332. 332. A sofrida separação de Bartolomeu, que com Filipe se encontra com o Mestre.
17 de novembro de 1945.
332.1 Jesus se reuniu com os seis em uma sala, onde estão umas caminhas muito pobres, colocadas umas ao lado das outras. o espaço que fica livre entre elas é só para alguém poder passar de um lado para o outro da sala. Eles estão comendo sua comida bem simples, sentados nas camas, porque não há mesas, nem cadeiras. E João, em certo momento, vai sentar-se no peitoril da janela, à procura dos raios do sol. E foi assim que ele foi o primeiro a ver os que estavam sendo esperados: Pedro, Simão, Filipe e Bartolomeu, que vinham vindo para casa. Ele os chama, e depois corre para fora, acompanhado por todos. Fica lá somente Jesus, cujo único movimento foi o de pôr-se em pé e virar-se, olhando para o lado da porta…
Entram os que chegaram. A vivacidade de Pedro já era de esperar-se, bem como a profunda reverência de Simão Zelotes. O que causa surpresa é a atitude de Filipe e, mais ainda, a de Bartolomeu. Eles entram, eu diria que quase com temor, com ansiedade e, apesar disso, Jesus lhes abre os braços para dar e receber deles o beijo da paz, que Ele já deu a Pedro e a Simão, que caíram de joelhos e inclinaram suas cabeças até o chão para beijarem os pés de Jesus, e que assim ficam… enquanto os suspiros de Bartolomeu mostram que ele está chorando em silêncio, aos pés de Jesus.
– Por que toda esta ansiedade, filho de Tolmai? Não vieste aos braços do Mestre? E tu, Filipe, por que é que estás com tanto medo? Se Eu não soubesse que sois dois homens honestos, em cujo coração não tem lugar a malícia, Eu poderia suspeitar que tivésseis alguma coisa. Mas não há nada disso. E então? Coragem! Eu estava desejando tanto o vosso beijo e ver o olhar límpido dos vossos olhos fiéis…
– Nós também, Senhor… –diz Bartolomeu, levantando o rosto pelo qual estão descendo as lágrimas–. Nós nada mais temos desejado senão a Ti, e ficamos perguntando um ao outro em que poderíamos ter-te desagradado para merecermos ficar separados todo este tempo. E nos parecia uma injustiça… Mas agora ficamos sabendo… Oh! Perdão, Senhor! Nós te pedimos perdão. Especialmente eu, porque Filipe foi separado de Ti por mim. Eu já pedi a Filipe. Eu, eu é que sou o culpado, eu, o velho israelita duro para renovar-se, fui eu que te fiz ficar triste…
Jesus se inclina e o pega, e o levanta à força, levantando também Filipe e, ao mesmo tempo o abraça, e lhe diz:
– Mas, de que é que te acusas? Tu não fizeste mal. Nenhum mal! Nem Filipe. Vós sois os meus queridos apóstolos e hoje Eu me sinto bem feliz por ter-vos comigo, reunidos para sempre…
– Não, não… 332.2Durante muito tempo, nós ficamos sem saber qual o motivo pelo qual com justiça Tu perdeste a confiança em nós, até o ponto de excluir-nos da tua família apostólica. Mas agora já o estamos sabendo… e te pedimos perdão, perdão, perdão, especialmente eu, ó Jesus, meu Mestre…
E Bartolomeu o olha com ansiedade, com amor, com compaixão. Idoso como ele está, parece mais um pai que olha para um filho aflito, que fica olhando para o seu rosto emagrecido por um sofrimento que ele não havia percebido antes, pois em seu rosto não havia notado o emagrecimento, o envelhecimento… E novas lágrimas gotejam das faces de Bartolomeu. E ele exclama:
– Mas, que foi que te fizeram. Que te fizeram para fazer-nos a todos sofrer deste modo? Fica parecendo que um mau espírito tenha entrado no meio de nós para perturbar-nos, para tornar-nos tristes, enfraquecidos, apáticos, estultos… Tão estultos, que não percebíamos que Tu estavas sofrendo… Ao contrário, servia para aumentar o teu sofrimento com as nossas asperezas, obtusidades, respeitos humanos e a velhice, que é própria da humanidade… Sim o homem velho triunfou em nós sempre, sem que a tua Vitalidade perfeita nunca nos tenha podido renovar. É isto, isto é o que não me deixa ter paz! Com todo o meu amor, eu não soube renovar-me, e compreender-te, e seguir-te… Eu Te segui só materialmente… Enquanto que tu querias que te seguíssemos espiritualmente e coubéssemos na tua perfeição… para tornar-nos capazes de perpetuar-te… Oh! Mestre meu! Mestre meu, que te irás embora um dia, depois de tantas lutas, insídias, desgostos, dores e com a dor de saber que não estamos ainda preparados!…
E Bartolomeu reclina sua cabeça sobre o ombro dele e chora, completamente desconsolado, arrependido por verificar agora que foi um discípulo obtuso.
