168. 168. Aglaé na casa de Maria em Nazaré.


20 de maio de 1945Pentecostes.

168.1 Maria está trabalhando tranquilamente na confecção de um tecido. A tarde já chegou, todas as portas já estão fechadas, e uma candeia de três bicos está iluminando o pequeno quarto de Nazaré, especialmente a mesa, junto à qual a Virgem está sentada. O tecido parece que vai ser um lençol, e cai para os lados do banco e dos joelhos de Maria até o chão, e ela, vestida de um azul escuro, ela parece estar saindo de um montão de neve. Está sozinha, tecendo com rapidez, com a cabeça inclinada ao seu trabalho, e a luz faz brilhar o alto de sua cabeça com reflexos de um ouro pálido. Assim, o lado do seu rosto fica na penumbra. No quarto bem arrumado reina o maior silêncio.

Na rua deserta não há barulho algum. Nem tampouco da horta nesta noite. A porta pesada do quarto, onde Maria trabalha, e onde costuma tomar suas refeições, receber os amigos, dando passagem à horta, está fechada, impedindo que se ouça o rumor da pequena fonte, cuja água se apressa em entrar no tanque. Reina o mais profundo silêncio. Eu gostaria de saber por onde anda o pensamento da Virgem, enquanto suas mãos trabalham com tal rapidez.

Ouve-se uma batida leve na porta que dá para a rua. Maria levanta a cabeça, e escuta… A batida foi tão de leve, que Maria deve ter pensado ser algum animal noturno, ou o vento. Volta a inclinar a cabeça sobre o seu trabalho. Mas a batida se repete, mais clara. Maria, então, se levanta, e vai até à porta. Antes, porém, de abrir, ela pergunta:

– Quem está batendo?

Responde uma voz meio sumida:

– Uma mulher. Em nome de Jesus, tem dó de mim.

Maria abre logo a porta, levantando a luz, para reconhecer a peregrina. Mas ela vê um montão de panosem nenhuma feição. É um pobre embrulho, que está profundamente inclinado. dizendo:

– Ave, Senhora!

E torna a repetir:

– Em nome de Jesus, tem piedade de mim.

– Entra, e dize-me o que queres. Eu não te conheço.

– Ninguém e muitos me conhecem, ó Senhora. O vício me conhece. A Santidade me conhece. Eu estou precisando agora que a Piedade me abra os braços. A Piedade és tu… –e chora.

– Mas, então, entra… E dize-me… Já falaste bastante para que eu compreenda que és uma infeliz… Mas quem és, eu ainda não sei. Qual o teu nome, irmã.

– Oh! Não. Irmã, não. Eu não posso ser tua irmã. Tu és a mãe do Bem… eu… eu sou o Mal… –e chora cada vez mais forte, sob o seu manto caído escondendo-secompletamente.

Maria põe a candeia sobre uma cadeira, pega a mão da desconhecida, que está ainda ajoelhada na soleira da porta, e a obriga a levantar-se.

168.2 Maria não a conhece… Eu, sim. É a Mulher Velada das águas Belas. Ela se levanta, humilhada, tremendo agitada pelo pranto, e ainda se recusa a entrar, dizendo:

– Eu sou uma pagã, Senhora. Para vós hebreus, sou sujeira, mesmo se fosse santa. Dupla sujeira, porque eu sou uma meretriz.

– Se tu vens a mim, se estás procurando meu Filho por meio de mim, então já não és mais do que um coração que se arrepende. Esta casa acolhe a quem tem nome de Dor –e a puxa para dentro, fecha a porta, põe de novo a candeia sobre a mesa, oferece-lhe uma cadeira, e lhe diz:

– Fala.

Mas a Velada não quer sentar-se; um pouco inclinada, ela continua a chorar. Maria, doce e majestosa, está diante dela. Rezando, ela espera que o choro se acalme. Eu a vejo rezar com todo o seu ser, ainda que nela não se note nenhum sinal de oração. Nem em suas mãos, que estão segurando entre si as mãos da Velada, nem nos lábios, que permanecem fechados.

