358. 358. Em Péla. O jovem Jáiae a mãe de Marcos de Josias.


12 de dezembro de 1945.

 

Disegno%20p.%20390%20(Q.%2069%2c%20p.%207300) 

358.1A estrada que vai de Gadara a Péla passa por uma faixa fértil, que se estende por entre duas fileiras de colinas, uma mais alta do que a outra. Parecem dois degraus muito largos de uma escada feita para por ela subirem os gigantes fabulosos do Jordão aos montes de Auran. Quando a estrada se aproxima do largo degrau do ocidente, nossos olhos avistam não só os montes do outro lado, que eu acho serem os da Galiléia meridional e certamente da Samaria, mas também sobre o belo verde, que serve de asas para o azul do rio, de um lado e do outro. E, quando ela se afasta aproximando-se das cordilheiras do oriente, então perde-se de vista o vale do Jordão, mas ainda ficam sendo vistos os cumes das cordilheiras da Samaria e da Galiléia, que vão apontando com o seu verde sob um céu cinzento. Em dia de sol seria um belo panorama, de cores variegadas, firmes e cheias de beleza. Hoje, que o céu está todo coberto de nuvens baixas amontoadas pelo vento siroco que vai sempre aumentando e empurrando novas camadas de nuvens pesadas que vão se sobrepondo às que lá já estavam fazendo abaixar-se o céu com todo este acolchoado cinzento e desgrenhado, o panorama vai perdendo a luminosidade dos verdes, que já se mostram esmaecidos, como se fosse por alguma opacidade da névoa.

Alguns lugarejos vão sendo atingidos e deixados logo para trás, sem que se veja acontecer nada de importante. A indiferença acolhe e segue o Mestre. Somente os mendigos não deixam de interessar-se pelo grupo dos peregrinos galileus e lhes pedem esmola.

Não faltam os cegos de costume, cujos olhos foram destruídos pelo tracoma, ou os quase cegos que vão de cabeça baixa, mal suportando a luz a meia sombra dos muros, umas vezes sozinhos, outras vezes acompanhados por uma mulher ou um menino. Em certo lugar, onde a estrada para Péla se cruza com a que vem de Geran e Bozra, indo para o lago de Tiberíades, está uma grande multidão que molesta as caravanas com as suas lamentações parecidas com ganidos de cães, interrompidos, de espaço a espaço, por verdadeiros uivos. Estão à escuta, um grupo de miséria e de farrapos, encostados às paredes das primeiras casas, roendo crostas de pão e azeitonas, ou então cochilando enquanto as moscas estão a vontade, pastando sobre suas pálpebras ulceradas. Mas, ao primeiro rumor dos cascos dos animais ou ao primeiro barulho de numerosos pés juntos, eles se levantam e lá se vão, semelhantes a um andrajoso coro de tragédia antiga, todos tendo as mesmas palavras e os mesmos gestos, dirigidos aos recém-chegados. Se alguma moeda ou algum pedaço de pão passa voando, logo os cegos e os semicegos procuram, no meio da poeira ou da sujeira, para achar a esmola.

358.2 Jesus os observa e diz a Simão Zelotes e a Filipe:

– Levai-lhes dinheiro e pão. O dinheiro está com Judas e o pão com João.

Os dois vão logo para frente a fim de fazerem o que lhes foi mandado e se detêm para falar, enquanto Jesus vai indo para a frente devagar, atrasando-se assim por causa de uma fileira de burrinhos que vai atravessando a estrada.

Os mendigos ficam admirados pelas saudações e pela graça com que são saudados e ajudados pelos recém-chegados, e perguntam:

– Quem sois vós, que sois assim tão amáveis conosco?

– Discípulos de Jesus de Nazaré, o Rabi de Israel, aquele que ama os pobres e os infelizes porque é o Salvador e passa anunciando a Boa Nova e fazendo milagres.

