425. 425. Em Cesareia Marítima. Romanos alegrese parábola dos filhos que tem sortes diversas.


30 de abril de 1946.

425.1 Cesareia tem grandes feiras, e para lá são levadas finas mercadorias para as exigentes mesas dos romanos, e, ao lado das praças das feiras, como em um caleidoscópio de rostos, de cores e de produtos, encontram-se os empórios de comestíveis de altos preços, importados de diversas regiões, tanto de diversas colônias romanas, como da longínqua Itália, para tornar menos saudosa a distância da Pátria. E os empórios dos vinhos e das preciosidades culinárias, trazidas de outros lugares, estão bem no fundo dos pórticos, porque os romanos não gostam de ficar queimados pelo Sol, nem molhados pelas chuvas, quando resolvem ir procurar para as suas gargantas refinadas os alimentos que irão consumir em seus festins. Digamos que eles são epicuristas em seus paladares, mas sem faltar com o respeito às outras pessoas… e, para isso, há lugares sombreados nos pórticos frescos, há proteções contra as chuvas sob os arcos que nascem do quartel romano, quase todo construído ao redor do palácio do Procônsul, tendo por limites, de um lado a estrada do litoral, e do outro a praça das casernas e os postos fiscais, perto dos empórios dos romanos, que estão ao lado das feiras dos judeus.

Por baixo desses pórticos, há muita gente, pois eles são cômodos, para não dizer bonitos. E esta última parte deles está em frente das feiras. Há pessoas de todas as classes. Há escravos e libertos, e até algum raro senhor gozador rodeado por seus escravos, o qual, tendo deixado sua liteira na estrada, vai curtir sua preguiça, passando de um negócio para outro e fazendo as compras, que os escravos vão levando para casa. Ouvem-se os costumeiros discursos ociosos, quando dois senhores romanos se encontram, para falarem do tempo, do seu enfado numa terra que não lhes oferece as alegrias da longínqua Itália, e cheios de saudade dos espetáculos grandiosos, dos programas de festins e dos discursos licenciosos.

425.2 Um romano, precedido por uma dezena de escravos, carregados de sacos e embrulhos, encontra-se com dois outros, seus companheiros. Há saudações recíprocas:

– Salve, ó Ênio!

– Saúde, ó Floro Túlio! Cornélio! Saúde, ó Marcos Heráclio Flávio!

– Quando voltaste?

– Muito cansado, cheguei ao romper do dia de anteontem.

– Então, estás cansado? Já suaste algum dia? –bole com ele o jovem chamado Floro.

– Não brinques, Floro Túlio Cornélio. Agora mesmo estou suando, por causa dos amigos!

– Por causa dos amigos? Que eles não te tenham pedido grandes canseiras –objeta o outro, mais velho, chamado Marcos Heráclio Flávio.

– Mas o meu amor só pensa em vós. Em vós que sois cruéis, ao zombardes de mim. Estais vendo esta fila de escravos, carregados de grandes pesos? Pois é tudo para vós, para prestar-vos uma homenagem.

– Então, este é o teu trabalho?

– Um banquete?

– E por quê? –gritam rumorosamente os dois amigos.

– Psiu! Um barulho como este dos nobres patrícios! Estais parecendo-vos com o povo deste país, onde nós estamos consumindo…

– Em orgias e no ócio. Porque outra coisa não fazemos. Eu fico perguntando a mim mesmo: para que é que estamos aqui? Que tarefas temos pela frente?

– Uma delas é morrer de enfado.

– Ensinar a viver a estas lamuriantes carpideiras, é outra.

– Semear Roma nas bacias sagradas destas mulheres hebreias, é outra.

– E gozar, tanto aqui como em outros lugares, das vantagens trazidas pelo nosso recenseamento e pelo nosso poderio, ao qual tudo é concedido, eis aí mais uma.

Os três repetem, um depois do outro, o que cada um já disse, e dão risadas.

425.3 Mas o jovem Floro se detém, e torna-se enigmático, ao dizer:

– Mas, já faz algum tempo que uma negra escuridão está ameaçando a Corte de Pilatos. As mais belas mulheres parecem agora umas castas vestais, e os maridos as apoiam em seus caprichos. Isso tira muito da fama das nossas costumeiras festas…

– Ora, ora! É uma loucura promovida por aquele rústico Galileu… Mas isso passará logo….