Finalmente o choro se acalma. A Velada enxuga o rosto com seu véu, diz:

– Contudo, eu não vim de tão longe para ficar desconhecida. Está na hora da minha redenção., Eu devo despir-me, para mostrar-te de quantas chagas meu coração está coberto. E… tu és mãe… e a mãe dele… Por isso, terás dó de mim.

– Sim, minha filha.

– Oh, sim. Chama-me de filha!… Eu tinha uma mãe… e a abandonei… Depois me disseram que ela morreu de dor por isso. Eu tinha um pai… ele me amaldiçoou… Ainda diz a todos da cidade: “Eu não tenho mais filha”… –(O choro volta com violência. Maria empalidece de dó. Mas põe-lhe a mão sobre a cabeça para confortá-la). A velada continua:– Não terei mais ninguém que me chame de filha!… Sim, acaricia-me assim, como me fazia a minha mãe… quando eu era pura e boa… Deixa que eu beije esta tua mão, e enxugue com ela o meu pranto. Porque meu choro sozinho não me lava. Quanto eu chorei, desde que compreendi!… Antes também eu havia chorado, porque é um horror ser somente carne desfrutada e insultada pelo homem. Mas aqueles eram choros de animal espancado, que odeia a quem o tortura, e se revolta contra ele, e eu me emporcalhava sempre mais, porque mudava de dono, mas não mudava os meus hábitos bestiais. Faz oito meses que eu venho chorando… porque eu compreendi… a minha miséria, a minha devassidão. Eu estou coberta, saturada dela e tenho nojo… Mas o meu pranto, sempre mais consciente, não me lava. Ele se mistura com a minha devassidão, e não a lava. Oh! Mãe! Enxuga-me tu deste pranto, e eu ficarei limpa, a ponto de poder aproximar-me do meu Salvador!

– Sim, minha filha, sim. Senta-te. Aqui, comigo. Fala tranquilamente. Deixa todo o teu peso aqui sobre estes meus joelhos de mãe.

E Maria se assenta.

168.3Mas a mulher velada deixa-se cair a seus pés,querendo falar-lhe assim. Começa em voz baixa:

– Eu sou de Siracusa… Estou com vinte e seis anos… Era filha de um intendente, como diríeis vós. Nós dizemos procurador de um grande senhor romano. Eu era filha única. Vivia feliz. Morávamos perto da beira-mar, numa casa de campo muito bonita, da qual meu pai era o intendente. De vez em quando vinha o dono da casa de campo, ou sua mulher, e os filhos… Eles nos tratavam bem e eram bons para comigo. As moças brincavam comigo… Minha mãe se sentia feliz… e estava orgulhosa de mim. Eu era bonita… inteligente… tudo me saia bem. Mas eu gostava mais das coisas frívolas, do que das coisas boas. Em Siracusa há um grande teatro… Bonito… amplo. Serve para passatempos e para comédias… Nas comédias e tragédias são muito usadas as dançarinas. Elas dão, com suas danças mudas, o significado do que o coro executa. Tu não sabes… mas também com as mãos, com os movimentos do corpo, podemos exprimir os sentimentos de um homem agitado por qualquer paixão… Jovenzinhos e mocinhas são instruídos para serem comediantes em determinadas representações. Eles devem ser bonitos, como deuses e ágeis como borboletas… Eu gostava muito de subir para um ponto um pouco mais alto, de onde se podia ver com facilidade as danças das dançarinas. Depois, eu ia repetir nos prados floridos, sobre as areias louras de minha terra e no jardim da casa de campo, aquilo que eu havia visto. Ora eu parecia uma estátua feita com arte, ora um vento que passa voando, pois eu aprendia a ficar parada como estátua, ou correr voando, quase sem tocar no chão. Minhas amigas ricas me admiravam… e minha mãe se sentia orgulhosa…

A Mulher Velada fala, recorda, revê, sonha com o passado, e chora. Seus soluços são como vírgulas entre suas palavras.