– O milagre é este –diz um que tem as pálpebras atrozmente devastadas.

E bate no pedaço de pão sem mistura, um verdadeiro animal, que só entende as coisas materiais e só por elas se interessa. Uma mulher, que passa levando umas moringas de cobre e o ouve, diz:

– Cala essa boca, ó dorminhoco sujo.

E ela se vira para os discípulos, dizendo:

– Ele não é deste lugar. É rixento e violento para com os seus semelhantes. Seria preciso expulsá-lo, pois ele rouba dos pobres do lugar. Mas nós temos medo de suas vinganças.

E, baixinho, com um fio de voz, ela murmura:

– Dizem que ele é um ladrão que durante muitos anos roubou e matou, tendo descido dos montes de Caracamoabe e de Sela, que agora é chamada Petra pelos dominadores, aqueles que fazem as estradas dos desertos. Dizem que é um soldado desertor daquele romano que foi até lá para fazer conhecer Roma… Hélio, me parece que se chamava, com mais um outro nome. Se lhe derdes de beber, ele conta. Agora está cego e veio parar aqui… É aquele o salvador? –pergunta depois, mostrando Jesus, que vai passando sem parar.

– É aquele. Tu lhe queres falar?

– Oh! Não –diz, indiferente, a mulher.

Os dois apóstolos a saúdam e põem-se a andar para alcançar o Mestre. 358.3Mas um alvoroço surgiu entre os cegos e ouve-se um choro como o de um menino. Muitos se viram para lá e a mulher de antes, já na soleira de sua casa, explica:

– Deve ser aquele malvado, que tira o dinheiro dos mais fracos. Ele faz sempre assim.

Jesus também se virou para olhar…

De fato, um menino, ou melhor, um adolescente, sai do grupo pingando sangue e se lamentando:

– Ele me tirou tudo! E minha mãe não tem mais pão!

Uns se compadecem dele, outros se riem.

– Quem é? –pergunta Jesus à mulher.

– É um rapaz de Péla. Pobrezinho. Vive pedindo esmola. Todos são cegos na casa dele, tendo pegado a doença uns dos outros. O pai deles morreu. A mãe está em casa. O jovenzinho pede esmola aos que passam e aos camponeses.

O rapaz vem para frente com o seu bastão, enxugando as lágrimas e o sangue que lhe cai da fronte, com um pedaço de seu manto rasgado.

A mulher o chama:

– Pára Jáia. Vou lavar-te o rosto e te darei um pão.

– Eu tinha dinheiro e pão para muitos dias. Agora, não tenho mais nada. Minha mãe me espera para comer… –e se lamenta o infeliz, enquanto vai se lavando com a água da mulher.

358.4 Jesus vai à frente e diz:

– Eu te darei tudo o que tenho. Não chores.

– Mas, Senhor! Como ficaremos? Onde vamos alojar-nos? Que faremos –diz inquieto, Judas.

– Louvaremos a Deus que nos conserva com saúde. Isso já é uma grande graça.

O rapaz diz:

– Oh! Sim, o é. Ah! Se eu tivesse a vista, trabalharia para mamãe.

– Gostarias de ficar são?

– Sim.

– Por que não vais aos médicos?

– Nenhum deles nunca nos curou. Disseram-nos que há um na Galiléia que não é médico, mas cura. Mas, como fazer para ir até Ele?

– Vai a Jerusalém. Ao Getsêmani. É um olival nas faldas do Monte das Oliveiras, perto do caminho para Betânia. Pergunta por Marcos Jonas. Todos os que moram no subúrbio de Ofel os indicarão. Podes também unir-te a uma caravana. Passam muitas delas. Pergunta a Jonas por Jesus de Nazaré…

– Isto mesmo! O nome é este. Ele me curará?

– Se tiveres fé, sim.

– E fé eu tenho. Tu, aonde vais, Tu que és tão bom?

– A Jerusalém, para a Páscoa.