– Não te rebaixes, Natanael. Tu vês tudo como umas coisas enormes, que te surpreendem. Mas o teu Jesus sabia que vós sois homens… e nada exige de vós, a não ser o que vós possais dar. Oh! Vós me daríeis tudo. Tudo mesmo. Mas agora vós deveis crescer, formar-vos. É um trabalho lento. Mas Eu sei esperar. E eu me alegro com o vosso crescimento. Porque este há de ser um crescimento contínuo na minha Vida. Também o teu pranto, também a concórdia daqueles que estavam comigo, também a compaixão que vem depois das asperezas, que faziam parte da vossa natureza, inclinada aos egoísmos e a avareza de espírito, também a vossa seriedade atual, tudo isso são fases do crescimento vosso em Mim. Coragem, pois. Fica com a paz que sou Eu. Fica todo. Com a tua honestidade, a tua fé, a tua generosidade, o teu amor sincero. Iria Eu duvidar do meu sábio filho de Tolmai, e de Filipe, tão equilibrado e fiel? Isso Seria ser injusto com meu Pai, que me concedeu poder ter-vos entre os meus mais queridos. 332.3Mas agora… Coragem, vamos sentar-nos aqui e quem descansou pense nos irmãos cansados e famintos, dando-lhes comida e conforto. E, enquanto isso, contai ao vosso Mestre e aos irmãos o que eles não estão sabendo.
E Ele se assenta em sua caminha, tendo a seu lado Filipe e Natanael, enquanto Pedro e Simão se assentam na cama ao lado, virados para Jesus, joelhos contra joelhos.
– Fala tu, Filipe. Eu já falei. E tu tens sido mais justo do que eu durante este tempo…
– Oh! Bartolomeu! Justo! Eu apenas tinha compreendido que não era má vontade ou volubilidade do Mestre para conosco o não nos ter Ele querido… E eu procurava com isso dar-te paz… afastando-te do pensamento sobre coisas que depois teriam te feito sofrer por tê-las pensado, e do remorso… Eu disso tinha um só remorso… Por ter-te detido, quando querias desobedecer ao Mestre, quando querias acompanhar Simão de Jonas, que ia para Nazaré buscar Marziam… Depois… eu te vi sofrer tanto no corpo e na alma, que dizia: “Teria sido melhor se eu o deixasse fazer o que queria. O Mestre lhe teria perdoado a desobediência e Bartolomeu não iria envenenar ainda mais a sua alma com estas idéias”… Mas, tu estás vendo! Se tivesses ido não terias mais a chave do mistério… e talvez a tua suspeita sobre a volubilidade do Mestre não se teria desfeito nunca. Assim, ao contrário.
– Assim, ao contrário, cheguei a compreender. 332.4Mestre, Simão de Jonas e Simão Zelotes, que eu crivei de perguntas, querendo saber muitas coisas para obter a confirmação de muitas já sabidas, só me disseram isto: “O Mestre tem sofrido muito e está muito magro e envelhecido. E todo Israel, a começar por nós, tem culpa disso. Ele nos ama e perdoa. Mas deseja que não se fale no passado. Por isso eu vos aconselho a não perguntar e não falar…” Mas eu quero falar. Perguntar, não perguntarei. mas preciso dizer. Para que Tu saibas. Porque nada te deve ser te escondido daquilo que existe na alma do teu apóstolo. Um dia — Simão e os outros estavam fora havia alguns dias — veio a mim Miguel de Caná. Meio parente, muito amigo e companheiro de estudos desde a infância… Ele, tenho certeza, veio de boa fé. Queria saber como é que eu tinha ficado em casa… enquanto que os outros tinham partido. E ele me disse: “Então, é verdade? Tu te separaste porque, como bom israelita, não podes ficar aprovando certas coisas. E de boa vontade te deixam separado dos outros, a começar por Jesus de Nazaré, porque eles têm certeza de que tu não os ajudarias nem mesmo com a cumplicidade do silêncio. Fazes bem. Eu reconheço em ti o homem que eras há tempo. Eu pensava que te tivesses corrompido, renegando Israel. Fazes bem para o teu espírito e para o teu bem-estar, e para os teus. Porque tudo o que está acontecendo não vai ser perdoado pelo Sinédrio e serão perseguidos os que tomaram parte nisso.” E eu lhe disse: “Mas, de que tu estás falando? Eu te disse que tinha recebido a ordem de ficar em casa, seja por causa da estação, seja para encaminhar para Nazaré os eventuais peregrinos, ou dizer a eles que esperassem o Mestre no fim do sábado em Cafarnaum, e tu estás falando de separações, de cumplicidades, de perseguições? Explica-te!…”.Não é verdade, Filipe, que eu falei assim?