– Um dia… era o mês de maio… toda Siracusa estava em flor. Pouco antes haviam terminado as festas, e eu tinha ficado entusiasmada com uma das danças executadas no teatro. Os patrões me haviam levado para lá com as suas filhas. Eu tinha catorze anos… Naquela dança as dançarinas deviam representar as ninfas da primavera correndo para adorarem a Ceres, dançavando coroadas com rosas… A veste era um véu muito transparente, uma rede de fios como os da teia de aranha, sobre a qual as rosas estavam espalhadas… Na dança elas pareciam Hebes aladas de tão rápidas que passavam com seus corpos maravilhosos que podiam ser vistos por entre as charpas do véu florido que se abriam, e formavam asas atrás delas… Eu estudei aquela dança… e um dia…

168.4 A Mulher Velada chora ainda mais forte… Depois continua.

– Eu era bonita. Ainda sou. Olha.

E ela se põe de pé, joga rapidamente o véu para trás, deixando cair o manto. Quem fica assombrada sou eu, porque vejo aparecer, de debaixo daquelas vestes, Aglaé, belíssima, mesmo com uma veste simples, e arranjo de suas tranças muito simples, mesmo sem suas jóias, sem peças pomposas, uma verdadeira flor de carne, delgada mas perfeita, dona de um rosto deslumbrante, de uma cor moreno pálida, com olhos de veludo, cheios de fogo.

Ela torna a ajoelhar-se diante de Maria:

– Eu era bonita, para minha desventura. Estava louca. Naquele dia eu me vesti com véus, e as moças, minhas senhoras, me ajudaram, pois elas gostavam de me ver dançar… Fui vestir-me em um trecho de praia, onde as areias eram fulvas, bem diante do mar azul. Sobre a praia, que naquele trecho estava deserta, havia flores nativas brancas e amarelas, com o perfume forte das amendoeiras, da baunilha, de carne que acabou de ser lavada. Também dos quintais vinham ondas de um perfume penetrante, que enchia os roseirais de Siracusa, até o mar e a areia. O sol fazia sair cheiro de todas as coisas… uma espécie de pânico me subiu à cabeça. Eu me considerava também uma ninfa, e adorava… a quem? A terra fecunda? O sol fecundador? Não sei. Pagã, no meio de pagãos, acho que eu adorava a sensualidade, o meu despótico rei, que eu não sabia que tinha, e era mais poderoso do que um deus… Coroei-me com rosas apanhadas no jardim… e dancei… Estava ébria de luz, de perfumes, do prazer de ser jovem, ágil e bonita. Dancei… e fui vista. Vi que estava sendo olhada. Mas não me envergonhei de aparecer nua diante dos dois olhos cobiçosos de um homem. Pelo contrário, eu me comprazia em levantar ainda mais os meus voos… Aquele prazer por ser admirada, dava-me asas… Isso foi a minha ruína. Três dias depois, eu fiquei sozinha, porque os patrões haviam partido, voltando para a sua morada em Roma. Mas eu não fiquei em casa… Aqueles olhos admiradores me haviam feito conhecer uma outra coisa, além da dança…Haviam-me revelado a sensualidade e o sexo.

Maria faz um gesto involuntário de desagrado, e Aglaé o percebe.

– Oh! Mas tu és pura! E talvez eu te esteja causando repugnância…

– Fala, fala, minha filha. É melhor a Maria do que a Ele. Maria é um mar que lava…

– Sim. É melhori. Quem me disse isso fui eu mesma, quando fiquei sabendo que Ele tinha uma mãe… Porque, primeiro, vendo-o tão diferente dos outros homens, o único que é todo espiritual — agora sei que o espírito existe — antes eu não teria podido dizer de que era feito o teu Filho, sendo assim sem sensualidade, ainda mesmo sendo homem. Dentro de mim, pensei que Ele não tinha mãe, mas que tivesse descido sobre a terra, para salvar as misérias, das quais eu sou a maior…