– Oh! Leva-me contigo! Não te darei aborrecimentos. Dormirei a céu aberto e me bastará um pedaço de pão. Nós vamos para Péla… Tu estás indo para lá, não é? Nós o diremos à mãe e depois iremos… Oh! Poderemos ver-nos! Sê bom, Senhor!…

E o jovenzinho se ajoelha, procurando os pés de Jesus para beijá-los.

– Vem. Eu te conduzirei à luz.

– Bendito sejas Tu.

358.5Começam de novo a caminhar e a mão delgada de Jesus segura por um braço o rapazinho, para guiá-lo com cuidado. E ele fala:

– Tu, quem és? És um discípulo do Salvador?

– Não.

– Mas, pelo menos, Tu o conheces?

– Sim.

– E crês que Ele me curará?

– Eu creio.

– Mas… quererá dinheiro? Eu não tenho. Os médicos cobram muito! Tivemos que passar fome para curar-nos…

– Jesus de Nazaré não quer senão fé e amor.

– Então, Ele é muito bom. Mas Tu também és bom –diz o jovenzinho e, para pegar e acariciar a mão que o está conduzindo, apalpa a manga da túnica–. Mas, que belo hábito tens! És um Senhor! Não te envergonhas de mim, todo rasgado como estou?

– Eu só me envergonho das culpas que desonram o homem.

– Eu tenho culpa de murmurar algumas vezes sobre o meu estado e de desejar roupas quentes, pão e sobretudo a vista.

Jesus o acaricia:

– Estas não são culpas que desonram. Contudo, procura não ter nem essas imperfeições e serás um santo.

– Mas, se eu sarar, não as terei mais… Ou então, não fico bom, e Tu o sabes e me preparas para a minha sorte e me instruis para eu me santificar como Jó?

– Tu ficarás são. Mas depois, sobretudo depois, deverás estar sempre contente com os teu estado, ainda que ele não seja dos mais alegres.

Chegaram a Péla. As hortas, que sempre são plantadas perto das cidades, mostram a fecundidade de seus canteiros, com um vergel viçoso de verduras. Algumas mulheres, que estão atentas ao trabalho nos sulcos ou então às bacias de lavação, saúdam Jáia e lhe dizem:

– Voltas hoje mesmo? Saiu tudo bem contigo?

Ou ainda:

– Encontraste um protetor, pobre filho?

Uma anciã lhe grita, lá do fundo da horta:

– Ó Jáia! Se estás com fome tenho aqui uma tigela para ti. Se não precisas, leva-a para tua mãe. Estás indo para casa? Toma-a.

– Vou dizer à minha mãe que estou indo com este bom Senhor para Jerusalém, a fim de ficar curado. Ele conhece Jesus de Nazaré e me vai levar a ele.

358.6 A estrada, perto das portas de Péla, está cheia de gente. Aí há mercadores e também peregrinos.

Uma mulher de boa aparência, que vai viajando montada num burro acompanhada por um criado e uma criada, vira-se ao ouvir falar de Jesus e depois puxa as rédeas, faz parar o burro, desce dele e se dirige a Jesus.

– Tu conheces Jesus de Nazaré? Estás indo a Ele? Eu também estou indo… Para obter a cura de um filho. Eu gostaria de falar com o Mestre, porque…

E ela se põe a chorar por baixo do véu.

– Que doença tem o teu filho? Onde está ele?

– Ele é de Gerasa. Mas agora está lá pela Judéia. Vive como um possesso… Oh! O que eu disse!

– É um endemoninhado?

– Senhor, ele o era e foi curado… Agora está mais endemoninhado do que antes por que… Oh! Eu só posso dizer isso a Jesus de Nazaré!

– Tiago, pega o rapazinho entre ti e Simão e ide à frente com os outros. Esperar-me-eis do lado de lá da porta. Mulher, podes mandar os teus criados para frente. Vamos conversar entre nós.

