, pelo povo, por toda Judá, a respeito das palavras deste livro, que foi achado, porque a grande ira de Deus se acendeu contra nós, pois os nossos pais não ouviram as palavras deste livro, para cumprirem as suas prescrições’…”
– Basta. O fato aconteceu muitos séculos antes de nós. E, então, que símbolo encontras em um fato de uma crônica tão antiga?
– Encontro o fato de que vós não tendes tempo para o que é eterno. Eterno é Deus, e a nossa alma, e as relações entre Deus e a alma. Por isso, o que havia provocado o castigo naquele tempo é o mesmo que provoca os castigos agora, e também os efeitos da culpa são iguais.
– Que queres dizer?
– Israel não sabe mais a Sabedoria, que vem de Deus. É a Ele, e não aos pobres homens, que precisamos pedir a luz. E não se tem luz, se não se tem a justiça e a fidelidade a Deus. Por isso é que se peca, e Deus, em sua ira, pune.
– Então, nós não sabemos mais? Que é que estás dizendo, rapaz? E os seiscentos e treze preceitos?
– Os preceitos existem, mas são palavras. Nós os sabemos, mas não os colocamos em prática. Por isso não sabemos. O símbolo é este: todo homem, em qualquer tempo, tem necessidade de consultar o Senhor para conhecer a sua vontade e de nela confiar para não atrair sua ira.
40.7 – O rapaz é perfeito. Nem mesmo a cilada de uma pergunta insidiosa foi capaz de perturbar sua resposta. Que ele seja levado à verdadeira sinagoga.
Passam para uma sala mais ampla e pomposa. Aqui a primeira coisa que lhe fazem é encurtar-lhe os cabelos. Os grandes caracóis são recolhidos por José. Depois, apertam-lhe a veste vermelha com uma cinta comprida, passada em diversas voltas em torno da cintura, amarram-lhe umas fitazinhas na fronte, no braço e no manto. Elas ficam seguras por uma espécie de broche. Depois, cantam salmos, e José, com uma longa oração, louva ao Senhor e invoca sobre o Filho todos os bens.
A cerimônia chega ao fim. Jesus sai com José. Voltam para o lugar onde estavam e se reúnem aos seus parentes homens, compram e oferecem um cordeiro; depois, com a vítima já degolada, vão ao encontro das mulheres.
Maria beija o seu Jesus. Parece que havia muitos anos que ela não o via. Ela olha para Ele, feito agora mais homem, com aquela veste e aqueles cabelos, e o acaricia.
Saem e tudo termina.
1 três ramos, poderiam ser, respectivamente, o conjunto das normas de comportamento (Halakah), a série dos comentários rabínicos da Sagrada Escritura (Midrash), os mesmos comentários expostos de forma mais acessível ao povo (Haggadah). Encontrá-los-emos em: 197.3 -225.9 -414.4 -625.4. Da obra dos rabinos se falará em 252.10 e 335.9.
2 Eu leio, com citação segundo a “Vulgata” (como em 35.11) que se usava no tempo da escritora. Na “neo-Vulgata”, introduzida após o Concílio Vaticano II, os primeiros dois livros dos Reis tomaram o nome de 1 Samuel e 2 Samuel, e os sucessivos dois livros tomaram o número de ordem de 1 Rei e 2 Reis. Além do mais: Paralipómenos tornou-se Crónicas; o segundo livro de Esdras (conhecido também por livro de Neemias) tornou-se Neemias; Eclesiastes manteve-se Eclesiastes ou tornou-se Qohélet; Eclesiástico tornou-se Sirácide ou Ben Sira. Enfim, sempre na neo-Vulgata, o Salmo 9 foi dividido em dois, fazendo aumentar de uma unidade a numeração dos Salmos seguintes até 145 (transformado 146), enquanto a antiga numeração retoma com o Salmo 147, que une os Salmos 146-147 da Vulgata. Outras diferenças entre Vulgatae neo-Vulgata vêm assinaladas com nota onde e quando necessário: 50.9 -68.6 (sobre o nome Betsaida) -266.1 -272.4 -368.6 (sobre o termo gazofilácio) -413.3 -434.6 -439.2 -457.2 -463.2 -476.9 -487.6 -520.9 -544.8 (duas notas). O texto da presente edição da obra, que reproduz fielmente o manuscrito original de Maria Valtorta, conserva os reenvios bíblicos segundo a “Vulgata”. No lugar das notas, que devem facilitar a busca por parte do leitor, trazem os reenvios bíblicos segundo a “neo-Vulgata”, mesmo quando esses reenvios forem retomados por anotações de Maria Valtorta referidas na “Vulgata”. -Na obra de Valtorta o modo de citar a Bíblia (livro, capítulo, versículos) não é do tempo de Jesus mas do da escritora e nosso, assim como Jesus fala não na língua do seu tempo de vida terrena, mas na do nosso tempo. Também no modo de citar a Bíblia, por conseguinte, a obra deve ser considerada como uma “tradução” para utilidade dos seus destinatários.