168.5 Todos os dias eu passei a voltar àquele lugar, esperando ver de novo aquele homem jovem, moreno, bonito… E algum tempo depois eu o tornei a ver… Ele me falou. E me disse: “Vem comigo para Roma. Eu te levarei à corte imperial, e tu serás a pérola de Roma.” Eu respondi; “Sim, eu serei a tua mulher fiel. Vem a casa de meu pai.” Ele riu, zombeteiro, e me beijou. Depois disse: “Minha mulher, não. Tu serás uma deusa, e eu teu sacerdote, e te revelarei os segredos da vida e do prazer.” Eu estava louca, era uma menina. Mas, ainda que fosse uma menina, já conhecia o que é a vida… eu era ladina. Estava louca, mas ainda não depravada… e senti repulsa pela proposta dele. Escapei dos braços dele, fugindo para casa… Mas não falei à minha mãe… não fui capaz de resistir ao desejo de revê-lo. Os beijos dele me tinham feito ficar mais louca… E eu voltei. Mal eu tinha chegado àquela praia solitária, quando ele me abraçou, beijando-me com frenesi, dando-me uma chuva de beijos, de palavras de amor e de perguntas: “Neste amor não está tudo? Não é ele mais doce do que um enlace? Que outra coisa queres tu? Podes viver sem isto?”

Oh! Mãe!… Eu fugi, naquela mesma tarde, com aquele sórdido patrício… e passei a ser como um trapo, que alguém calca sob o peso de sua animalidade… Não passei a ser uma deusa, mas uma lama. Não uma pérola, mas um estrume. Não foi a vida a me revelar, mas a sujeira da vida, a infâmia, a repugnância, a dor, a vergonha, e a infinita miséria de não ser mais minha… E depois… veio a queda total. Depois de seis meses de orgia, cansado de mim, ele passou a novos amores, e eu me vi na rua. Desfrutei da minha capacidade de dançarina…Já sabia que minha mãe havia morrido de dor e que eu não tinha mais casa, nem tinha mais pai. Um mestre de dança me acolheu em seu ginásio. Ele me aperfeiçoou… aproveitou-se de mim… lançando-me, como flor experiente em toda sorte de artes da sensualidade, no meio do corrompido patriciado de Roma. A flor, já suja, caiu em uma cloaca. Foram dez anos de descida para o abismo. Sempre mais para baixo. Depois fui trazida para cá para alegrar os ócios de Herodes, e fui aprisionada pelo novo patrão. Oh! Não existe cão seguro por uma corrente, que esteja mais acorrentado do que uma de nós! Não existe patrão de latido mais brutal, do que o homem que possui uma mulher! Mãe… tu estás tremendo. Eu te estou causando horror!

Maria leva sua mão ao coração, como se ele estivesse ferido. Mas ainda responde:

– Não. Tu, não. Mas o que causa horror é o Mal que domina tanto a terra. Continua, minha pobre filha.

– Ele me levou a Hebron… Era eu livre? Era eu rica? Sim, porque não estava no cárcere, e vivia afogada no meio das jóias. Eu não podia ver senão quem ele queria, já não tinha mais direito sobre mim mesma.

168.6 Um dia chegou um homem a Hebron: era o Homem, o teu Filho. Aquela casa era amada por Ele. Eu fiquei sabendo disso, e o convidei a entrar. Shamai não estava lá… Da janela, eu tinha já ouvido palavras de alguém que me haviam perturbado o coração. Mas, eu te juro, ó mãe, que não foi a carne que me impeliu a ir ao teu Jesus. Foi o que Ele me revelou, que me impeliu, lá da soleira da casa, desafiando as chalaças do vulgo, a dizer-lhe: “Entra”. Foi a alma, que descobri ter. Ele me disse: “O meu nome quer dizer Salvador. Eu salvo quem tem a boa vontade de ser salvo. Eu salvo as pessoas, ensinando-as a serem puras, a querer essa dor, mas com honra, e o Bem a todo custo. Eu sou o que procura os perdidos, o que dá a vida. Eu sou Pureza e Verdade.” Ele me disse que eu também tinha uma alma e que a havia matado com o meu modo de viver. Mas Ele não me amaldiçoou, nem zombou de mim! Nunca olhou para mim! Foi o primeiro homem que não me sugou com um olhar ávido, pois eu tenho comigo a tremenda maldição de atrair os homens. Disse-me que quem O procura O encontra porque Ele está onde há necessidade de Médico e de remédio. Depois Ele foi-se embora. Mas as suas palavras ficaram para sempre. Eu dizia a mim mesma: “O seu nome quer dizer Salvador”, como para curar-me. As suas palavras e os seus amigos, os pastores, ficaram comigo . Eu dei o primeiro passo, dando-lhes esmola e pedindo orações… Depois…fugi…