– Estás enganado, Ênio. Estou sabendo que até Cláudia está conquistada por Ele, e que por isso uma estranha mudança de costumes tomou por sua sede o seu próprio palácio. Parece que lá se está revivendo a austera Roma republicana…

– Caramba! Quanto mofo! Quando começou isso?

– Vem desde o doce mês de abril, que é o mais apropriado para os amores. Tu não estás sabendo… Estavas ausente. Mas as nossas damas se tornaram funerais, como as carpideiras junto às urnas das cinzas, e nós, pobres homens, temos que ir procurar em outros lugares os nossos passatempos. E estes, nem mesmo nos são concedidos na presença das damas púdicas!

– É uma razão a mais para que eu lá esteja presente. Nesta tarde haverá uma grande ceia, e uma orgia maior ainda, na minha casa. Em Cintium, onde eu estive, encontrei delícias, que esses fedorentos tacham de imundas: pavões, perdizes, gralhas de todas as espécies e filhotes de javalis, arrancados vivos da mãe morta, e criados em casa para as nossas ceias. E os vinhos… Ahl Os doces e preciosos vinhos das colinas romanas, das minhas quentes encostas de Terni, e das tuas ensolaradas encostas perto de Aciri. E os perfumados vinhos de Chio, e os da ilha, das quais Cintium é a jóia. E os inebriantes vinhos da Ibéria, apropriados para excitar a sensualidade para o prazer final. Oh! Vai ser uma grande festa, Para espantar o enfado deste exílio. Para persuadir-nos de que ainda somos homens…

– Vão as mulheres também?

– Também… E mais bonitas do que umas rosas. De todas as cores e… sabores. Custou-me um tesouro a aquisição de todas as mercadorias, inclusive as mulheres… Mas eu sou generoso com os amigos!… Agora mesmo eu estava terminando as últimas aquisições. Aquelas que, durante a viagem, poderiam estragar-se… Depois do banquete, vamos ao amores…

– Foi boa a tua viagem de navio?

– Foi ótima. A Vênus do mar me foi favorável. Afinal, é a ela que eu dedico a festa desta noite…

Os três se riem desbragadamente, prelibando as próximas e indignas alegrias…

425.4 Mas Floro pergunta:

– Por que esta festa extraordinária logo hoje? Há algum motivo para ela?

– Há três motivos: o meu dileto neto enverga, por estes dias, a toga víria e eu devo celebrar esse evento, obedecendo ao presságio que me dizia estar Cesareia se transformando em uma enfadonha morada, e era necessário quebrar o seu encantamento, prestando um culto a Vênus… E, em terceiro lugar… pouco a pouco vo-lo direi: é o casamento…

– Tu? Mentiroso!

– Estou me casando. É casamento quando alguém saboreia, em primeiro lugar, o sorvo de uma ânfora fechada. E nesta tarde o farei. Vinte mil sestércios, ou, se vos agrada, direi duzentos áureos que em verdade tive que desembolsar com os intermediários e… outros semelhantes.. e os paguei. Mas, nem mesmo se Vênus a tivesse parido em uma aurora de abril, e a tivesse feito de espuma e de raios de ouro, eu a teria achado mais bela e pura. Um botão de flor, um botão fechado… Ah! E eu sou o dono dela.

– Que profanador! –diz, gracejando, Marcos Heráclio.

– Não te faças meu censor, pois és igual a mim!… Quando o Valeriano partiu, ele aqui estava morrendo de enfado… Mas eu fiquei no lugar dele… os tesouros de nossos antepassados são para isso. E por isso eu serei tolo como ele, se ficar esperando que a que é mais loura do que o mel Gala Ciprina, foi o nome que eu lhe dei fique carcomida pelas tristezas e pelas filosofias dos evirados, que não sabem gozar a vida…

– Bravo!… Mas, espera aí… a escrava do Valeriano era douta e…

– … e louca, por causa de viver lendo os filósofos… Mas, que nada de alma que nada de outra vida… Viver é gozar. E aqui se vive. Ontem entreguei ao fogo todos os rolos funestos e, sob pena de morte, ordenei aos escravos que não ficassem lembrando-se das misérias dos filósofos e dos galileus. Para a menina, basta-lhe que conheça a mim somente…

– Mas, onde, foi que a encontraste?