A mulher lhe diz:

– Mas tu não és o Nazareno! Somente a ele eu quero falar. Porque somente Ele é capaz de entender e ter misericórdia.

Agora, porém, eles já estão sós. Os outros já estão adiante, indo por sua própria conta. Jesus espera que a estrada fique vazia e depois diz:

– Podes falar. Eu sou Jesus de Nazaré.

A mulher dá um gemido e procura cair de joelhos.

– Não. As pessoas, por enquanto, não devem saber. Vamos. Lá está uma casa aberta. Vamos pedir para descansar lá e falaremos. Vem.

Vão indo por uma estradinha, por entre duas hortas, para uma casa comum, em cujo terreiro estão brincando alguns meninos.

– A paz esteja convosco. Dais-me licença de fazer que a mulher descanse por alguns momentos? Preciso conversar com ela. Estamos vindo de longe para podermos conversar, mas Deus nos fez encontrarmo-nos antes de chegarmos ao fim da viagem.

– Entrai. Para nós o hóspede é uma bênção. Nós vos daremos leite e pão, e água para os pés cansados –diz uma velha.

– Não é preciso. Basta-nos um lugar sossegado onde possamos conversar.

– Vinde –e os conduz para cima, para um terraço coberto por uma videira que já está soltando suas primeiras folhas verdes.

358.7 Ficam sozinhos.

– Podes falar, mulher. Eu disse que Deus fez que nos encontrássemos antes do fim da viagem, foi para teu alívio.

– Não há, não há mais alívio para mim. Eu tinha um filho. Ele ficou endemoninhado. Virou uma fera nos sepulcros. Nada o segurava. Ele te viu. Ele te adorou pela boca do demônio, e tu o curaste. Ele queria ir contigo. Tu pensaste na mãe e o mandaste para mim. Para restituir-me a vida e a razão, que já estavam vacilando pela dor de ter um filho endemoninhado. E Tu o mandaste, visto que ele queria amar-te. Eu… oh! Ser mãe de novo e de um filho santo! De um servo teu! Mas, dize-me, dize-me! Quando Tu o mandaste de volta, Tu sabias que ele era… que se tornaria um demônio de novo? Porque ele é um demônio que te deixa, depois de ter recebido tanto bem, depois de ter te conhecido, depois de ter sido escolhido para o Céu… Dize-o a mim! Tu o sabias? Mas eu estou delirando! Falo e não digo porque ele é um demônio… Faz algum tempo, oh! faz poucos dias ele ficou louco! Mas esses dias têm sido para mim mais penosos do que os longos anos em que ele esteve possesso… E eu naquele tempo pensava que nunca teria que passar por dores maiores do que aquela. Ele veio… e destruiu a fé que Gerasa nutria por Ti, pelo teu mérito e o dela, dizendo blasfêmias sobre Ti. E ele vai indo àtua frente fazendo-te mal, fazendo-te mal!

A mulher, que até aqui não havia tirado o véu atrás do qual está soluçando com grande dor, joga-se aos pés de Jesus, suplicando-lhe:

– Vai-te embora! Vai-te embora! Não faças que te fiquem insultando! Eu saí de viagem de acordo com o meu marido doente, pedindo a Deus que me fizesse encontrar-te. E Ele me ouviu! Oh! Que Ele seja bendito por isso! Não quero, não quero permitir que Tu, o Salvador, sejas diminuído por causa do meu filho! Oh! Para que fui eu pô-lo neste mundo? Ele te traiu, Senhor! Ele transmite mal as tuas palavras. O demônio se apoderou dele de novo. E… oh! Altíssimo e Santo! Tem piedade de uma mãe! E será condenado. Meu filho, meu filho! Antes, ele não tinha culpa por estar cheio de demônios. Era uma desventura o que lhe aconteceu. Mas, agora! Agora que tu o tinhas agraciado, agora que ele tinha conhecido a Deus, agora que Tu o tinhas instruído! Agora ele quis ser um demônio e força nenhuma será mais capaz de livrá-lo! Oh! Oh!