Que santa fuga foi aquela! Fugi do pecado, em busca do Salvador. Estava certa de encontrá-lo, pois Ele me havia prometido. Mandaram-me a um homem chamado João, como se fosse Ele. Mas não era. Um hebreu me falou que eu fosse às Águas Belas. Eu vivia da venda do ouro que possuía. Nos meses em que estive vagando, tive que conservar coberto o meu rosto, para não ser apanhada de novo, porque, na verdade, a Aglaé estava sepultada debaixo daquele véu. A antiga Aglaé estava morta. O que estava por baixo daquele véu era a alma dela, ferida e esgotada, à procura do seu médico. Muitas vezes eu tive que escapar da sensualidade do macho, mesmo estando quase anulada, naquela veste. Até um dos amigos do teu Filho foi um deles…

168.7 Em Águas Belas, eu vivia como um animal: pobre, mas feliz. O orvalho e o rio me limparam menos do que as suas palavras.. Oh! Não perdi nenhuma delas! Certa vez Ele perdoou um homem assassino. Eu ouvi… e fui até Ele para gritar-lhe: “Perdoa a mim também…” Uma outra vez, Ele falou da inocência perdida… Oh! Como chorei de saudade! Outra vez Ele curou um leproso…e eu estava para gritar: “Limpa-me do meu pecado…” Outra vez, Ele curou um louco, que era romano… e eu chorei… Aquilo me fez dizer que as pátrias passam, mas o Céu fica. Em certa tarde tempestuosa, ele me acolheu em sua casa… depois fez que o feitor me hospedasse… e, por um menino, mandou-me dizer: “Não chores…” Oh! Que bondade a dele! Oh! Que miséria a minha! Tão grandes as duas, que eu nem ousava levar minhas misérias, para pô-las aos pés dele… não obstante um dos seus companheiros me instruísse, numa certa noite, sobre a infinita misericórdia do teu Filho. Depois, apanhado em uma emboscada por alguém que via pecado no desejo duma alma renascida, o Salvador partiu… Eu fiquei esperando por ele… Mas também ficou a vingança esperando-o alguémmais indigno do que eu de olhar para Ele. Pois eu pequei como pagã contra mim mesma, ao passo que eles pecam já conhecendo Deus contra o Filho de Deus… Bateram em mim, mais do que com pedradas, feriram-me com acusação, mais do que na carne, me feriram na minha pobre alma, levando-a ao desespero.

Oh! Que luta terrível tive eu que sustentar contra mim mesma! Contundida, sangrando, ferida, com febre, sem ter mais o meu Médico, sem casa nem pão, olhei para trás e para diante… O passado me dizia: “Volta!” O presente me dizia: “Mata-te!” O futuro, porém, me dizia: “Espera!” E eu esperei… Não me matei. Se Ele me expulsasse, eu o faria, porque não quero mais ser o que eu era!… Eu me arrastei até um povoado, pedindo abrigo…Mas lá me reconheceram. Como um animal, eu tive que fugir para um lado e para outro, sempre perseguida, escarnecida, sempre amaldiçoada, porque queria ser honesta, e porque tinha decepcionado àqueles que, usando-me, queriam ferir o teu Filho. Acompanhando o rio, fui subindo até a Galileia, e cheguei até aqui… Tu não estavas aqui… Então, fui até Cafarnaum. Mal tinha acabado de sair de lá, um velho me viu. Era um dos inimigos dele, e me quis tomar como prova de acusação contra o teu Filho, mas, como eu me pus a chorar, sem reagir, me disse: “Tudo poderia mudar para ti, se quisesses ser minha amante e minha cúmplice na acusação do Rabi de Nazaré. Bastaria que tu dissesses, diante dos meus amigos, que Ele era teu amante…” Eu fugi dali, como alguém que vê abrir-se uma moita de flores sob o desenroscar-se da serpente.