– Ora! Houve alguém que foi sagaz e adquiriu escravos depois da guerra na Gália, e não fez uso deles, a não ser como reprodutores, conservando-os bem, só com a obrigação de procriarem, para produzirem novas flores de beleza. E Gala é uma delas. Agora ela chegou à puberdade, e o patrão a vendeu… e eu a comprei… ah! ah! ah!

– Tu és um libidinoso!

– Se não fosse eu, seria algum outro… Portanto… Ela não devia ter nascido mulher.

– Se ela te ouvisse… 425.5Oh! Ei-lo aí!

– Quem?

– O Nazareno, que seduziu as nossas damas. Ele está atrás de ti…

Ênio virou-se, como se tivesse atrás de si uma áspide. Ele olha para Jesus que vem se aproximando lentamente pelo meio do povo que se apinha ao redor dele, pessoas pobres do povo e também escravos romanos, e zomba dele, dizendo:

– É aquele esfarrapado? As mulheres são umas depravadas. Mas, vamos fugir, antes que ele nos seduza a nós também! E vós –diz finalmente aos pobres seus escravos, que ficaram parados durante todo aquele tempo, por baixo de suas cargas, como umas cariátides, e das quais ninguém tem pena– vós, ide para casa depressa, pois até agora ficastes perdendo tempo, e os preparadores estão esperando as especiarias, os perfumes. Ide correndo. E lembrai-vos de que o chicote vos está esperando, se tudo não estiver pronto, até o pôr-do-sol.

Os escravos vão-se embora correndo, e mais devagar vai atrás deles o romano com os dois amigos…

425.6 Jesus vai para frente. Entristecido, porque ouviu o final da conversa de Ênio, e, lá do alto de sua estatura, Ele olha, com infinita compaixão, os escravos que vão correndo e transportando aqueles pesos. Olha também ao seu redor, procurando ver outros rostos, os de escravos de romanos… Vão alguns deles tremendo de medo de serem surpreendidos pelos intendentes, ou enxotados pelos hebreus, que estão misturados com o povo que o aperta e, parando ali, diz:

– Não há alguém daquela casa entre vós?

– Não, Senhor. Mas, nós os conhecemos –respondem os escravos presentes.

– Mateus, dá a eles abundante óbolo. Repartirão com os seus companheiros para que fiquem sabendo que há quem os ame. E vós, ficai sabendo, e ide dizer aos outros que, com a vida, cessa a dor para aqueles que foram bons e honestos levando os seus grilhões, e cessa a diferença entre ricos e pobres, entre livres e escravos. Depois, há um único e justo Deus para todos, o Qual, sem levar em conta de classe ou de grilhões, dará o prêmio aos bons, e o castigo aos não bons. Lembrai-vos disso.

– Sim, ó Senhor. Mas nós, da casa de Cláudia e de Plautina, somos bem felizes, como os da casa de Lídia e de Valéria, e Te bendizemos, porque Tu melhoraste a nossa sorte –diz um velho, que é ouvido por todos como um chefe.

– Para mostrar-me que me sois agradecidos, sede sempre melhores, e tereis o verdadeiro Deus como vosso eterno Amigo.

E Jesus levanta a mão, como para dar licença de que já podem ir-se, e para abençoar. E depois se encosta a uma coluna e começa a falar, estando a multidão em um atento silêncio. Os escravos já se iam afastando dali, mas pararam, a fim de ouvirem as palavras que saíam da boca de Deus.