A mulher joga-se no chão como um montão de vestes e de carne que se agitam em soluços. E geme:

– Dize-me, dize-me o que devo fazer por Ti, pelo meu filho? Para dar uma reparação. Para salvar? Não. Para dar uma reparação! Tu estás vendo que a minha dor já é uma reparação. Mas, salvar! Eu não posso salvar a quem renegou Deus. Está condenado… E para mim, uma israelita, que é isso? Um tormento!

358.8 Jesus se inclina. Põe-lhe a mão sobre o ombro.

– Levanta-te! Acalma-te! Tu me és querida. Escuta, pobre mãe.

– Tu não me amaldiçoas por tê-lo gerado?!

– Oh! Não. Não és culpada pelo erro dele, e fica sabendo, para o teu conforto, podes até ser causa de sua salvação. As ruínas feitas pelos filhos podem ser reparadas pelas mães. E tu o farás. A tua dor, pois ela é boa, não é estéril, mas fecunda. Tu farás expiação por ele e fazes expiação com uma intenção tão reta, que tu és a indulgência para o teu filho. Ele voltará a Deus. Não chores.

– Mas, quando? Quando será?

– Quando o teu pranto se dissolver em meu sangue.

– No teu sangue? Mas, então, é verdade o que ele diz? Que Tu serás morto porque digno de morte?… Que blasfêmia horrenda!

– É uma verdade verdadeira, em sua primeira parte. Eu serei morto para tornar-vos dignos de vida. Eu sou o Salvador, mulher. E salvação se dá com a palavra, com a misericórdia e com o holocausto. Para o teu filho isto é o que se quer. E isso Eu darei. Mas tu ajuda-me. Dá-me a tua dor. Vai com a minha bênção. Conserva-a em ti para poderes ser misericordiosa e paciente junto ao teu filho e fazer que ele se lembre assim, de que Um outro teve misericórdia para com ele. Vai, vai em paz.

– Mas Tu não pregues em Péla! Não pregues na Peréia! Ele virou esses lugares contra Ti. E ele não está sozinho. Mas eu só vejo e falo dele…

– Eu pregarei com um ato. E ele bastará para anular o que outros fizeram. Vai em paz para a tua casa.

– Senhor, agora que me absolveste por tê-lo gerado, olha o meu rosto para que conheças como é o rosto de uma mãe quando está dilacerada.

E ela descobre o rosto, dizendo:

– Eis a face da mãe de Marcos de Josias1, o renegador do Messias e torturador de sua mãe.

E torna a baixar o véu grosso sobre o seu rosto devastado pelo pranto, enquanto, gemendo, diz:

– Nenhuma outra mãe de Israel será igual a mim no sofrimento!

358.9Descem da casa hospitaleira e retomam o caminho. Entram em Péla e se reúnem: a mulher com os seus criados e Jesus com os seus discípulos. Mas a mulher o vai acompanhando como se estivesse fascinada, enquanto Jesus vai atrás do rapaz, que se dirige para o seu casebre, situado em um desvio, ao lado de uma construção encostada ao lado do monte, uma característica desta cidade, para a qual se sobe por largos degraus de modo que o terreno que está no lado oeste é o segundo plano do lado leste, pois na realidade há um terreno também lá, visto que há acesso para ele pela estrada de cima, que está no nível do último degrau. Não sei se consigo explicar-me bem.

O rapaz grita alto:

– Mãe! Mãe!

Daquele antro miserável e escuro vem vindo uma mulher ainda jovem, cega, mas que vem andando com desembaraço porque conhece o lugar.

– Já estás de volta, meu filho? Terão sido tantas as esmolas que já pudeste voltar enquanto o sol ainda está alto?

– Minha mãe, eu encontrei um que conhece Jesus de Nazaré e que diz que me levará a Ele para eu ser curado. Ele é muito bom. Tu me deixas ir, mãe?