168.8 Cheguei então a compreender que não posso ir aos pés dele… e vim lançar-me aos teus. Aqui estou: calca-me com os pés, eu sou lama. Aqui estou: expulsa-me, eu sou pecadora. Eis-me aqui: dize o meu nome: meretriz. Tudo eu aceitarei de ti. Mas, tem dó de mim, tu, ó Mãe. Pega a minha pobre alma suja, e leva-a a Ele. Em tuas mãos seria um delito colocar a minha luxúria. Mas só nelas ela ficará protegida do mundo, que a deseja, e se transformará em penitência. Dize-me o que fazer. Dize-me como devo fazer para não ser mais Aglaé. O que eu devo mutilar em mim? O que eu devo arrancar de mim, para não ser mais pecado, não mais sedução, a fim de não ter mais o que temer de mim mesma e dos homens? Deverei arrancar os olhos? Deverei queimar os lábios? Devo cortar a língua? Os olhos, os lábios, a língua me têm servido para fazer o mal. Eu não quero mais o mal e estou disposta a punir, aos olhos, lábios e língua, sacrificando-me. Ou queres que eu arranque os quadris, que me impeliram aos amores perversos? Ou as vísceras insaciáveis, cujo despertar eu temo sempre? Dize-me, dize-me o que é que se faz para nos esquecermos de que somos mulheres, e como é que se faz para fazer que eles se esqueçam que somos mulheres?

Maria está perturbada. Elachora, sofre, mas o único sinal de sua dor são as lágrimas que caem sobre a arrependida.

– Eu quero morrer perdoada. Eu quero morrer, não pensando em nada mais, a não ser no Salvador. Quero morrer com a sua Sabedoria como amiga e já não posso ficar perto dela, porque o mundo está de olhos para acusar-nos, a mim e a Ele…

Aglaé chora, caída completamente por terra, como um trapo.

168.9 Maria põe-se de pé, murmurando:

– Como é difícil ser redentores! –e está quase sem fôlego.

Aglaé, que ouve aquele murmúrio, e compreende o que está acontecendo, geme, dizendo:

– Estás vendo? Estás vendo que tu também sentes asco? Agora, vou-me embora. Tudo se acabou para mim!

– Não, minha filha. Tudo não acabou. Para ti, agora é que começa. Escuta, ó pobre alma. Não estou gemendo por ti. Mas pelo mundo cruel. Eu não te deixo ir embora, mas te recolho, pobre andorinha que a tempestade fez vir bater contra as minhas paredes. Eu te levarei a Jesus, e Ele te dará o caminho da tua redenção…

– Eu não espero mais… O mundo tem razão. Eu não posso ser perdoada.

– Pelo mundo, não. Mas por Deus, sim. Deixa que eu te fale em nome do Supremo Amor, que me deu um Filho, para eu dar ao mundo. Ele me tirou da feliz ignorância da virgindade consagrada, para que o mundo tivesse o Perdão. Ele me tirou sangue, não do parto, mas do coração, ao revelar-me que o meu Filho é a Grande Vitima. Olha para mim, minha filha. Neste coração há uma grande ferida. Há mais de trinta anos ele vem gemendo, e a ferida se dilata sempre mais, e o consome. Sabes como ela se chama?

– Dor.

– Não. Amor. E o amor é o que me faz sangrar para que o meu Filho não fique sozinho na obra da salvação. É o amor que põe em mim fogo, a fim de que eu possa purificar aqueles que não têm coragem de ir até o meu Filho. É o amor que me dá pranto, para que eu lave os pecadores. Tu querias as minhas carícias. Eu te dou as minhas lágrimas, que te tornam branca, para poderes olhar o meu Senhor. Não choresassim! Não és a única pecadora que vem ao Senhor, sendoredimida. Já houve outras e haverá outras.

Tens dúvidas de que Ele possa te perdoar? Não ves em todas essas coisas que te aconteceram uma misteriosa disposição da Bondade Divina? Quem foi que te conduziu para a Judeiaeia? Quem te levou a João? Quem te colocouà janela naquela manhã? Quem acendeu uma luz fazendo-te conhecer as suas palavras? Quem te deu a capacidade de compreender que a caridade, unida à oração de quem recebeu um beneficio, obtém o auxíliodivino? Quem foi que te deu força para fugires da casa de Shamai? Quem te deu forças para perseverares nos primeiros dias, até a chegada dele? Quem te levou pelo seu caminho? Quem te tornou capaz de viver como penitente, para limpares a tua alma? Quem te deu uma alma de mártir ,uma alma cheia de fé, de perseverança e do desejo da pureza?…