425.7– Escutai. Um pai de muitos filhos deu a cada um deles, quando se tornaram adultos, duas moedas de grande valor, e lhes disse: “Eu não pretendo mais trabalhar para cada um de vós. Já estais na idade de ganhardes o vosso pão. Por isso, eu dou a cada um uma quantia igual de dinheiro, para que a empregueis como vos agradar, e como vos for útil. Eu ficarei aqui esperando, pronto para vos aconselhar, e pronto também para vos ajudar, se, por algum contratempo perderdes tudo ou uma parte do dinheiro, que eu agora vos dou. Mas lembrai-vos bem de que eu serei exigente com quem o perder por suas más intenções, e com os preguiçosos que o gastarem, ou o deixarem de usar bem, levando uma vida de ócio e nos vícios. A todos ensinei o que é o Bem e o que é o Mal. Portanto, não deveis dizer que ireis enfrentar a vida sem estardes sabendo de nada. A todos vós eu dei um exemplo de como trabalhar sabiamente e de como levar uma vida honesta. Por isso, não podeis dizer que eu desvirtuei a vossa boa disposição e vos dei algum mau exemplo. Eu cumpro com os meus deveres. Agora cumpri vós o vosso, pois tolos vós não sois nem despreparados nem analfabetos. Ide.” E deu-lhes a liberdade de irem começar seus trabalhos, ficando ele sozinho em sua casa, na expectativa de ver o que aconteceria.

Os filhos se espalharam pelo mundo. Todos eles possuíam as mesmas coisas: duas moedas de grande valor, das quais podiam dispor livremente, e um tesouro ainda maior, que era a saúde, bastante energia, conhecimentos e os exemplos do pai. Por isso todos deveriam sair-se bem igualmente. Mas, que aconteceu? Aconteceu que entre os filhos alguns usaram bem das moedas e fizeram delas logo grandes e honestos tesouros, por meio de um trabalho incansável e honesto, e com uma vida morigerada, bem regrada pelos ensinamentos paternos, e os outros que a princípio adquiriram fortuna, mas depois a desfizeram, por se entregarem ao ócio e aos vícios. E houve ainda outros que procuraram ganhar dinheiro por meio da usura e de negócios indignos, e os que não fizeram nada por terem ficado inertes, preguiçosos, hesitantes, e acabaram com as moedas de grande valor, sem terem chegado a conseguir nenhuma ocupação.

425.8 Depois de algum tempo, o pai de família mandou os seus servos para todos os lados por onde sabia que estavam os seus filhos, e disse aos servos: “Direis aos meus filhos que venham reunir-se em minha casa. Eu quero que me prestem contas do que é que fizeram durante esse tempo e me digam aqui em casa em que condições estão.”

E os servos lá se foram por todos os lados e chegaram até os filhos do seu patrão, terminaram a embaixada, e cada um deles voltou em companhia do filho do patrão que ele havia encontrado.

O pai de família os recebeu com muita festa. Como pai, mas também como juiz. E todos os parentes da família estavam presentes e, com os parentes, os amigos, os conhecidos, os servos, os companheiros do lugar e os dos lugares limítrofes. Foi uma reunião solene. O pai estava sentado em sua cadeira de chefe da família, e, ao seu redor, em semicírculo, todos os parentes, amigos, conhecidos, servos, companheiros do lugar e dos lugares vizinhos. Na frente dele, em fila, estavam os filhos.

Mesmo sem terem sido ainda interrogados, o aspecto deles já dava a resposta de qual era a verdade. Os que haviam trabalhado bem e haviam sido honestos, morigerados, e que tinham formado uma santa fortuna, apresentavam uma aparência festiva, pacífica e de um bem-estar de quem dispõe de abundantes meios e goza de boa saúde e serenidade de consciência. Estes olhavam para o pai com um sorriso bom de um reconhecimento humilde, mas, ao mesmo tempo triunfante, contentes pela alegria de terem honrado seu pai e a família, e por terem sido bons filhos, bons cidadãos, e bons em sua fidelidade. Os que haviam gastado na indolência ou nos vícios os seus haveres, estavam humilhados, tristes, mirrados na aparência e pobres nas vestes, com os sinais do vício ou da fome claramente impressos em todos eles. Os que tinham feito fortuna por meio de manobras delituosas, mostravam em seus rostos a agressividade, a dureza, um olhar cruel e perturbado, como o das feras, que temem o domador, e estão preparadas para reagir.

O pai começou o interrogatório por esses últimos:

“Como é que vós estáveis tão calmos, quando partistes, e agora estais parecendo umas feras dispostas a dilacerar? Qual a origem dessa vossa aparência?”