– Claro que sim, Jáia! Ainda que eu fique sozinha, vai, vai, bendito, e olha também por mim para o Salvador!

A adesão, a fé da mulher é absoluta. Jesus sorri. Fala:

– Tu não duvidas, mulher, nem de mim nem do Salvador?

– Não. Se Tu o conheces e és amigo dele, só podes ser bom. E Ele, então? Não tardes um momento. Demo-nos um beijo e vai com Deus.

Eles se beijam e se encontram tateando. Jesus põe sobre a mesa rústica um pão e umas moedas.

– Adeus, mulher. Aqui tens com que comprar comida. A paz esteja contigo.

358.10 Saem. A comitiva recomeça a viagem. Começam a cair as primeiras gotas de chuva.

– Mas permaneceremos aqui? Chove… –dizem os apóstolos.

– Permaneceremos em Jabés-Galaad. Caminhai.

Eles puxam os mantos sobre as cabeças e Jesus estende o seu sobre a cabeça do rapaz. A mãe de Marcos de Josias o acompanha com os seus criados, montada no burrinho. Parece que não pode separar-se dele. Saem de Péla. Vão entrando pela campina verde e triste neste dia chuvoso. Andam quase um quilometro e depois Jesus pára. Toma a cabeça do ceguinho entre as suas mãos e o beija sobre aqueles olhos apagados, dizendo:

– E agora, volta para trás. Vai dizer à tua mãe que o Senhor premia a quem tem fé e vai dizer aos de Péla que este é o Senhor.

Deixa que ele vá e rapidamente se afasta dali.

Mas não passam três minutos e o rapaz grita:

– Mas eu estou vendo! Oh! Não fujas! Tu és Jesus! Faze que eu veja a Ti em primeiro lugar –e cai de joelhos na estrada molhada pela chuva.

A mulher de Gerasa e os servos por um lado e os apóstolos por outro, correm para ver o milagre. Jesus também volta, devagar, sorridente. Inclina-se para acariciar o rapaz.

– Vai. Vai à mamãe e fica sabendo crer em mim sempre.

– Sim, meu Senhor… Mas, para a mamãe, nada? Irá ficar no escuro, ela que tem fé como eu?

Jesus sorri com um rosto ainda mais luminoso. Ele olha ao redor de Si. Vê na margem da estrada uma moita de pequenas margaridas, molhadas pelo orvalho. Ele se inclina e as colhe, as abençoa e as dá ao rapazinho.

– Passa-as sobre os olhos de tua mãe e ela verá. Eu não volto atrás. Vou para diante. Quem for bom, me siga com o seu espírito e fale de Mim aos que duvidam. Tu fala de Mim em Péla que está titubeando na fé. Vai. Deus esteja contigo.

E depois se vira para a mulher de Gerasa:

– E tu, acompanha-o. Esta é a resposta de Deus a todos aqueles que tentam diminuir a fé dos homens em Cristo. E que isto reforce a tua fé e a de Josias. Vai em paz.

Separam-se. Jesus retoma a marcha para o sul. O rapaz, a gerasena e os criados vão para o norte. O véu da chuva que engrossou os separa, parecendo que vão indo atrás de uma tenda cheia de fumaça…

1 Marcos de Josias, um dos dois endemoninhados gerasenos curados (em 186.5/8), que se tornou discípulo (em 296.1 e 338.2). Após o discurso sobre o Pão do Céu é contado entre os discípulos abandonam Jesus (354.15 in). Mais uma vez possuído, é tão plenamente quanto a parecer impossível (pelo 368.12 e 369.4). No entanto, as palavras de Jesus a sua mãe fazem entender que sua ruína, porém completa, não será definitiva. A obra valtortiana diz que até mesmo Judas Iscariotes teria sido salvo se ele se arrependesse depois da traição.


1
2