Filipe faz sinal que sim.
– Então –continua Bartolomeu–, Miguel me disse que era sabido que tu te rebelavas contra o conselho e a ordem dos sinedritas, conservando contigo João de Endor e uma grega… Senhor, eu te causo tristeza, não é verdade? E, no entanto, eu preciso falar. Eu te pergunto: é verdade que estavam em Nazaré?
– Sim. É verdade.
– É verdade que eles partiram contigo?
– Sim. É verdade.
– Filipe, Miguel tinha razão? Mas, como é que ele podia estar sabendo?
– Ora, deixa para lá! São aquelas serpentes que fizeram parar a mim e a Simão, e talvez a muitos outros. São as conhecidas víboras –diz Pedro com veemência.
Jesus, ao invés, diz calmamente:
– Não te disse mais nada? Sê sincero com o teu Mestre, até o fim.
– Nada mais. Ele queria sondar-me. E eu menti a Miguel. Eu lhe disse: “Até a Páscoa estarei em minha casa”, por medo Por medo que me seguissem, que… não sei… por medo de fazer-te mal… E foi então que cheguei a compreender porque foi que me deixaste… Tu havias percebido que eu estava ainda demais em Israel… –Bartolomeu torna a chorar–… e duvidaste de mim…
– Não. Isto não. Absolutamente. Tu não eras necessário naquela hora junto aos teus companheiros, mas o eras, e tu o estás vendo, em Betsaida. A cada um a sua missão. E cada idade tem as suas fadigas…
– Não, não! Não me separes mais por nenhuma fadiga, Senhor. Não te preocupes com nada… Tu és bom. Mas eu quero estar contigo. É uma punição estar longe te Ti. E eu, estulto, incapaz de tudo, podia pelo menos te consolar, quando não podia fazer outra coisa. Eu compreendi… Tu mandaste embora estes com aqueles dois. Não digas a mim. Não quero saber. Mas percebo que é assim e o digo. Pois bem, então eu teria podido e devia estar contigo. Mas Tu não me tomaste, para punir-me por estar eu tão indisposto a tornar-me “novo”. Mas eu te juro, Mestre, que o que eu sofri me renovou e que nunca mais verás o velho Natanae!
– Portanto, tu estás vendo como o sofrimento termina para todos em alegria. 332.5E agora vamos lentamente ao encontro de Tomé e Judas. Sem esperar que eles vão para lá onde foram mandados. Depois, continuaremos a ir com eles… Temos muito que fazer!… Amanhã nos poremos a caminho. Vamos logo.
– E farás bem. Porque o tempo está mudando do lado do norte. Ai de nossas culturas… –diz Filipe.
– É certo. As últimas chuvas de pedra queimaram e reduziram a uns fiapos as campinas. Se tivesses visto, Senhor. Parecia que o fogo tivesse passado por certos lugares. E o curioso é que a calamidade fez mesmo como eu disse: reduziu a fiapos –diz Pedro.
– Enquanto não estáveis aqui, houve muitas chuvas de pedras. Um dia, no meado da Lua de Tebet, parecia um flagelo. Disseram-me que na planície muitos vão ter que semear de novo. Antes, fazia calor. Mas, desde então, procuramos com prazer o sol. Voltamos para trás… Que sinais estranhos! Que serão eles? –pergunta Filipe.
– Nada mais que efeitos das lunações. Não fiques pensando nisso. Não são estas coisas que nos haverão de impressionar. Afinal, nós estamos indo para a planície e estará bonito por lá. Faz frio, mas não é muito e, em compensação, temos a estiagem. Vinde, pois. No terraço há um bom sol. Vamos ficar lá em cima, descansando, todos juntos….