“Foi a vida que no-la deu. E a dureza de mandar-nos para fora de casa. Foste tu que nos puseste em contato com o mundo.”

“Está bem. E que foi que fizestes no mundo?”

“O que nós pudemos fazer, para obedecer à tua ordem de ganharmos a vida com aquele nada que nos deste.”

“Está bem. Ide colocar-vos naquele canto… E agora pergunto a vós, que estais magros, doentes e mal vestidos. Que foi que fizestes para ficardes assim? Pois estáveis bem sadios e bem vestidos quando partistes.”

“Com dez anos, as roupas estão puindo…”, objetaram os fazedores de nada.

“Não existem mais teares no mundo, que façam tecidos para as roupas dos homens?”

“Sim… Mas é necessário o dinheiro para comprá-los…”

“E vós tínheis o dinheiro.”

“Mas em dez anos… já era tempo de ele ter acabado. Pois tudo o que tem um princípio tem um fim.”

“Sim. Se só se tira, e nada se põe. Mas, por que ficastes só tirando? Se tivésseis trabalhado, poderíeis pôr e tirar, sem que o dinheiro acabasse, mas, ao contrário, até aumentaste. Por acaso estivestes doentes?”

“Não, pai.”

“E, então?”

“Nós nos sentimos desorientados… Não sabíamos o que fazer, o que fosse bom fazer… Tínhamos medo de fazer coisas mal feitas. E, para não as fazermos mal, não fizemos nada.”

“E não estava aqui o vosso pai, a quem podíeis pedir um conselho? Sou por acaso um mau pai, intransigente e receoso?”

“Não! Não! Nós estávamos com vergonha de te dizer, de tomar iniciativas. Tu foste sempre um homem de tanta atividade… Nós nos escondemos por vergonha.”

“Está bem. Ide lá para o meio da sala. Agora, vós. E que me dizeis vós? Vós, que a esta aparência de famintos, unis a da doença? Por acaso ficastes doentes por trabalhardes demais? Sede sinceros, e eu não vos agredirei.”

Alguns dos interpelados se jogaram de joelhos, batendo no peito, e dizendo:

“Perdoa-nos, ó pai. Deus já nos castigou, e nós o merecemos. Mas tu, que és nosso pai, perdoa-nos!… Nós começamos bem, mas não perseveramos. Julgando-nos já ricos com facilidade, nós dissemos: ‘Pois bem. Agora, vamos gozar um pouco, como nos sugeriram os amigos, e depois voltaremos ao trabalho, e refaremos o que tiver sido gasto.’ E, em verdade, assim nós queríamos fazer. Voltar às duas moedas, e depois fazê-las produzir frutos, como se fosse uma brincadeira. E, por duas vezes (dizem dois), por três (diz um), nós conseguimos; mas depois a fortuna nos abandonou… e acabamos com o dinheiro.”

“Mas, por que foi que não parastes, depois da primeira vez?”

“Porque o pão do vício estraga o paladar, e não se pode mais fazer nada sem ele…”

“Mas aqui estava o vosso pai…”

“É verdade. E por ti suspirávamos, com saudade e nostalgia. Mas nós te havíamos ofendido. E suplicávamos ao Céu que nos inspirasse, para te chamarmos, a fim de recebermos a tua censura e o teu perdão. Isto era o que pedíamos, e pedimos agora, mais do que as riquezas, que não desejamos mais, visto que elas nos transviaram.”

“Está bem. Ide, vós também, colocar-vos juntos com os de antes, no centro da sala… E vós, que estais doentes e pobres, como estes, mas que estais calados e não pareceis estar sofrendo, que é que tendes a dizer?”

“Aquilo que os primeiros disseram. Que te odiamos, porque, com teu modo imprudente de agir, nos arruinaste. Tu, que nos conhecias, não devias ter-nos exposto às tentações. Tu nos odiaste, e nós te odiamos. Tu fizeste uma armadilha, para te veres livre de nós. Que sejas maldito.”

“Está bem. Ide ficar com os primeiros, naquele canto. E agora, vós, que estais cheios de vida, serenos, ricos filhos meus. Falai. Dizei-me: como foi que conseguistes chegar a este ponto?”