Sim, não fiques sacudindo a cabeça. Pensas que só é puro quem não conheceu a sensualidade? Pensas que a tua alma não pode tornar-se de novo virgem e bela? Oh! Minha filha! Mas, entre a minha pureza, que já é toda uma graça do Senhor, e a tua heróica subida refluente para atingir outra vez o alto da pureza perdida, podes acreditar que a tua é maior. Tu a estás construindo: lutando contra a sensualidade, a necessidade e o hábito. Em mim ela é um dote tão natural, como a respiração. Tu tens que cortar as asas dos pensamentos, dos afetos e da carne, para não lembrares, nem desejares, e para não consentir. Eu… oh! por acaso pode uma criaturinha de poucas horas ter desejos carnais? Terá ela algum merecimento por isso? Assim sou eu. Eu não sei o que seja esta trágica fome que fez da humanidade, vítima. Eu não conheço outra coisa, senão a fome santíssima de Deus. Enquanto que tu não conhecias esta fome e tiveste que aprender por ti mesma. Mas tu dominaste a outra, por amor a Deus, que é o teu único amor agora. Sorri, ó filha da divina misericórdia! Meu Filho está fazendo em ti o que Ele te disse em Hebron. E já o fez. Tu já estás salva, porque tiveste boa vontade de salvar-te, porque aprendeste o que é a pureza, a dor e o Bem. Tua alma renasceu. Sim. Só precisas da palavra dele, que te diga em nome de Deus: “Estás perdoada.” Isto eu não posso dizer. Mas te dou o meu beijo, como promessa e princípio do perdão…

Ó Espírito Eterno, um pouco de Ti há sempre em tua Maria! Deixa que Ele te derrame, ó Espírito Santificador, sobre a criatura que chora e que espera. Pelo nosso Filho, ó Deus de Amor, salva esta que de Deus espera a salvação. A Graça, da qual disse o Anjo que Deus me cumulou, desça, por um milagre, sobre esta, e a conforte, até que Jesus, o Salvador Bendito, o Supremo Sacerdote, a absolva em nome do Pai, do Filho e do Espírito…

168.10 Já é noite, minha filha. Estás cansada e ferida. Vem. Descansa. Amanhã partirás. Eu te encaminharei para uma família de gente honesta. Porque muitos estão vindo agora para cá. Eu te darei uma veste muito semelhante à minha. Ficarás parecendo uma hebreia. E, como eu só tornarei a ver o meu Filho na Judeia, já que a Páscoa se aproxima e na Lua Nova de abril estaremos em Betânia, nessa ocasião eu falarei de ti. Vai para a casa de Simão, o Zelotes. Lá me encontrarás, e eu te levarei a Ele.

Aglaé ainda está chorando. Mas agora já está mais tranquila. Ela sentou-se no chão. Também Maria voltou a sentar-se. Aglaé pousa a cabeça sobre os joelhos dela e beija-lhe as mãos… Depois, ainda geme:

– Eles irão me reconhecer…

– Oh! Não. Não tenhas medo. As tuas vestes já estavam muito conhecidas. Mas eu vou te arrumar para esta tua viagem em busca de Perdão, e ficarás como a virgem que vai para as núpcias: diferente, e desconhecida da multidão, que nem suspeita do rito. Vem. Eu tenho um pequeno quarto, ao lado do meu. Nele já se alojaram santos e peregrinos, desejosos de ir para Deus. Ele hospedará a ti também.

Aglaé procura apanhar sua capa e seu véu.

– Deixa isso aí. São as vestes da pobre Aglaé, quando perdida. Mas agora não está mais… e dela nem mesmo as vestes devem existir mais. Estas vestes ouviram tantas palavras de ódio… e o ódio faz tão mal quanto o pecado.

Saem as duas para a horta, que está no escuro, entram depois no quartinho de José. Maria acende a pequena candeia, que está sobre uma mesinha, acaricia mais uma vez a arrependida, fecha a porta, e, com as três chamas de sua candeia, alumia para ver onde vai pôr a capa toda rasgada de Aglaé, de tal modo que nenhum visitante amanhã possa ver.