“Pondo em prática os teus ensinamentos, os teus exemplos, os teus conselhos, as tuas ordens, tudo. Resistindo aos tentadores, por amor de ti, ó pai bendito, que nos deste a vida e a sabedoria.”

“Está bem. Vinde para a minha direita, e ouvi todos o meu julgamento e a minha defesa. Eu dei a todos a mesma medida de dinheiro, de exemplo e de sabedoria. Mas os meus filhos corresponderam aos meus gestos de maneiras diferentes. De um pai trabalhador, honesto, morigerado, saíram, uns semelhantes a ele; outros, ociosos; outros fracos e fáceis para caírem em tentação; outros, cruéis, que odiaram ao pai, os irmãos e o próximo, sobre os quais ainda que não o digam, eu o sei praticaram a usura e o delito. Entre os fracos e os ociosos, há uns arrependidos, e outros impenitentes. Agora, eu vou julgar. Os perfeitos, já estão à minha direita, estando, pois, na mesma glória que eu, como o estiveram nas obras. Os arrependidos estarão de novo, como uns meninos ainda a serem instruídos, tendo que obedecer, até alcançarem o grau de capacidade, que os torne de novo adultos. Os impenitentes e os culpados serão jogados para fora dos meus domínios e perseguidos pela maldição de quem não é mais pai deles, porque o ódio deles contra mim anula as relações de paternidade - filiação entre nós. Mas eu faço lembrar a todos que cada um fez para si mesmo a sua sorte, pois eu dei a todos as mesmas coisas que, naqueles que as receberam, produziram quatro diferentes sortes, e eu não posso ser acusado de ter desejado o mal deles.”

425.9A parábola terminou, ó vós que a escutastes! E agora Eu vos dou o significado dela.

O Pai do Céu está figurado pelo pai de uma numerosa família. As duas moedas dadas pelo pai a todos os filhos, antes de mandá-los pelo mundo, são o tempo e a vontade livre que Deus dá a cada homem, para que ele use deles como achar melhor, depois de ter sido ensinado e formado pela Lei e pelos exemplos dos justos. A todos foram dados dons iguais. Mas cada homem usa deles como quer sua vontade. Uns aproveitam bem o tempo, os meios, a educação, o patrimônio, tudo para o bem, e se mantêm sadios e santos, ricos, por terem multiplicado a riqueza. Outros começam bem, depois se cansam e se extraviam. Outros não fazem nada, pretendendo que os outros o façam. Outros acusam ao pai de seus próprios erros. Outros se arrependem, dispostos a fazerem reparação. Outros não se arrependem, e ainda acusam e maldizem, como se sua ruína tivesse sido causada por outros. E Deus, aos justos dá imediatamente o prêmio. Aos arrependidos, a sua misericórdia e tempo para expiarem, a fim de alcançarem o prêmio pelo seu arrependimento e expiação. E dá a maldição e o castigo a quem espezinha o amor, com sua impenitência depois do pecado. Cada um recebe o que merece.

Portanto, não useis mal das duas moedas: o tempo e o livre arbítrio, mas usai deles com justiça, para estardes à direita do Pai, e, se tiverdes cometido faltas, arrependei-vos delas, e tende fé no Amor Misericordioso. Ide. A paz esteja convosco.

Ele os abençoa, e fica olhando como se vão afastando, sob um sol que inunda de luz a praça e as estradas. 425.10Mas os escravos ainda estão lá…

– Ainda estais aqui, meus pobres amigos? E não ireis ser castigados?

– Não, Senhor, se dissermos que ficamos ouvindo a Ti. As nossas patroas te veneram. Para onde vais agora, Senhor? Desejam-te, há tanto tempo…

– Para perto do cordoeiro do porto. Mas Eu vou partir esta tarde, e as vossas patroas estarão na festa…

– Nós lho diremos assim mesmo. Foi-nos ordenado que anunciássemos a tua passagem, desde há muitos meses.

– Está bem. Ide. E vós também fazei bom uso do tempo e do pensamento, que é sempre livre, mesmo quando o homem está com grilhões.

Os escravos se inclinam até o chão, e lá se vão para os quarteirões romanos. Jesus e os seus vão por uma modesta ruazinha, a caminho do porto.